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13 de abril de 2008

lutas

Me sentei assim num bar como que de olhos fechados a olhar para as paredes que assim pareciam ter ficado que nem vazias e fui enchendo a minha cabeça de imagens que ia recebendo de ouvido.
Percebi que algures estava sentado um homem ferido e zangado que nem uma fera, vi prisioneiros acorrentados em cadeias mentais, idealizei grilhetas em gargantas secas de tantos gritos sufocados.
Algures uma voz serena, lúcida, procurando sílabas abertas nos escombros das derrocadas de frases incompletas.
Permaneci de olhos fechados embriagando-me nas imagens que ia criando, lacrimejando pelas almas que sentia perdidas, gritando silêncios pelas vidas escuras.
Revoltado abri os olhos e comecei uma luta de gestos serenos e ideias claras, não lhe sabendo o fim e não espezinhado ou esquecendo os meios.


Sanzalando

10 de abril de 2008

e o mundo ...

E o mundo segue rodando lá fora.
Enterrado no meu sofá sinto a vontade enorme de me fundir no teu corpo, juntamente com a alma, seja lá o que isso seja. Sinto vontade de inclinar a cabeça ante ti e subjugar-me aos teus desejos num tempo indeterminado.
E o mundo segue rodando lá fora.
Enterrado no meu sofá interrogo-me se te cansarás de mim ao mesmo tempo que a minha barba se acinzenta e a força da gravidade me vá curvando a cabeça para mais perto do chão.
E o mundo roda dentro de momentos.
Enterrado no sofá, suportando toda a pressão atmosférica, recordo-me de ti tal e qual eu queria tu és e sinto-me com forças de correr toda uma noite para te agarrar.
E o mundo gira noutro lado qualquer.
Soterrado no sofá consigo escrever a legenda que poria na minha fotografia que não tive tempo de tirar:
O mundo rodará dentro de momentos.

Sanzalando

12 de novembro de 2007

Nas ruas da fantasia

Caminho por ruas de fantasia imaginado ouvir o marulhar nas vozes caladas dos que se cruzam comigo em passo apressado como quem vai para lado nenhum com horas perdidas num relógio sem pilhas.
Caminho e recordo-me que sonhei contigo. Recordo-me ou estou a sonhar agora, pouca diferença faz.
Estamos sós e os meus dedos exploram as tuas linhas, sentem a tua textura, os meus olhos regalam de ver a tua beleza e o meu nariz inspira o teu perfume. Misturamo-nos um no outro sem encontrar o princípio final, sem perder o desejo de o encontrar. Sinto-me ser beijado pela tua alma enquanto sou atraído pelo teu corpo. A minha pele é a tua pele e vice-versa.
Escuto a minha respiração ofegante numa ânsia que me invade. Aperto-te contra mim num medo de te perder.
Sussurro-te promessas feitas, canto-te esperanças enquanto o meu corpo se eleva.
Se isto é um sonho eu não quero acordar. Quero continuar este caminho por ruas de fantasia.
Este momento parece eterno, o nosso corpo transformado num só. Te abraço mais e em silêncio enquanto deixo este fogo arder-me.
Desperto-me transpirado e pouco a pouco vou saindo do meu sonho mas continuo a sentir que os teus olhos estão a olhar para mim.

Sanzalando

14 de junho de 2007

Os sonhos que sonho

Hoje caminhamos ao sabor das palavras. Eu, tu, o zulmarinho, a brisa, a maresia e a força do que querermos. Não posso esquecer o que trago dentro do coração, os sonhos que sonhei e lhes vivo em cada dia que vivo. Não posso esquecer o perfume da terra molhada depois duma tropical chuva que se abate sobre mim, me molhando até aos ossos sem me dar tempo de procurar um abrigo, Não posso esquecer o cheiro do óleo de palma a ser cozinhado, me abrindo o apetite num esquecimento de que a vida é mais que comer e dormir. Não posso esquecer a areia dourada se perdendo de vista numa calma que até atrofia o mais nervoso. Não me posso esquecer de olhar no horizonte e ver o verde mais verde do calor tropical.
Nesta caminhada que fazemos aqui no final do zulmarinho, se fosse feita lá no início dele, já tínhamos feito sauna, marcha e tomado banho, assim num piscar de olhos em que as lágrimas são lavadas.
Já sei que me vais dizer que eu me deixei conquistar por uma ilusão e que me perdi no rasto da minha estrada. Eu sei que é isso que estás a pensar, porque se percebe na tua silhueta.
Mas na verdade eu te digo que pode ser sonho, mas é um sonho bom de ser sonhado, é um sonho que procuro viver sempre.
Se eu não tivesse este sonho tu estarias a viver a minha vida como se fosse um deserto mais arenoso que o deserto dourado que te falei, estarias a morrer de sede de viver, estarias sob um céu desestrelado onde não podias nem respirar por estares afogada de infelicidade.
Foram tantos os momentos bons que lhe vivi que ainda hoje sinto as suas carícias e o seu perfume parece estar entranhado dentro mim.
Foram tantos os momentos bons que lhes sinto nos meus lábios como se fossem beijos que ainda não beijei.
São todos esses momentos que procuro e outros que eu sei lhes vou um dia encontrar e então, de sorriso aberto, peito descoberto te gritarei que sou feliz mesmo.

Sanzalando

15 de março de 2007

Valeu a pena


Vá lá, esperemos que amanheça num amanhecer de sol, mas façamos algo de útil, alguma coisa que nos dê prazer, que nos faça feliz no instante deste momento.


Se eu tivesse um espelho para olhar-me, ver as curvas da cara se vincarem numa marca indelével do tempo, que abstractamente não existe porque o tempo é real, e ver-me sorrir porque me sinto feliz.


Depois de uns tantos anos de sonhos e fantasias queria olhar-me e ver se valeu a pena, queria perguntar-me se é o destino que me conduz ou se é a força de um trabalho que me alcançou até aqui. Queria ver-me, numa de cara a cara, e saber se o desejado tinha sido alcançado e se por algum motivo eu devia estar arrependido dos caminhos até então percorridos.


Sem o espelho eu imagino que o esforço das vontades confluíram até este momento em que sorrio porque estou feliz. Sem o espelho penso que valeram a pena os anos, os dias e as noites de insónia.


Esse lugar que me persegue nas horas que têm os dias está ali. Espera-me. Eu lhe olho outra vez desde longe. Experimentei-o, saboreei-o, vivi-o. Cresci, amadureci e aprendi. Sem o espelho digo-me que valeu a pena, mesmo que eu me sinta prisioneiro dele. Mesmo que a força dos meus desejos arrastem para longe as moscas que, num equilíbrio instável, pairam sobre a minha cabeça como se fossem helicópteros tentando ler-me o pensamento. Mesmo que os meus suspiros façam acinzentarem os castanhos cabelos que ainda teimam em resistir. Mesmo que o sorriso fácil tenha dado lugar ao esboço e eu me sente sobre as piadas contadas. Mesmo que olhares confusos me olhem. Valeu a pena!


Sanzalando

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14 de março de 2007

Serenamente tranquilo



Caminho sereno em direcção aos raios de sol. Sem pressas, sem ultrapassar passos, sem galgar degraus das escadas que se me aparecem. Serenamente sereno. Um dia vai ser um dia de sol. Quem não consegue sonhar não é capaz de viver, por isso sonho com a chegada desse dia, aprendendo sempre naquilo que vejo e sinto. Serenamente seguro de mim, ausente das incertezas, caminho para que o dia chegue brilhante de sol, quente de paz interior, afagado nos carinhos entretando espalhados por uma brisa de fectos.



Caminhos com os olhos postos no amanhã sem deixar de ver o hoje e sem esquecer o que ontem vi.



Era fácil entrar nos caminhos da política, porta que se entra sem pedir licença, porém é um caminho sinuoso, beco de muitas saidas, deglutição de batráquios, jogos de cintura, maquilhagem e rostos sem expressão. Por ser fácil não me apetece ultrapassá-la, não me petece olhar em bússola para ver o quanto estou desviado do caminho pensado, não me apetece engasgar nem tenho ar de quem precise máscara. Prefiro mesmo caminhar em direcção aos raios de sol em pé firme, olhar tranquilo, sorriso na cara que se vê nos olhos.



Prefiro caminhos mais difíceis, porem mais certos, porem mais demorados.



Prefiro ver o zulmarinho, onde quer que ele esteja, sabendo que um dia, cedo ou tarde, eu estarei na sua nascente, sereno e de tranquila consciência.

Sanzalando

18 de janeiro de 2007

Me arrumando



Anda, senta aqui e repousa o corpo que a caminhada é longa e é necessário ter forças para lhe aguentar.
Tu sabes que há dias em que a gente se derruba por dentro. Sabes que hoje me olhei e no espelho e parecia uma dessas casas assim do tipo património mundial ou coisa mais pequena, em que só lá está a fachada e por dentro está assim é um vazio grande que enche qualquer espaço que parece está escondido dos olhos. É, parece o mundo desabou nos pés e a desordem se inundou-me. As recordações se amontoam sem qualquer ordem sobre a capacidade de pensar, que por sua vez se descola dos sentimentos. Misturei-te as ideias? Pois é mais ou menos assim que eu me baralho hoje nesta desvontade de caminhar e recuperar alguma força para continuar a caminhada.
As sensações desapareceram, todas menos a tristeza, que se fez senhora e dona do meu cérebro, dominando acções, reacções, gestos e palavras.
Pois é, tu sabes, que há dias em que eu mesmo me derrubo por dentro.
Assim como mais assim é mesmo melhor a gente se sentar nesta areia de mil cores, olhar o zulmarinho se baloiçando e ver se consigo pôr em ordem a desordem em que me arrumo e que faz um peso danado nos meus pés este desabar do mundo sobre eles.
Um a um vou-lhes organizar os pensamentos, as recordações e os sentimentos. Os que não me interessa ter porque são velhos, absurdos ou são aborrecidos deixarei enterrados aí num buraco que farei na areia. Assim, me reconstruirei por dentro e se verá por fora.
Sentes a brisa que sopra? Ela mesmo vai tapar esse buraco.
Olha bem para cima daquele monte de areia que fizemos numa das nossas caminhadas. Em cima dele está a minha indecisão. Como é pesada a brisa ainda não lhe conseguiu levar para longe. Olha ali rebolando contra o zulmarinho todas as palavras que eu nunca deveria ter dito. Agora vê sobre as ondas, como que boiando, os antigos amores como que não sabendo se vão ao fundo ou se voltam para terra para arrancar o que resta do meu coração.
Vês como é fácil a gente se arrumar por dentro e transparecer por fora?


Sanzalando