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8 de maio de 2023

morri de amor

Era ainda uma criança quando me lembro que me apaixonei de morrer. Era imaturo e inexperiente, usava calções e sandálias, joelho esfolado de brincar na rua mas escondidamente estava apaixonado. Não disse nada a ninguém e todas as músicas que ouvia eu lhe dedicava em silêncio. Acho ela nunca soube que tinha roubado o meu coração de mim. Mas me olhava e parecia feliz. Imaginava eu, porque nunca nos falámos, nunca trocámos mais que um olhar. Era a minha primeira morte de amor. E foi assim num silêncio solitário que também fiz o meu primeiro luto de uma amor que devia durar para a vida toda.
Outras paixões foram aparecendo. Cada uma aparentemente mais mortal que a anterior. Sobrevivi a tantas mortes de amor que se houvesse borboletas no estômago como me disseram, eu estaria morto por casulos a me ocuparem todo o meu interior. Morto de amores e morto por amor.
Afinal de contas é bom morrer de amor. Por isso morri todas essas vezes incontáveis que eu sei de cor.

Sanzalando

22 de junho de 2014

amor é...

Eu te amo! O amor vai mais além disso. Não é assim uma paixão de chegar e partir, de ir às lágrimas e esquecer. Não é um  momento de apagar com a borracha do tempo. É compreensão, é suporte, frases simples ou compostas, acontece sem um quê ou porquê, é um delicado cuidado que precisa ser regado, podado e quem sabe estrumado.
Bem, posto tudo isto quer dizer se acabar é porque não era amor. O verdadeiro fica. Não é, Coração?



Sanzalando

18 de abril de 2009

Canto canções de amor (2)

Me sento no caminho de lado nenhum. Não me apetecia andar, não me apetecia apanhar vento. Olho para o espaço outrora ocupado pela minha pobre Pitangueira que além das seis flores e muita esperança, não me deu mais nada. Mas acho que nunca esperei mais nada dela para além da esperança.

Mas, preguiçosamente aqui sentado me apeteceu cantar uma canção só para mim. Não me lembrei de nenhuma. Inventei uma letra que juntei uma melodia. Dentro da minha imaginação, é claro. Se por acaso eu tivesse tentado, chamemos assim, cantado em voz alta, estou certo que seria um alvo abatido por algum ouvido mesmo que surdo.

 

Quero ser uma palavra serena e calma,

Uma paz livre na madrugada,

Quero ser um desejo feito alma

Nesta voz rouca ou calada.

Quero ser os olhos da lua

E olhar-te tantas vezes,

Umas vestida, outras nua.

 

Quero ser uma jura de amor,

Pegadas livres no mar,

Quero cantar –te uma flor

Com os olhos de te amar.

Quero ser uma estação,

Dar-te frio ou calor,

Ser teu Inverno ou verão.

 

Quero ser apenas eu,

Num teu!


Sanzalando

12 de abril de 2009

Canto canções de amor (1)

Olho o mar. Daqui de cima desta rocha, abafado pelo barulho das ondas canto uma canção de amor. Cantar é uma forma simpática de dizer uma palavras que chegam à boca vindas directamente do coração, esquecendo a passagem na razão.

É mais que amor o que sinto por ti,
feroz, verdadeiramente animal,
impiedoso como um javali
e sedento como um chacal.
É a alma que se me prende
num instinto criminal,
é amor que se rende
à facada dum punhal.
É amor, é dor.
Sofrimento.
Tormento.
Se eu pudesse tocar a tua pele,
sentiria um frio de metal,
porque neste destino cruel,
és gelo feito cristal.

E assim, abafado pelo mar continuo a cantar, versos soltos que não se me passam na razão.
Olho o mar. Choro lágrimas que não se vêem, sinto tristezas que não se tocam.
Memórias de amor. É um começo.

Sanzalando

15 de março de 2007

Valeu a pena


Vá lá, esperemos que amanheça num amanhecer de sol, mas façamos algo de útil, alguma coisa que nos dê prazer, que nos faça feliz no instante deste momento.


Se eu tivesse um espelho para olhar-me, ver as curvas da cara se vincarem numa marca indelével do tempo, que abstractamente não existe porque o tempo é real, e ver-me sorrir porque me sinto feliz.


Depois de uns tantos anos de sonhos e fantasias queria olhar-me e ver se valeu a pena, queria perguntar-me se é o destino que me conduz ou se é a força de um trabalho que me alcançou até aqui. Queria ver-me, numa de cara a cara, e saber se o desejado tinha sido alcançado e se por algum motivo eu devia estar arrependido dos caminhos até então percorridos.


Sem o espelho eu imagino que o esforço das vontades confluíram até este momento em que sorrio porque estou feliz. Sem o espelho penso que valeram a pena os anos, os dias e as noites de insónia.


Esse lugar que me persegue nas horas que têm os dias está ali. Espera-me. Eu lhe olho outra vez desde longe. Experimentei-o, saboreei-o, vivi-o. Cresci, amadureci e aprendi. Sem o espelho digo-me que valeu a pena, mesmo que eu me sinta prisioneiro dele. Mesmo que a força dos meus desejos arrastem para longe as moscas que, num equilíbrio instável, pairam sobre a minha cabeça como se fossem helicópteros tentando ler-me o pensamento. Mesmo que os meus suspiros façam acinzentarem os castanhos cabelos que ainda teimam em resistir. Mesmo que o sorriso fácil tenha dado lugar ao esboço e eu me sente sobre as piadas contadas. Mesmo que olhares confusos me olhem. Valeu a pena!


Sanzalando

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10 de dezembro de 2006

Num ritmo de antigamente

Mermão, senta aqui e escuta.
Sentes o cheiro de queimado?
Não é meu cérebro que ferve.
É mesmo a Sebenta de capa encarnada que ardeu numa fogueira de raiva.
Isto é eu a pensar que certezas nunca tive.
Faz vinte e muitos anos que deram a uma garina, uma sebenta encarnada onde Kafrondim escreveu o que na alma lhe corria. Tempos depois, assim como numa revolução de estudante que descobre que há outras coisas a fazer nos fins de semana, antes da época dos exames, te diria que na época dos enxames feitos momentâneas paixões, houve assim como que um flagrante delitro e meio, mostrando a ingenuidade do garino nas suas novas descobertas, que parece que virou inferno tal era o incendio que ia na referida alma da garina que era portadora de confissões poetico-românticas.
Mas manda vir a minha loira que eu não quero botar lágrima assim a seco.
Desconheço por esquecimento total e ausência de coisas modernas como copiadoras e similares, o que Kafrondim escreveu nessa referida dita cuja Sebenta. Mas vais ver inda era poesia cheia de cores de África e corações palpitando ao som do batuque que chamam coração.
Danço ao som do batuque
frenético
histérico
levantando pó
na sombra da mangueira
Danço ao ritmo da paixão
ardente
fervente
derramando sangue
no teu coração
Ou se calhar era mesmo só os deveres que ele devia cumprir com rigôr perante as razões da exigência dela.
Só mesmo as cinzas do inferno podem saber.
Ou será que a garina guardou no baú a sebenta e está a gente aqui a fazer conjecturas conjunturais de estruturas esbatidas na raiva.
Vou mesmo beber a loira e curtir as lágrimas com sabor de zulmarinho.

Sanzalando