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7 de agosto de 2026

Cirurgiando numa noite

O diploma de cirurgião ainda nem tinha secado a tinta quando me vi instalado numa sala do Hospital Distrital. Tinha trinta anos, uma cara de quem ainda pedia autorização à minha mãe para sair à noite e no livro de ponto estava escrito para lá do nome a palavra Chefe. A partir das vinte horas daquela sexta-feira, era o cirurgião principal de serviço e por acaso era o único. A derradeira linha de defesa entre a vida e a morte no hospital.

Nos primeiros trinta minutos, refiz tudo o que aprendera com o bisturi, de forma mental e pratiquei o meu olhar de autoridade sentado numa cadeira, desconfortavelmente. Imaginava-me num episódio dramático de televisão, pronto para salvar vidas em cenários impossíveis com um sopro de genialidade táctica. A realidade, contudo, prefere a comédia ao drama.

A primeira urgência da noite não veio acompanhada por luzes azuis e sirenes estridentes, mas sim pela enfermeira-chefe, uma mulher que já trabalhava naquela urgência desde antes de eu ter aprendido a tabuada dos sete ou a dos nove, pois não sei qual aprendi primeiro. 

- Sr. Doutor, temos uma emergência - anunciou ela, com a tranquilidade glacial de quem me diz o tempo meteorológico.

Levantei-me com rapidez teatral, sentindo o coração marchar no peito como um tambor da banda do Cassequel. Corri pelo corredor em forma de L, já a rever mentalmente os passos de uma laparotomia de urgência, para encontrar um senhor de setenta anos, de pijama às bolinhas, com um osso de galinha entalado na prótese dentária.

A cirurgia de alta precisão durou exatamente doze segundos e exigiu uma pinça e alguma diplomacia para pôr uma compressa onde o osso furara a gengiva.

O resto da noite decorreu de forma surreal de pequenas crises existenciais. Às duas da manhã, entre três cafés intragáveis, tive de emitir um parecer urgente sobre uma ferida no dedo de um padeiro local que jurava ter sido atacado por um espadarte empalhado, não fosse o cheiro a tinto eu nem me apercebia que o pão hoje ia faltar num lugar qualquer. Às quatro, enfrentei o seu maior pesadelo táctico: tentar decifrar a caligrafia do médico da tarde para perceber se o doente da cama quatro tinha alta ou se estava marcado para uma cirurgia qualquer.

Pelas seis da manhã, sem qualquer catástrofe cirúrgica para contar na minha futura biografia, mas com as pálpebras a pesar dez quilos cada uma, percebi a grande lição da medicina na província: a autoridade de um cirurgião principal não se mede pela complexidade do bisturi, mas sim pela capacidade de manter a dignidade enquanto pede a um enfermeiro que lhe mostre, pela terceira vez, onde fica a sala de estar, já que me havia perdido umas tantas vezes.



Sanzalando

31 de julho de 2026

Da Austrália a Portugal, sai um apêndice

O Robert tinha um plano perfeito para as suas férias em Portugal: sol, praias algarvias e surf, muito surf. O plano corria lindamente até que ao terceiro dia, uma dor na barriga, que ele jurava ser apenas uma revelação cósmica provocada por excesso de mar e sandes, decidiu fincar o pé do lado direito daquela barriga de 21 anos. O mar da costa norte, como chamam à outra costa algarvia para lá de Sagres, era o lugar ideal para aquele jovem à procura de aventura, surf e amigas. A verba não abundava pelo que optara por cortar na comida. Um refeição séria e depois pão e mar.
Às duas da manhã, sozinho num quarto de hostel perto de Aljezur, o Robert percebeu que não era a comida que lhe fazia doer cada vez mais. Era o apêndice a gritar  um adeus ou tirem-me daqui.
Sem família num raio de mais mil quilómetros, o Robert deu entrada no hospital público com a dignidade de quem veste calções de praia amassados, uma t-shirt a dizer I ❤️ PT e chinelos de enfiar o dedo.
No meu inglês mais de praia do que científico, fui claro:
Ora bem, isto é uma apendicite aguda. Vamos ter de abrir e tirar isso já — anunciei, com a calma de quem vai só mudar o óleo a um carro.
O pânico do Robert não era a cirurgia; era a burocracia da solidão. Sem mãe para lhe segurar a mão ou pai para reclamar com os médicos, ele tentou o seu melhor, só queria falar com o pai.
Emprestei o meu telemóvel e até hoje foi a única chamada que fiz para a Austrália. A preocupação do pai era como mandar o dinheiro para pagar ao hospital. Explicado que isso era um problema que não existia que depois os serviços iriam entrar em contacto com ele ou com os seguros ou seja lá como é que era que isso não era agora um problema. 
Passei o telemóvel ao Robert que continuou a falar, cada vez mais choroso e notava-se que o loiro dos seus cabelos estavam a ficar pior que mar bravio. Desligou e disse-me:
- Eu não quero morrer!
Uma enfermeira de coração de ouro, olhou para ele, ajeitou-lhe o lençol com um safanão e respondeu no mais puro sotaque nortenho (apesar de estarmos no sul):
Deixa-te de parvoíces! Aqui ninguém morre. E a partir de agora, eu sou a tua mãe, a tua tia e a tua avó. Vá, toma lá o soro e cala-te.
Tudo preparadinho fomos para o Bloco Operatório
A anestesia fez efeito e o Robert apagou. Quando acordou na sala de recuperação, ainda meio grogue, olhou para o lado e viu que a promessa da enfermeira era literal. 
Então, campeão? Já acordaste? — disse o Joaquim, assistente operacional, mais eficiente no trato que muitos de nós em bom a inglês a prometer-lhe gelatina de morango mal tivesse ordens para isso. Entrei no quarto e disparei:
- Correu bem. O teu apêndice já era. Agora é que vais ver o que é bom, o pessoal tratam-te como um príncipe.
Nos dois dias seguintes, o isolamento do Robert transformou-se num fenómeno social. Como o estrangeiro do apêndice estava sozinho, o pessoal do hospital adotou-o. Eu passava a manhã para falar de surf e ondas, o enfermeiro da noite explicava-lhe onde comer as melhores amêijoas na zona, e as auxiliares entravam no quarto para lhe ensinar palavrões em português para ele usar "quando voltasse à noite.
Quando finalmente teve alta, o Robert estava quase triste por ir embora. Não tinha família de sangue por perto, mas saiu do hospital com uma cicatriz nova, três receitas médicas, o contacto de Instagram de metade da equipa de enfermagem e a certeza absoluta de que, em Portugal, até uma cirurgia de emergência sozinho acaba com sabor a almoço de domingo em família.


Sanzalando

30 de julho de 2026

numa urgência tudo pode acontecer

Foi nos gloriosos anos 90, quando os hospitais ainda tinham corredores onde o eco das passadas pareciam anunciar más notícias, as radiografias viam-se penduradas em retângulos iluminados, pomposamente chamadas de negatoscópio, e o café da cafeteira era considerado um tratamento complementar que nos era oferecido pelas auxiliares..

Eu era um jovem cirurgião.

Jovem significa, em medicina, alguém que sabe tudo... durante cerca de três semanas. Depois percebe que afinal sabe pouco, mas ao fim de alguns anos descobre que então sabe ainda menos. É uma especialidade excelente para combater a vaidade.

Naquela manhã apareceu um senhor de quase oitenta anos. Entrou no gabinete da urgência com uma calma irritante. Quem estava nervoso era eu.

- Então, doutor... sou eu o seu primeiro da manhã?

- Sim - babulciei.

Ele sorriu.

- Ainda bem. Assim, se correr mal, o senhor melhora para o segundo.

Sorri por educação. Interiormente procurei o manual "Como responder a um doente com espírito brincalhão?". Não existia, pelo menos para mim. Comecei a fazer perguntas.

- Tem alergias?

- Tenho.

- A quê?

- A hospitais.

Anotei com a minha letra ainda redonda e perfeitamente legível apenas -sem alergias conhecidas.

Continuei.

- Alguma doença importante?

- Casamento. Há cinquenta e dois anos.

Olhei para ele com o ar mais sério que conseguia ter na altura.

Ele olhou para mim a sorrir.

A enfermeira que havia entrado uns segundos antes fingiu que estava muito ocupada a organizar papéis para não se rir.

Reli a ficha. Virei a página e continuei a ler. O meu colega tinha escrito "apendicite". 

Como é que uma apendicite ainda dá para ter esta disposição toda? Deite-se ali, disse-lhe apontando para a marquesa. 

- Outra vez? - perguntou ele - Já o seu colega me fez andar aqui aos saltos...

É. Ele tinha, tudo indicava, uma apendicite. As análises mostravam leucocitose. As minhas mãos diziam que era mesmo. 

Com o ar mais sério e carrancudo expliquei a cirurgia com todo o rigor científico.

Desenhei.

Mostrei exames.

Falei de riscos, benefícios, complicações e recuperação.

Quando terminei, ele fez silêncio.

Pensei que estava impressionado com a minha competência.

Afinal perguntou:

— Doutor... e isso tudo custa muito ou cobra pelas palavras que recitou?

Foi nesse momento que compreendi que aquele homem estava ali para me testar.

Pedi á enfermeira para prepará-lo para o bloco.  Queria transmitir confiança.

Ela levou-o. Falei com o Chefe que sorria e me dizia se é avança!

Fui ver o doente outra vez.

Encontrei-o a ler o jornal, deitado numa maca e tapadinho com lençol branco imaculado.

- Está pronto? -perguntei

- Prontíssimo. O senhor é que parece que não.

Disfarcei.

- É normal.

- Não é normal, doutor. O senhor é que me vai operar. Eu só tenho de me deitar e deixar-me dormir.

Nunca uma frase tão simples me fez sentir tão pequeno.

Fomos para o bloco. Quando entrou no bloco operatório, ele cumprimentou toda a gente como quem chegava a uma festa.

- Bom dia! Não se preocupem. Trouxe bom humor para todos.

Enquanto o anestesista preparava tudo, perguntou-me:

- Doutor... já tomou pequeno-almoço?

- Já respondi mecânicamente.

- Ainda bem. Nunca confiei em quem trabalha de estômago vazio.

Quando a anestesia começou a fazer efeito, ainda teve forças para dizer:

- Se correr tudo bem, pago-lhe um café.

Fechou os olhos.

A operação correu exatamente como devia, excepto a quantidade de pús que tinha naquela barriga e que me surprendeu, bem como à restante equipe.

Tamanha surpresa. Uma peritonite e uma disposição de enganar o mais sabichão que me achava. O pós-operatório imediato decorreu sem sobressaltos.

À tarde quando o fui ver ao quarto, estava ele bem acordado e sorriu-me e disse:

- Afinal tem jeito.

Confesso que aquelas três palavras valeram mais do que muitos elogios recebidos depois.

Dias mais tarde recebeu alta.

À saída apertou-me a mão.

- Doutor...

- Diga.

- O senhor estudou muitos anos para aprender a operar.

- É verdade.

- Pois eu estudei oitenta para aprender a não ter medo.

Ficámos os dois em silêncio.

Percebi então que, naquele hospital, no mesmo dia e na mesma hora tinham sido feitas duas intervenções.

Eu tinha operado a barriga dele. Ele tinha operado o excesso de confiança do jovem cirurgião.

Sem anestesia.

Sem bisturi.

E, curiosamente, sem deixar cicatriz.

Desde esse dia aprendi que alguns doentes chegam ao hospital para serem tratados. Outros chegam para nos ensinar. E esses são perigosíssimos. Saem pelo próprio pé, e levam um pedaço da nossa arrogância na mala.


Sanzalando

28 de setembro de 2025

O médico que receitava gargalhadas

Na pequena cidade de um sul havia um médico conhecido não só pela arte das suas mãos e curas, mas também pelas piadas e humor constantes. Tinha nome feito mas muitos apelidavam-no simplesmente de “o médico brincalhão”.

Os doentes entravam no consultório com dores ou preocupações, mas quase sempre saíam a rir. Em vez de começar com a clássica pergunta “O que sente?”, doutor Américo perguntava:

- Então, veio cá porque está com falta de humor?

Se a pessoa se queixava de dores de estômago, ele prescrevia:

- Duas sopas de legumes e três gargalhadas antes de dormir, e faça o favor de se deitar antes de adormecer, pois é muito difícil a sua senhora levá-lo para a cama.

Se era criança, e quase sempre criança tem medo de médico ele fazia mil piruetas, outras tantas caretas e só depois é que se aproximava e só depois de todos rirem é que palpava ou fazia o que tinha a fazer, quase sem dor.

Acho que ele também auscultava as saudades e os sons da tristeza.
- Hum… este coração aqui bate forte por alguém que faz falta, estou certo?

Claro que o doutor levava a sério os tratamentos. Nunca deixava de receitar os remédios necessários, mas dizia sempre que a melhor medicina era a alegria. “Corpo sem humor”, afirmava, “adoece mais depressa do que corpo sem remédio.”

No fim, ninguém sabia se a fama do médico vinha das curas ou das gargalhadas. Mas todos concordavam numa coisa: quem saía do consultório sentia-se sempre um pouco mais leve – e talvez fosse esse o seu maior segredo.



Sanzalando

12 de setembro de 2025

Os meus retalhos 40

Na  cidade  havia um médico muito diferente dos outros. Chamava-se doutor qualquer coisa que agora não me lembro, um homem já grisalho, mas com um sorriso que parecia de menino. Não usava fato nem bata, usava uma farda verde que depois passou a azul, porque dizia que o branco assustava e depressa de acastanhava o que assustava os pequenos e enchia de seriedade os adultos. 

Quando os doentes chegavam ao gabinete, em vez de ouvirem a frase fria “próximo!”, encontravam um homem que perguntava:

— Hoje você trouxe o seu coração pesado ou leve, a sua cara doente ou o sorriso fechado?

Alguns riam sem entender, outros se surpreendiam, mas todos acabavam se sentindo um pouco mais leves. O doutor acreditava que o riso era um remédio poderoso, e por isso fazia da consulta um pequeno espetáculo. Sempre uma palavra simples, um carinho, um trocadilho ou simplesmente um ar de quem não deve ser levado a sério.

Quando estava próximo de uma criança que ia apanhar uma injecção ele dizia:

- Vais sentir só a picadinha do mosquito… mas é mosquito brincalhão que não morde!

Os adultos também não escapavam. Para medir a tensão arterial ele dizia:

- Vamos ver se esse braço anda fofoqueiro… vou apertar pra ver se solta algum segredo. Cuidado com o que pensa que eu aqui ouço tudo.

Muitos saíam dali ainda com remédio na receita, mas com o espírito renovado, como se o corpo tivesse recebido não só cura, mas também esperança.

Alguns colegas médicos o criticavam: diziam que ele “não levava a profissão a sério”, queria era as velhinhas que lhe mimavam. Mas os doentes defendiam-no com fervor. “Doutor cuida da gente por inteiro”, diziam, “não só do corpo, mas da alma”.

Certa vez, uma senhora muito idosa lhe perguntou:

— Doutor, por que o senhor sempre brinca?

Ele sorriu e respondeu:

— Porque a doença já é bastante séria. O que posso dar, além do remédio, é um pouco de alegria. E isso não tem contraindicação.

E assim, entre gargalhadas e consultas, o doutor seguiu a sua vida até chegar o dia em que se reformou. Muitos juravam que ia voltar, não porque lá houvesse muita falta, mas porque os corações dos doentes sabiam brincar, junto com o médico que os tratava. Mas ele não voltou. Um dia alguém perguntou-lhe porquê e ele num quase silêncio respondeu:

- Tiraram os doentes e colocaram clientes.


Sanzalando

9 de setembro de 2025

Os meus retalhos nº 39

Não me gabando que até podia parecer mal, sempre foui considerado um bom cirurgião do hospital. Minhas mãos firmes e a calma diante da pressão eram conhecidas entre colegas e pacientes, assim como um certo mau feitio derivado da concentração e disponibilidade total para o instante cirúrgico. Durante anos, acumulou sucessos e salvou inúmeras vidas. Mas na verdade também com fracassos e com a impotência pela hora tardia a que a doença havia chegado às suas mãos.

Mas uma noite, após horas seguidas de urgência, foi chamado para uma cirurgia de emergência. O paciente tinha uma hemorragia interna grave. Entrei na sala confiante, como sempre, mas o cansaço nublava o raciocínio. Um pequeno detalhe, imperceptível, que me passou despercebido - no caminho para o bloco o paciente havia feito uma paragem cardio-respiratória. O que não me fora transmitido. Pequeno detalhe de comunicação, grande detalhe na intervenção

A cirurgia não terminou como esperava. Apesar de todos os esforços da equipe, o paciente não resistiu intra cirurgia..

Nos dias seguintes, fechei-me em silêncio. Pela primeira vez na minha carreira, senti o peso esmagador do fracasso. A pergunta não o deixava em paz: “E se eu tivesse sabido daquele detalhe a tempo?”

Mas, em vez de desistir, decidi encarar o erro. Voltei a estudar, revi protocolos, conversei com colegas, e, sobretudo, passou a ouvir com mais humildade as vozes ao seu redor. Descobriu que, embora os cirurgiões sejam treinados para buscar a perfeição, também são humanos.

Anos depois, com novos sucessos acumulados, contava essa história para os jovens internos, sempre concluindo:

— O fracasso dói. Mas, se aprenderes com ele, podes salvar muitas vidas que ainda estão por vir.



Sanzalando

1 de agosto de 2025

Meus retalhos 38

Cheiro a álcool. Cheiro a betadine ou iodopovidona para não fazer publicidade a ninguém. Era sinal que eu ia calçar luvas, concentração máxima, bisturi na mão e corte e costura. Todas eram a cirurgia mais importante da minha vida. As passadas que correram bem não me vinham à memória. As que correram mais ou menos estavam sempre a vir à superfície mental. As que correram mesmo mal essas não saiam nem para dormir. Mas a mais importante era sempre aquela, a daquele instante. O bisturi é um instrumento cortante, afiado e sem personalidade própria mas por vezes parecia querer ser independente. 
Na verdade a vida daquele paciente estava agora na ponta do meu bisturi. Eu posso cortar alguém. Bem, é claro. Mas às vezes a minha confiança vacilava. Eu previa o futuro por instantes. Antecipava-o. Um erro, um tremelique, uma distracção, um momento de loucura e lá se ia o meu passado e o futuro de quem estava deitado. 
As luzes da sala quase sempre eram insuficientes. Ninguém conseguia ver o medo que eu sentia. A plateia, adormecida, não ia dizer um ai ou resmungar. Os meus neurónios ferviam na febre do medo. Era a cirurgia mais importante. Aquela, que fizera centenas semelhantes. Mas aquela ali era o instante. 
- E se me dá alguma coisa?
pergunta calada na retórica de um ser consciente.
Fechava os olhos, pedia silêncio e actuava. O medo estava lá mesmo que eu não deixasse entrar em mim. Naquela não. Eu era teimoso, mas acho ele era mais que eu.
Suspirava, inspirava. Bufava, resmungava no meu silêncio e calado continuava a pôr cá fora o meu mau feitio, como então me diziam. 
Bisturi sem tremor, arma feita ferramenta. Actuava. Era a mais importante para mim, aquele momento.
Hoje, passados dois anos e quatro meses, ainda sinto o medo que não deixava entrar em mim, ainda guardo o silêncio das memórias que não apago, que não se afastam e que me sacodem nos instantes dos meus silêncios.
Afinal de contas, o medo era uma visita constante que não se afasta da responsabilidade



Sanzalando

3 de junho de 2025

Meus retalhos 37

Durante anos, fui conhecido como mau feitio e pouco sensível. Nenhum tremor, nenhum erro. Os olhavam-me como se eu fosse um ser perfeito. E eu aceitava, agradecido.

Naquela manhã, porém, algo estava diferente.

Era uma cirurgia simples — uma operação vulgar que fiz centenas de vezes. A equipe era a mesma, porque quase sempre éramos os mesmos, a luz do campo cirúrgico a mesma, o protocolo idêntico. Mas quando olhei o nome do doente o meu peito apertou, o coração acelerou. 

Rafael. Sete anos. Cabelos castanhos num quase louro e revoltos. 

Não o conhecia de outro qualquer lugar. Havia-o conhecido duas horas atrás na Urgência pediátrica. Mas não fiquei bem e não era nem cansaço nem dúvida diagnóstica. O coração continuava acelerado, eu transpirava mas a causa era-me desconhecida. 

Agora, ali estava ele anestesiado, na marquesa, respirar com ajuda de máquinas, o coração batia e eu via o monitor e os pais lá fora confiando em mim. 

A máscara escondia meu rosto, mas não o meu medo ou lá o que era o que eu sentia. Minhas mãos, treinadas para cortar com precisão, hesitavam. O bisturi parecia pesar toneladas. Não posso desistir agora, diziam-me em silêncio sepulcral. Quem me ia ajudar era um jovem inexperiente. Os enfermeiros eram habituais e não piavam e se calhar nem me olhavam.

- Doutor, começamos? — perguntou a enfermeira instrumentista, sem notar o leve tremor dos meus dedos enluvados.

Respirei fundo. Pensei em fugir.  Mas não podia. 

- Sim. Vamos começar. disse em tom forte que até me surpreendeu.

Naquele instante, compreendi algo que nos anos de medicina nunca me ensinaram: coragem não é ausência de medo — é enfrentá-lo.

A cirurgia durou pouco mais de quinze minutos.

Quando terminei, olhei para o monitor. O pequeno coração de Rafael batia com a mesma força que eu tinha visto.

Saí da sala, tirei a máscara, e pela primeira vez em anos, chorei.

Eu, cirurgião, também tinha medo. Mas não deixei que ele me vencesse, principalmente quando eu não sei a causa.


Sanzalando

1 de junho de 2025

meus retalhos 36

A sala de operações estava mergulhada num silêncio clínico, cortado apenas pelo som ritmado dos monitores cardíacos e do arfar subtil da ventilação mecânica. Luvas, bisturis, máscaras — tudo em seu lugar. Eu, cirurgião experiente e concentrado, olhava a equipe com ar sisudo. Todos sabem o meu mau feitio que mais não é que a minha maneira séria de ser em trabalho. A Cirurgia decorria como previsto. Tal e qual se havia pensado.

Mas então, algo mudou.

Primeiro foi o leve mexer do braço do doente. Pequeno, quase imperceptível. Depois, um suspiro, não da máquina, mas dele. Do doente O anestesista franziu a testa e olhou para o monitor. Saturação estável, pressão normal... mas os olhos do paciente, até então cerrados, se entreabriram, opacos, como se vissem através do tecto.

- Doutor... — murmurou umaa enfermeira. — Ele está acordado?

O bisturi parou. Um segundo de hesitação pareceu durar um minuto inteiro. Olhei o anestesista como se eu fosse o lobo mau a ter um acesso de fúria.

O anestesista, em silêncio, correu para ajustar a dosagem duma droga qualquer. — Isto não devia estar a acontecer, vociferou num quase silêncio ao mesmo tempo que me olhava com chama de um dragão em resposta ao meu olhar.

E então, o paciente murmurou. Não um grito, não uma pergunta. Uma palavra só:

Ajuda... num tom quase silencioso

Mas no meio daquele silencio estupefacto palavra ecoou na sala como um trovão sussurrado. Por um instante, todos pararam e olharam-me. Os meus olhos ainda olhavam sobre o corpo aberto. O anestesista ajustou rapidamente a dose, murmurando palavras técnicas misturadas com muito menos técnicas. 

- Ele não devia ser capaz de falar se estivesse anestesiado — disse eu com a voz baixa, mas firme. 

- Já aumentei as doses. Vai apagar em segundos. respondeu-me o anestesista com voz mais esfoliante que arame farpado

Mas os olhos do paciente continuavam bem abertos. Não havia sinais de dor, nem de pânico — mas de algo que ninguém conseguiu nomear naquele instante. Ele virou ligeiramente a cabeça, como se tentasse encontrar o cirurgião que era eu.

Não é meu, o corpo... — sussurrou.

Se havia silêncio, mais silêncio de fez.

O monitor apitou — uma linha reta.

O anestesista gritou.

- Parou! Paragem cardíaca.

A equipe entrou em acção, mas eu, por uns instantes, fiquei imóvel, encarando o rosto sereno do paciente. Aquela última frase ecoava em minha mente como uma agulha arranhando um velho disco de vinil.

Era só um dos eletrodos que se tinha desligado pela pela suada. 

Continuei a operação até ao seu fim.

Amuado recusei falar com o anestesista. Típico cirurgião. Aguardei a ida do doente para o recobro. Mantive-me em silêncio enquanto escrevia a papelada correspondente. Os meus internos, a minha equipe permanecia em silêncio à minha volta. Uns faziam que escreviam, outros olhavam para os seus telemóveis. Ninguém ousava ausentar-se daquele espaço. 3 quartos de hora haviam passado e fui ao recobro ver o doente.

Encontrei-o sorrindo e bem acordado. 

- Como correu? perguntou-me ele

- Você deve saber melhor que eu. Viu tudo! disse-lhe tentando antecipar qualquer queixa.

- De facto sonhei que estava a ser operado, mas não sentia nada e nem sei quanto tempo lá estive, o anestesista deve ser mesmo bom. respondeu-me com os olhos de quem estava feliz por ter acabado aquele episódio

- Correu bem, tal e qual tínhamos falado. não me apetecia falar. Sentia ainda o lobo mau dentro de mim.

Virei-me para a equipa e despedi-me com um "até amanhã", a que me responderam com um obrigado que mais parecia de alivio que de agradecimento.


Sanzalando

30 de maio de 2025

Meus retalhos 35

Estava eu de urgência, início de carreira, fazia tudo. Desde que o doente chegasse à urgência eu via. Não me importava se era cirurgia ou ortopedia ou lá o que fosse. Eu queria era ver e tratar doentes. Era novo e cansaço não era desculpa nem imaginava que isso existia. Entra pela porta uma senhora, para aí uns 70 anos, para mim naquela altura era uma velhota, mas merecedora de toda a atenção. Foi trazida pela filha mas entrou pelo seu pé e sozinha. Na altura não havia autorização para entrada de acompanhantes. Acho que ainda nada era feito no computador, era escrito na ficha em papel. Cumprimentos, meu olhar clínico já tinha visto a boca desviada e atirei:

- Há quanto tempo teve o AVC

- Dr. nunca tive isso. Só tomo drogas para a tensão porque o meu médico disse que eu tinha tensão alta.

- Desculpe-me. Mas como vi a boca assim desviada...

interrompe-me:

- Por isso estou cá agora. Olhei-me ao espelho e via a boca assim de lado e ao mesmo tempo parece que tenho cortiça na bochecha. 

- Ok. Vamos lá ver bem. levantei-me, toquei na cara, mexi na pálpebra e comecei a pensar.  Nas pernas sente alguma coisa? Ou nos braços do outro lado? fui fazendo perguntas.

- Senhora (não me recordo agora do nome) bom bom era fazer um TAC mas neste hospital não há. Só em Lisboa e acho que não erxiste assim nenhuma urgência em fazer. Eu já estava certo que não era um AVC. Todo o exame clínico dizia-me isso.

- Sabe, acho que tem uma paralisia do facil. Um nervo que enerva esse lado da cara está afectado por qualquer coisa. Vou passar-lhe aqui uma medicação e volta cá, porque vou cá estar no sábado, daqui a 6 dias. De dia se faz favor. E dei-lhe um papel com essa indicação. 

- Dr. não é melhor falar ali com a minha filha?

- Claro, claro.

E lá fui eu, expliquei a minha opinião e tratamento.

No sábado ainda estava na mesma. Não piorou nem melhorou. Mas eu tinha a certeza e fui marcando um dia de semana para rever. 

Após 4 semanas ela apresenta-se, recuperada e diz-me:

- Obrigado, Dr. O que mais me doía era o olhar triste das pessoas quando me olhavam. Agora já lhes posso sorrir.

 

 

Sanzalando


28 de maio de 2025

Meus retalhos 34

Fui médico 39 anos e 4 meses. Vi de tudo, penso eu. Ouvi pacientes que juram que têm "o Google a dizer que é cancro". Outros tive com remédios caseiros feitos com cebola, mel, bicarbonato de sódio e nenhum, talvez só por acaso, que tenha adicionado o famoso lubrificante que também serve para tudo, WD-40.

Era uma quinta-feira morna, daquelas dias que nada prometem. Estava no consultório, a fazer as minhas consultas semanais, com os meus doentes, diria, crónicos, e alguns novos encaminhados de algum lugar.

- Doutor - disse o paciente que eu via pela primeira vez - estou com um problema "muito sério".

O paciente, senhor na casa dos 50, ar imponente, camisa aberta até o terceiro botão, corrente de ouro a brilhar sobre um peito cabeludo começou a falar mal transpôs a porta

- Bom dia. Sente-se - disse eu um pouco incomodado e sem jeito.

- Doutor, prepare-se. O que tenho... ninguém sabe tratar. Já fui a três médicos, uma senhora que lê cartas, ao YouTube e ao Google. Ninguém me resolveu.

- Diga lá o que sente - talvez com cara de pau com aquela entrada

Ele olha-me nos olhos, baixa a voz e diz:

- Doutor… espirro quando penso em sexo.

Fiquei calado dois segundos, fechei os olhos, pensei e repensei.

- Desculpe-me? - foi o que saiu

- Sempre. Basta pensar em sexo e atchim! Já não posso nem ver  mulher alguma na televisão. É olhar e atchim! Até a minha mulher acha que sou alérgico a ela. E cada vez que espirro a porca da hérnia dá pulos que até parece está a querer fugir de mim.

Mordi o lábio inferior para não rir, segurei-me à cadeira, olhei para o computador. Mas ele estava sério. Muito sério, mesmo.

— E isso acontece há quanto tempo?

— A Hérnia desde há muito, mas não liguei até que começaram estes espirros.

- Quando começaram os espirros? - segurando as palavras para não desatar a rir

- Desde que comecei a tomar um xarope para a sinusite, há uns dois meses que me foi dado pelo meu vizinho, que lhe fez muito bem.

Pedi para ver o xarope. Ele tira do bolso, como quem mostra contrabando. Olho para o rótulo.

"Cloridrato de pseudoefedrina".

Respirei fundo. Virei-me para o computador sem saber se ria se chorava. Pedi exames com o ar mais compenetrado do mundo. Recompus-me e virei-me para ele:

- Sabe que esse xarope tem como efeito secundário… excitação leve em algumas pessoas? - gaguejando para não perder o meu ar professoral

Ele arregalou os olhos.

- Está a dizer que o xarope me deixa…?

- Com a cabeça nas nuvens e o nariz sensível, digamos assim. 

Ficou em silêncio. Depois soltou um:

- Ahhh! Então não sou pervertido! Sou só alérgico ao amor!

E desatámos os dois a rir. Um riso livre, quase terapêutico. Acabei por lhe trocar o xarope. e continuar a sua inclusão em lista de espera para tratamento da hernia. 

E ele saiu, a dizer:

- Doutor, se me vir a espirrar na rua… já sabe. Olhe à volta...


Sanzalando

25 de novembro de 2024

Meus retalhos 33

Quantas vezes o meu mundo desabou que nem tremor de terra seguido de marmoto? Cada cirurgia mal sucedida, cada tratamento sem resultado, cada vida perdida e eu morria um pedaço. 
- Mas vocês estão preparados para isso! tantas vezes ouvi esta barbaridade. Como é possível alguém estar preparado para o desaire?
Não. Gastei o meu jogo de cintura, desconseguia aguentar o peso de tanto desleixo e de tanta falta de responsabilidade. Não gostei de ver o que tanto me havia custado conseguir ir ladeira abaixo como carrinho de rolamentos, inércia apenas. Tudo à minha volta muda. Eu não mudo. Aceito tudo o que sempre aceitei. À minha volta tudo estava diferente e eu não conseguia ver desabar o monumento e permanecer de braços cruzados. Protestei. Contestei. Perdi e saí. Fechei todas as portas, perdi o fio condutor, segui outros rumos e não me peçam para levantar de novo a bandeira que carreguei tantos anos e que deixaram estragar.


Sanzalando

23 de novembro de 2024

Meus retalhos 32

São cinco da tarde. Hora de um café e se calhar de um bolo. Vou ao bar, sereno e calmo porque a tarde assim estava e eu assim me sentia, apesar de ter uns dias a me sentir cansado. Mas eu estava bem. No trajecto para o bar acendi o meu cigarro. Na altura ainda fumava que nem uma fábrica em produção contínua. A minha colega de urgência chama-me e diz que temos que ir operar. 
- Ok. Vamos. que remédio se era essa a minha missão.
E lá fomos os dois fazer uma cirurgia que se prolongou até quase às 20. Nem café nem bolo. No fim da cirurgia, ainda não tínhamos acabado, sinto um forte dor nas costas, região da omoplata esquerda. Sem dizer nada aguentei até que terminámos a cirurgia. Não me recordo se era eu a operar ou era ela. Era indiferente. Mal conseguia respirar e disse-lhe:
- Enquanto escreves os papeis eu vou à radiologia.
Não sei se me respondeu ou não porque mal falei segui. Na minha cabeça as contas de somar e subtrair diagnósticos em causa própria foram sendo anulados ao ponto de ter só um quando cheguei lá.
Pedi e o técnico prontamente acedeu e lá fomos para o não respire e já pode respirar. 
A imagem chegou ao monitor de grande resolução. Mal a olhei e a pouca esperança que tinha desapareceu que nem éter. Não se esfumou porque éter não deita fumo. Sentei-me na cadeira mais próxima. Olhei mil vezes para o nome a confirmar que era o meu.
Por trás de nós, de mim e do técnico, passa o radiologista, mãos atrás das costas, não imaginando que aquele Rx era meu pois é meu hábito ir in loco ver imagens, não só pela maior nitidez mas porque o diálogo com quem faz imagens trás luz e pode haver necessidade de fazer numa outra posição. Ele não para, porém a olhar para o monitor dispara:
- ...esse gajo está f***
Se eu já não estava a pensar fiquei assim como que petrificado a dizer-me que era impossível, nem sei bem o quê. O sangue estava congelado. O pensamento estava paralisado, a reacção tinha desaparecido.
O técnico levantou-se, penso que foi ter com o radiologista pois este num instante regressa e olha com olhos de ver, aumenta e diminui a imagem e diz-me
- esse gajo pode estar com sorte. Parece que é uma tuberculose. Silva, faz-lhe um TAC. dito isto voltou a desaparecer
Eu, o dito cujo gajo, continuava a olhar para o monitor com esperança que a imagem mudasse. Na verdade não sei bem porque continuava a olhar. Pensamentos é que não tinha.
Levaram-me para o TAC, fiz o dito, mas continuava a não ter reacção nem pensamento.
A imagem veio para o monitor. Todos andavam para trás e para a frente com a sequencia de imagens. Eu olhava e via a mesma imagem. Se sentia dor essa naqueles instantes era imperceptível ou desaparecera pelo cérebro vazio. 
Alguém chamou um pneumologista que eu nem sabia que estava por lá. Se é que estava. Todo o mundo olhava para o monitor e falavam. Eu atrás, sem conseguir ver mais nada ouvia mas não interpretava. Petrificado, atendi o telefone da minha colega a perguntar onde eu estava. Localizei-me. Ela veio ter connosco. Calou-se, falou com todos os que olhavam serenamente para aquelas imagens coo se fosse um filme lindo de se ver, e disse-me:
- vai para casa e amanhã de manhã vens cá para fazer uma broncoscopia. 
- como? toda a minha capacidade de raciocínio e compreensão estavam naquelas imagens que não me saiam da cabeça.
...
era mesmo tuberculose 'apenas'

Sanzalando

29 de maio de 2024

meus retalhos 31

Era início da noite. Faz pouco tempo tinha jantado. Devo ter comido coxas de frango porque os jantares de segunda-feira eram sempre. Bebia o café no bar e chamam-me com urgência à urgência. Desatei a correr. Sempre fui assim. Rápido e instintivo. 
Um jovem na reanimação, consciente, culto, educado e dizia que não sentia nada do pescoço para baixo. Não tinha feito nenhum exame porque acabava de chegar. A areia da praia no seu corpo denunciava de onde vinha. 
- Jovem, vamos com calma e conte-me o que é que estava a fazer. disse eu com a minha voz mais meiga e suave que conseguia. 
- Estava a mergulhar na praia. Nem era das Rochas. Era mesmo só da praia.
- É habitual ou só usa a praia neste mês de verão? eu tentava manter conversa calma e fazer com que as lágrimas não me caíssem olhos abaixo.
- Só no verão e até nem é hábito dar mergulhos. Mas Estava na brincadeira com a minha namorada e nem vi se estava onda ou não quando mergulhei.
- Vamos lá fazer um TAC...
- É grave?
- Sem um TAC não lhe sei dizer. Esperemos que não. mas acho que esta última frase ele não chegou a ouvir porque não consegui mentir com convicção e a voz sumiu.


Sanzalando

25 de maio de 2024

meus retalhos 30

A Sala de Espera estava à pinha. Acho hoje todos resolveram ficar doentes ou sem nada para fazer vieram fazer companhia a quem da Urgência precisava. O barulho era mais que muito. Todos falavam e todos protestavam. Todos estavam piores que todos e todos tinham prioridade. 
Na verdade ninguém sente a dor ou a doença de outro. A minha doença é a pior que eu tenho. Como vou explicar àquela amalgama de gente que eu tenho de fazer escolhas. Não há capacidade de ver todos em simultâneo. Por isso inventaram essa coisa da triagem. É verdade que quando não havia triagem, cada um esperava a sua vez e era ter fé. Ter fé e não ser honesto não ficava bem. 
Como Chefe de equipe lá me enchi de coragem e enfrentei a manifestação. Mal entrei na sala fui logo ouvindo gritos imperceptíveis. Tantos eram ao mesmo tempo que o melhor que fiz foi ficar calado a olhar para lado nenhum. Literalmente eu tinha os olhos abertos mas não via nada. As bocas mexiam mas eu estava como que nem lá. Silêncio no meu cérebro. 
- Se eu morrer quem é que me vai acudir?
ouvi isto no meio de toda a gritaria que eu transformara em silêncio
- Quem é que está a morrer? perguntei retoricamente sem esperar resposta
- Eu. Há uma semana que estou com anginas e febres altas...já não aguento mais.
- Ok. Não vai morrer hoje pelo que pode esperar. Respondi e virei-me para outro lado. 
- Dr. Sou diabético e falta-me os comprimidos. Preciso de fazer análises para ver se estou descontrolado.
- Ok. Escreva num papel a medicação em falta e marque consulta no centro de saúde porque aqui não vai fazer análises, pelo menos hoje.
E assim fui fazendo 360 graus e reduzindo as urgência a 3 casos que ordenei que entrassem. 
- Até que enfim que alguém dá a cara - diz um dos pacientes
- E os tomates - acrescenta uma idosa que nunca se havia manifestado


Sanzalando

21 de maio de 2024

meus retalhos 29

Para mim sempre foi mais que evidente que o ser humano, eu, nunca iria conseguir viver em isolamento. Quando estudava ou quando li qualquer coisa sobre ética e civismo, aprendi o conceito de sociedade e de viver em conjunto. Eu nunca daria para viver como um ermita. Tanta solidão ia me matar em menos que um nada de tempo. E assim sem minha autorização apareceu essa de pandemia e o isolamento consequente. Literalmente passei a ser um doente, mesmo sem doença. De repente fui impedido de tocar, de ver com as mãos. O calor humano era filtrado por máscaras e escafandros. Passei a sofrer de distância, de distanciamento e de desamparada alma. Eram os doentes e era eu, todos estamos doentes. Sentia. Eu impedido de tocar, de sentir o meu doente. Ia virar médico de espírito? Pequei vezes sem conta. Arrisquei, mas preferia sofrer física do que mentalmente.
Acabou a pandemia, mas acho a minha mente não recuperou daquele enjaulamento. Tanto escafandro que me afogou e me prendeu em ressentimentos e confinamentos ao ponto de eu pensar que a solidão é uma dor insuportável.


Sanzalando

20 de maio de 2024

meus retalhos 28

Era madrugada. Estava encostado a descansar o corpo. O cérebro fervilhava de imagens que vinham através dos sons. Era a máquina de café da enfermaria, era o elevador que subia ou descia, qualquer coisa trazia-me à ideia trabalho. Dizia-me que era a adrenalina mas eu sabia era a ansiedade de a qualquer momento chegar qualquer coisa e eu não estar à altura. Mas todas as noites de urgência eram assim. De dia nem tanto, mas o silêncio interrompido da noite tinha destas coisas.
Toca o telefone. Vá que descer porque chegou um acidentado e é preciso autorizar o pedido de TAC. 
Mais gritos na porta de entrada. Todos correm e gritam por mim. Também corro. Um fiat uno parado á porta da urgência, portas abertas e gritos. Muitos gritos. Ninguém a consegue tirar do banco de trás do carro. Ela irremediavelmente grávida com contrações de parto e histericamente agarrada ao que podia. 
 - Ok. Queres parir aqui, a gente faz o parto aqui. disse-lhe eu com a voz mais cândida no sentido de arranjar um momento de calma para a tirar dali. Nada. Mais gritava e mais se agarrava. Rasguei-lhe as cuecas e ao observar vejo já um couro cabeludo .
- Meninos, tragam-me lençóis e chamem o pessoal da obstetrícia - digo eu para o pessoal que me observava.
Ajudo a pôr a criança cá fora, embrulho num lençol e ponho-o na maca e já a consigo trazer para fora do carro.
- E agora quem me paga a limpeza do carro. Vem um gajo para o hospital e fazem esta merda aqui na rua.
Ainda hoje estou para saber o que é que o sogro fez ao carro, à nora e ao neto.


Sanzalando

8 de março de 2024

meus retalhos 27

Pouco passava das 23 horas quando sou chamado ao Serviço de Urgência. 
- Dr. chamámos como chefe de Equipe porque temos aqui um caso demasiado invulgar e que eu não sei  como resolver.
- Dr., diga lá o caso para ver se eu o posso ajudar nalguma coisa.
- O Senhor X está em quase coma com uma sepsis e exige antes de morrer casar com a companheira dos últimos anos. Como é que eu posso resolver isto agora. Eu não sei se ele chega a amanhã...
Silêncio enquanto meti a minha cara de pensador e rebusquei alguma coisa parecida no meu passado. Nada. Zero.
- E mais Dr. está ali fora a companheira dele, bem como familiares directos dele.
Mais pensativo fiquei. 
- Deem-me dois segundos que eu vou tentar ler alguma coisa. Entretanto liguei para o Director Clínico que disse que não sabia como resolver a situação. Liguei para um advogado amigo que me aconselhou procurar a Conservadora do Registo Civil da região e em último caso tinha de ser eu a fazer a cerimónia e no dia seguinte oficializar o registo na Conservatória. Lá me ditou uma minuta que eu imprimi no computador do meu gabinete e lá desci. Eu ia celebrar um casamento... 
Desci, fui à Unidade de Intermédios onde estava o paciente, já sem capacidade para responder às minhas questões para lá de um sim ou não. Chamei todos, companheira e familiares, li o documento que havia imprimido e no momento de assinar chegou a Conservadora que me substituiu na cerimónia e utilizou o meu impresso que eu também assinei como testemunha.


(felizamnete depois de longo período o paciente teve alta, casado oficialmente)


Sanzalando

5 de março de 2024

meus retalhos 26

São 9 horas da manhã e é segunda feira. D. Genoveva vem à consulta. É a sua primeira consulta de cirurgia e comigo. D. Genoveva foi enviada pelo médico de família por varizes dos membros inferiores. 
- Menina, vamos lá ver essas pernocas. - dirijo-me doce e suavemente enquanto sorrio para a minha nova doente. 
- Dr. tenho aqui um exame que o meu médico de família me mandou fazer. Doppler, acho eu.
- Menina, quero ver primeiro essas pernocas e depois então vejo o exame.
As pernas oleosos de quem acabou de pôr creme deixam transparecer algumas varicosidades que bem vistas as coisas eu diria noutro dia que era para não fazer nada a não ser gastar as pernas em caminhadas. Mas... era noutro dia e neste dia eu não podia fazer isso. D. Genoveva fazia questão de se queixar das pernas e eu não tinha coragem para a desgostar dizendo que não ia fazer nada.
- D. Genoveva, minha menina, tem aqui umas duas ou três que merecem ser esclerosadas. Quer?
- Claro, Dr. Detesto ver essas veias assim parecem umas estradas nas minhas pernas.
- Ok. Menina. Então deite-se ali na marquesa e começamos já hoje.
E num estante ali estava ela deitada pronta a ser picada. Devo dizer agora porque me esqueci antes que a doente só tem 94 anos e tem cuidado com as suas pernas.

Sanzalando

1 de março de 2024

meus retalhos 25

Eram para aí umas 2 da madrugada duma noite quente de verão. Ainda não me tinha mudado para a cidade de praia, onde havia de me fixar de vez, era novo no ramo médico, dois ou três anos de experiência e muita garra e vontade, muita dúvida e poucas certezas. O mundo era novo e as noites de urgência eram aventuras que se tinha gosto de ter. Mas às duas da madrugada certeza não tinha nenhuma e sono já era algum. 
- Dr. temos aqui uma menina de 16 anos que vem com cólicas na barriga. 
- Põe ali no gabinete pequeno para eu ver. 
Lá veio a menina chorosa e dobrada sobre sim como que a dizer-me que lhe doía a barriga.
- Olá, sou o Dr. C e estou aqui para ajudar. Conta-me coisas para eu adivinhar o que tens. O Sr. Bombeiro pode esperar aqui à porta se faz favor.
- Dr. estava na praia d'El Rei e comecei a ter vómitos e dor de barriga assim como que a espaços largos.
- Que praia é essa? mostrando a minha ignorância de praias da região Oeste.
- Em Óbidos.
- Ok. Deita-te ali na marquesa e mostra-me a barriga. 
Ela deitou-se, menina de 16 anos a dar para o gordinho, com a barriga mal à mostra. 
- Vá lá, camisola para cima e calças para baixo, tenho de olhar e ver a barriga toda. Encolhe a barriga... faz inchar a barriga... - os movimentos dos músculos abdominais eram normais. Não temos peritonite, pensei eu aliviado de não ter que ir ao Bloco àquela hora.
Levantei-me da secretária e sentei-me ao lado dela naum banco para fazer o segundo gesto que era a palpação abdominal.
Comecei pelo epigástro, ali mesmo a meio onde acaba o tórax e começa a barriga. Curioso, faço pressão aqui e as calças ali mexem. 
- Baixa mais as calças e as cuecas - disse eu intrigado e sem saber o que estava a acontecer., longe daquilo que ia acontecer.
Volto a fazer pressão e mando um grito: Preciso dum enfermeiro aqui no gabinete.
Conforme eu fazia pressão no abdómen ia aparecendo a cabeça dum bébé lá no sítio por onde eles nascem. 
- Tens família ou vieste sozinha? 
- O bombeiro é o meu pai.
Acabámos de fazer ali o parto, chamámos o pessoal do bloco de partos para fazer o que ficou por fazer e eu dirigi-me ao bombeiro, pai e avô.
Contei-lhe o que se passou e ele incrédulo disse-me:
- Impossível ser a minha filha, ainda hoje estivemos na praia e ela não estava grávida.
- Pois, há milagres inexplicáveis. Mas pode vir comigo e se não saiu daqui da porta pode ver que não há mais nenhuma outra ou janela neste gabinete por onde tenha entrado a cegonha.

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