recomeça o futuro sem esquecer o passado
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1 de abril de 2017

Ponto final. Acabou

Ponto final. Acabou. Eu vou resistir. Eu vou superar. Não vou pensar mais nisso. Desqueço-me desde já. Não vou chorar nem gritar para aliviar a mágoa que isso possa ter-me causado. Vou seguir o meu caminho, mesmo já tendo dado tudo o que eu tinha para dar, guardando o que tenho para dar ainda. Nem sempre é, ou foi, como se espera, como se deseja. Eu fui o máximo? Fiz por isso. Mas acabou? Pois então, Tempo imaculado da nossa união, com altos e baixos, com alentos e desalentos, com carícias e gritos, gargalhadas e lágrimas. Acabou. Não vou nem chorar calado, nem bater as asas de raiva como bateria um beija-flôr quando se aproxima da sua flor. Me machuquei? Houve dias que sim. Mas acabou e é hora de continuar.
Acabaram-se 20 anos em Portimão, comecemos o 21.
É verdade. 1 de Abril de 1996 foi o dia oficial da minha chegada a Portimão.


Sanzalando

17 de julho de 2010

Diálogo duma só voz (XXVIII)

- Olá. Como estás?
- Para não variar, estou bem. Sonho e vivo cada sonho como realidade fosse. Imagino e penso que cada imagem é uma vertente pura da realidade. Uma vez ou outra deixo escapar uma lágrima... porque a vida não é só uma flor, é também capim que arranha as pernas desnudas dum caminhante por vezes desprevenido. Grito, barafusto e gargalho não apenas ao sabor do vento. Portanto, estou bem.
- Me surpreendes hoje... Já fiz fez sol.
- Fez sol e eu não fiz mais nada que não olhar para dentro da vida. Rabisquei rascunhos de sonhos, rasurei imaginações tremulas. Que mais quero eu hoje?
- Não te contradigo nem te chamo parasita porque começo a te entender... tu é que as levas na certa. Cada hora é a tua hora e é certinha que nem um segundo lhe falta.
- ... e foi aqui que decidi que ia parar por uns dias!


Sanzalando

15 de julho de 2010

Diálogo duma só voz (XXVII)

- Posso sentar-me a teu lado e ouvir-te os pensamentos e sonhos que sonhas?
- Podes, se conseguires entrar no faz de conta sem fazer perguntas cujas respostas eu nunca te saberia dar. Podes entrar no meu mundo se conseguires estar calado no balouço dum sonho e, repentemente acordares num pesadelo que é de fingir.
- Deixa eu tentar...
- Conseguirás... se deixares entrar a luz pela janela da tua alma, se escancarares a porta da tua vida e afastares os segredos para longe, para além da eternidade.
- Pedes tanto...
- Sabes que olhar para trás às vezes é necessário, de modo eventual, para termos a noção de saber donde viemos, para onde vamos e muito importante, onde estamos. É importante manter a claridade.
- E tu sabes isso tudo?
- Tento. Procuro. Sofro. Choro. Rio. Outras vezes me calo num silêncio de gritos interiores. Afinal de contas, ambos procuramos a vida... e eu, um dia, lhe vou achar!


Sanzalando

14 de julho de 2010

Diálogo duma só voz (XXVII)

- Olhos fechados a olhar para dentro?
- Não. Olhos fechados mesmo só para não ver. Tem dias que eu estou cansado de lutar sem luta, de iludir-me em ilusões que mais não são que isso mesmo, de ouvir promessas que sei nunca vão ser realidades. Por isso mesmo o melhor é estar de olhos fechados e esquecer que estou rodeado de alguma coisa.
- Epa, tás aqui tás a dizer que eu tinha razão e coisas e tais num etecetera infinito...
- Nunca. Isso nunca poderia ser porque ainda tenho o sabor dos seus beijos mesmo que eles já tenho mais sabor a memória que a realidade. Ainda tenho entranhado na memória o perfume mais doce que alguma vez eu cheirei. Portanto... ainda tenho essa memória que um dia vai ser realidade, enquanto tu de memória nada tens a não ser a minha existência.
- Hum... mas memória não é vida...
- Quem não tem memórias foi quem nunca viveu... e eu tenho memórias e sabedoria suficiente para dizer-te que mais tarde que um dia destes eu vou recapitular as memórias, ordenar num índice e uma a uma ir vivê-las sem o sabor da nostalgia... e tu ficarás roído de inveja que os gritos serão ouvidos nos confins de lado nenhum.

Sanzalando

13 de julho de 2010

Diálogo duma só voz (XXVI)

- Olá... estás assim num bronze de fazer inveja é mesmo porquê?
- Só mesmo porque gosto de estar aqui a ver o azul e ouvir o marulhar. É como arrancar todas as cortinas que me separam do mundo e deixar entrar todo o ar que me falta mesmo que não seja para respirar. Estar aqui, à torreira do sol, navegar por pensamentos e pesadelos, sonhos e e ilusões, amores e desamores, birras, gritos e silêncios é um segundo da minha vida que passa num instante.
- Perda de tempo...
- Ganho de vivências. Tudo uma questão de olhar... podes dizer-me que lá fora não existe mais nada, mas eu tenho o sonho que um dia vai existir e eu vou estar lá para o viver.
- Ilusões não alimentam...
- Pensas tu. Olha para mim e vê este sorriso mesmo na minha cara de zangado. Consegues? Desacredito. É a ilusão que me faz ter força para amanhã acordar e levar com todo este sol outra vez.
- Que seca...
- Fechaste a tua persiana e espreitas pela minha... Te conheço, malandro e sei que te vais aproveitar no dia que eu tiver boleia para viver o sonho que sonho todas as vezes que inspiro a maresia.



Sanzalando

12 de julho de 2010

Diálogos duma só voz (XXV)

- Bom dia!
- Só se for para ti...
- Ena pá, que isto hoje está azedo... porque róis as unhas?
- Só perguntas, só perguntas... está para aqui uma pessoa a divagar no silêncio das coisas materiais, na dor da solidão, na lágrima da desilusão e no desespero da irritabilidade e caiem perguntas vindas dum nada qualquer...
- Acalma-te, companheiro de lutas e descansos.
- Qual quê... a rigidez dos meus flácidos músculos já não permitem que eu esteja calmo a ver o tempo voar. Começo a sentir a falta de tempo...
- Tás pessimista... bebe água que isso passa...
- Louco... e pensava que o louco era eu. Ouves o mar? Está em silêncio! Sentes a maresia? Não há nenhum odor no ar. Sinto a fragilidade do meu retiro a fraquejar na ferrugem do tempo. Queres que eu tenha calma?
- Tás entre a neve e a noite escura...
- ... quando queria estar refrescado na tina do calor tropical. Não, não me dês música hoje. Hoje nem o silêncio me é suportável. Nem a minha companhia me é desejável. Deixa-me mergulhar de cabeça no abismo da minha existência e eu encontrarei um ramo onde me agarrar enquanto tiver forças. Mas hoje deixa-me...


Sanzalando

11 de julho de 2010

Diálogos duma só voz (XXIV)

- Sentado nos sentidos apurados de quem absorve a vida através do pensamento. Quadro lindo para toda esta luz.
- Olá. Vens poético interromper o meu navegar no sentido lato das coisas simples que teimo em complicar.
- Pelos vistos hoje estás conversável...
- Hoje escancarei o olhar para lá do que a vista alcança e deixei o meu corpo sintético sair deste esquelético suporte e viajar suavemente pelos nomes dos amigos e assim fazer um trilho que percorro sem me cansar.
- Tens quase o mundo para percorrer...
- ... com agrado o faço. Mesmo quando não lhes vejo, lhes ouço ou lhes toco, eles sabem que eu estou ali ao lado, num virar de cabeça simples.
- Pelo que vejo hoje tens saudades dos amigos.
- Sempre. Preciso deles mesmo quando não estão aqui ao meu lado e estás tu feito arara falante sobre o meu ombro.
- Para mi tu és indiscritível, imperceptível, impernunciável e um grande chato.
- Mas não me largas e até queres ouvir os meus pensamentos, entrar nos meus sonhos e navegar para lá do meu corpo.
- Por acaso até tenho perguntas para te fazer. Um dia fá-la-ei...
- ... e terás o silêncio como resposta ou eu terei a paciência de te responder?
- Deixa que o tempo tenha tempo de decidir...

Sanzalando

10 de julho de 2010

Diálogos duma só voz (XXIII)

- Outra vez à torreira do sol. Tás aqui, tás uma torrada bem passada...
- Que nada. Estou apenas a gotejar pensamentos para dentro de mim...
- ... ferventes?
- Não. Estou a fazer crescer os meus lagos de aborrecimento com suores, com lágrimas e muitos azedos pensamentos.
- Tou a ver que hoje não é dia...
-... todos são dias. Uns mais que outros, apenas isso. Quando se me apaga a motivação eu gotejo pensamentos para dentro de mim de forma que um dia eu tenha uma resma deles... gosto de ter um plano B, até para atar os sapatos. Apenas nunca os contigo ter.
- Sapatos...?
- Doido, planos B! Faz conta aqui à frente está uma janela que deixa ver o azul mar, que deixa passar o sabor perfumado da maresia, que me deixa cantar sons de marulhar, que me trás imagens do antigamente mais antigo do que o antes. Vês, está a nascer um plano B... e ela entra outra vez nele... Que raio de plano B...
- Vai mergulhar... arrefece os ânimos e amolece os ímpetos...
- Não, este mar não é para mergulhar... apenas para eu poisar os meus olhos nele e deixá-los ir no ondular suave dos rolamentos de cloreto de sódio que lhe dá o sabor... É para eu ir longe sem mesmo sair daqui onde me torro em torrentes de calor.
- Eu vou... levo-te no coração enquanto a tua cabeça por aqui fica a gotejar ideias...


Sanzalando

9 de julho de 2010

Diálogos duma só voz (XXII)

- Olho nos teus olhos e parece vejo mar...
- Não me olhes que eu hoje sou água salgada aquecida em sol maria. Me entristece a alma porque não consigo ver nada para além dum agora. Assim como tu estás sempre, estou eu agora. Até parece não tenho futuro e apenas alicerces de passado mal passado.
- Oh, lá lá. Situação aqui parece preta...
- Não consigo acompanhar os meus passos com fotogramas de realidade, não consigo verbalizar todas as quedas que caio. Apenas ouço a minha boca falar palavras caladas de faz tempo.
- Como é o tempo do silêncio?
- Além de calado é cacimbo que cacimba na cabeça destapada numa noite sem dormir.
- Tás... péssimo...
- Maneira negra de ver as coisas que não se vêem... talvez seja esse o meu segredo que faz tempo eu procuro.
- Parece fechas as portas...
- ... que nunca consegui abrir e não sei se algum dia vou ter força para lhas abrir.
- Não te esqueças que começar de novo é apenas começar novamente...
- Tantas vezes comecei que não sei se alguma vez acabarei... talvez... eu seja eternamente um ser calado mergulhado em mar de saudade.


Sanzalando

8 de julho de 2010

Diálogo duma só voz (XXI)

- Pensei que te tivesses derretido com o sol, te tivesses evaporado na onda calórica do tempo, te tivesses escondido dos olhares indiscretos dos velhos merdosos que te agouram tragédias nas comédias do dia a dia...
- Entrei apenas numas férias de ser visto. Estava aqui mas apenas eu via. Me camuflei atrás da cortina feita com os raios de sol num bordado de ilusões. Mas daqui não sai e nem perdi os meus sonhos, nem calei as minhas canções que nunca cantei. Quando aqui tombar a neve... eu irei viajar no yellow tambarino da vida calada para a eternidade da saudade que sei vais sentir. Eu sei quem sou mesmo quando não sei para onde vou...
- Um dia te entenderei... mas tá difícil...
- Velho do Restelo e seus arredores. Olha bem para a linha do horizonte e diz-me o que vês...
- ... o fim do mar e o início do céu.
- ... materialista... há muito para lá dessa linha, desse início e desse fim... aprende a ver com olhos de futuro.

Sanzalando

2 de julho de 2010

Diálogos duma só voz (XX)

- Como é que é?
- É!
- Deves ser a pessoa mais anti-social que conheço...
- ... não conheces mais ninguém, é?
- O sol hoje não te nasceu?
- E tu com isso?
- Desabafa... te ouvirei sem interromper, sem comentar e sem fazer caretas que traduzam o que eu possa estar a pensar...
- Tu me ficas a ouvir e eu nem sei que caras fazes porque apenas olho para os meus pensamentos... Agora queres fazer de psicólogo?
- Apenas quero ajudar-te com um olhar de inocência...
- Deixa-me sofrer os meus sonhos no silêncio das palavras que não disse, não escrevi e se calhar nem as pensei.
- Me sento a teu lado?
- Como te apetecer gastar o tempo. O meu gasta-se num gastar lento de ver o dia que um dia vai chegar numa madrugada de muitas noites passadas, talvez orvalhado de lágrimas, talvez apenas chegue num chegar sem ser dado conta. Senta-te, parte, fica ou talvez não. Não sei de mim, quanto mais de ti...
- Me deixas chorar lágrimas invisíveis de sofrer por ti, calado para não te magoar...






Sanzalando

1 de julho de 2010

Diálogos duma só voz (XIX)

- Torrando ao sol que nem lagarto...
- Rezingão... deseducado... bruto e outros adjectivos que nem reconheço na gramática pouco prática dum qualquer dia de verão.
- Que me contas hoje, se é que fizeste mais alguma coisa do que pensar.
- Pensar não é coisa? Ignorante, inculto e outros adjectivos inqualificativos.
- Não te reconheço...
- Nunca reconheces porque sabes que eu sou o lado certo do eu.
- ...
- És o lado casmurro. Um dia te vais apaixonar e vais dizer que eu é que tinha razão. Como sempre.
- Declaro-me culpado porém vou sempre existir, mais não seja para te manter acordado.

Sanzalando

30 de junho de 2010

Diálogos duma só voz (XVIII)

- Transpirando à torreira do sol?
- te preocupa?
- Deixa. Já vi que não estás para me aturar...
- ... algum dia estive? desde que acordo até me deitar tenho que te aturar e olha que não é fácil...
- Palavras soltas e sem sentido... Pensavas?
- Pensava como sempre penso no que sempre penso. Efeitos secundários dum pensamento fixo. Um golpe baixo no coração, uma mágoa transferida em ferida, chaga de dor silenciosa e carcomendo as entranhas como se fosse uma roleta russa de azar sobre azar.
- Não. Tás negramente vivendo o dia de hoje. Nem o sol te brilha...
- Penso no colapso efémero da minha eternidade. Coisa simples.
- Ou não...
- Olha, queria apenas num instante olhar e vê-la em mim.
- Pôs-se o sol e deu-te a saudade. Sempre igual.

Sanzalando

29 de junho de 2010

Diálogos duma só voz (XVII)

- Que pensas deitado de baixo deste abrasador sol que do lado de lá está arrefecido e tapado pelo cacimbo?
- Em libertar o meu corpo das cargas pesadas da memória e caminhar para a inconsciência da inocência de quem não sabe mais que um presente instante.
- Filosofia para me enganar?
- Liberta-me de tudo o que me rodeia na confusão inerte de não poder me entregar de corpo e alma ao sonho antigo.
- Mais filosofia barata...
- Procurar as páginas em branco da minha vida e preenche-las com vida útil e livre de erros...
- M'engana...
- Procurar a tinta colorida para colorir o meu futuro que vou escrever nas páginas finais do meu romance...
- Desentendo-te.
- Aniquilar todos os demónios de consciência que me pesam num cansaço fácil de morrer sufocado.
- Me verdadas com palavras difíceis?
- Não. Procuro apenas encontrar aquele velho amor.


Sanzalando

27 de junho de 2010

Diálogo duma só voz (XVI)

- Te atiras na solidão como quem vai mergulhar no mar de águas calmas...
- Te enganas. Como sempre. Apenas me espanto porque não encontro a doçura na minha voz ao mesmo tempo que procuro uma simetria na minha vida entre um passado e o futuro sem ser no estado ausente.
- Filosofas...
- Como queiras... desde que eu não encontre encontros nos desencontros nem ausências em corpos que já encarnei...
- Não existes, não pertences a nenhum lugar. És um fantasma que te criaste...
- Não. Sou um jeito de sorrir enquanto me vivo e enquanto não me perco.



Sanzalando

26 de junho de 2010

Diálogo duma só voz (XV)

- Como é que é? Pagas uma cerveja para gelar este corpo fervente?
- Tás doente... tu é que devias pagar a este corpo sonhador os sonhos que te conto.
- Com gosto...
- ...tás muito simpático hoje. Que é que se passa?
- Tá sol e basta ver o brilho do sol, sentir a maresia e eu sou logo outro.
- me imitas. Já me estás a tomar conta do lugar e daqui a dias vais dizer que esta praia é tua e que eu vá lá para os lados de mais sul onde agora está frio de 27 º...
- ... nunca faria isso... começo a gostar-te...
- Tá aqui e está a sair bosta... desconfio dessa amizade e compreensão assim tão repentina. Ainda me vais perguntar donde vem o silêncio da areia...
- Não sejas parvo.
- ou de que é feito o grito calado do sofredor desconhecido.
- Loucaste mais uma vez se é que alguma vez deixaste de o ser.
- Não, sabes que eu sou a tempestade que te troveja o coração na irrequietude do teu sossego, ao mesmo tempo que serei a brisa que te arrefece no teu delírio febril, sou o teu abraço na solidão a tua voz na dor que finges eu não sinto.



Sanzalando

24 de junho de 2010

Diálogos duma só voz (XIV)

- ... escusas de fingir que não estás a chegar que eu bem te ouvi...
- Estavas parecia tão embrenhado na intimidade da tua existência que eu não quis incomodar.
- Pelo menos hoje não começaste a me chamar de obeso ocioso e sonhador de faz nada...
- Hoje me apeteceu ficar aqui a olhar-te apenas. Como quem não quer nada, nem ouvir nem falar. Talvez imitar-te e conseguir chegar ao teu patamar, onde pareces que és feliz mesmo quando choras, onde te sentes acompanhado mesmo quando estás sozinho.
- Contagiei-te? Não te quero igual a mim... com quem mais eu ia mandar vir?
- A tua nostalgia, o teu querer e a força com que mo mostras...
- Faz-te feliz a minha dor...
- Às vezes o teu silêncio diz-me mais que as tuas palavras, o teu olhar vazio mostra-me um mundo que eu não conseguia ver...
- Me parece que hoje nos contraiamos. Eu sou tu e tu és eu...
- Quero ser feliz sem ter que parecer o mau.
- Está na essência, às vezes temos que ser assim, falsos como crocodilo ou leves e belos como borboleta.
- Como eu gostava que tu conseguisses ultrapassar as distâncias...
- Um dia, mais cedo ou mais de tarde ao cair da noite eu vou consegui. Tu sabes...

Sanzalando

23 de junho de 2010

Diálogos duma só voz (XIII)

- Sol, sem vento, que mais queres tu...
- ... se vens aqui para chatear é melhor te pores ao caminho que eu estou bem com os meus sonhos e desilusões.
- Estou a ver que hoje não tás para amar...
- Sabes, os amigos são como as estrelas. Nas noites que tu não as vês sabes que elas estão lá na mesma...
- ... e depois. Ficas assim com azia para cima de mim...
- ... tu estás sempre a embirrar com o meu modo de viver a vida e de lha ver...
- Estava... agora se calhar já te começo a compreender...
- ...mas sofro os amigos, pelos e com eles.
- Mas está sol e tu quando o vês costumas ser bem mais simpático e alegre...
- excepto quando tenho razões para não estar.
- Me calo e te ouço.
- Nos primórdios da nossa existência a Água se enamorou pelo Fogo e este lhe correspondeu. O Fogo dizia, para que todos os lados ouvissem, que nada lhe acariciava como a suavidade da Água. Está dizia que estar com o Fogo era como sentir o sangue a ferver. Mas rapidamente os dois deram conta que se anulavam rapidamente se continuassem juntos. Um se apagava lentamente enquanto o outro se evaporava. Então fizeram um acordo e nasceu a noite de S. João. Durante o dia a Água se esconde e à noite há as fogueiras que dão vida ao Fogo.
- Tás muito culto...
- Não me disseste que me querias ouvir? Então te conto coisas verdadeiras que eu sei que lhe são, mesmo que não tenham sido e faz de conta é um sonho que pode ser um pesadelo e que mais logos a gente acorda e ainda se ri faz de conta é criança.
- Vá lá, hoje não me contas um sonho de nostalgia...
- Quem foi que te disse?
- Hum?
- Não sabes que o amor é como o Fogo? Não o alimentas e ele morre devagarinho. Inculto.


Sanzalando

22 de junho de 2010

Diálogos duma só voz (XII)

- Que é feito, que faz tempo o teu silêncio estava a inundar as pedras da calçada?
- Tavas banhado em saudades? Estava a fugir do calor e a me esconder no âmago de mim.
- Complicado! Se tás te chateio, se não estás te estranho. Vida dura esta de te ver embanhando nesta areia a olhar para o longe como se ele fosse aqui.
- Complicado é chorar lágrimas negras, ver tudo escuro pela frente e não ter palavras para gastar num conforto de amigo.
- Te desentendo.
- Até eu... mas um dia eu vou conseguir ver as minhas palavras escritas na parede de vento e serem levadas até mesmo no lá, ponto de interrogação na exclamação da minha vida.
- Soleaste demais hoje, pelo que vejo...
- Somos humanos e temos às vezes que carregar as baterias, ver para além do agora e ter sempre as palavras certas mesmo quando a boca desconsegue de dizer som algum.
- Hoje falas parece latidos de dor e mágoa num misturador de sentimentos.
- Hoje te falo no silêncio das pedras de palavras que deviam ter sido ditas mas faltaram sair da boca na hora zero. Hoje te silencio as palavras que não soube balbuciar a uma amiga que delas precisava e que sofre mais que todas as minhas mágoas juntas até hoje.


Sanzalando