recomeça o futuro sem esquecer o passado
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30 de outubro de 2024

tempos

A gravidade me curva como que apelando para que eu desça à terra e me horizontalize num eterno descanso. Contrariando a força do tempo, resisto e insisto que a vida é mais longa que a que tenho pelo que sobre a coluna vertical me seguro. O tempo parece que desaparece num exótico tempo de rapidez mal gasto, numa estrutura construída pelo próprio tempo, brilhando na juventude e empalidecendo em cada tempo usado que até parece descorado em pastel exoticamente mal definido.
O tempo, eterno enquanto dura e volátil quando deixado por sua conta e risco.


Sanzalando

29 de outubro de 2024

divago-me

São assim tantas de uma manhã de outono. Desde que me mudei para este aqui eu sinto as quatro estações do ano e alguns apeadeiros. Tem dias que estão as quatro ali nessas horas. 
Se achas que eu vou chorar o tempo das duas estações te enganas, porque a minha mãe mãe trabalhava na dos Caminhos de Ferro e passava a pé, todos os dias, na dos Correios e eu agora não vou mudar o mundo só por causa dessas estações. Tinha calor e tinha cacimbo e de vez em quando chovia. Frio era bué. Vendo bem as coisas os frio de lá é o calor daqui ao fim de tarde. 
Eu seu que me vulnerabilizei. Coisas que o tempo faz. No outono caem as folhas e eu caio de sorriso fechado no cinzento dia que tenho pela frente. Vou fazer mais como para não mostrar a minha dor? É, não lhe desvio o olhar e sigo em frente faz de conta é sempre verão, e verão que as coisas alegres acontecerão. Se assim não for hoje vai ser amanhã, ou depois.
Deixa só seguir as estações. Do ano ou do comboio, tanto faz desde que eu ganhe tempo para ter tempo sem fazer nenhum.


Sanzalando

24 de outubro de 2024

eu e o outono de agora

Sinto o outono entrar em casa. O jardim avermelhou-se e as flores desapareceram. O perfume a terra húmida sobressai. As pessoas circulam caladas num parece introspectivam. As plantas preparam-se para o inverno. As pessoas se aquecem de carinhos como que adivinhando a solidão dos meses frios. 
O outono renova-se a cada ano. Não sei, pois não tenho estudos para isso, mas parece está fraco, empalidecido em relação a outros outonos. Ou será só os meus olhos cansados que já não enxergam como Outrora?

Sanzalando

18 de dezembro de 2021

sem palavras

E se continuar a solear eu aproveito para caminhar sobre ideias a ter, gritando sorrisos e calando ais porque a vida tem-me dado tanto que não sei  mais como eu poderei agradecer. Se eu merecia tanto? Claro que sim, até mais um pouco, acho eu. 
Contento-me e não finjo medos que não tenho nem escondo os que tenho. 


Sanzalando

8 de dezembro de 2021

desnudo-me em palavras

Vou escrever uma carta de despedida sem porém me despedir. Vamos, faz de conta, eu me cansei de caminhar estas palavras por tempos idos do meu antigamente na vida. Vamos, faz de conta ainda, eu fartei de dizer como é que eu era antes de ser o que sou hoje. Vamos, mantem-se o faz de conta, eu não trouxe nada para o dia de hoje de todos os meus ontens e por isso parei de caminhar palavras sobre palavras por este caminho longo aqui tão perto.
De verdade que todas as palavras que caminhei são pedaços duma autobiografia que não escrevi e apenas lhe vivi. Tudo são referências emitidas ou recebidas pela gente, nós mesmo. Daí que hoje eu sou uma mistura disso tudo sem ter a haver nada com isso. Larguei o ontem para estar no hoje, porém o ontem ainda está comigo, faz de conta ainda, é tudo uma confusão da minha cabeça, todas as palavras são caminhos afilhados da minha imaginação, cães de rua que me perseguem faz de conta eu vou na bicicleta. 
Todos estes caminhos palavreados carregam muitas escuridões e clareiras da minha existência ficcionada na memória ou imaginação. Mantendo-me no faz de conta, desde o zulmarinho até a este norte onde me encontro, nas minhas palavras se misturam imagens reais com imaginações delirantes, características não misturáveis, óleos e águas, cores fortes e fracas, transparências e opacidades, tudo fazendo sentido na minha cabeça e tropeções no meu caminho. E eu aqui desnudado em palavras. Faz de conta até eram belas de se caminharem e olharem.
Afinal de contas, estes caminhos palavrados, carregados de emoções e ficções, estes eus, são capazes de terem sentido, transformaram os meus cacos num ser pensante, num mosaico de cores vividas, garridas e berrantes, misto de nostalgia e insano de inocências.
Como poderia eu me despedir destes fragmentos aleatórios que fizeram um desenho que se mistura no meu eu?!


Sanzalando

12 de outubro de 2021

é a vida

Quantas vezes me apeteceu dar de asas e voar? Ir por aí num não sei onde, olhar para um não sei quê e saborear um não sei quantos?
Quantas vezes fiquei em silêncio apetecendo-me gritar? Quantas vezes gritei quando devia ficar calado? Quantas vezes me perguntei o que era a vida? É isto! Não existe outra resposta. Altos e baixos, pensamentos positivos e negativos, curvas e rectas, sabores agradáveis e outros indesejáveis. 
É a vida! 
Quantas vezes pensei em sofrer contigo do que alegrar-me sozinho?
Quantas vezes pensei errado e agi certo? E ao contrário? 
É a vida!
Quantas vezes me apeteceu dar um abraço antes de me soltar por aí?
Quantas vezes pensei que o tempo ajuda a apagar as dores e não a curá-las?
É a vida!
É bem mais simples simplificando-a, alegrando-a sorrindo.

Sanzalando

11 de outubro de 2021

a vida

Deixo correr o tempo já que eu não tenho vontade de o fazer. Este sol outonal faz-me assim um misto de sorna com uma desàvontade de fazer o que quer que seja. Penso para não dizer que não faço nada. Seria pecado gastar tempo assim, desvivendo-me. Já tomei, faz tempo uma decisão, que é não reclamar. Simples e eficaz.
Não vale a pena reclamar, nem com a vida. Só faz ganhar rugas antes da hora essa coisa de embirar e reclamar. Há coisas que posso fazer e outras que não. As que dependem de mim eu penso e ajo. As que dependem dos outros isso é com os outros. Estou que nem vou por aí.
Assim se vive a vida.


Sanzalando

6 de outubro de 2021

outonal textinho

Cinzentado sol que nasce cada vez mais lentamente que até parece é preguiça de outono e me ajuda a abrir as portas da minha alma com um grau de melancolia e outro de nostalgia, num complexo de letras rascunhadas com misto de certezas absolutas, palavras frias mescladas com tórridos sentimentos. Outono de estação de vida interligada a estado de espírito, mesclado de retrocessos e avanços tímidos num amadurecer de ideias que se fazem crescer até se soltarem em vida própria.
Eu vou de outono em outono até a um inverno final que espero seja tarde, noite dentro da vida


Sanzalando

5 de outubro de 2021

num feriado

Ensolou mais devagar do que é habitual. Foi tão devagar que nem deu para aquecer como se fosse um dia de verão, embora se olhasse de trás da janela eu ia dizer que sim. Um choro de criança se ouve como barulho de fundo. Deve ser fome, penso eu que já esqueci os truques de ser pai. Outra criança esboça um choro. Percebo que são dois choros diferentes. Ambos se calam ao mesmo tempo o que não deu para mentalmente diferenciar. O que haverá para lá desta janela para além dum sol morno e lento de outono, duas crianças recém nascidas com fome e um madrugar? A minha felicidade, é certamente uma das coisas para cá da janela e para lá há mundo a madrugar

3 de outubro de 2021

outono

E parece é hoje que ele chegou. Nem me avisou que ia chegar. Esse outono de descontentamento apareceu assim quando acordei duma noite de relaxar corpo e cabeça. Abri a janela e até parece logo a melancolia me entrou corpo a dentro. Foi simultânea a entrada desse outono no meu quarto.
Uma chuva miúda me bateu na cara enquanto a minha face se mascarou de tristeza surpreendida. Estava esperançado de encontrar um dia brilhante, ruas desertas pelo ser manhã cedo dum domingo. Afinal, cinzento céu em rua deserta de molha todos, afectados pelo outono, resguardados nas cama quentes dumo noite ainda de verão.
Não acho lindo essa mudança brusca do tempo e temperamento, da natureza das coisas alteradas assim num ápice que a gente nem tem tempo para se adaptar e mentalizar. 
Vou tatuar o outono na mina alma por uns tempos.


Sanzalando

23 de setembro de 2021

chegados ao outono

Chegados ao outono sorrimos e dizemos que sobrevivemos. O receio agora é chegar ao inverno, aos dias frios que corroem as veias, pouco ou nenhum espaço deixam para a realidade mental, já que o corpo gasta o seu tempo a tentar aquecer-se para fazer a caminhada escura dos dias cinzentos. No outono ainda teremos um ou outro dia de luz a doirar as copas nuas das árvores. No inverno os galhos se parecem mortos em luto cinzento carregado. No outono ainda não está frio e porque será que já penso no frio de inverno? Deve ser para ter tempo para aquecer-me com o calor da indiferença.
Começou o outono e eu já antecipo tempos longínquos.


Sanzalando

19 de dezembro de 2020

fim de outono

E acabando o outono o que irei fazer? Filosofar no inverno é deixar o imaginário demasiado à deriva num mar de norte. Sentar-me a ver o zulmarinho, nuns dias calmaria e noutros de ira é demasiado incómodo para o agasalho que tenho de levar. Ficar à lareira e ver o tempo a passar acho é sorte a mais para um ser irrequieto. Pedalarei por aí, pensando e pedalando ou vice-versa desde que não caia. 
E para treina eu gostava de definir o amor. Já Camões tentou e disse que era um fogo que arde sem se ver... e não gostei lá muito disso. Porque defini-lo é limitá-lo e o amor não o tem. Acho que vou ter que esperer mesmo pelo invernoe continuar a digar pelo outono sem antecipações. Uma coisa de cada vez sem ultrapassar a delicada linha que separa o interesse da obsessão. Ainda estamos apenas no fim do Outono


Sanzalando

18 de dezembro de 2020

eu e o lugar

É provável que um dia eu negue que tudo isto me aconteceu, negue que foi bom ter acontecido, negue que foi importante, negue que algo mudou dentro de mim daqui para o resto até perder de vista. 
Mas lembro de tudo e sei também que estou a recordar, esteja onde estiver os tempos passados. Mas não me importa mais o temporal passado. Algumas pessoas apenas não nasceram para serem recordadas no lugar de nascimento, mesmo embora os seus encontros físicos sejam bem românticos e inesquecíveis, naquela adolescência que parecia eterna. É isso que querem dizer quando dizem que tudo isto é um jogo, o jogo de vida. Se me sentisse derrotado, não fazia sentido ficar depois a assistir às reprises dos melhores momentos e esquecer os piores. E eu até que perdi tanto que só sobrou a memória, perdi para mim mesmo, ou seja, perdi para quem sou.


Sanzalando

17 de dezembro de 2020

eu biografado

Olhando para lá da linha recta que é curva, tentando ver-me no lugar da minha placenta, ouvindo o marulhar das sereias que antes eram kiandas e sentindo a maresia que antes era perfume banal, me imagino a mudar a minha imagem, aquela que eu transmito a toda a gente e que às vezes é o oposto de mim, do eu real. Não é fácil sorrir todos os dias, não é fácil conversar sempre que solicitado. Tem momentos que sabe bem gritar, pontapear o vazio, insultar o torto e o direito, ser algo que não sou. Não é fácil ser Eu. Tem momentos que finjo, que distorço, contorço para poder continuar a mostrar a imagem que transmiti de mim. Às vezes sou ignorante, criança, irreverente, adulto, sorridente, tacanho, cansado, feliz, triste, sou tudo isto porque sou humano e às vezes desgastado.
Mas eu sou o que sinto ser e não o que pensam que eu sou, mesmo estando longe das minhas areias, mesmo estando longe dos meus choros birrentos de criança feliz que foi crescendo sem corroer.
Afinal de contas eu sou assim e vou fazer mais como?

Sanzalando

16 de dezembro de 2020

outono dourado

E faz sol depois de ter chovido cacimbo mais grosso. Este outono de cores douradas está aqui está primaverado sem ter invernado. Sem inverno como é que eu vou dizer que o teu maior defeito sou eu? Como é que eu vou manter este corpinho esculpido no sofá de leitura horas a fio? O que me vale é que este outono está por um fio. Terminado hibernarei por mim adentro num conhecimento profundo da minha essência organizando o meu caos e dando forma a todas as minhas personagens. 
Mas não antecipemos. É outono douradamente chuviscado.


Sanzalando

15 de dezembro de 2020

eu e outono passagem

Ainda no outono o tempo indefine-se. Indecisamente sente-se primavera, faz-se de verão e inverana-se de frio. O colorido do outono é bonito. A luz do sol, quando brilha é luminosamente bela. Ou outono-me em vários estados: nostálgico, alegre e moribundo-me à tristeza total. Multiplico-me em personalidades instáveis. tantas e tantas vezes começo um pensamento sem palavras exactas à espera que me venha à lembrança uma qualquer coisa esquecida. Navego-me por oceano de letras que até me chego a afundar em tantas palavras revoltas. Quantas vezes tento salvar os pensamentos perdidos? Quantos os deixo afundar na minha completa incapacidade de raciocinar? Afinal de contas que mais não é o outono do que uma viagem em que levo a mala cheia de pensamentos para pensar no verão do meu contentamento? Mais não é que o esconderijo dos meus olhares calados e escapados, que as minhas letras soltas para mais tarde soletrar. 
Mas cada um tem o outono que merece


Sanzalando

14 de dezembro de 2020

matacanha de vida

Fui ver o zulmarinho. Lhe olhei como se fosse a última vez. Pensei que  a felicidade é igual que nem turista, vem e vai num io-io interminável enquanto a gente tem ideia de ser o que é. Já a saudade é como desabrigado, vem e fica que nem matacanha ou bitacaia ou tanga penetrans, como dizem os cientistas, se gruda e provoca costeira que nem um tremor de terra no corpo.

Sanzlanado

12 de dezembro de 2020

eu e o tempo

Eu sou uma das pessoas que fala tanto em tempo e em como ele é capaz de curar tudo, que às vezes esqueço que ele na verdade também destrói, corrói, separa e muda, incluindo pessoas. 
O tempo que traz é o mesmo tempo que leva momentos, lembranças, amigos e amores. 
O tempo até parece tem pressa. 
Por isso é importante aproveitar e saber valorizar qualquer tempo. Há tempo para tudo, excepto para  desperdiçar. Viva o que tem para viver, aproveite o momento, não deixe nada para depois, pois o depois pode nunca acontecer no seu tempo

Sanzalando

10 de dezembro de 2020

tem dias e dias

Tem dias em que o nosso silêncio é um barulho ensurdecedor, em que a gente se cansa de tentar ser alguém que não cabe mais no nosso estado de espírito. 
Há dias assim, em que as melodias são sons estridentes, que olhares meigos são rasgos de raiva e um suspiro é um vendaval.
Tem dias em que o olhar parece precisa ser legendado para nós mesmo compreendermos o que vemos. Tem dias que parece é o coração que chora mesmo que a mente sorria.
Tem dias que a ansiedade me faz correr quando estou parado, que as rosas que olho são descoloridas, que a chuva fina que cai me parece trovoada. Tem dias que mais valia eu não saber palavras.
Mas felizmente hoje não é esse dia. Gosto do meu silêncio e do brilho dos meus olhos quando olho-me por dentro.


Sanzalando

9 de dezembro de 2020

eremitei

Eremita, ser que vive em solidão em contemplação ou se isola para não viver em sociedade. Eu sou um eremita em mim uma vez que me tenho e não me pertenço. Quando eu morrer este corpo deixará de me pertencer, terá o seu fim, mesmo que as minhas palavras continuem baralhadas no espaço a fazer confusão a sábios cérebros. 
Na verdade eu sei o que faço, onde devo começar e acabar. Eu sei que esta solidão de pensamento é o meu equilíbrio, meu fio de prumo, minha verticalidade estampada em palavras soltas que tanto vão ao céu como se enterram na mais profunda confusão.
Tem dias que me ausento de mim para melhor me compreender. Não preciso convencer ninguém a dar-me atenção. Tenho-na, o que é preocupante. Um eremita não precisa dessa reciprocidade, não precisa que utilizem a sua luz para iluminar à sua volta.
Eremitei-me



Sanzalando