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25 de setembro de 2016
um dia
12 de março de 2010
Silêncio, Instante e Sonho
Troca de olhares. Imagino que tenhamos trocado de olhares. A distância não me permite ter esta absoluta certeza. Sei que te atirei o meu olhar o mais rápido que pude quando te imaginei ao longe a olhar-me. Senti uma química, poderá ter sido uma física ou apenas um arrepio. Balbuciei o teu nome. Ao meu lado me olharam com olhos de admiração. Quebrei o silêncio por tão breves instantes que nem eles hoje ainda sabem se foi sonho ou não. Tornámo-nos amantes sem que tu o soubesses. Eu sofrendo e tu seguindo a tua vida em prosperidade e altives. Eu chorando e tu de festa em festa mostrando lantejolas, brilhos e sorrisos. Eu sempre pensei que um dia, distantemente ou não, andariamos de braço dado, olhos nos olhos como se fossemos um apenas. Para ti sempre foi igual, deslumbrante, encantada encantadoramente sem olhares para o meu olhar silencioso que de instante em instante te sonho.
Assim termino, prosamente, a poesia que em silêncio te sonhei em cada instante.
10 de março de 2010
inundado de palavras caladas
Quem é que pode saber se eu estou inundado de palavras caladas? Já perguntei a bruxos, falei com deuses, tentei ler nos astros e em búzios. Respostas foram como elas, silêncios perpétuos, como outros silêncios que aguardo faz anos que sejam rompidos.
Será que calo as palavras que deveriam ser ditas e digo as que estariam melhor se fossem caladas? Enigma. Palavras cruzadas em passatempos de vida. Charadas.
Ao menos, quando estou só, calo em gritaria as palavras que ninguém as ouve, recordo os olhares como eram faz tempo de adolescências esquecidas. Os meus lábios tentam cantarolar os fados, as mornas, as kizombas e os sembas e os sentimentos afogam as palavras antes delas serem ditas.
Quem é que pode saber se eu estou inundado de palavras caladas?
9 de março de 2010
silenciosamente
Deixa estar o silêncio, deixa-me ouvir esta surda dor que vem dali dos lados do coração. Sente-la? É demais para ti se mal sabes que eu existo neste canto rodeado de silêncios. Acelara-me o coração, ouço violinos, guitarras, arpas e outros instrumentos duma qualquer orquestra inexistente, só porque atrás do silêncio parecia-me ter-te visto a acenar-me. Como sempre, quando te encontro, estás de saída, não me vês porque não me olhas num propósito que um dia te poderá sair caro. Mas não quebro o silêncio para te chamar, para te implorar para te rogar. Chamarão por isto amor, eu diria doença.
Sofro-te, mas silenciosamente!
8 de março de 2010
silêncio de memória
Deixo correr o silêncio como se fosse o meu sangue. Veias, artérias e demais pontos estão cheios de silêncio. Nesse silêncio, onde não se encontra hemoglobina, leucócitos e linfócitos, plaquetas e demais corpos e anticorpos, encontra-se a memória, aquela que até parece que me pagam para transportar em cada instante, mesmo que me faça soltar lágrimas, mesmo que me faça querer desaparecer, aquela que me martiriza a memória. Posso esconder-me no mais recatado recanto do circular mundo que ela lá está, agarrada ao meu silêncio, agarrada ao meu corpo. Seja inverno, seja verão, chuva ou faça sol, o meu silêncio trás-me a memória da saudade desse amor eterno. E eu, silenciosamente, tenho que ter a memória viva. Eu sou esse silêncio, quer queira quer não.
7 de março de 2010
Não acordes o ruído
Silêncio, por favor não acordes os medos de ontem nem afugentes as esperanças de amanhã. Não me atormentes a felicidade da memória nem me rasgues o paraquedas dos sonhos. Deixa-me sentir o silêncio e saborear as vitórias que eu imagino que já tive. Deixa-me entranhar na luminosidade silenciosa desta manhã de chuva e dizer que sou um sortudo porque ainda sei sorrir.
Mantem-te em silêncio, por favor, não me acordes desta realidade que imagino verdadeira, em que sinto o perfume da terra molhada, do mato queimado e do suor dos corpos que repousam nas eiras solarengas duma praça.
Silêncio para não acordares o ruído.
6 de março de 2010
através do silêncio
Neste momento de silêncio tropeço em palavras que disse um dia, em ideias erradas que me passaram pela cabeça e soletrei até decorar como se elas fossem realmente boas, em conceitos por mim inventados como se fossem realidades. Afinal de contas eu dou conta da minha realidade, da minha existência, dos ruídos de fundo que emanam dos precipícios em que me coloquei, das coisas felizes em que me inventei, das lágrimas choradas por minha culpa.
Afinal de contas, através do silêncio, vejo que o mundo tem uma cor diferente na realidade, um pulsar diferente da batida do batuque por mim musicado, que a cara fechada não é sinal de tristeza, que a lágrima pode não ser de dor e o grito pode ser de alegria.
Através do silêncio espreito a minha sina, aguardo um chamar, que pode ser silencioso, um beijo na face que pode ser imaginário, uma carícia que deve ser real.
Através do silêncio sopro os quatro ventos e aguardo com paciência por uma palavra simples e pequena.
5 de março de 2010
Silêncio do destino
Dizem que qualquer palavra pode ser reinterpretada por quem a escuta. Penso que com o silêncio se passa o mesmo, depende com quem se reparte. E os olhares? Até se consegue mover almas e receber sentimentos secundários.
Mas hoje, sem palavras, dirigi-me ao lugar onde repousa o destino. É, o destino está ali deitado, num vale verde e silencioso à espera que o seu real proprietário o vá buscar. É o destino do destino. Vasculhei, procurei, li rótulos, uns meio apagados por estarem ali tempo faz muito, e não descobri o meu. Tenho de lá voltar outro dia, assim num dia que tiver todo o tempo do mundo e depois, se o encontrar, só devo ter tempo para ver o destino que perdi. Mas em silêncio viverei o restante destino que sobrar. Vou chorar o destino que me esqueci de procurar mais cedo? Que culpa pode ter ele.
Por lá encontrei velhas lendas que também se esqueceram de ir buscar o destino e estavam destinadas a outros feitos que não aqueles que eu lhes conheci. Encontrei desilusões, atiradas para um canto como que jogadas fora quando o destino foi com o seu dono.
Em silêncio vasculhei, li, chorei e ao sair na promessa de voltar quando tiver outro tempo, pensei, que não sei se ganhei ou perdi, por não ter encontrado mais cedo o meu destino, sei que sofri, mas caramba, também fui feliz.
4 de março de 2010
Uma carícia de silêncio
Porque às vezes as perguntas se fazem por pequenos gestos, eu hoje gostaria de saber do meu amor, pelo que disparei o meu olhar para lá do horizonte e deixei-o fluir sem esboçar nenhum som. A resposta veio num olhar de retorno, silenciosamente, directa ao meu coração, nem afectos nem carícias, sem rosto nem identificação e fez-me sorrir.
Foi um pequeno silêncio tornado carícia.
3 de março de 2010
Silêncio das sombras
A luz trémula dum candeeiro de petróleo faz projectar na parede a minha sombra disforme. Silenciosamente o tempo foi modificando a silhueta, o perfil, a face, a contraface parecendo eu já um contrafeito produto de mim. Mas me olho na parede, onde sobressaem curvas, onde a largura não é mais muito diferente que a altura, e sigo a linha de prumo que pensei um dia havia de seguir. Na verdade sigo-a em câmara lenta ou em parada tantas vezes. Mas na verdade acho que os ímpetos são os mesmos, os gestos afagados apertados, os sorrisos, se calhar já não gargalhados, continuam a ser sorridos. Os perfumes continuam a ser os mesmos, assim como os odores recriados de memória. Se calhar o que mudou foi mesmo o silêncio, a silhueta, o entusiasmo aparentado.
A luz trémula do candeeiro de petróleo apenas vem acentuar alguns dos vectores desta equação interminável, tatuado no corpo nu em formas de rugas, pregas, almofadas e umas ou outras flácidas partes.
O silêncio trás-me de volta às voltas da fala calada, aos desejos desejados e não esquecidos. Pelo menos por mim!
2 de março de 2010
no alto dos silêncios
Sigo os meus silêncios como se estivesse a cumprir uma qualquer promessa, uma recordação, uma memória. Tento dentro do silêncio descansar ainda que as recordações parecem que duplicam, ainda que as imagens memoráveis se projectam com mais intensidade na tela do pensamento. Neste silêncio absorvo o fumo do cigarro que não fumo, saboreio o vinho que não bebi, e apanho os raios de sol que não apareceu por hoje. Vagueio-me de silêncio em silêncio como quem quer viver eternamente neste silenciado instante. Não, não me escondo no silêncio, vivo-o. Se eu fosse um pássaro, subia alto nos céus para em silêncio me rever nos passados da memória.
1 de março de 2010
Silêncios de ver e ouvir
Deixo os meus olhos brilharem como se estivessem enamorados, porque acredito no amor, naquele que às vezes doi, naquele que às vezes nos faz esquecer outras coisas da vida, naquele que às vezes te vêem mesmo na tua ausência.
Ouço o marulhar mesmo não tendo o mar à vista porque sei que lá mais para o longe ele me espera como sempre me esperou, ele me trás novidades como sempre me trouce, ele está ali a acreditar.
Brilham-me os silêncios neste amor de sonhos, realidades, virtualidades, nestes gritos de dor, nestas gargalhadas de alegria, nestas lágrimas que me apatecem chorar por chorar.
Mas afinal de contas, com tanto silêncio já tenho dificuldade em ver e ainda mais me custa ouvir.
27 de fevereiro de 2010
Silêncios (2)
Que faria eu se não te tivesse? Afogar-me-ia em ruídos, suicidaria em gritos estridentes e lacrimejantes do dia a dia e deixava o sorriso escondido numa qualquer caixa de sapatos velhos lá de casa?
É o destino de quem ama, por vezes o impossível, por vezes o inatingível e outras vezes o arrogante amor simples de ser amado.
O que faria eu se não te tivesse? Como ouviria eu os gritos calados da dor, a dúvida de ainda ser dextro e a ruminação da impotência de ser menos válido?
Ao menos contigo ouço-me conversar, ouço o barulho de espadas na sua feroz luta do hei-de conseguir.
Silêncio, salvaste-me, porque consigo seguir-me nas recordações mentais sem sobressaltos, não cansando a minha gasta memória nem me deixando extravasar em suores de esforço e solidão atrás de tanta gente.
26 de fevereiro de 2010
Silêncios
Me refugio no alto do meu buraco. Me encerro numa caixa de silêncios e me cubro de palavras soltas que ainda não foram ditas. Fujo do mundo, da realidade que os teus olhos vêem e que a minha alma não sente, das lágrimas e gargalhadas que finges soltar. Fujo para dentro de mim, real, palpável e esperável. Vejo por dentro as minhas lágrimas, ouço as minhas gargalhadas e releio as palavras que te vou dizer no dia que te encontrar fora desta realidade. Enfim, troco-me por silêncios transformados em imagens que não fotografei, paisagens que não vi, olhares que não senti, diálogos que não dialoguei.
Ouço o mar, persigo lesmas na sua parada correria, voo com avestruzes nos céus côr e laranja de pôr-de sol pintado numa tela que já foi uma queimada. Deixo os nervos espetados em alfinetes numa cortiça dum canto qualquer, embalo problemas num qualquer barco de papel.
Me refugio no alto de meu buraco, apenas para ouvir o meu silêncio.
24 de fevereiro de 2010
instantaneamente
23 de fevereiro de 2010
Parece um instante
Te fico com mais um instante, daqueles em que o tempo goteja como torneira mal fechada e acaba por ficar um charco, porque me falta força para secar o que parece são lágrimas que caem dessa torneira. Te digo que parece é falta de força de vontade o que falta. Parece é falta de motivação. Parece é habituação que solidificou na desvontade. Mas neste instante eu vou tentar fazer crescer uma outra força, imaginária ou virtual, olhos azuis de mar, calor quente de tropicalismo, canto dolente de festa na sombra da mangueira, que me vai ajudar a fechar o instante lagrimejo dessa torneira que charqueia o campo onde me instalo e afogo as promeças que não recebi.
Parece este instante é mais longo que a morte do tempo nos relógios da memória e as forças contrárias são mais fortes que a corrente do mar que me leva para lá da linha horizontal.
21 de fevereiro de 2010
um instantinho

Apenas um pequeno instante, o suficiente para me matar as saudades que te sinto num ferver de desejo. Já não te vejo desde a outra ponta do sofá e já não te ouço desde o ultimo suspiro que te dirigi. Levanto o olhar e tento sustê-lo na horizontal na tentiva vã de te ver do outro lado do horizonte, para lá das nuvens que me encurtam a distância visual, para lá da minha alma dormente.
Foi apenas mais um instantinho, o suficiente para te dizer que te quero como ontem num amanhã de sol, que te desejo mesmo no enrolado frio com que me tapo das dores do corpo.
14 de fevereiro de 2010
Faz conta eu ligo a S. Valentino
Te gamo um instante que o quero para poder sonhar-te. Imagino-me um jovem adolescente (muitas vezes posto de lado pelo seu aspecto vulgar, de irrequietude quase clandestina, medroso no enfrentar de frente mais velhos que tinham por hobbi irritá-lo, mas na sombra dos dias claros e noites escuras se vingava sem ser descoberto), na praia à espera daquela onda, a certa, a que tu estarias a olhar, para arrancar a correr, feliz e ululando como que a chamar-te a atenção, se isso alguma vez tivesse sido possivel, jogando-me para o mar em pose de super-homem, no mais perfeito estilo duma pontuação artistica, a onda a se arrepender e voltar para o mar, tendo restado apenas a areia molhada e um mero centímetro de água, e este ilusório heroi se estatela no mais estilhaçado estatelanço que tu poderas ter visto se tivesses olhado pelo menos dessa vez. Um beijo pelo dia de hoje, que nunca foste minha namorada mas não deixas de ser a minha amante, mesmo que não o saibas.
12 de fevereiro de 2010
instistente instante
Desculpa a insistência, mas dá lá o meu instante, aquele que tu sabes que eu mereço. Dá-me um sorriso, um brilho do teu brilho, um olhar dos teus olhos. Dá-me apenas, num dar sem esperar nada em troca, que nada tenho para te dar. Tudo o que tinha te tenho dado ao longo dos tempos e não recordo de ter recebido nem um olhar. De que cor são os teus beijos? Qual a estrela do teu sorriso? Que voz têm as tuas palavras?
Dá-me um instante, um brilho de sol em chávena de café, um tropical sabor quente do teu hálito.
Olha, tenho medo que quando decidires dar o instante que insistentemente te peço, o meu coração esteja sólido e branco como um ovo acabado de cozer, mole, flexível, porem não deformável, apenas estilhaçável.
11 de fevereiro de 2010
instante pequenino
Olha, dá-me um instante. Pequenino. Qualquer um me chega. Sabes que fazes parte de mim, por isso estar contigo fisicamente um instante é sempre bom. Não interessa o tamanho do instante. Mas eu preciso dum que me dê tempo de acariciar-te o brilho, sentir a tua luz sobre mim como que se fosse uma indelével carícia, cheirar o teu perfume como se isso fosse a minha essência de vida.
Anda lá, dá-me este pequeno instante.