Na minha rua, a Fórmula 1, que a gente conhecia de ler nos jornais e revistas e quem gostava de motores sabia até como é que eram os barulhos, mas nunca ninguém tinha visto um só, começava logo a seguir ao almoço, quando as mães ainda estavam a arrumar a cozinha e nós já estávamos a montar os bólides com a mesma seriedade dos engenheiros da Formula 1 de verdade.
Os carros eram feitos de tábuas roubadas ao destino, pregos tortos e quatro rolamentos que tinham tido uma vida anterior numa oficina qualquer. Cada carro tinha um nome. O nome era ambicioso pelo menos a julgar pelo com dos ditos rolamentos a rolar no passeio liso que começava na casa da D. Maria e acabava depois da curva dos Fonsecas. Curioso é que do outro lado, da casa do Sr. Robalo também era liso e tinha a mesma distância mas não entrava nas nossas corridas. Será que era caminho assombrado. Deslembro a ideia.
Quem sabe da estória da altura sabe que os carros de rolamentos não tinham travões, era mesmo o tacão da sandália ou do kedes. A travagem era quase inexistente pois ninguém queria estragar o calçado
O regulamento era simples:
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Ganha quem chegar lá abaixo primeiro
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Sobrevive quem tiver sorte.
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Se bater nas pernas de alguém ou alguém mandar vir a gente só tem de fogir.
O meu maior rival era o o JC Robalo que tinha uma garra e um talento especial para escolher sempre a pior trajectória possível para a gente dar a curva. O carrinho de rolamentos tinha volante de corda. Sim, de corda. Aquilo não virava, negociava curvas, assim como a báscula da bacia que a gente tinha de fazer de vez em quando para melhor curvar, sem bater no poste de luz que estava ali mesmo depois da curva.
Nos dias de corrida, juntava-se à janela o senhor Artur Gomes que não sei se fazia de comissário de pista mas dava sempre um palpite ou uma palavra de coragem. E nós, pilotos de calções e joelhos esfolados, alinhámos no topo da descida com o ar concentrado de quem ia disputar o Grande Prémio de Monte Carlo — versão com buracos e meias solas.
Acabava noite fechada e com a frase
- Amanhã fazemos outras.
E fizemos muitas .
Porque naquela rua, com tábuas, rolamentos e uma coragem que só existe antes da adolescência, éramos todos campeões do mundo pelo menos até à hora do jantar.
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