recomeça o futuro sem esquecer o passado
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15 de dezembro de 2025

eu e o cachorro-quente

Naquela noite de sábado, a feira parecia respirar preguiça. A noite tinha caído depois de um Pôr-do-Sol mágico, os bancos de madeira das arcadas estavam vazias frente à barraquinha dos cachorros-quentes do Sr. Ferrão.

Eu cheguei com a fome de quem tinha jantado um jantar leve. O cheiro do pão aquecido, da salsicha aquecida na água e da mostarda faziam-me uma qualquer promessa que se dissolver no ar e me dizia que era hora de aproveitar a não chegada de muita gente. Pedi um cachorro-quente com tudo, porque há decisões que pedem coragem. E eu além dela tinha fome. D. Lígia me reconheceu e achou estranho:

- Não jantaste, João Carlos?

Que sim, respondi meio a medo não fosse ela não querer me dar o saboroso e antecipado babar de cachorro quente. Virou-se para o marido e disse para me dar o cachorro-quente. Foi caprichado. Estava mais saboroso do que é habito. Achei eu

O Sr. Ferrão sorriu como quem me entrega um segredo. Mostarda em zigue-zague. Quando mordi, o mundo diminuiu de tamanho. O barulho da feira virou fundo musical, e cada mordidela era um acordo silencioso entre prazer e bagunça escorrendo pelos cantos da boca.

Ao meu lado, uma criança ria porque o molho escapou e pintou-me a camisa. Do outro, um casal discutia se comiam ou não com cachorro-quente, discussão antiga, com vencedores antecipado que foi quem disse que ia. Eu mastigava devagar, respeitando o ritual, sentindo o pão ceder, a salsicha responder, os sabores se encontrarem no meio do caminho.

Quando terminei, os dedos estavam sujos e o coração, limpo. Limpei as mãos num guardanapo insuficiente, como manda a tradição, e fiquei ali mais um pouco, vendo a vida passar em passos curtos. Às vezes, a felicidade cabe num pão macio, numa salsicha quente e na certeza de que, por alguns minutos, nada mais importa.



Sanzalando

9 de dezembro de 2025

O Grande Dia da Carta de Condução


No glorioso dia em que você finalmente ia tirar a carta de condução, parecia que o universo inteiro tinha decidido fazer testes contigo também. Logo de manhã, o despertador não tocou, talvez estivesse solidário com o meu nervosismo, e eu acordei com aquela sensação de “faltava qualquer coisa”… até lembrar que faltava tudo, principalmente sair da cama a correr, apesar de serem sete da manhã e o exame ser só às 11. Mas tal como o meu avô eu não gosto de chegar tarde e por isso duas horas antes é bom.

Chegando ao edifício das Obras Públicas, local de fazer o dito e referido exame, que eram dois, para tirar a carta de condução,  o examinador, com aquele olhar de quem já viu de tudo, disse apenas:
-  Hoje é o dia, hein? Não atropeles ninguém nem aleijes o examinador… 

- Sr. Hilário, espero não magoar ninguém nem ter que cá voltar.

- Isso é o que vamos ver. 

- Qual é o carro em vamos fazer o exame?

- No Colt do meu tio Cláudio. disse eu a pensar que ele estava a meter-se comigo, pois há mais de um mês que eu tinha lá deixado os papéis. 

- Não é no da Escola de Condução? - perguntou assim como que a fazer uma cara que não era de fazer amigos.

- Não. Não andei na escola. Eu propus-me a exame. disse eu já a ver o meu mundo a girar contra.

- Esse carro não dá. Não tem as medidas...

- Quê?! gritei eu já a tremer.

Lá me explicou que não vira os papeis e que o Colt como o Mini não podiam ser utilizados.

E agora. Sentei-me no passeio, lágrima a cair da cara muito devagar. Levantei-me, fui à Secretaria e pedi para ligar à minha mãe que estava a trabalhar nos Caminhos de Ferro. 

- Mãe. Tenho meia hora para arranjar um carro grande para fazer exame porque o do tio Cláudio não dá.

- Onde é que vou arranjar um carro agora? Olha, está ali o tio Adelino e vou pedir-lhe um conselho.

Claro que naquela altura os telefones eram fixos e as chamadas eram pedidas às telefonistas dos CTT.

- Filho, o tio Adelino vai aí ter contigo e já arranjam uma solução.

Abreviando, o tio deu o livrete, o examinador disse que sim e o exame podia começar.

Eu nunca tinha andado de Opel Kadet. 

Assim fomos para uma sala onde me fez uma série de perguntas sobre sinais, prioridades, luzes e na maquete a brincar com Dink Toys, passa este e não aquele por isto e aquilo.

O código sabia eu na ponta da língua. 

- Vamos para o carro. 

Ah, o tio Adelino deixou o carro e foi trabalhar. 

Carro a trabalhar e agora como se mete a marcha atrás para tirar do bem estacionado que estava? Pois é, não sei. No Mini e no Colt era fácil. Aqui não sei mesmo. Várias tentativas e nada. 

- Devia ter treinado. 

- Mas o senhor que sabe tudo e até é examinador pode fazer o favor de me dizer como é que é? - estava eu desesperado e ao ataque antes que me desse um ataque de nervos.

Ele tentou e nada. Sem querer ela entrou. Era assim, Puxa para cima e depois tudo para mim e depois para a frente. Totalmente ao contrário do que eu acho ser normal. 

- Como é que fizeste isso? perguntou ele quase a sair do carro.

- Simples, pensei! respondo como se estivesse num pedestal a olhar para ele de cima.

Arrancamos dali para fora. Na rotunda do Radich manda-me virar à esquerda e eu, calma e serenamente encosto à direita e preparo para contorná-la.

- Eu disse esquerda. - barafustou ele de modo intimidatório.

- Sim, e eu contorno a rotunda e vou para o parque infantil. - respondi com ar descontraído que estava a começar a ter. 

- Estaciona ali.- brusco.

Faço o pisca, parei. Sr. Hilário, não é perigoso fazer inversão de marcha aqi frente ao liceu para estacionar daquele lado e frente a um portão?

- Segue.

E eu segui

Vira para aqui, vira para ali e perto do Sporting há um lugar para estacionar e ele manda-me fazê-lo.

Eu achei um pouco apertado mas não podia esticar mais a corda. Faço o pisca e de marcha a ré vou virando o volante e fazendo as minhas medidas, mas curiosamente o carro de trás acompanhava os meus movimentos, isto é, deu-me espaço para estacionar. O Sr. Hilário saiu do carro, olhou bem e disse-me:

- Andas por aí a conduzir sem carta é?

- Não. Só no campo é que a minha mãe me ensinou a conduzir. Nunca conduzi na cidade. - afirmativo estava eu, ao mesmo tempo que estava a dizer uma grande mentira.

Agora vamos para a subida da Rua dos Pescadores para fazer o ponto de embraiagem. Se o carro não descair podemos terminar.

Fiz o ponto de embraiagem mesmo em frente ao portão da minha casa. Foi fácil.

Seguimos para as Obras Públicas e eu perguntei, já fora do carro.

- E agora como é?

- Esperas um bocado e dão-te uma guia. 

- Então posso levar o colt para casa, já encartado?

- Quem o trouxe?

- Hã? o meu tio, claro. - por acaso tinha sido eu e por isso é que eu fui antes das Obras públicas abrirem.

E assim nasceu o mais novo condutor do país, mal acabado de fazer os 18 anos, emancipado.



Sanzalando

3 de dezembro de 2025

uma esplanada na minha cidade

Na minha pacata cidade, aninhada entre o deserto e o mar, havia uma esplanada que parecia uma janela do tempo. Não era um lugar qualquer; era um ponto de encontro onde as gerações se entrelaçavam, um testemunho vivo de que o tempo, embora implacável, também podia ser generoso.

Depois do almoço o lado esquerdo da esplanada pertencia aos "Velhos Sábios". João Trindade Junior, Figueiras das Ameijoas, João Aldrabão, Artur Gomes, e mais uns quantos. Sentados em cadeiras de chapa, gastas mas confortáveis, os senhores todos com cabelos grisalhos e alguma brilhantina, olhares serenos falavam do dia. O cheiro do café e as páginas dos jornais amarrotados contrabalançavam a conversa ao tom de desafio. Ali, o João Aldrabão, um pescador que não sei se lá foi alguma vez, até parecia o Raul Gomes, pai do Artur, a falar de peixes que eram tão grandes que acho não cabiam no barco onde iam e mais com histórias de mar para dar e vender, jogava xadrez verbal com o João Trindade, benfiquista de gema, despachante de alfândega e ar muito sério porém sorriso que mostrava o desafio. Nestes tempos sem pressa, o melhor remédio é uma boa prosa e um café forte, costumava dizer o Sr.Reis, enquanto observava o movimento da rua com um sorriso enigmático e via o seu café cheio.

O lado direito eram jovens. Uns já considerados adultos outros ainda adolescentes. Era um ponto de aprendizagem, com o lado contrário e também de má linguagem, num corte e custura que nem velhas alcoviteiras. Todos eram passados a pente fino. À tarde, a esplanada começava a ganhar uma nova energia. Aos poucos, os jovens da cidade começavam a aparecer, paulatinamente ocupando o lado esquerdo porque eles eram homens de trabalho. A maior parte estudantes, uns ainda com livros outros já sem eles, gastavam o tempo até terem tempo de ir para o Áero-Clube jogar bilhar, na maior parte das vezes ao perde- paga. 

A Esplanada da Oásis deixou de ser apenas uma esplanada do café, tornou-se um símbolo de união, um lugar onde o passado e o futuro se encontravam no presente. Era um lembrete de que, apesar das diferenças de idade e de experiência, todos partilhavam a mesma humanidade, a mesma necessidade de conexão e a mesma sede de histórias para contar e ouvir. E assim, na pacata cidade, a esplanada continuou a ser um refúgio, um porto seguro onde as gerações se encontravam, aprendiam e celebravam a beleza da vida em todas as suas fases.



Sanzalando

2 de dezembro de 2025

o meu papagaio de papel

Numa ensolarada tarde de verão, na minha cidade de ventos do deserto onde a minha avó dizia que o que estragava tudo era o vento leste, vivia eu que além de adorar chuinga também gostava de papagaios de papel. Sempre sonhei em ter o maior e mais bonito papagaio de papel, e que voasse tão alto que pudesse tocar as nuvens.

Um dia, enquanto saboreava um gelado comprado no Tico-Tico, de morango ou baunilha por serem tão diferentes eu agora não me lembro, tive uma ideia brilhante. "E se eu fizesse um papagaio de papel que parecesse um gelado gigante?" Usei a imaginação e desenhei na cabeça um papagaio de papel com listras vermelhas e brancas, uma ponta castanha como se fosse o cone e um delicioso aroma de morango e baunilha voando no ar.

Passei a semana a desenhar e a construir o meu papagaio de gelado. Usei papel colorido, varetas leves feitas de caniço e muita cola feita de farinha. A minha mãe, habilidosa, ajudou a cortar e construir a cauda, que ela fez parecer um a derreter, escorrendo em cores berrantes.

Finalmente, o dia do papagaio ficar pronto chegou. Levei o meu papagaio de gelado para o campo aberto, perto do campo do Benfica, lá para o lado dos estaleiros do Guerra, onde não havia postes nem antenas nem outros empecilhos. Ali era eu e o meu papagaio que era diferente de todos os outros que eu já tinha visto. Ele era grande, colorido e tinha a forma de um delicioso gelado. Não, já tinha feito joeiras coloridas mas agora eu queria um papagaio de papel como um dia vi num qualquer filme de matiné, possivelmente feito em Macau ou arredores. Eu agora tinha um papagaio de papel. Joeira era para os outros. 

Segurei o fio de sapateiro com firmeza e, com um empurrão do vento, o papagaio de gelado subiu no céu. Ele dançou e girou, as cores berrantes brilhavam ao sol. Náo tinha ninguém para olhar o meu papagaio de papel, original e lindo. O papagaio subiu cada vez mais alto, até parecer um pequeno gelado a voar em direção ao sol.

Enquanto o papagaio voava, senti uma onda de felicidade. Eu tinha criado algo único, algo que trazia alegria. Veio uma rajada mais forte, dei-lhe guita, ele subiu e rodopiou numa volta gigante e se desfez com estrondo quando bateu na areia dura do velho acampamento do Guerra. O meu papagaio de papel feito em forma de gelado tinha 'derretido' ao sol da minha alegria



Sanzalando

29 de novembro de 2025

numa tarde de sol

Numa tarde ensolarada, o que não era coisa rara na minha cidade, um grupo de crianças animadas decidiu ir ao parque infantil. Não, desta vez não era para chatear o Sr. Sousa, era mesmo para brincar nos baloiços, no escorrega ou no cavalinho que quase parece a querer sair dos ferros que o prendiam. Lá estava a com seu vestido vermelho, o Tó e o seu irmão Marzé, e o, bem como a, e mais uns tantos outros que éramos dez. Todos cheios de energia, o que eu penso era próprio da idade.

Assim que chegaram, a correu diretinho para o escorrega. "Quem chega primeiro?", gritou ela, e escorregou com um uhuuu! O Marzé foi logo atrás, com um sorriso enorme no rosto. Era o mais novo mas talvez o mais destemido.

Depois de muitas descidas no escorrega, todos vimos a alto nos baloiços. "Olha como eu voo alto!", enquanto dava mais balanço num jogo de corpo e pernas. O e a juntaram-se a ela, e logo os três estavam a baloiçar tão alto que parecia que iam tocar nas nuvens ou simplesmente fazer 360 graus à volta do suporte. Esses mesmo pareciam artistas de circo. 

Depois de tanto baloiçar, os três decidiram sentar na área da areia que circundava os baloiços. Tal era o cansaço. Faziam montinhos ou buracos. Ganhavam tempo para respirar com calma. Tirando estes três, os outros sete calçaram os patins e foram para o ringue patinar. Era a minha praia, já que para artista de circo e seus trapézios metiam-me medo. 

Afinal de contas era apenas um dia de sol, numa cidade do sul e todos nós tínhamos idade para isso. Hoje, acho eu, nenhum dos que por ainda andam vão ao parque infantil e ao que sei também ainda não há o parque geriátrico

Sanzalando

28 de novembro de 2025

poema à sandes de atum

Era uma vez, nuns tempos distante, um jovem muito parecidinho comigo, o típico adolescente que passava horas a jogar bilhar num tal de Aero Clube ou mergulhado nas águas azuis do seu mar, navegando nos sonhos e inspirações e nas horas ocupadas ia ao Liceu.. Mas tinha uma paixão secreta: a poesia. E, para o desespero da mãe, essa paixão  manifestava-se nos momentos mais incalculados e inesperados.

Um dia, enquanto tentava escrever um poema épico sobre a melancolia de um sanduíche de atum ou de qualquer outra conserva, viu-se em apuros. Ele estava atrasado para a escola e a sua mãe, estava prestes a explodir.

"Vais faltar à escola outra vez?!", gritou, com a paciência esgotada como um último verso antes do chapadão.

Num relâmpago de inspiração poética, respondeu:

"Ó, mãe, não sejas assim, 

Pois a musa me abraça, 

Em versos de atum, 

Estou quase no fim

Deixo a carcaça

em troco de verso algum.

Mande-me lá um."

Mãe, acostumada com os devaneios poéticos deste seu filho, apenas suspirou. "Se não apareceres aqui agora, vou-me embora e ponho-te porta fora!"

Com esta ameaça velada, desceu correndo, ainda murmurando versos sobre a efemeridade do pão com manteiga que já nem tinha atum e muito menos sardinha.

No Liceu, a situação não era muito diferente, tinha o hábito de recitar os seus poemas em voz alta, sem se importar com o lugar ou a ocasião. Durante a aula de matemática, enquanto o professor explicava a fórmula do X ao quadrado levantou a mão.

"Dr. Coutinho, posso recitar um poema sobre a beleza dos números primos?", perguntou, com os olhos brilhando e cara de felicidade.

O professor, que já conhecia a "veia artística", respondeu com um sorriso cansado: "por favor, deixe os números primos em paz por um momento e tente entender o valor de 'x' nesta equação."

Mas não desistiu. No recreio, aproximou-se dum grupo de colegas que conversavam perto da cantina.

"Ó, bravos guerreiros da escola, Que correm pelo areal, Com a fúria de um leão, E a graça dum pavão, Deixem-me lhes recitar, Um poema sobre a glória, De um golo em câmera lenta, nesta bebida sedenta que escrevi na minha velha sebenta!"

Os colegas, acostumados com as suas performances, apenas riram e continuaram a conversa.  Apenas um deles, talvez o Beto ou o Manel, a memória já não ajuda, atirou: "devias escrever um poema sobre como chutar a bola no recreio da escola e quem sabe, aprender que a vida não é só escrever?

Ele muito parecinho comigo, era terrível no futebol, sendo a bola redonda e devido ao ar dentro, lhe fugia como diabo da cruz, apenas sorriu e murmurou: "A poesia é a bola da alma, e o meu chuto é a metáfora da calma!"

Apesar das brincadeiras e da incompreensão alheia, não se abalava. Ele continuava a escrever seus poemas, sobre tudo e sobre nada, sobre o amor e a dor, sobre a vida e a morte, e até sobre a importância de usar meias limpas.

Um dia, a escola organizou um concurso de talentos. Ele, é claro, se inscreveu para recitar os seus poemas. Todos tentaram dissuadi-lo. Colegas de sala, de recreio e até a afamília.

"Tens a certeza que queres fazer isso? Talvez seja melhor outra coisa qualquer, fazer uma magia ou ficar simplesmente a assistir", foi o que mais ele ouviu.

"A poesia é a magia da alma, o instrumento do coração! Eu preciso mostrar ao mundo a beleza das palavras!", respondeu, com a convicção de um poeta em ascensão.

No dia do concurso, subiu ao palco, um pouco nervoso, mas com a cabeça erguida e um ar profissional. A plateia, composta por alunos, pais e professores, estava em silêncio. Ele respirou fundo e começou a recitar um de seus poemas mais recentes, sobre a importância de ser ele mesmo.

"No meio da multidão, 

Em busca de aprovação, 

Não te percas, ó alma, 

Em caminhos alheios, 

Pois a verdadeira beleza, 

Está em ter a certeza, 

De que cada verso, é uma flor

Uma rosa ou outro símbolo de amor!"

A princípio, houve um silêncio constrangedor. Mas, aos poucos, as pessoas começaram a rir. Não era um riso de escárnio, mas um riso de admiração e carinho. Foram-se deixado levar pela paixão e pela sinceridade do poeta e declamador.

Ao final do poema, a plateia explodiu em aplausos. surpreendido e emocionado, não conseguiu conter as lágrimas. Ele não tinha ganho o concurso, mas tinha conquistado algo muito mais valioso: o respeito e o carinho de seus colegas e professores.

A partir daquele dia, continuou a ser o poeta da escola, mas agora, com um toque de reconhecimento. Os seus colegas até começaram a pedir para ele escrever poemas sobre seus próprios dramas adolescentes, desde a paixão não correspondida até à dificuldade de tirar notas boas em química.

E, o adolescente armado em poeta, muito parecido comigo, continuou a espalhar a beleza das palavras por onde quer que fosse, mostrando a todos que a poesia pode estar em tudo, até mesmo em um sanduíche de atum.



Sanzalando

27 de novembro de 2025

O Grande banho da Marginal


Era um daqueles dias quentes em Moçâmedes, em que até as lagartixas, osgas e carochas procuram uma sombra. Eu, todo animado, decidi que nada melhor do que um mergulho na Marginal para refrescar a cabeça. Calcei as minhas chinelas, que mais tarde soube chamarem-se as havaianas mas naqueles tempos eram simplesmente chinelos de plástico, já meio gastas para não queimar os pés no asfalto quente que até parece derrete.

Quando cheguei, o mar brilhava bonito, mas as ondas estavam com uma energia que parecia ter bebido café forte! Cheio de coragem, pensei:
- Hoje eu mostro quem manda aqui! Tirei a camisa, larguei os chinelos, corri, preparei um salto tipo mergulho olímpico e... parei.  A onda parecia esperar mas zás, rebentou nas pedras e caiu como chuveiro sobre mim. Olhei o mar e pensei ele me tinha vencido. Eu não mando nada aqui..

- Só queria cumprimentar o mar - disse, tentando manter a dignidade enquanto um grupo de miúdos ria ali perto.

Não satisfeito, tentei de novo. Entrei devagarinho, calculando a maré, não escorregando nas pedras e afundei o meu corpo para fora da zona pedregosa. Respirei fundo mas assim num de repente fui atirado por outra onda desprogramada contra as pedras, hexágonos e assim ligeiramente esfolado olhei surpreendido com o boiar das minha chinelas que mais tarde eu ia saber eram havaianas irem mar fora. Elas se aguentaram no mar e eu atirado para as pedras. Elas não queriam ia à agua. Mundo contrariado.

Enquanto os miúdos, que se tinham aproximado, gritavam:
— Tio! As tuas sandálias são mais rápidas que a tua natação!

Ri com vontade de chorar e com a camisa, que sobrara porém enxarcada, caminhei para casa num andar tipo saltinhos para demorar menos tempo cada pé no chão.

Mas a verdade é que, apesar das quedas, das ondas teimosas e das sandálias fujonas… sai dali com um sorriso, andar novo e com a lição que mergulhar na marginal não era boa ideia, antes na praia que era ali tão perto. Porque banho na Marginal de Moçâmedes é assim mesmo: se não cair, não valeu!



Sanzalando

26 de novembro de 2025

Uma Estória de Fazer Rádio


Desde pequeno, eu gostava de falar sozinho. Conversava com o travesseiro, entrevistava o cão e fazia o relato do café da manhã. A família achava engraçado, mas só eu sabia o que aquilo significava. Um dia, sentei-me na sala e tinha nas mãos um radiozinho velho, daqueles que ainda tinham antena de metal que desaparecia dentro do rádio e um botão que fazia estática quando girava para sintonizar. Eu procurava nas três ondas a rádio que eu fazia e não encontrava. Não tinha a mínima noção que era preciso um emissor. Para onde ia o som da minha voz quando eu falava ao meu microfone que mais não era que o cartão velho de um rolo de papel higiénico?

- O rádio é magia - dizia-me. - A gente fala baixinho num canto… e chega no ouvido de alguém lá do outro lado da cidade. Pensava eu

Nunca esqueci. Cresci com essa ideia na cabeça: fazer rádio era conversar com o mundo e por isso logo que tive oportunidade lá fui pedir uma. E deram.

Consegui um estágio no RCM. Era pequeno, edifício inacabado, gente simpática. Mas, para mim, era como entrar num castelo, num palácio e aqueles eram os artistas que eu conhecia de voz. Três estúdios, sendo um minúsculo, outro médio e o grande; sala técnica comum aos três mas com seus gravadores de fita e consola independentes. O locutor punha discos e falava aos microfones, com fones enormes nos ouvido  e uma janela de vidro que separava o locutor da área técnica, quase como portal para outra dimensão.

No primeiro dia ao vivo, a voz tremeu. O microfone parecia um monstro à espera para devorar-me. Mas respirei fundo, lembrando-me das conversas com o cão e o travesseiro.

- Boa tarde, ouvintes! Eu , disse o meu nome e este é o Programa a Nossa Voz é o Mar e passou um bailinho da Madeira. Depois Tristão da Silva, Roberto Carlos e de quando em vez eu dizia uma frase para os pescadores que estavam no mar, em casa ou só a arranjar as redes.

A meio perguntei

- Alô… alguém está-me a ouvir?

Até hoje ainda não tive resposta




Sanzalando

25 de novembro de 2025

a paixão da voz fria de cacimbo

Na minha pequena cidade, onde não me lembro se as folhas caíam em tons de laranja quando chegava o cacimbo, eu vivia e convivia. Tinha para aí uns dezassete anos, cabelos castanhos sempre um pouco bagunçados a dar para o comprido e um sorriso simpático que raramente guardava. Era um sonhador, com a cabeça cheia de melodias e letras de músicas que raramente mostrava a alguém.

Meu mundo, porém, girava em torno de uma pessoa cujo o nome nem hoje consigo soletrar. Ela era como o sol de cacimbo, vibrante e cheia de vida. Os seus longos cabelos castanhos dançavam com o vento, e seu riso, quem mais não era que sorriso, me soava a melodia doce quando me era dirigido. Estávamos na mesma turma, a observava de longe, assim faz de conta era um admirador silencioso.

Eu sabia tudo sobre ela, seu amor por livros, a maneira como ela mordia o lábio quando estava concentrada, e seu sonho de viajar pelo mundo depois de se formar. Eu guardava esses detalhes no meu coração como tesouros, e a cada nova descoberta, o tal do amor crescia.

Tentei me aproximar, é claro. Nos estudos e nos trabalhos em grupo, eu garantia que estivessem no mesmo. Ela era sempre simpática, conversava com sobre as matérias e sorria de minhas piadas, às vezes sem graça, fazendo-me engraçadinho. Mas nunca passou de ser mais do que uma amizade cordial e simpática.

Uma tarde, enquanto caminhavam para casa depois da escola, sob o céu, que não sei se estava já alaranjado do pôr do sol, reuni toda a minha coragem. Lhe balbuciei o nome, senti o meu coração martelar no peito que nem piston de comboio de minério, e lhe disse que tinha escrito uma canção para ela. Tirei um papel amarrotado do bolso e tremendo comecei

Morena morena

Dos olhos galantes

Quem te deu morena

Esses diamantes

A música saída da minha boca devia parecer arrepio, tal a minha falta de jeito para ela.

Ela me olhou e disse

- Está giro.

Eu tinha mais versos para ler mas aquelas palavras, mais frias que o cacimbo, tiraram som às minhas e mudo, engoli em seco, e da minha boca saíram palavras que eu não sei como foram lá parar

- Obrigado. És a minha melhor amiga.

Ela me olhou, sorriu e disse:

-Ainda bem.

Caminhámos até a casa, sendo ela minha vizinha, sem trocar ou tropeçar qualquer palavra. Eu, sinceramente estava de rastos. À porta da minha casa despedimo-nos com um até amanhã que não tinha mais do que palavras porque era um até amanhã vazio.

Em casa o impulso foi rasgar o papel, porem, dei ao Beto no dia seguinte e uns dias depois ele gravou lá no Rádio e passámos num domingo de manhã. Nem ele sabia a estória e nem sei se ela ouviu rádio nessa manhã.

A minha versão de Júlio Dantas estava mais carregada de paixão que a dele e eu não tinha pena de mim. Mudei, cresci e os dezassete anos ficaram para sempre para trás. Nunca lhe cantei o poema, nunca mais ouvi-lhe a voz fria de cacimbo.




Sanzalando

24 de novembro de 2025

que cor tem a lembrança

Quando me apetece passear e está frio, agarro na memória e vou até aos lados da infância. Ali, quase ao virar da esquina, num tempo que não se mede em quilómetros nem em anos ou dias porque a esta distância a memória é ali num aqui tão próximo. 
hoje fui até 28 de Fevereiro de 2012 e nesse dia tinha ido talvez a muitas memórias atrás:

Olho o longe mar desde aqui na ponte velha. De verdade eu lhe conheci ela já era velha. Hoje ela continua velha. Se eu fosse mais velho eu ia dizer que ela nunca trabalhou porque eu nunca lhe conheci a trabalhar. Só serve mesmo é para dar mergulhos e apanhar mexilhão. Pelo menos é só assim que eu lhe conheço. Se calhar já vi aqui alguém de fio de pesca a apanhar mariquita e balhacu. Também nunca vi ninguém pescar outra coisa. Mas a verdade é que hoje estou na ponte velha que está mais velha mas ainda não tão velha que eu lhe chame de ruína arqueológica.
Mas eu vim aqui olhar o mar e chorar. Pudesse eu me deitava nestas tábuas carcomidamente velhas e chorava sem parar e sem pensar no mundo, nesse que tem lembranças que volta e meia vêem à cabeça faz de conta é martelo a te recordar de pessoas e gentes que não sabes mais o que é feito delas.
Olho à volta e se dum lado vejo areia, doutro pedras, em frente eu vejo mar azul sarapintado de barcos parados faz tempo querem descansar, mas não tenho onde me deitas sem me sujar dessas lembranças ausentes.
Aqui na ponte velha, mais velha que o meu tempo, recordo o Drs. Brandão, Balsa, Resende, e esposa do Dr. Coutinho, a Dra. Lucília Rocha, a Elsa. Nunca foram meus professores. Não sei se eram bons ou maus profs como se diz agora. Sei que nunca apanhei com eles nas aulas e não sei porquê hoje me fui lembrar deles, aqui na ponte velha onde não tenho onde me deitar.
Olho para mais longe, quero fugir deste choro calado que me veio à lembrança e vejo lá longe um barco grande que parece se vai embora. De que cor estão os meus olhos agora? pergunto-me sem se quer saber que os olhos brilhantes de lágrimas continuam a ter a mesma cor de olhos de outras horas.
Deitado na ponte velha, passo horas a pensar, está tudo sem cor porque eu vim aqui para ver o mar e chorar e afinal eu estou a me lembrar de gente que nem conheço ou alguma vez se apercebeu que eu existia. 
Não existe mais cor no lugar que eu olho de lembrança esquecida que me recordo desde aqui na ponte velha que eu conheço já velha.

Sanzalando


Sanzalando

7 de novembro de 2025

na varanda com sorrisos e livros

Nem sei se tinha dezessete anos e passava as tardes a estudar na varanda, ou pelo menos fingia que estudava. Na verdade a minha mãe bem que me perguntava o que é que se passava comigo. Só podia ser doença. Assim de repente começar a estudar todas as tardes e na varanda?!

Claro está que nunca lhe disse o verdadeiro motivo de estar ali, porque dali eu tinha ampla visão para a casa ao lado. 

Não foi por acaso que ela se mudou para minha vizinha quando antes morava lá perto da 56. Acho que foi por mim. O pai lhe adivinhou, pensei eu.

A primeira vez que trocaram olhares, no recreio do liceu quando ela para o liceu foi estudar. E logo para a minha turma. Os astros estavam a montar o futuro. Ela sorriu-me e aos poucos, as conversas começaram a prolongar-se. Dali em diante inseparáveis no recreio e no caminho para o liceu, excepto quando ela ia de Mini-Honda. Eu, atrapalhado, parecia um desajeitado ao seu lado. De tanto querer fazer bonito metia as mãos pelos pés e por vezes atropelava as palavras. Éramos lindos. e falávamos de tudo.

Numa tarde, ela convidou-o para ajudá-la a pintar o muro do jardim. Entre pinceladas e risadas, os olhares se trocavam e sorriam. Ficaram em muitos silêncios, como se os corações acelerassem. O muro foi pintado num instante. 

Nas tardes, depois de chegar o liceu, era sentar na varanda e olhar em frente como quem vai adivinhar o futuro que estava mesmo ali. Os livros se abriam e se fechavam num esfolhar como quem não pensa. Ela aparecia na varanda dela, trocava uma ou duas palavras e eu... nem da varanda me apetecia sair. 

Fomos ao cinema.

Tudo parecia que a astrologia estava combinada.

Porque é que eu não colei os astros naqueles dias? Nunca mais olhei a janela, nunca mais olhei para ela, nunca mais lhe sorri nem lhe fiz os meus silêncios de olhar espantado feito parvo.


Sanzalando

4 de novembro de 2025

No embalo do Cardan


Era sábado à noite, possivelmente o ano era 1973. Tem precisões que perdi na poeira do tempo. O Cardan fervia com o som dos Led Zepplins, e agora inventei porque não me lembro se não eram o Deep Purple, as luzes coloridas refletiam no globo espelhado que girava no meio da sala. As garinas desfilavam de calça boca de sino ou de mini-saia e blusa mil-flores, os gajos, incluindo-me,  de camisa estampada aberta até o peito e um perfume forte que misturava loção pós-barba com Bien Etre.

Cada um, com seu cabelo despenteado, em ondas ou liso, e um sorriso meio tímido, observava cada uma, que dançava sozinha. Elas giravam devagar, sentindo a batida “do baixo ou do ritmo ou do que quer que seja”, eu a inventar novamente porque esse tempo eu desentendia esses termos, e parecia não se importarem com mais ninguém.

Depois de três músicas e dois copos de Cuba Libre, ou simples Cuca, a timidez dava lugar a uma coragem fora do normal. 

- Posso entrar nesse ritmo? — perguntei eu, tentando imitar o jeito descontraído de um futuro John Travolta, mas desajeitado porque prematuro, a quem eu anda a catrapiscar sem resultado aparente até à altura

Ela riu, meio surpresa:
- Depende... desde que seja longe de mim? respondeu-me ela peremptoriamente

- Deixar tentar, dá-me uma hipótese. repliquei em voz sumida e ruborizado camuflado pelas cores vivas que as luzes disfarçavam

Virou-me costas e foi-se para outro canto.

Embalei-me no som e chorei para dentro lágrimas evaporadas. 

- Desengataste-te? perguntou-me um camba que se aproximou de mim. 

Que sim, penso ter eu dito.

Saí do Cardan enquanto trocavam de música e as luzes deixavam ver melhor. Lá fora, o vento morno da noite misturava o cheiro de  fumos com os do mar.

E entre risadas e passos lentos, o desengate virou começo de eu ser gente, porque foi ali que me prometi ia mudar o rumo do mundo. Pelo menos do meu. 



Sanzalando

3 de novembro de 2025

Os meninos de rua da minha terra

Naquele tempo, o parque infantil e a avenida eram de terra vermelha batida. Quando chovia não viravam um lamaçal danado como as ruas e zonas de terra batida normal. Quando fazia sol, o pó se grudava na pele das pernas desnudadas e parecia tinha meia avermelhada. Mas ninguém se importava ou achava bem ou mal. Era ali que a gente se encontrava à tarde, depois da escola. Ela por ali que a gente brincava às escondidas, à apanhada, polícias e ladrões, jogava à queimada ou simplesmente sentava a contar anedotas. Tinha sempre alguém que tinha jeito. Também tinha dias que se tocava viola e se cantava. Outros dias tinha um trazia uma bola de de cabedal quase careca  de uso geracional diverso e se jogava um campeonato inventado com regras definidas no início de cada jogo.

Ao final acabado da tarde as mães gritavam das janelas ou varandas :
- já está tá escuro! Vem pra dentro!
Ouvíamos mas fazíamos de conta que não. O tempo passava depressa demais quando estávamos junto.

Acendiam-se as luzes da rua mas os ouvidos continuavam surdos selectivamente para o chamamento materno.

Às vezes, sentávamo-nos no lancil do passeio só para conversar. Falávamos de tudo: dos sonhos, dos medos e de aventuras que só existiam na imaginação. Riamos de qualquer forma e por qualquer coisa e, mesmo sujos de poeira e com o joelho esfolados, parecíamos os meninos mais felizes do mundo.

Hoje, quando passam pelas mesmas zonas, através da memória, sabemos que continuam iguais, silenciosas porque não ouvimos as nossas vozes nem as nossas gargalhadas e muito menos o chamar das mães para irmos para casa.

Sentimos saudade daquele tempo. Saudade da liberdade simples, das amizades sinceras e da alegria de brincar sem pressa. Sentimos saudade e ao mesmo tempo alegria. Foi aquele tempo que nos fez.



Sanzalando

27 de outubro de 2025

O dia em que fui tirar fotos na Foto Pop


Era uma tarde de quarta-feira. Apenas porque sim, pois tanto podia ter sido segunda como sexta. Aquele tipo de dia em que o tédio e a vaidade se encontram no meio do caminho. Eu tinha decidido que precisava de novas fotos. afinal, a última vez que eu tinha tirado uma era para entrada do Liceu, com o dente torto e o cabelo ralado como quem tinha tido uma praga.
Então lá fui eu, todo aprumado, rumo à Foto Pop. era sempre no Rotiv mas eu gostava de ser do contra fui na Foto Pop que era do Bauleth mas quem trabalhava era o Helder. Se não era assim faz de conta que era porque o peso do tempo embaciou a memória e a sua turvação já não deixa ver para lá de alguns cacimbos.

Entrei fingindo naturalidade e à vontade, como se eu tirasse fotos profissionais todas semanas. O Helder me perguntou:
- Vais querer com fundo azul, branco? - ou será que não perguntou nada porque as fotos eram a preto e branco?
Eu, querendo parecer moderno, escolhi o cinzento claro.
Erro número um.

O Helder era um senhor novinho mas que já parecia ter visto de tudo. Ele me olhou, pediu pra eu endireitar o ombro, e disse o clássico:
- Agora dá um sorriso natural.
Natural? Como assim? Eu já estava tenso, suado e a tentar decidir se sorria com os dentes ou sem eles a se verem. Como é que é natural? Tem sorriso que é cara de paisagem que se vê nos calendários das oficinas? Mas ele pensa que é quê, realizador de cinema ou fotógrafo de capa de revista??
Resultado: na primeira foto, fiquei parecido com um fantasma.

Na segunda, fechei os olhos bem na hora do flash.

Na terceira, não me lembro o que é que aconteceu mas ele não gostou.

E na quarta… milagre! Saí bem! Pelo menos eu achei.

Esperei uma hora, peguei o envelope com as fotos e saí da loja com a sensação de ter feito algo importante. No caminho para casa abri para conferir e foi aí que percebi o verdadeiro terror: meu “sorriso natural” parecia uma careta de quem acabou de dar uma trinca num limão.

Cheguei a casa e, claro, mostrei para a minha mãe.
Ela olhou e disse:
— Ah, mas estás tão lindo! Só estás com o pescoço meio torto. - fiquei assim sem saber se chorar ou rir.
Mesmo assim, guardei as fotos, no estilo se precisar estarão aqui mas espero me esquecer.

Na verdade esqueci.

Hoje, no último dia dos 68, abro o envelope, que já está meio amarelo, mas continua lá com a seis fotografias, sinal que esqueci durante anos e hoje, quando reencontro aquele envelope amarelado, não tem jeito, eu rio.

Porque ali tá tudo: o cabelo desobedientemente empastado, o sorriso incerto, a vontade de ser alguém e o charme involuntário da adolescência.

A verdade é que, no fundo eu hoje digo que não fui na Foto Pop tirar fotografias, fui lá para mais tarde ela me revelar fases da gente que já nem sabíamos que existir
am.


Sanzalando

26 de outubro de 2025

Faz 49 anos que não a vejo. Se a visse hoje?


Talvez não a reconhecesse. Ou talvez a reconhecesse antes mesmo de terminar de lhe olhar. Um gesto da cabeça, o modo solto do cabelo, a pausa entre palavras ou outra coisa qualquer.

Há coisas que o tempo não apaga, apenas cobre com poeira fina, assim parece penugem de tempo.

Lembro dela na luz do fim da tarde, o sol a atravessar o quintalão que nos separava, o ar distraído da varanda onde nos víamos diariamente. Disse que voltava logo. Nunca mais voltou.

Durante anos, sonhei. Depois, aprendi a esquecer o tempo. Ou pensei que tinha aprendido.

Hoje, ao atravessar a rua, vi uma mulher de cabelos prateados, sentada no banco do passeio, a olhar os pombos. Senti o coração tropeçar numa pirueta seguida de estatelado e admiração conjunta..

E se fosse ela?

Não fui até lá.

Há encontros que só fazem sentido enquanto permanecem possíveis.


Sanzalando

25 de outubro de 2025

e ela disse que não

Eu tinha se calhar uns 15 anos e a autoconfiança de um pão duro e seco. Estou a falar de memória porque os anos que atropelaram o acontecimento são mais que uma tonelada deles.
Mas um dia, decidi que iria me declarar a ela, a garota mais linda que o meus olhos tinham visto e o meu coração borboletara que nem ataque de amor súbito e dona do sorriso que fazia que fazia lembrar o famoso quadro guardado lá no Louvre de Paris, que fica em França e não a do Texas que eu vim num cinema.

Como era no século passado eu resolvi fazer do jeito moderno: serenata cantada com o fervor da balada, que só por mero acaso era protestativa mas eu não sabia. Nem o dono da viola nem os donos da voz. Era só linda e ela merecia, aos meus olhos pelo menos.
Eu achei que foi perfeito.

Tudo decorria como o que tinha sido planeado. Primeira música eram os Vampiros, segunda o venham, mais cinco. A terceira não houve porque o pai dela veio na janela e correu com a gente.

Eu tinha a certeza que com esta cena toda ela se apaixonaria instantaneamente, se é que já não estava.

Passaram-se alguns dias, as minhas mãos suavam, o meu coração batia a mil, ou pouco menos que não parei para contar, e lhe comecei a falar, primeiro da serenata que mais parecia ter sido um Concerto de baladeiros de tantos que nós éramos, depois falei-lhe do meu amor. Mas acho aquilo parecia um plágio de qualquer aula de português com os versos de Camões.

E ela disse que não. Redondo e taxativo. O teto veio a baixo, o chão fugiu dos pés e o piano mental desafinou de tal forma que nunca mais foi a nenhum concerto. Desencantei-me até que ao dia que fiz um backup, coisa moderna de dizer que esqueci numa pen drive dum canto do cérebro.


Sanzalando

22 de outubro de 2025

Os Livros do caixote de madeira

Se calhar não tinha feito os 12 anos e vivia em uma cidade pequena e na minha casa tinha um caixote enorme onde estavam monte de livros, que a minha mãe dizia eram proibidos. Ela os tinha posto quando o meu pai fora para outro plano. 

Ela nunca me tinha dito que ler fazia mal, mas tinha gente que dizia que ler fazia as pessoas pensar demais — e pensar, naquele tempo, era perigoso.

As escolas ensinavam o necessário: contas simples, regras e a história oficial, repetida como um refrão. As bibliotecas tinham virado depósitos vazios, e quem fosse pegar um livro podia ser levado para a mal. Os livros escolares eram para dividir orações e saber significados, não eram para serem lidos ou interpretados. 

Mas sempre senti curiosidade pelo que, um dia, ajudado por um vizinho resolvi tirar uns pregos ao caixote e cada um tirou um livro. Calhou-me o Advogado do Diabo e a ele se bem me lembro calhou O Livro das Cinco Mil Palavras.

O coração dele disparou. Um livro de verdade com tantas palavras só podia ser com repetições. Gargalhámos e cada um foi para sua casa ler para depois comentar e se valesse a pena trocar..

Comecei a ler às escondidas, à noite, não fosse a minha mãe descobrir que eu tinha aberto o caixote. Aquelas palavras pareciam mágicas, Morris West mostrava-me que a bondade e a fé podem existir em pessoas comuns e que o julgamento humano, mesmo quando feito pela Igreja, nunca é completo. O “advogado do diabo”, no fim, descobre mais sobre a misericórdia e a fragilidade humana do que sobre o pecado. Aquelas palavras falavam-me de liberdade, de amor, de mundos diferentes. Cada página era um sopro de vida num lugar sufocado pelo silêncio. 10 dias e o livro estava lido. 

O Rui, fascinado pela filosofia chinesa me disse que a principal mensagem é que há uma sabedoria mais profunda que não se conquista pela força, pelo desejo de dominação ou pelo ego.

Com o tempo, fomos descobrir mais livros, sempre tirados ao acaso. 

Eu queria saber mais sobre aquele caixote. De vez em quando atirava perguntas à minha mãe. Ela desviava, atirava respostas vagas. Mas sempre me dizia para não falar a ninguém daquele caixote.. Afinal de contas só o Rui e eu é que sabíamos dele e lá fomos tirando e pondo os livros lidos. Um dia, o Rui caiu de cima do caixote. Chorámos os dois mas ele é que partiu o braço. Eu voltei a pregar o caixote e depois do Rui vir para casa com o gesso posto decidimos não voltar aquele lugar. Eles, dentro do caixote, são a memória do que lemos.

Prometi proteger aquele tesouro. Aos poucos, reaberto o caixote, comecei a copiar partes dos livros em cadernos, a ensinar outras pessoas de confiança e a espalhar as palavras escondidas pelos muros da cidade.

Um dia, alguém pintou em letras grandes:
“Ler é lembrar que somos livres.”

Ninguém sabia quem tinha escrito, mas, num qualquer lugar, eu sorria no escuro, segurando firme o seu livro que já não era proibido.


Sanzalando

21 de outubro de 2025

a caminhada

Era um sábado de manhã, e o sol ainda acordava preguiçoso lá para o lado das hortas. Eu, 15 anos feitos ou mal desfeitos, decidi sair para caminhar, sozinho, pela primeira vez, eu queria ir nas salinas. Peguei um saco, coloquei um cantil de água e o meu velho e inseparável boné dentro dele assim como uma fatia de pão que era de ontem e tinha sido comprado no João Padeiro.

O perto de casa, parei para pensar se eu tinha a certeza que queria caminhar. Não, às vezes a gente tem assim um impulso mas depois se vai arrepender. E antes que fosse tarde eu parei para decidir. Não, eu vou caminhar. Logo na esquina dos Fonsecas virei e fui avenida fora até que passei no velho campo de futebol e aí, perto do matadouro o asfalto deu lugar a uma estradinha de terra que passava por entre árvores e passarinhos que cantavam. 

No início, eu andava rápido, tentando chegar “num algum lugar” que ia imaginado em progressão. Me lembro que foi Café Avenida, depois Estação dos caminhos de Ferro, e no campo da bola e matadouro e agora só me lembrava do Mamede e depois da Sófrio, Quipola, ponte do Rio Bero e estava nas salinas.

Mas, com o tempo, o silêncio da natureza foi vencendo o meu silêncio. Era os passarinhos depois do Matadouro, eram outros ao longo da linda dos caminhos de ferro. Às vezes era só o barulho da brisa nas árvores, só com o barulho do vento e dos galhos.

A princípio cada passo parecia leve, diferente do peso que sentia quando entrei em caminhos que eu desconhecia de andar assim a pé. A caminhada virou mais do que um exercício, virou teste e respiração ofegante.

Na Casa dos rapazes eu pensei voltar atrás. Sentei-me num tronco e pensei que o Padre Cristóvão me daria boleia de volta a casa. Olhei em frente e as árvores e o perfume do rio me chamaram. Levantei-me e continuei. O sol já tinha nascido, a aurora já tinha sido rasgada e eu pus o boné na cabeça não fosse escaldar-me para lá dos pensamentos.

Ali, entendi que crescer não era só fazer anos ou tirar boas notas. Era aprender a andar sozinho, mesmo que o caminho fosse incerto e eu me sentisse inseguro. Ao chegar à ponte parei na cancela, olhei-a a todo o comprimento e decidi não a travessar. E se viesse o comboio? E um carro? Olhando para o rio até que ela me pareceu mais alta do que as vezes que passei no comboio. Não. Termino aqui a minha longa caminhada.

Quando voltei pra casa, o sol já estava alto. A mãe perguntou onde tinha ido.
— Caminhar — respondi.
— E achaste o que procuravas? atirou ela como se percebesse a minha descoberta
Pensou por um instante, sorri e disse:
— Acho que sim. Achei um pouco mais de mim.



Sanzalando

6 de outubro de 2025

o meu fm

Era eu ainda criança de calções e suspensórios, tinha para aí 12 anos e um sonho: queria trabalhar na Rádio.

Não pensava no público, no delírio de fãs, apenas em gravadores, gira discos e muitos botões para mexer. 

Tudo começou num dia de chuva. Não chuva séria, mas na chuva no rádio portátil que se chamava transistor. Porque raio daquilo hoje não dava o nosso palco é o mar? O rádio a tocar fazia de conta era sol que não queima nestes dias de cacimbo.

Um dia, ou dois depois que isso é irrelevante e eu não me lembro, deu corda às pernas e lá foi ao Rádio Clube pedir emprego.

Olharam-me. Perguntaram muitas perguntas e disseram para eu falar ou ler qualquer coisa. Não, quero mesmo é trabalhar com os aparelhos. A minha voz está maluca que deve ser da idade. Tanto está grossa como fina que nem desafinador crónico. E no meio desta conversa lá apareceu o Sousa Santos que disse, anda daí para eu te começar a ensinar. E assim estive uns dois meses a ir para o Rádio Clube nas horas que estava ele ou o Mendes. Não me lembro mesmo quando foi que me disseram que agora eu ia começar a ganhar e a ter um horário. Trás o horário do Liceu e fazemos o teu horário. Se chumbares vais para a rua. Disto eu me lembro que nem agora tenha sido.

Por acasos do destino foram alguns anos naquela função. Uns dias tudo corria bem, noutros havia uma ou outra branca. Às vezes recebia um raspanete via telefone porque às horas bem marcadas tinha de passar a publicidade X e passou a não sei quê. Mas eu estava a dizer que por acasos do destino falhou alguém. O miúdo abriu o microfone e inventou.

O coração deu pulos, a cara ficou vermelha que nem o sangue todo tinha ido para lá. Mas correu substancialmente bem que passei a ter dois trabalhos, mas um só ordenado. Mas era feliz.

A mãe em casa ouvia. Tinha sempre uma ouvinte infalível. Lia algumas notícias, até do movimento marítimo, que quando por lapso próprio não era actualizado lia os navios que já tinham ido embora e tudo. Divertia-me até com as repreensões que a direcção às vezes dava. Eles faziam o trabalho deles. 

Cheguei a sair do estúdio e fui fazer o hóquei, o futebol do Independente, mas aí sempre como técnico. A minha voz não tinha velocidade para dizer aquelas coisas todas conforme estavam a acontecer. 

Às vezes, chamava os amigos que tocavam umas músicas e lá se fazia um programa ao vivo. Eles alinhavam e e o tempo passava numa correria que até cansava. 

Um dia esse tempo acabou e outros tempos aconteceram.

Já crescido, cabelo ralo e muito branco o sonho renasceu. Outros sonhos sonhados que se realizam em cada dia que vou imaginando o próximo. Afinal de contas eu só tenho de ouvir o coração e sintonizar o meu fm.


Sanzalando

29 de setembro de 2025

eu tinha um segredo, de memória

Tinha para aí uns 16 anos e passava todos os dias no mesmo trajeto para a escola. No caminho, sempre esperava ver a, que vou chamar de Clara, porque claramente não poderei nunca revelar seu nove de verdade. Às vezes vi-a rindo com as amigas, outras vezes ia no carro do levada pelo pai, distraída olhando o céu. Para mim, cada detalhe dela parecia digno de um filme que filmava com a memória.

Só que Clara nunca soube. Nunca poderia saber

Guardava os meus sentimentos como quem esconde um tesouro frágil demais para ser mostrado. Eu dizia que podia entrar areia na engrenagem e estragar o que nunca tinha começado. Nos cadernos, as primeiras páginas eram cheias de rabiscos com o nome dela, com os desenhos desenhados mais com o coração do que com o jeito; nas músicas que ele ouvia nas noites da rádio, era sempre os ouvidos dela que ele imaginava estarem a ouvir. 

Conversávamos pouco — “oi”, “até amanhã”, "como estás?", "e a família?", às vezes uma ajuda em matemática ou em ciências, quanto mais não seja era só para ela me explicar o que às vezes eu também já sabia.. Clara , acho, nunca percebeu o brilho nos meus olhos quando falava com ela, nem os silêncios em que queria dizer tudo, mas não dizia nada.

Eu sonhava que, um dia, ela descobriria, obra do acaso, palavra de um deus maior, milagre. Qualquer coisa lhe chegasse ao ouvido. Talvez no intervalo, talvez em uma carta anônima, ou talvez no último dia de aulas. Até lá, continuava apaixonado em segredo, vivendo cada olhar escondido como se fosse suficiente.

O tempo passou, uns dias a voar e outros lentamente e daquele tempo apenas ficou o filme que um dia foi feito com películas de memória



Sanzalando