recomeça o futuro sem esquecer o passado
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3 de abril de 2026

fui á praia em dia de vento

Ah, é clássico ir à praia com vento. Aquele momento em que sonho ser um atleta de surf e tudo se transforma rapidamente num documentário sobre sobrevivência no deserto. 

Tudo começa com um optimismo perigoso. O céu azul, o sol brilha e eu ignorei o facto de que as palmeiras na avenida estavam a fazer um ângulo de 45 graus para além das suas folhas imitarem um mar bravo, apenas a julgar pelo som. É só uma brisa digo eu, num pensamento em voz alta.

O primeiro desafio foi fugir de um guarda-sol que passeava solto e aos rebolões no areal. Tentei segurá-lo mas ele tinha a força de um paraquedas e até parecia queria me levar com ele. Lá consegui fechá-lo e entregar à dona que se desfez em agradecimentos que até parecia eu era o salvador da pátria, numa guerra que ela travava com o dito desde faz algum tempo, como me disse. O guarda-sol virava do avesso instantânea e insistentemente, transformando-se numa antena parabólica gigante captando sinais de satélite de Marte ou sei lá de onde soprava o vento. Ouvi, sorri e segui.

Decidi que era hora de comer uma sandes. Grande erro. No momento em que abri o papel que a embrulhava, a física deu show. O vento soprou a alface para o mar e, em troca, depositou generosamente cerca de 200 gramas de areia de quartzo refinada dentro do meu pão. 

- Não é areia - pensei, mastigando com o som de vidro partido - é textura, é o tempero da natureza a dar o seu ar crocante.

Tentar passar protetor solar pelo meu corpo mas foi a gota d'água que transbordou a minha paciência. O meu corpo parece virou adesivo e em cinco minutos, eu não era mais uma pessoa; eu era um panado humano. O cabelo virou uma escultura abstrata de nós impossíveis de desatar e as toalhas voaram como fantasmas em direção ao horizonte, forçando-me a fazer um sprint olímpico pela areia quente enquanto gritava num silencio raivoso.

Desisti quando vi outro guarda-sol navegando aos trambolhões direito a mim. Juntei as minhas coisas (e voltei para casa.

O vento não é um fenômeno meteorológico na praia. Ele é um teste de caráter. E eu fui reprovado.



Sanzalando

28 de março de 2026

Brincámos e éramos felizes - mas tenho memória e sou-o

Esta não é uma estória de dunas gigantescas, caravanas de camelos ou miragens com água fresca, infelizmente. Esta é uma estória sobre a fronteira do deserto, onde o Namibe encontra a civilização ou pelo menos o muro da Junta autónima das estradas. É assim mais ou menos onde a areia não é uma paisagem romântica mas um inimigo determinado a invadir cada orifício do meu corpo se a aragem vira vento.

Conheçam a minha trupe de intrépidos exploradores: o Manel, com a sua energia inesgotável e total desrespeito pela falta de humor; o Beto, líder autoproclamado e inventor de jogos, para além de ser o dono da viola; e Ferrão, o cauteloso, cuja principal é não ter cautela com coisa nenhuma; o Mamede, preocupado com as notas que não eram de dinheiro. Claro que não vou pôr aqui nenhum nome delas porque elas não iam connosco para as areias quentes do deserto.

Era um sábado escaldante. O céu estava de um azul tão intenso que parecia pintado, e o sol batia com a força de um martelo num prego enferrujado. O local escolhido para a aventura do dia não era uma duna imponente, mas sim uma modesta acumulação de areia que se formava nos limites da cidade que para uns era grande e para outros era pequenina. 

"Muito bem,gente!", anunciou o Beto, de pé no topo do maior monte de areia (que devia ter uns impressionantes trinta centímetros de altura)

- O objetivo de hoje é conquistar o Forte Solitário e defender o nosso território contra os temíveis Invasores da Poeira!

O Manel soltou um grito de guerra, que se transformou rapidamente numa tosse ruidosa quando uma rajada de vento lhe mandou uma quantidade generosa de areia diretamente para a boca. 

- Arg! Areia! É ... saiu palavrão, que a minha caneta não sabe escrever, enquanto cuspia e limpava a cara com a manga da camisola, o que só serviu para espalhar a areia ainda mais.

Ferrão, entretanto, estava empenhado num ritual meticuloso de bater os pés um no outro para desalojar cada grão que se atrevesse a aproximar dos seus ténis que deveriam ser novos.

- A sério, malta? Areia? Podíamos estar a jogar no parque infantil. Sem areia nos sapatos.

Beto ignorou as queixas. 

- Mamede, tu e o teu exército ficam no Forte. Eu e o JC atacamos!.

O jogo começou. O Manel e o Ferrão defenderam o forte imaginário com unhas e dentes, ou melhor, com punhados e punhados de areia. A tática de ataque de Beto e meu envolvia saltos dramáticos sobre os pequenos montes de areia e gritos de guerra que pareciam mais guinchos de pânico cada vez que a areia nos entrava nos olhos.

A certa altura o Manel, no auge do seu entusiasmo defensivo, atirou um punhado de areia com tanta força que este voou muito além de nós e atingiu uma carocha inocente que passava calmamente por ali. 

A batalha foi interrompida momentaneamente pela gargalhada geral (exceto do Beto, que estava a tentar limpar o corpo daquela bola de areia).

A tarde passou num turbilhão de areia e risos. Inventámos novos jogos: "Quem Consegue Ficar Mais Sujo de Areia em Dez Segundos?" houve quem ficasse irreconhecível, "Corrida de Obstáculos com Areia nos Sapatos" (perdeu o Ferrão que não quis sujar os quedes porque deviam ser novos) e "Construção do Maior Castelo de Areia Que o Vento Não Consiga Derrubar nos Próximos Dois Minutos" (o castelo sobreviveu por uns impressionantes dez segundos antes do Manel se atirar sobre ele).

Quando o sol começou a descer no horizonte, pintando o céu de tons de laranja e rosa, a trupe de exploradores estava exausta e coberta de areia. Mas não era apenas uma camada superficial. Era areia no cabelo, areia nas orelhas, areia nas meias, areia nos bolsos.

Ao regressarem a casa, o som das suas passadas era um mistério rítmico de grãos a raspar contra o tecido e a borracha. Ao entrarem na cozinha, a minha mãe olhou para nós e suspirou.

- Bem, parece que o deserto decidiu vir visitar-nos - disse ela, com um sorriso divertido - Preparem-se para um banho tão longo que vão esquecer que cor têm os vossos corpos.

No meu caso o ralo da banheira acho ficou entupido de areia. A banheira parecia uma praia em miniatura. 

Brincar no início do deserto pode não ter sido uma aventura épica com tesouros escondidos e dunas gigantescas. Mas foi uma tarde cheia de humor, risos e uma quantidade tão impressionante de areia que nunca mais olhámos para uma simples caixa de areia da mesma maneira. Afinal, a areia não é apenas um material. É uma companheira de brincadeiras irritante, invasiva e, por vezes, muito divertida.

Hoje apetecia-me ir brincar na areia. Mas falta o Manel e o Ferrão ao que eu sei. Dos outros nunca mais soube nada. Crescemos, é só o que eu sei.

Ficou a memória



Sanzalando

27 de março de 2026

Voltaste à cidade 50 anos depois

Cinquenta anos. Cinco décadas de distância que o Filipe atravessou num SUV reluzente, armado com um GPS que insistia que ele estava no meio de um rio, quando na verdade estava apenas num caminho em mau estado que antes era o que ele pensava ser a Estrada Principal que ia dar ao centro da cidade. Mania que menino da cidade se lembra de tudo quando era criança.

Mal estacionou na praça, Filipe sentiu o peso dos anos. Ou melhor, sentiu o peso dos olhos. No banco de madeira da avernida, de baixo das velhas buganvílias , os mesmos dois velhinhos de 1975 pareciam não se ter mexido. Eram como estátuas de calcário com boina. Devia ser o velho Faria e a Maria Cachucha.

 Alguém do passeio interrompeu os pensamentos que corriam na cabeça do Filipe que ele imaginou assim:
- Olha, é o filho do Ti Manel! Que homem bem parecido que ele está agora. Veio do puto ver a gente?!"
Mas na realidade foi mais 
- Quem é aquele gajo de calças apertadas que não sabe estacionar? Deve ser da geração da utopia. 

Filipe, agora habituado a brunches com tostas de abacate e sementes de chia, foi arrastado pela primo Alberto para o almoço.
- Estás tão magrinho, Filipe! Parece que passaste a fome da guerra! Come lá este cozido, que a gordura do porco é que faz o brilho nos olhos.

O prato à frente dele tinha calorias suficientes para alimentar uma pequena nação durante o inverno rigoroso. O azeite da horta não era um condimento, era um ecossistema. À terceira garfada, as suas artérias começaram a enviar notificações de espaço insuficiente. Filipe habituara-se a outras comidas. 

A parte mais perigosa de voltar à terra 50 anos depois é a árvore genealógica. Na cidade, ninguém tem apelido, só "alcunhas" ou referências de parentesco complexas.

- Olá, boa tarde! Lembra-se de mim? Sou o Filipe, filho de tal e tal e morava ali...."

- Qual Filipe? O do fuso? O que caiu ao poço em 64? Ou o que casou com a filha do homem que vendia tremoços na feira da Senhora da Kipola?

- Não... sou o filho do... e continuou a tentar definir um passado que o tempo faz tempo varreu das ruas asfaltadas.

 - Ah! O das hortas?! Estás tão mudado... perdeste o cabelo todo, não foi? - Não me lembro! 

Filipe tentou pagar um café com um cartão xpto. O senhor Alfredo, atrás do balcão, olhou para ele como se ele tivesse uma arma biológica como se fosse uma arma biológica. Aqui é com dinheiro vivo e de preferência dólares. Senão, ficas a dever que eu te vou cobrar e com juros desde o tempo que foste embora daqui.

O Balanço Final

Filipe percebeu que, por muito que o mundo mude, a aldeia é uma cápsula do tempo. Ele pode ter aprendido três línguas e visitado vinte países, mas ali, ele será sempre "o miúdo que tinha medo dos gansos e que agora usa sapatos que parecem barcos".

Ele voltou para a cidade com três quilos a mais e a certeza absoluta de que, em 2056, o Alfredo ainda o vai estar à espera para cobrar o café.



Sanzalando

26 de março de 2026

eu joguei no totobola

Ah, os anos 70. Uma época em que o "digital" era o relógio de pulso do tio rico e a inteligência artificial era apenas o Professor Pardal na banda desenhada do Pato Donald. Para um adolescente, o Totobola não era apenas um jogo de apostas; era o o sonho semanal que prometia livrar-nos da tirania da mesada de 20 escudos.

Tudo começava à quinta-feira. Entrar numa tabacaria aos 14 anos, com o cabelo à beatle e as calças à boca-de-sino, exigia uma postura de homem de negócios. O objetivo? O boletim de papel químico bem preenchido de modo que o x não saía do quadrado.

Havia toda uma técnica para preencher aquilo. Se carregasses pouco com a esferográfica BIC, a cópia ficava invisível; se carregasses muito, furavas o papel e o Sr. Bauleth da papelaria olhava-me como se tivesse cometido um sacrilégio.

Olhando de agora para o longe do tempo eu vejo:

O adolescente médio dos anos 70 dividia-se em três escolas de pensamento:

- O Clubista Cego: Punha sempre "1" no seu clube, mesmo que jogassem contra a seleção do mundo.

O Especialista de Bancada que discutia na esplanada da Oásis que até se ouvia no Café Avenida, lia tudo e até se calhar nas estrelas das noites de insónia, analisando se o avançado do Farense tinha recuperado da gripe.

- O Caótico, aquele cujo método do fechando os olhos e deixando a caneta cair sobre o papel e a sorte jogava-se duas vezes.

O grande dilema eram os teórico que diziam que as triplas e as suas variantes, que custavam uma pipa de massa mas que a gente ficava na teoria porque na prática não havia combu para tanta teoria.

-  Pá, achas que o Barreirense empata nas Antas?

- Nem pensar, mete um 1 fixo e guarda a dupla para o dérbi!

E lá íamos nós, com o coração nas mãos, apostar o dinheiro do lanche. Se o Benfica ou o Sporting perdiam em casa, lá se ia o "13" e o jantar de domingo passava de festa a funeral.

Havia o rádio a pilhas que se gastava ao domingo. Cada mesa acho eu tinha um rádio naquela esplanada. Acho cada um tinha a esperança que cada rádio ia dar o resultado que mais convinha. Sentados, com o boletim na mão e a orelha colada ao altifalante. O som do golo era anunciado por um interminável grito até a gente parava de respirar. Quando o locutor dizia: "Golo em Alvalade!", o silêncio em casa era tão denso que se ouvia uma formiga a tossir. Se marcava a equipa escolhida eras um génio das probabilidades, se sofria o golo que estragava o teu X: O boletim era amarrotado e lançado com a força de um remate do Eusébio em direção ao lixo. Era um momento de explosão interior. 

Na segunda-feira, a realidade batia à porta. Geralmente, tinha feito 7 ou 8 pontos. O sonho de comprar uma motorizada NSU ou uma V5 ou um par de calças Levi’s genuínas ficava adiado por mais uma semana.

Mas havia sempre aquele amigo que jurava:

Pá, falhei o 13 por um golo do Beira-Mar aos 90 minutos!. Mentira, claro. Provavelmente tinha falhado metade da jornada, mas no Totobola dos anos 70, a esperança era a última a morrer.


Sanzalando

24 de março de 2026

eu fui às salinas

Me lembrei agora que ainda não tinham inventado nem a máquina fotográfica digital, nem aquele aparelhinho que faz tudo inclusive telefonar quando eu fui à salinas lá para os lados da foz do Rio Bero, que agora é até nome de vinho. Na altura a gente só se lembrava dele nestes marços em que não podia mergulhar porque o mar tinha sido invadido pelas águas dele com troncos, caniços e mais lama. Mas nessa altura me levaram às salinas e eu não tirei nem uma fotografia, porque não tinha máquina que era de rolo e isso custava muito dinheiro. Sei que era um domingo de manhã, fazia sol e eu estava já a imaginar uma cena qualquer de filme. Eu nunca tinha visto salinas e tinha imaginado uma cena romântica, pois até a vizinha tinha ido. Quer dizer, ela é que me levou. Mas as salinas não são românticas, são assim uma coisa misturada de escorregador e química.

Quando sai do carro eu fiquei assim feito palerma a olhar as montanhas de sal. Branco que os meus olhos não estavam habituados. Era branco mais branco que absoluto. Retângulos de água que reflectiam tanto a luz que os meus olhos já viam borrões roxos. Faltavam óculos de sol, penso eu agora, com muitos anos de atraso.

Entrei num dos lagos e logo fiz patinagem artística ainda antes de saber que isso existia. Escorreguei que fui de costados à água. Mas ri e todos riram. Até os patos que por ali andavam acho eu também riram e voaram gargalhando.

Ao lado eu vi um lago e gritei: "Olha que lindo, a água é rosa!" Se esqueceram de me dizer que a densidade daquilo é como o de xarope para a posse ou coisa que valha. Entrei e me arrepiei. Sensação esquisita. Mas sai a água evaporou e a minha pele ficou que até parecia papel de jornal seco depois de molhado. Eu pensei ia esfarelar-me. Se fosse agora eu ia dizer que estava pronto para ir para a brasa e ser comido no barbecue. Ardeu um ferida que eu já nem lembrava tinha. Enfim, pensei em Moisés e imaginei que tinha sido a minha purificação espiritual. 
Um dia diferente, que não foi romântico como eu tinha imaginado desde a véspera, em que o meu cabelo parecia ter sido pintado com gesso, os meus calções tinham ganho um tom branco e a alma estava esfoliada.

Mas eu fui às salinas...



Sanzalando

21 de março de 2026

se hoje começou a Primavera...

E aqui me dizem é Primavera. Na minha terra tinha cacimbo e calor. Duas estações sem apeadeiros. Assim, tal e qual, as palavras soltas que vagabundam na minha tola, quentes ou frias de quem não vê nada por causa do cacimbo, mas palavras vagabundas que afagam. Aqui, neste lado de cá tem tempos cacimbados. Mas me disseram que hoje ela chegou. E com ela me lembrei que fui pai faz uma trintena de anos, neste dia de Primavera. E por isso me recordei de que ando por aqui a contar estórias que às vezes na minha cabeça são mais bonitas que nas palavras que uso. Eu acho que os mais novos que possam ouvir as minhas palavras vão pensar eu sou do paleolítico. Na minha juventude além de estórias, tinha um certo folclore que a gente ao começar a falar dele ganha assim um fôlego e as palavras ficam como se fossem filtradas.
- E na rádio a gente punha a bobina marcada no ponto exacto...
- o que é a bobina? - remata logo alguém. 
A gente olha... pensa... como vou explicar o que é um gravador, uma bobina se pelo meio já passou a cassete, o disco de vinil, o cd, a pen e agora tem o streamings... perdeu a piada da velocidade contadora da estória. É, até aparece aquela dor nos joelhos a dizer que o velhote só conta estórias de ficção...
E se a gente vai falar do telefone que tinha de pedir na telefonista para ligar à casa de fulano... eles vão pensar que a gente usa a inteligência artificial para inventar estórias de dizer verdades recentes nos cérebros vagabundos.
- ...e vocês tinham sinal no telefone? 
E vou falar de cabine telefónica? Nem pensar, vão dizer que é apartamento de uma assoalhada com marquise a toda a volta.
É melhor só começar a Primavera a meditar. Sem radicalismos nem mapa que parecia uma manta de papel rabiscada em linhas finas e que quase sempre a gente errava ao lhe dobrar novamente. Só meditar, de braços cruzados a olhar para o cacimbo que deve estar a fazer onde não tem primavera e não deve ter calor ainda.


Sanzalando

19 de março de 2026

corridas de fim de semana

Na casa do Bitacaia os carros eram verdadeiros heróis. Não tinha fim-de-semana sem carros a correr. Houve até as 24 horas da esquina do liceu. O que vale é que à frente havia o Cábula onde podia comer sorvete ou beber coca-cola. Eram corridas a sério.

Não é a sua típica corrida de Formula 1, onde tudo é perfeitamente calibrado e os pilotos são milionários. Não, esta corrida acontece no chão garagem, onde a pista é pintada no chão, e os carros são, bem, de metal, com beata de cigarro e adesivo para andarem direitos. O que contava era o peso e a mão de quem atirava. Tinha de ter mestria. Mão treinada para não ter que fazer a curva em duas ou três vezes. Era a era da precisão manual.

Conheces os Dinky Toys? E o Corgi Toys? 

Num canto da pista e um pouco enferrujado, o lendário Mini Cooper de 1968, que, sejamos honestos, parece mais um brinquedo de morder do que um carro de corrida por tanta pintura que já levou. Ele foi rebatizado de "Mini Bala", o que é irônico, já que a sua velocidade máxima é um pouco mais rápida do que uma lesma com pressa, a contar com a minha imprecisão manual.

No outro canto da pistal com um adesivo de um dragão o robusto Saab de 1971. Ele é tão lento que até a direito ele desvia para a esquerda.

Eram assim os fins de semana. Quem ganhou? A adolescência de certeza




Sanzalando

18 de março de 2026

Eu e as rádios

O Algoritmo Ganhou Vida e Tem Mau Gosto. Na minha adolescência a rádio tinha uma certa magia. Não havia câmaras a filmar e a gente criava um corpo para a voz que estava a ouvir. Tinha altura de desilusão e outras de espanto. Era mágica a rádio de então. Depois deu-me uma pancada na cabeça, um nó no coração, uma revolta na alma e uma indefinição sobre o futuro e resolvi ir estudar e deixar as válvulas para trás. Esqueci o Sou sa Santos, a Arlete Pereira, o Carlos Veríssimo e o Edgar Teixeira para não me esquecer de falar dos Putos Jorge Van, Carlos Matias, Amaral, Tobé e... tantos que as letras da minha caneta não tinham saída do aparo ou ia faltar a tinta. 

O estúdio do RCM parecia o interior de uma oficina comparada com os novos estúdios. Agora tudo aquilo parece uma nave espacial, luzes led em tons que nem sei dizer as cores, têm câmaras 4K para o «streaming» em direto e microfones tão sensíveis que conseguiam captar o som de um estagiário a ter uma crise de ansiedade no corredor.

É que para além da tecnologia propriamente dita, ainda lhe inventaram nomes que até parece estamos num país distante. Hoje já ninguém faz um directo. Hoje faz-se uma live. 

Mas continuemos que o tempo corre e o silêncio fica mal nas ondas hertzianas ou no éter, como a gente dizia.

O locutor hoje ajusta o boné para o ângulo perfeito da câmara 2, e ainda diz para o técnico "Puto, o engagement está a cair 0,2%. Precisamos de algo disruptivo". O produtor, que usa uns fones tão grandes que pareciam dois pratos de sopa nas orelhas que não deixa ouvir uma trovoada que se aproxima.

"O algoritmo da rádio está a sugerir um remix de EDM com sons de baleias em 8D", responde o produtor, sem tirar os olhos dos sete monitores à sua frente. "Diz que é a tendência para a Geração Z nas próximas 12 horas."

De repente, o ecrã tátil gigante da consola principal — o "Cérebro" — começou a piscar em cor-de-rosa choque.

"... o que é que o Cérebro está a fazer?", perguntou alguém com ar apavorado que se  aproxima com cautela.

"Não sei! Ele entrou em modo 'Auto-Curadoria Viral'!", gritou outro teclando furiosamente.

No monitor de transmissão, o título da música que estava prestes a passar mudou de "Top Hit 2026" para: "AS MELHORES CANTIGAS DE FOCLORE DO SÉCULO XIX.

"Não! Isso vai matar o nosso branding!", gritou o locutor que pôs a pala do boné para trás. 

- Corta o sinal! Passa para o intervalo! - disse alguém que deve ser dono pelo vestir.

"Não consigo! O sistema bloqueou-me! Ele diz que 'os dados demográficos indicam que o público sente nostalgia por tempos que nunca viveu'!", diz um mais velho em pânico, porém sorrindo.

Nesse momento, as colunas de alta fidelidade do estúdio explodiram com uma batida de rap pesadíssima, acompanhada por uma voz autotunada ao extremo cantando: "Atirei o pau ao ga-ga-ga-gato-to-to... mas o gato não morre-re-re-reu!"

Tiago olhou para a câmara de streaming. O chat estava a explodir.

  • @User404: "Isto é arte!"

  • @TrendSetter: "Finalmente algo autêntico."

  • @VovóDigital: "A minha infância, mas com graves!"

- Olhem os números!", gritou o mais velho como se a sentir em casa. - Estamos a subir! 50 mil pessoas a ver o direto! O algoritmo é um génio!

O locutor sentindo o instinto de sobrevivência de um influenciador, não hesitou. Retirou o boné ligou o microfone e gritou: "É ISSO AÍ, FAMÍLIA! FOCLORE EM DIRETO! QUEM QUER O REMIX DA 'BARATA DIZ QUE TEM' COM BEAT DE TECHNO BERLINENSE? DEIXEM O VOSSO LIKE!"

O estúdio tornou-se um caos de luzes. Os técnicos já não tentavam recuperar o controlo, estavam em cima da mesa a fazer uma dança que provavelmente se tornaria viral no TikTok em dez minutos. O Cérebro, a inteligência artificial da rádio, parecia estar a divertir-se, mudando as luzes do estúdio para acompanhar o ritmo da "Machadinha".

A meio da manhã, o diretor da rádio, o tal home bem vestido e que ainda usava relógio analógico e não entendia o conceito de "meme", olhou para o locutor a fazer o "moonwalk" enquanto o "Coelhinho" tocava a 150 BPM.

- O que é isto?! gritou o Diretor.

O técnico apontou para o monitor de faturação de publicidade. O gráfico subia de forma quase vertical.

O Diretor olhou para os números. Olhou para o locutor. Olhou para o gráfico novamente.

- Moços" - disse o Diretor, com uma voz calma e gélida.

- Sim, senhor Diretor? - respondeu um coro

- Conseguem arranjar um remix do 'Guitarra toca baixinho' com influências de Pop para o Natal? 

E foi assim que a RCM de outrora virou moda e na minha imaginação se tornou a rádio número 1 do país, provando que, no mundo moderno, o bom gosto é opcional, mas o algoritmo é sagrado. 


Sanzalando

16 de março de 2026

um dia que era para ser e nunca foi

Recuando até aos meus 15 anos, eu tinha uma vizinha que era o centro do meu universo. O meu plano de conquista era infalível, ou pelo menos era o que eu achava depois de assistir a três comédias românticas seguidas que tinha visto no Impala Cine. Eu ficava com a orelha sintonizada na rua. Assim que ouvia o barulho a voz dela, eu gritava:

-  Mãe, deixa que eu levo o lixo!

Eu saía desembestado, tropeçando nos meus próprios pés, só para  coincidentemente  encontrá-la no passeio antes dela entrar no carro do pai para a voltinha de fim de tarde. 

Nada no meu rosto dizia "sou o homem da tua vida". Era eu todo que o gritava no silêncio dos meus olhos brilhantes.

Na rua das nossas casas, que era um subida de sentido único a gente jogava os jogos de rua, desde o garrafão, à macaca, à queimada e outras vezes ficávamos só sentados no muro em conversa de encher tempo. 

Quando ela vinha, o que por azar dos meus sentimentos, era uma raridade, eu querendo impressionar, tentava dar frases de gente madura, usava frases feitas e desfazia em piropos subtis. Eu usava as palavras em modo acrobático. Ela sorria. Eu me inspirava e no silêncio dos meus suspiros adolescentes eu ia cada vez mais fundo na imaginação. Poemas que decorava, poemas que inventava, conversas que eu sentia me iam levar ao seu coração. Era um teste à minha resistência melodramática, à sua paciência de ar aristocrático. 

Quem me mandara a mim ler na crónica feminina que elas gostavam de gente culta? Vá lá que eu não sabia que existia a física quântica... olha-me a ler-lhe as formulas e lhe dizer que adoro a dualidade da partícula. Tão romântico que felizmente a minha ignorância não sublinhou.

O auge foi o dia em que decidi que ia me declarar. Preparei um discurso, decorei versos e estava tão tão que se alguém se aproximasse de mim com um fósforo eu ia explodir.

Bati na porta da casa dela, como fizera centenas de vezes antes. Mas era sempre para estudar. Naquele dia não era. Quem abriu a porta foi o pai dela. Lhe olhei na cara, como se nunca o tivesse visto, as minhas pernas bambolearam que nem caniço no dia de vento, e disperei:

- A minha mãe pede açúcar porque quer fazer um bolo e não tem. 

Voltei para casa com uma chávena de açúcar

Voltei para casa com uma xícara de açúcar e a certeza de que o meu destino era ser o "vizinhas-friendzone" oficial do condomínio.


No final das contas, a gente não namorou ninguém, mas as risadas (principalmente as delas às minhas custas) valeram cada mico. Afinal, se você não passou vergonha na frente da vizinha bonitinha na adolescência, você realmente viveu?



Sanzalando

14 de março de 2026

uma festa na praia

Era março tal e qual hoje o é. Era dia de festa na praia. Não uma festa qualquer, daquelas improvisadas, onde cada um traz qualquer coisa e no fim ninguém sabe bem quem trouxe o quê, mas todos juram que tudo estava bom. Era mesmo festa da cidade e até que havia construções na areia e tinha artistas de classe. Eu tinha a classe de olhar embasbacado e aplaudir porque jeito faltava.

O sol brilhava com aquele entusiasmo típico de quem não tem de carregar chapéus-de-sol e um rádio a pilhas que só apanhava o RCM sem interferências complicadas. 

A areia já estava ocupada por uma pequena multidão: famílias inteiras têm que vir todos à praia em dia de festa, crianças aos gritos, tios especialistas em banhos de sol e um senhor que insistia em tocar uma gaita a anunciar os gelados do Lã.

Nestes dias tem gente que trás uma bandeja de rissóis.

- Trouxe quarenta! - gritam com orgulho e eu ali ao lado em dia de festa à espera de ver quem ganhou o concurso de areia esculpida, a salivar com fome mesmo depois de tomar o matabicho..

Cinco minutos depois estava estabelecida a confusão e dos quarenta ele gritava que restavam apenas três. Espero que ele não tenha comido nenhum. Armar-se assim ao pé de gente que não trouxe nada...

- Isto aqui evapora, seus galfarros que parece não comem há dias - disse ele, desconfiado, olhando para o grupo como quem investiga um crime gastronómico.

Entretanto, junto ao mar, um outro grupo tentava montar um chapéu-de-sol e uma barraca de praia daquelas que levam dois paus verticais, uma lona presa noutros dois que ficarão horizontais. E o peso que aquilo tem?... Aquilo parecia uma operação de engenharia naval. Três pessoas seguravam, duas davam ordens e uma criança comentava:

- O meu pai no faz isto mais rápido.

Ao lado da confusão montada, a dona Teodora tinha decidido entrar na água. Não foi bem entrar: foi um processo gradual de negociação com o Atlântico.

Primeiro o pé.

- Ai que está fria!

Depois o outro.

- Isto não pode ser saudável!

Depois os tornozelos.

- Isto deve vir diretamente da Antártida!

Até parecia ela estava a mantrizar uma ladainha como as que às vezes ouvia a minha avó a fazer. 

Ao fim de quinze minutos a água estava ainda pela cintura, discutindo com o mar como se o mar pudesse ajustar a temperatura.

Entretanto, alguém ligou o rádio e começou a música. De repente, a areia transformou-se em pista de dança improvisada e aquilo virou uma mistura improvável de arraial popular com festival de verão.

O Manel, que tinha jurado que não dançava desde 1970, acabou a fazer passos entusiasmados que lembravam vagamente ginástica sueca que o Cândido da Silva tinha ensinado nas aulas de ginástica. Apesar de que o Manel não era dado a esses ofícios. Ele era mais viola e tiradas de humor. Mas em dia de festa na praia tudo vale até o desajeitado modo de dançar.

Uma bola de praia começou a voar de um lado para o outro, até que aterrou diretamente na barraca da pessoa mais antipática da cidade.

- A praia não vos chega?! - protestou.

Mas ninguém nem desculpa pediu. Continua a festa que é Março.

Ao final da tarde, quando o sol começava a descer, toda a gente estava meio cansada, meio feliz, com areia em lugares que a ciência ainda não explicou.

- Isto hoje foi um sucesso. - disse alguém que deve ser da organização a julgar pelo tom

- Porquê? — perguntou alguém no meio da multidão.

Ele encolheu os ombros e disparou.

- Porque ninguém discutiu… e só desapareceram trinta e sete rissóis.

E numa festa de praia, convenhamos, isso já é praticamente um milagre. 



Sanzalando

13 de março de 2026

O Ritual do silencio da saída da missa

O protagonista dessa estória é um eu que nem sei se sou eu ou outro que vi. O que eu sei é que era uma pessoa de fé inabalável, um joelho que previa a chuva e um estômago que funcionava como um relógio suíço. Quando o joelho doía era porque ela estava na Igreja e quando o estômago gorgulhava era hora de comer na casa da vizinha. Para ele que já não sei se era eu, a Missa de Domingo era dividida em três actos: a Contrição, a Comunhão e a sagrada saída da missa

Diferente dos devotos de primeira fila, ele, que posso ser eu, era um mestre da logística. Escolhia sempre o último banco, colado no corredor lateral. E quando alguém perguntava porquê, era por causa da circulação de ar, respondia. Na verdade, era o equivalente a deixar o carro ligado e apontado para a rua em um assalto a banco cinematográfico visto nos filmes do Eurico. 

A missa não terminava na bênção final. Ela terminava no exato milissegundo em que o Padre dizia: "Podem ir em paz...". Nem esperava o "...e que o Senhor vos acompanhe", já estava com os pés no outro lado da estrada a olhar a porta.

O maior inimigo de era a música final, uma cantoria que parecia não tinha fim. Ou quando o padre resolvia dar recados finais que eram bem maiores que a homilia. Elas nunca mais saiam da missa das nove...


Sanzalando

12 de março de 2026

eu e os livros proibidos

Quando eu era assim com barba mas sem ela, que chamavam que eu era adolescente, descobri uma coisa espantosa, os melhores livros eram sempre os proibidos.

Não era preciso ler a capa. Bastava alguém me dizer com ar grave ou voz quase silenciosa:
— Esse livro não é para a tua idade.

Pronto. Naquele momento, o livro transformava-se imediatamente numa mistura de tesouro arqueológico com bomba atómica literária. Eu tinha de o ler. Era uma questão científica. Nem que tivesse que ir na Quipola a pé. Eu tinha a certeza que eu ia lhe ler.

Na minha garagem havia uma pequena biblioteca, guardada com zelo quase religioso, porque a minha mãe não queria que ninguém abrisse aquele caixote que eram os livros do meu pai. Eu achava a minha mãe pensava aquilo era perigoso só de pensar abrir. Ela conhecia-os bem e nunca tinha aberto nenhum deles.

Só me dizia

- Estes… nem pensar. - mas na verdade, mesmo estando de baixo do caixote das loiças do seu enxoval, eu conseguia tirar um de cada vez. 

Ora, o problema é que “nem pensar” para um adolescente é praticamente um convite ao crime.

Um dia reparei num livro tirado ao acaso porque por acaso media-se a mão e não conseguia meter os olhos, ele chegou na minha mão inocente de juventude. Título sério, capa discreta, aquele ar de coisa perigosa. Tirei e arranjei um sítio seguro para o guardar quando não estava a ler. 

Mas o raio da mãe descobre coisas e logo ao terceiro dia me disse com aqueles olhos de quem vais levar e nem sabes porquê:

— Este? Tu não tens idade para isto e eu já te avisei. Vou pegar fogo aquilo tudo e assim já não cais na tentação....

Fiquei logo convencido de que era uma obra-prima absoluta. Talvez tivesse revelações sobre a vida, o amor, a política e provavelmente três ou quatro pecados mortais e umas tantas piruetas imorais.

Passei uma semana a arquitetar um plano digno de filme policial depois de ter jurado a pés juntos que o tinha voltado a pôr no caixote e prometido que nunca mais o ia abrir.

Tudo correu bem até ao momento em que, com o livro escondido debaixo da camisola, ia a sair de casa para um encontro de amigos.

- Que tens aí?

- Nada, mãe! - e esperei que a rainha santa fizesse um novo milagre

Mas quando um adolescente diz nada, os adultos percebem logo que se trata de um problema ou qualquer coisas indevida.

Ela mandou-me abrir a camisola. Lá estava o livro, envergonhado, como um cúmplice apanhado em flagrante sem se ter transformado em rosas, nem sequer em flor de capim..

A minha mãe suspirou quase em surdina:

- Sabes qual é o problema?

Eu pensei que ia ouvir uma grande lição filosófica sobre juventude e responsabilidade, sobre a palavra e a promessa. Essas coisas de mãe..

Mas ela disse apenas:

- Tu queres sempre ler os livros mais chatos primeiro.

Fiquei desorientado, estupefacto e ao mesmo tempo mais curioso.

- Chat… chato? - disse gaguejando ao mesmo tempo surpreendido

- Claro. Esse é um tratado de economia do século XIX, uma estória de como nasceu esta cidade e os seus arredores.

Voltei para casa com o livro, decidido a provar que ela estava enganada.

Li três páginas.

Na quarta adormeci profundamente, provavelmente o único adolescente da história a ser vencido por estatísticas sobre batatas, casas e lugares que eu sabia eram passado.

Nesse dia aprendi duas lições importantes:

Primeira: os adultos às vezes têm razão, o que é profundamente irritante.
Segunda: nem todos os livros proibidos são perigosos.

Alguns são apenas… terrivelmente aborrecidos.



Sanzalando

11 de março de 2026

O Dia em que o Agualusa me raptou dos afazeres

Tudo começou de forma inocente. Tinha lido as grandes referência dos escritores da minha terra e havia um fulaninho da minha idade que me diziam que até que escrevia coisas giras. Peguei o livro  O Vendedor de Passados, tirei um café, já tinha deixado a era dos cimbalinos, e pensei: 
- Vou ler só vinte minutinhos antes de lavar a louça. - maneira de dizer que era pôr a louça na máquina e ela que fizesse o trabalho

Erro fatal. Cheguei à fase do "Espera, isso aconteceu?"

Lá pela página dez, comecei a franzir a testa. Agualusa tem esse hábito de descrever coisas impossíveis com a naturalidade de quem dita uma lista de compras.

  • Uma lagartixa que fala e tem crises existenciais? Check.

  • Uma mulher que vive trancada num apartamento por trinta anos enquanto o mundo acaba lá fora? Check.

  • Alguém que ganha a vida inventando árvores genealógicas para novos ricos? Absolutamente check.

Olhei para o lado, para conferir se a minha própria parede não estava prestes a dar flores ou confessar um segredo de família.

Depois de uma hora de leitura, percebi que meus pensamentos mudaram de ritmo. De repente, não estava apenas a ler português; estava a ouvir a música de Angola. Acho a música entrou no corpo vinda na forma de fantasma.

Fui até na cozinha e, em vez de pensar  que preciso lavar os pratos, minha mente sussurrou: 

- A porcelana, exausta de silêncios e gorduras, aguardava o baptismo da espuma como quem espera uma chuva de milagres em Luanda." 

A louça continuou suja. O café só não gelou porque não estava frio para isso. O sol se pôs e eu nem dei por isso, porque estava ocupado demais a tentar entender se o narrador era um homem, um fantasma ou uma metáfora bem escrita.

Ao fechar o livro, suspirei profundamente. O mundo parecia um pouco mais colorido, um pouco mais absurdo e definitivamente mais poético. Descobri  que, com o Agualusa, a verdade é apenas uma das muitas versões possíveis da mentira e a mentira dele é muito mais divertida. 

"A ficção é a única forma de dizer a verdade sem ferir ninguém." — Provavelmente algo que um personagem do Agualusa diria enquanto toma um gin.



Sanzalando

10 de março de 2026

Eu li Pepetela e aprendi

Adolescente queria saber tudo. Quem falou de quê, porquê e da terra. Comecei com Luandino e depois agarrei outro e de repente, o quarto desaparece. Já não estou sentado numa cadeira bem cómoda mas sim estou no meio da floresta do Mayombe. O Wi-Fi desapareceu literalmente, porque nem sequer ainda foi inventado, e em vez de notificações do Instagram, ouço o som de ramos das árvores a dançar sob a música do vento.

À minha frente, surge um homem com um olhar sábio e um bigode que impõe respeito. É o Pepetela. Me levantei e respeitosamente lhe dirigi a minha timida voz:

- Mestre, vim para aprender. Quero ser culto, quero entender o mundo!" 

Ele me olhou, baloiçou o bigode e atirou:

- Ótimo. Toma lá esta mochila, uma G3  que estava descarregada por causa das coisas e agora vamos caminhar 40 quilómetros pela lama para discutir a ética do socialismo e a identidade nacional.

- Mas... não dá para fazer um resumo por WhatsApp ou IA?

Não, eu não estava a delirar nem em crise de paludismo. Estava só a entrar no mundo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos.

Ele não te dá uma aula com slides. Ele atira-te para dentro dos livros dele como quem atira um telemóvel para uma piscina para ver se ele flutua:

Comecei com Mayombe onde ele me apresentou o Sem Medo. Uau, que personagem incrível, lindo de nome mas pensador de constância: ter dúvidas é o mais inteligente que posso ser.

Depois acho agarrei a Geração da Utopia onde eu quis queimar o mundo, me empolguei e agora mais velho vejo que os ideais são bonitos mas a prática dá muito trabalho e às vezes não corre bem.

Depois ri com Jaime Bunda, eu estava na minha crise existencial e aquele mataco grande me mostra a corrupção e o esquema o que me fez rir da confusão do mundo.

Depois de ler tudo, voltei ao meu quarto. Olhei no espelho e já não sou um adolescente a fazer scroll. Agora tenho um olhar de Pepetela: um olho focado na justiça e o outro a ver a ironia de tudo o que te rodeia.

Saí da aula sem um diploma de papel, nem certidão de cumpridos deveres, mas com algo muito mais perigoso que foi a capacidade de pensar por mim próprio. E, possivelmente, uma vontade súbita de usar palavras como "utopia" e "burocracia" só para ver a cara de confusão dos meus amigos.



Sanzalando

7 de março de 2026

eu li Luandino quando comecei a ter dinheiro

Eu, quando comecei a ganhar dinheiro, porque antes não podia, sujeito dado a leituras que me eram dadas, mas de pouco balanço, resolvi comprar o Luuanda. Cheguei em casa, sentei-me na na cadeira de cordas e abri o livro com aquela pose de quem vai resolver um algoritmo que nem sabia existia essa palavra, mas queria saber quem eram os escritores que escreveram a minha terra.

Primeiros 10 minutos li uma frase e o cérebro fazia um barulho de engrenagem enferrujada. Luandino escrevia "estória" com "e", inventava verbos que não pediam licença ao dicionário e as palavras pareciam que estavam a dançar sem música.

- Mas esse gajo está a escrever em português ou está a semear sementes de palavras no papel e eu vou ter que esperar elas cresçam? perguntei-me.

Depois de uma hora a magia começou a bater, já não estava na sala de leitura. Eu estava lá, no meio do pó da rua, a ouvir o banzé dos miúdos e o cheiro do peixe a fritar. O problema é que o Luandino tem um feitiço, ele desarruma a gramática de um jeito que a gente começa a achar que o erro é que é o certo.

Lá pelas tantas, os companheiros me gritaram vais jantar ou ficas por aqui o comer palavras?

Eu, possuído pelo espírito do Ngangula, olhou para eles e respondi: 

- Ó pá, não me venham com estórias de comer que o meu estômago está a fazer maka com a minha fome. A vida é um desassossego de palavras e eu estou aqui a "estoriar" com os meus botões!

Eles me olharam estupefactos e pararam. Nunca me tinham ouvido dizer "maka" na vida. Mas me deixaram ali a passear as palavras ou a ser passeado por elas.

O livro foi lido em três dias. No quarto dia, fui ao banco. O gerente, muito engomado, veio explicar-me as taxas de juro: 

- Veja bem, a flutuação do mercado... blá blá - por aí fora, conversa de banco

Eu, com aquela cadência que só quem leu Luandino entende, interrompi: 

- Ouça-me, deixe lá esses papéis. O que o senhor está a fazer é uma conversa de fiado, um banzé de números que não têm coração. O dinheiro é como o vento no capim: assobia mas não se apanha!

O gerente ficou mudo. Eu sai do banco a gingar, sentindo-se o dono da língua de estalar.

A Lição da Estória

Ler Luandino Vieira é um perigo público:

Risco 1:  começas a achar que a gramática tradicional é uma camisa de forças dois tamanhos abaixo do meu, que nem respirar consegues.

Risco 2: passas a ver poesia num pneu velho ou numa conversa de vizinha.

Risco 3: a boca ganha um balanço que nenhum curso de oratória consegue ensinar. Até gingas a falar.



Sanzalando

6 de março de 2026

eu a correr na marginal, da memória

Ah, a Marginal. Aquele cenário de postal dos correios que, às sete da manhã, cheira a maresia e ao desespero silencioso de quem decidiu que "hoje é o dia em que mudo de vida".

Correr ao longo da baía é um exercício de humilhação pública em parcelas. De um lado, temos o mar, vasto, imperturbável, rindo-se das nossas articulações. Do outro, os "Super-Humanos do Asfalto": aqueles que andam de carro e nos chamam de loucos.

Eu, por outro lado, corro com o entusiasmo de um frigorífico a ser empurrado numa ribanceira. Corro para desanuviar as saudades do tempo que gastei, pois não sei quantos tenho para gastar. Corro pelo bem-estar físico, e também por aquele doce que comerei à sobremesa.

Mas o fenómeno mais curioso acontece por volta do terceiro quilómetro, quando o oxigénio decide abandonar o cérebro para ir socorrer os meus gémeos em chamas. É nesse estado de semi-delírio de falta de oxigénio que a máquina do tempo liga. De repente, não sou mais aquele adulto com dores nas costas e uma folha de tarefas a fazer. Sou um adolescente de novo.

Na minha cabeça, a playlist de música dos anos 80 transforma a marginal na passadeira vermelha do meu próprio filme de amadurecimento. Começo a imaginar que, ao dobrar a próxima curva, vou encontrar aquela paixão não correspondida do 5º ano. Ela estará lá, a olhar para o horizonte e eu passarei por ela com uma passada leve, um aceno casual e um cabelo que, milagrosamente, não está colado à testa como uma alga morta. Mas na realidade passo por um grupo de reformados que caminham a passo acelerado e que, para meu profundo horror, me ultrapassam enquanto discutem o preço do quilo do robalo ou da morianga.

Correr na marginal permite-nos alimentar estas fantasias porque a paisagem é cinematográfica. O adolescente interior, aquele que ainda acha que vai ser uma estrela de rock ou um avançado da intelectualidade, alimenta-se desta estética. Tudo parece mais épico quando o sol reflete na água. Sinto que estou a treinar para um combate decisivo, quando na verdade estou apenas a tentar não ser atropelado por um miúdo num triciclo. Olho para a minha sombra e verifico que o meu cérebro filtra a barriga e a t-shirt que já foi camisa interior ou simplesmente camiseta e devolve-me a imagem de um herói de acção. É um filtro natural chamado "Falta de Ar". Na adolescência, queríamos fugir da cidade. Agora, corremos ao longo da água a fingir que estamos a ir para algum lado, quando o único destino real é a padaria no fim do percurso.

A minha estória acaba sempre da mesma forma. O sonho de adolescente desvanece-se quando o relógio inteligente apita, anunciando que o meu batimento cardíaco atingiu níveis que fariam um cardiologista benzer-se.

Paro. As mãos nos joelhos. O "eu adolescente" volta para o porão da memória, resmungando sobre como a vida era suposto ter mais guitarras elétricas e menos joelheiras. Caminho o resto do caminho com a dignidade possível, sentindo-me 10 anos mais velho, mas estranhamente feliz por ter sobrevivido a mais uma sessão de "cinema mental" à beira-mar.

No final, correr na baía não é sobre o exercício. É sobre aquela meia hora em que a gravidade e as contas para pagar não existem, e somos apenas nós, o vento e a audácia de acreditar que ainda temos 17 anos, pelo menos até à próxima subida.



Sanzalando

5 de março de 2026

Eu e o Lobo Antunes

Conheci o António Lobo Antunes apenas uma vez, ou pelo menos gosto de contar a história como se tivesse sido um encontro memorável. Na verdade, foi mais um daqueles encontros de circunstância em que duas pessoas ocupam o mesmo espaço, o mesmo ar e, durante alguns segundos, tive uma dúvida existencial: será que devo dizer alguma coisa inteligente?.

Eu estava num café da cidade do Porto, armado em intelectual, estudante de Medicina, com um livro aberto à minha frente a fazer horas para a sessão do Fantasporto. Não o estava propriamente a ler; estava na fase mais avançada da leitura moderna: olhar para a página com ar profundo enquanto se pensa noutra coisa qualquer, geralmente no preço dos pastéis de nata.

De repente, entra Lobo Antunes. Coincidência do caraças. O livro que eu tinha: Memória de Elefante. Será que há por acasos ou está tudo escrito nos céus do destino? Depois de ter devorado Fernando Namora eu estava a devorar António Lobo Antunes. E não é que ele entra ali. Desfila na minha mente ainda hoje.

Há pessoas que entram num café. Ele entra como quem atravessa um romance de 600 páginas: devagar, com peso literário e uma certa aura de quem sabe coisas que nós ainda não percebemos.

Sentou-se numa mesa ao lado.

E foi então que começou a luta interior.

Uma voz dentro de mim dizia:
- Vai lá cumprimentar o homem. Diz qualquer coisa sobre literatura!

Outra voz, muito mais sensata, respondia:
- Tu mal consegues explicar a conta da cantina, quanto mais a literatura do Lobo Antunes.

Fiquei ali, entre a coragem e a prudência, que é o sítio onde a maioria dos portugueses vive.

Finalmente, levantei-me. Dei dois passos. Parei. Voltei para trás. Sentei-me outra vez. Pedi outro café, porque o pensamento profundo seca a garganta e eu precisava cafeína ou julgava precisar.

Nisto, ele levanta-se para sair.

Ao passar por mim, olhou para o meu livro aberto há meia hora na mesma página e disse, com um sorriso muito leve:

- Esse capítulo é difícil, não é?

Eu respondi com a maior honestidade literária da minha vida:

- É… mas estou quase a vencê-lo.

Ele acenou, compreensivo, como quem reconhece um colega de profissão na arte nacional de demorar a ler.

E saiu.

Desde esse dia gosto de dizer que tive uma conversa profunda com António Lobo Antunes.

Durou sete palavras.

Mas, convenhamos, para certos escritores… já foi um diálogo bastante longo. 



Sanzalando

4 de março de 2026

o meu carro de rolamentos

Na minha rua, a Fórmula 1, que a gente conhecia de ler nos jornais e revistas e quem gostava de motores sabia até como é que eram os barulhos, mas nunca ninguém tinha visto um só, começava logo a seguir ao almoço, quando as mães ainda estavam a arrumar a cozinha e nós já estávamos a montar os bólides com a mesma seriedade dos engenheiros da Formula 1 de verdade.

Os carros eram feitos de tábuas roubadas ao destino, pregos tortos e quatro rolamentos que tinham tido uma vida anterior numa oficina qualquer. Cada carro tinha um nome. O nome era ambicioso pelo menos a julgar pelo com dos ditos rolamentos a rolar no passeio liso que começava na casa da D. Maria e acabava depois da curva dos Fonsecas. Curioso é que do outro lado, da casa do Sr. Robalo também era liso e tinha a mesma distância mas não entrava nas nossas corridas. Será que era caminho assombrado. Deslembro a ideia. 

Quem sabe da estória da altura sabe que os carros de rolamentos não tinham travões, era mesmo o tacão da sandália ou do kedes. A travagem era quase inexistente pois ninguém queria estragar o calçado

O regulamento era simples:

  1. Ganha quem chegar lá abaixo primeiro

  2. Sobrevive quem tiver sorte.

  3. Se bater nas pernas de alguém ou alguém mandar vir a gente só tem de fogir.

O meu maior rival era o o JC Robalo que tinha uma garra e um talento especial para escolher sempre a pior trajectória possível para a gente dar a curva. O carrinho de rolamentos tinha volante de corda. Sim, de corda. Aquilo não virava, negociava curvas, assim como a báscula da bacia que a gente tinha de fazer de vez em quando para melhor curvar, sem bater no poste de luz que estava ali mesmo depois da curva.

Nos dias de corrida, juntava-se à janela o senhor Artur Gomes que não sei se fazia de comissário de pista mas dava sempre um palpite ou uma palavra de coragem. E nós, pilotos de calções e joelhos esfolados, alinhámos no topo da descida com o ar concentrado de quem ia disputar o Grande Prémio de Monte Carlo — versão com buracos e meias solas.

Acabava noite fechada e com a frase

- Amanhã fazemos outras.

E fizemos muitas .

Porque naquela rua, com tábuas, rolamentos e uma coragem que só existe antes da adolescência, éramos todos campeões do mundo pelo menos até à hora do jantar.



Sanzalando

3 de março de 2026

eu e a carta de condução

O dia do exame de condução é aquele momento único na vida em que o teu destino é decidido por um senhor de óculos que segura uma prancheta como se fosse o Livro do Juízo Final. 
Eu tremia. Cheguei ao centro de exames, que era nas Obras Públicas, com um nível de ansiedade que me permitiria iluminar a minha pequena cidade se me ligassem a um à rede. Eu não tive instrutor mas a minha mãe, antes de eu sair de casa disse-me: "Não mates o motor, não subas passeios e, pelo amor de Deus, não discutas com o Engenheiro se ele disser que o céu é verde."

O examinador, o Sr. Hilário, entrou no carro e resmungou qualquer coisa que eu não entendi. Olhei-lhe bem e lá estava ele com um bloco para mim era de cimento e uma caneta pronta a riscar os meus sonhos.

- Porque não andaste na escola de condução?

- Bem... para aprender o código comprei livros e achei que não precisava ir para a escola para o aprender.

- Como aprendeste a conduzir o carro?

- Hum... acho que foi nato. Via a minha mão e dentro da garagem eu andava com o carro para a frente e para trás. - já eu transpirava e não era verão

- Eras desses que anda às noites a fazer rally no meio da cidade?

- Há disso? Nunca ouvi falar. - sendo que eu era um deles e estava difícil manter-me concentrado

- Arranca. 

Fiz o que tinha a fazer e fui seguindo as instruções ou indicações. 

Chegámos à temida subida. O Sr. Hilário mandou-me parar. 

- Arranca sem deixar o carro descair.

Nesse momento, a minha perna esquerda começou a tremer com a intensidade de um tremor de terra em modo vibração. O carro parado. Eu quase comecei a tremer. A minha mãe à janela sorria e acho estava a rezar o terço mentalmente pelo que eu conseguia imaginar.

O carro nem soluçou. O motor não tossiu. Por um milagre da física e da adrenalina, o carro avançou suave. Não descaiu. Em contrapartida, deitei tanto fumo mental que parecia que estávamos a acender um forno com lenha molhada. Por acaso era um exercício que eu fazia todos os dias quando tirava o carro da garagem da minha mão porque ela nunca consegui tirá-lo. Mas eu não podia dizer nada naquele instante. 

Seguimos.

- Estaciona ali entre aquele Mercedes novo e aquele DKW - disse o Sr. Hilário, claramente com tendências sádicas, a julgar pelo olhar sorridente de quem estava pronto a me tramar.

Fiz a manobra. Olhei para o espelho, olhei para o passeio, rodei o volante. Na primeira tentativa fiquei a um metro do passeio. Até parecia que ali estava uma mota. Na segunda tentativa quase atropelei uma arvore que estava no passeio. Terceira tentativa encaixei numa perfeição quase perfeita. 

Ele olhou para fora e atirou: 

- Demasiadas manobras. Mas vá, arranca. 

E lá ia eu. Descontraído porque estava a correr como eu pensava que ia ser.

Estávamos a chegar ao fim. Eu já sentia o cheiro da carta de condução ou do papel que a substituía enquanto ela propriamente dita não chegasse. Foi então que vi um sinal de STOP. Mas a minha mente decidiu lê-lo como um sinal de  "Sugestão de Travar Opcional se aPetecer". Travei no último milésimo de segundo. 

Olhou-me e sussurrando disse-me que pensava que eu ia seguir. E eu respondi:

- O carro é que não queria parar... 

De volta às Obras Públicas ele disse-me

- Conduzes como se estivesses a tentar fugir de um crime, mas não cometeste nenhum erro eliminatório. Está apto. Mas tem cuidado com os Stops... e aprenda a diferença entre óleo e água quando fores meter gasolina.

E assim, num 3 de Março tirei a carta de condução


Sanzalando

28 de fevereiro de 2026

eu na escola primária

Quando eu cheguei à escola primária eu descobri três certezas absolutas

- O recreio era curto demais.

-  os alunos mais velhos eram ruins 

- a professora sabia tudo — inclusive quando alguém estava a mentir… mesmo antes de mentir.

A professora chamava-se Dona Maria. Tinha um radar invisível para os meus disparates. Bastava um lápis voar com ar suspeito e ela já levantava a cabeça devagarinho, naquele movimento que dizia até parecia estar a dizer eu vi… mesmo que eu sabia que ela não tinha visto.

Eu sentava-me na terceira fila, lugar estratégico: nem demasiado à frente para ser voluntário involuntário, nem demasiado atrás para ser automaticamente culpado de todas as coisas ruins que iam acontecendo na aula.

Um dia, a Dona Maria decidiu fazer a pergunta mais perigosa da minha infância:

- Quem quer vir ao quadro?

Silêncio. Um silêncio tão profundo que se ouvia o cérebro do Manel a pensar: Se eu não respirar, ela não me vê.

Mas a professora tinha superpoderes.

- João Carlos!

Quando um professor diz o nome completo, uma pessoa envelhece três anos de imediato. Levantei-me como quem vai cumprir pena leve.

Era uma conta de dividir. Na minha cabeça, os números começaram a dançar. Escrevi qualquer coisa com convicção artística. A matemática, percebi ali, é muito mais sobre fé do que sobre cálculo.

A turma olhava para mim como se eu estivesse a desarmar uma bomba.

- Tens a certeza? — perguntou a professora.

Essa pergunta é uma armadilha. Nunca temos a certeza quando nos fazem essa pergunta. Mas respondi:

- Tenho.

Ela sorriu. Aquele sorriso pedagógico que significa qualquer coisa como ele vai aprender agora.

Estava errado, claro. Mas saí do quadro com a dignidade possível e um aplauso silencioso do Manel, que tinha escapado naquele dia. Mais dias existirão, pensei.

No recreio, éramos todos génios. O campo de futebol era inclinado, as balizas eram duas pedras e as regras mudavam conforme o resultado ou conforme estávamos a jogar contra os mais velhos que até parecia já tinham barba. Se a bola saía do recreio estava democraticamente, que a gente nem sabia existia essa coisa, que tinha sido falta do vento que não travou a bola.

Havia também a Inês, que sabia sempre a matéria toda e ainda tinha letra bonita. Isso, na primária, era praticamente bruxaria.

E depois havia o momento sublime da sexta-feira: Podem arrumar tudo.
Essas duas palavras tinham mais poder do que qualquer hino nacional.

Hoje, quando passo por uma escola primária, ouço o barulho dos miúdos e penso que a vida devia ser sempre assim: metade nervos no quadro, metade gargalhadas no recreio.

E, no fundo, todos continuamos iguais - só mudámos o tamanho e o nome da mochila, que no meu tempo era pasta.



Sanzalando