Em 1975, Angola estava a ferro e fogo. Havia tiros, havia medo, havia incerteza e havia adultos a falar do futuro com aquela gravidade de quem sabe tudo, embora ninguém soubesse muito bem o que ia acontecer no dia seguinte. Eu, adolescente, vivia tudo isso com a despreocupação própria da idade. Ou quase. Porque, enquanto os mais velhos discutiam política, independência, partidos e destinos, eu tinha um problema infinitamente mais grave: estava apaixonado.
E quando um adolescente está apaixonado, a história pode esperar um bocadinho. Não muito, claro, mas o suficiente para ele acabar de ouvir uma canção romântica. Eu estava apaixonado por ela.
Tinha uns olhos que me faziam esquecer as tabuadas, as fórmulas químicas e a geografia mundial. Tinha um sorriso que me desorganizava o raciocínio e uma voz que, se me pedisse para saltar de um avião sem paraquedas, me faria perguntar apenas a que horas devia fazê-lo.
Ela era o meu grande amor. Digo grande porque, naquela idade, ainda não tinha tido oportunidade de comparar. Mas também porque, para mim, ela era enorme. Ocupava-me a cabeça toda, deixando pouco espaço para matérias de menor importância, como os estudos, o futuro profissional e a possibilidade de um dia vir a ter dinheiro para pagar um jantar.
Depois começaram as partidas. Famílias inteiras preparavam-se para abandonar Angola. Umas por receio, outras por necessidade, outras porque já não viam condições para continuar. As malas multiplicavam-se, os amigos desapareciam e as despedidas começavam a fazer parte da paisagem.
Foi então que soube que ela também ia embora.
Portugal.
A palavra caiu-me em cima como uma bomba embora eu, felizmente, não tivesse experiência suficiente para distinguir uma bomba duma panela de pressão a explodir ou o rebentar de um pneu.
- Ela vai mesmo? - perguntei ao Manel, que sabia tudo primeiro que eu.
- Vai, pá. A família já tem tudo preparado.
- Tudo?
- Tudo. As malas, os documentos, as passagens…
Fez uma pausa e rematou:
- E tu, se fosses esperto, também começavas a pensar na tua vida.
O Manel tinha um defeito terrível: era sensato. E a sensatez, na adolescência, é uma doença que ninguém deseja contrair. Eu não queria pensar na minha vida. Queria pensar na vida com ela. Havia uma diferença considerável entre as duas coisas, mas ainda não tinha idade para compreender a subtileza. Na verdade, eu não tinha medo dos tiros. Ou melhor, tinha algum, porque não era parvo. A ideia de uma bala perdida não me despertava qualquer entusiasmo. Mas, se me perguntassem o que mais me assustava naquele ano de 1975, eu responderia sem hesitar: a possibilidade dela partir sem que eu lhe tivesse dito nada.
Os tiros podiam acertar no corpo. A partida dela acertava-me num lugar muito mais complicado, que os médicos da época ainda não tinham identificado nos livros de anatomia. Foi aí que tomei uma decisão histórica: eu também ia fugir de Angola. Não por medo da guerra. Não por receio do futuro. Não por falta de coragem para enfrentar as dificuldades de um país em transformação. Ia fugir por amor.
Era uma decisão romântica, corajosa e financeiramente irresponsável. Sobretudo porque eu não sabia nada, não tinha conhecimentos, não tinha dinheiro e, tanto quanto me recordo, ainda dependia da autorização da mãe para comprar um par de sapatos. Mas os grandes heróis nunca se deixam intimidar por pormenores.
Naquela noite, anunciei a decisão em casa.
- Vou para Portugal.
A minha mãe parou o que estava a fazer e olhou-me com olhos fulminantes.
- Vais para Portugal fazer o quê?
Era uma pergunta razoável. Uma mãe tem o direito de saber o que pretende fazer o filho, sobretudo quando o filho pretende atravessar o oceano sem saber bem o que vai encontrar do outro lado.
- Vou estudar.
- O quê?
Hesitei.
- Ainda não decidi. De manhã queria ser advogado, agora apetece-me ser médico!
A minha mãe, que tinha um talento especial para descobrir mentiras antes de elas estarem completamente formadas, olhou para mim.
- Isso tem nome de rapariga.
Fiquei calado.
-Como se chama?
- Ela! - disse-lhe o nome baixinho pois não me apetecia que mais gente soubesse
- Ah! Então não vais estudar. Vais fazer turismo sentimental em Portugal?
Foi a primeira vez que ouvi a expressão, mas reconheci imediatamente a sua exactidão. A família não ficou propriamente entusiasmada com o projecto. Havia preocupações reais, dificuldades, despesas e uma guerra que não se resolvia com poemas de amor. Mas eu insistia. A minha argumentação era imbatível: se ela vai para Portugal, eu tinha de ir também.
A minha mãe tentou explicar-me que um país não é um comboio que se apanha só porque uma rapariga vai sentada numa das carruagens. Eu disse que compreendia, mas não compreendia nada. Na minha cabeça, Portugal era uma espécie de extensão geográfica do namoro. Imaginava-me a passear com ela por ruas bonitas, a tomar café, a ver montras e a construir uma vida a dois. Não me passava pela cabeça que, em Portugal, também havia rendas para pagar, empregos difíceis, dias de chuva e senhorios que não aceitavam promessas de amor como caução. O meu conhecimento do mundo era limitado, mas o meu optimismo não tinha fronteiras.
Um dia ela partiu como eu já contei aí para trás. Eu fiquei. As ruas estavam desertas, As casas estavam fechadas. Aqui e ali ouvia-se o martelar de caixotes. Uns dias eram calmos, Outros tinha trovoada de barulhos de armas que nem se chovesses eles se iam calar. Tinha salvo-conduto. Ou vários conforme os dias e os locais. Tudo fechou. O silêncio humano assustava mais que o barulho infernal dos boatos e das armas.
Desisti. Não resisti. A hora chegou e quando chegou o momento da partida, senti uma mistura de tristeza e entusiasmo. Deixava para trás a terra onde crescera, os poucos amigos que ficavam, as ruas, as praias e uma parte importante de mim. Angola era a minha casa, e partir não era uma aventura ligeira. Era uma mudança profunda, num tempo em que tantas vidas estavam a ser empurradas para destinos incertos.
Mas eu era jovem e tinha-a à minha espera. Pelo menos era isso que a minha imaginação me garantia e eu nunca tinha duvidado dela. A imaginação é uma coisa maravilhosa. Não paga bilhetes de avião, não trata de documentos e não faz as malas, mas consegue convencer um rapaz de que tudo vai correr bem. Parti.
E foi assim que, enquanto uns fugiam da guerra, eu fugi atrás de um amor.
Há uma diferença entre as duas coisas, embora o resultado pudesse ser o mesmo: deixar para trás uma vida inteira e começar outra sem saber muito bem como.
Quando cheguei a Portugal, descobri rapidamente que o amor não vinha incluído no preço da passagem. Ela tinha os seus problemas, a sua família, as suas preocupações e uma vida que não podia ficar eternamente à espera de um rapaz que atravessasse o mar com mais entusiasmo do que juízo. Ela tinha outros sonhos. Encontrámo-nos, conversámos, sorrimos. E eu descobri que a distância tem uma particularidade desagradável, permite-nos inventar uma pessoa perfeita, mas não garante que a realidade tenha recebido o recado.
Não vou dizer que ela me desiludiu. Seria injusto. Ela nunca me prometera aquilo que eu, sozinho, tinha decidido que me prometera.
O problema era meu. Eu tinha confundido um sorriso com um contrato, uma despedida com uma declaração de amor e uma viagem com o princípio de um casamento. Em suma, tinha feito tudo aquilo que um adolescente apaixonado deve fazer para complicar a vida.
Anos mais tarde, recordando aqueles dias, percebi que não tinha fugido apenas por causa dela. Fugi também porque era jovem, porque o mundo estava a mudar, porque tinha medo do que poderia acontecer e porque, no meio de tanta incerteza, precisava de acreditar que havia alguma coisa à minha espera.
Mas, na altura, se alguém me perguntasse por que razão deixara Angola, eu respondia com toda a convicção:
- Vim por amor!
E fazia uma pausa, para dar solenidade à declaração.
Hoje, confesso, tenho vontade de rir daquele rapaz. Não porque tenha sido ridículo, mas porque foi profundamente adolescente. Tinha coragem para atravessar um oceano por uma rapariga, mas provavelmente não tinha coragem para lhe perguntar, com todas as letras, se ela gostava dele.
Fui aprendendo com a vida. Ela ensina-nos que o amor não se força, que as partidas nem sempre são voluntárias, que os países podem mudar de destino e que as pessoas levam consigo saudades que não cabem nas malas. Ensina-nos também que, às vezes, a juventude nos empurra para decisões que só compreendemos décadas depois. E há uma coisa que nunca esqueci, em 1975, enquanto Angola vivia uma das páginas mais dramáticas da sua história, eu acreditava sinceramente que o meu maior problema era conseguir que ela se apaixonasse por mim.
A guerra era uma tragédia colectiva. O meu desgosto era uma tragédia particular. E, como qualquer adolescente que se preze, eu estava convencido de que a minha era muito pior. No fim, talvez tenha sido esse o meu maior acto de coragem, abandonar a minha terra sem saber o que me esperava, por acreditar que o amor podia dar sentido a uma partida. Não sei se valeu a pena. Sei que sobrevivi, cresci e aprendi a rir de mim próprio. E, se algum dia voltar a encontrar-la, talvez lhe diga finalmente aquilo que não consegui dizer em 1975:
- Sabes, fui para Portugal por tua causa!
Ela provavelmente responderá:
- Não me digas! Não sabia e acho que não quero saber ainda!
E eu, com a sabedoria que cinquenta anos de vida me deram, encolherei os ombros e responderei:
- Pois. Foi por isso que demorei tanto tempo a perceber que a guerra não era o único perigo em Angola. O outro era eu, quando me apaixonava. Porque há quem fuja das balas, há quem fuja das dificuldades e há quem fuja de um país inteiro atrás de um par de olhos bonitos. Eu pertencia à terceira categoria. E, olhando para trás, tenho de reconhecer que, para um rapaz sem dinheiro, sem experiência e sem a mínima noção das consequências, foi uma operação de fuga extraordinariamente bem-sucedida — excepto na parte daquele amor.