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19 de janeiro de 2022

saudade

É inverno e faz sol no lado de cá do meu mundo. Do lado de lá eu sei me faz muita saudade. Mas saudade não mata embora eu morra de saudade. Saudade não é doença embora ela doa no meu coração e me atormenta nos meus sonhos. Saudade é assim mais uma complicação, um nó, um aperto, uma dúvida, uma inexplicável onda de estar. Foi assim que aprendi que é preciso lidar com tanta coisa incluindo a saudade. Ela não nos pode destruir. Ela nos fere, mas não mata, embora eu morra de saudade. 
Eu sei que quando subia a minha rua, era eu criança, ela era íngreme que até doía as pernas de chegar lá em cima. Agora ela parece até planou. Eu sei que eu cresci, me tornei mais alto e a vejo doutro ângulo. É como a saudade, tem outro ângulo para eu lhe ver, sentir e embalar no meu peito.
Eu tenho saudade antiga, tenho saudade recente e tenho também saudade do meio. Faz parte de mim. é bom sinal.


Sanzalando

25 de outubro de 2019

a minha lenda de imbondeiro


E era uma vez, faz 500 anos, segundo uns e para outros faz apenas 200, caiu este enorme imbondeiro duma das muitas ilhas e ilhotas de Zanzibar. Eu para trepar para o corpo deitado dele vi-me e desejei-me. Me lembrei dos meus tempos de criança, em que, com a agilidade e a vontade, eu arranjava maneira de lá chegar, ao cimo do velho corpo deitado no seu secular descanso. Cansado fui admirando cada reentrância, cada cicatriz, cada nó. Havia lagos nos seus buracos. Eu nunca tinha trepado num imbondeiro. Os meus braços nunca teriam comprimento para o abraçar e me pôr num imbondeiro. O meus sonho estava tornado realidade. Eu subi num imbondeiro. Ele estava deitado, é verdade, mas lhe subi sim. Mastodonte mesmo. Lá de cima eu me senti o rei. Eu era o Rei daquele instante. E dele partia como ramo um imbondeiro novo, majestoso como todos os outros imbondeiros. Este era especial. Era um imbondeiro que nascera dum sobrevivente tombado mas com vida. 
Quantos piratas ele tinha visto, daquela posição, de cima do dorso dum imbondeiro? Ele tinha uma vista privilegiada, um alcance que nem um farol. E o imbondeiro deve ter memória de elefante. 
Lá, sentado no corpo deitado do imbondeiro, junto ao imbondeiro que lhe nascera eu ia receber todas as estórias que ele tinha para me contar, todos os barcos que ele vira passar. 




Sanzalando

21 de outubro de 2019

deixem-me ir

Torreira do sol. Meu corpo boia sobre as ondas do mar quente. Horas demolhadas neste zulmarinho, turquesa, celeste, esverdeada num baloiço de ondas minorcas. Deixem-me ir neste sonho de ser criança outra vez enquando tiver noção de que vale muito ser igual a mim, sem vírgula ou pontos de interrogação. 

Sanzalando

20 de outubro de 2019

a gente vai de lembrança

Faz sol que nem o sol do outro lado. Me custa respirar ar quente. Faz tempo deixei de fumar e este tempo me veio lembrar a dificuldade de respirar que eu sentia. Me deixo levar de lembrança em lembrança até ao tempo em que era criança. As mangueiras, os tamarindos, as castanhas e os imbondeiros. As minhas palmeiras eram pequenas, não como estes coqueiros. Os meus amigos eram muitos, se fosse hoje eram o tamanho duma lista telefónica. Eu sabia escutar, ouvir atentamente, sem dizer certo ou errado. Ouvia e ajudava, lugar de amigos. Eu era criança, eu sou criança no coração da amizade. Eu me deixo ir de lembrança em lembrança até ao zulmarinho de menino.

Sanzalando