recomeça o futuro sem esquecer o passado

5 de maio de 2026

e porque me fui lembrar do 10 de Junho

Dizem que Homem tem um desejo velhinho de voar. Leonardo da Vinci desenhou máquinas, Gago Coutinho e Sacadura foram até à terra do outro Cabral e eu... bom, eu decidi que o meu destino estava traçado num trampolim de borracha, rodeado de crianças de cinco anos que pareciam ter ossos feitos de mola e coragem de de ferro.

Olhando de fora, parece fácil. É física pura. O problema é que a minha massa é considerável e a aceleração que a gravidade exerce sobre mim tem um sentido de humor muito refinado.

Subi os degraus com a confiança de um ginasta olímpico. No topo, a vista era magnífica. Eu sentia-me o Super-Homem. Olhei para baixo, vi a lona presa por molas que me faziam lembrar as camas velhas do hospital e pensei: "Vou fazer um mortal. Nunca tente fazer um mortal se a última vez que viu os seus próprios pés sem a ajuda de um espelho foi no século passado.

O primeiro pulo foi tímido. Um "inho" discreto. Só para ver como é que eu estava. O segundo já me deu uma confiança perigosa porque deve ter havido uma rabanada de vento que a verticalidade era obliqua. No terceiro, decidi que era hora de mostrar ao mundo e à miudagem que me olhava com desconfiança do que é que sou feito.

Desejei as nuvens. Empurrei a lona com toda a força das minhas convições. Subi. Subi tanto que por num segundo achei que ia precisar de um passaporte ou de um fato espacial. O ar estava rarefeito. O silêncio era absoluto. Eu era a própria aerodinâmica.

A descida, porém, não seguiu o roteiro de previsto. A gravidade, essa senhora ranzinza, decidiu cobrar o aluguer do espaço aéreo. A meio do caminho, percebi que o meu centro de gravidade tinha decidido mudar-se para Madagascar sem me avisar. Tentei corrigir a trajetória com um movimento de braços que parecia um moinho de vento em pânico. Não funcionou.

O resultado foi uma sequência de eventos que a física ainda está a tentar explicar: Não caí de pés. Caí com o rabo, mas de uma forma que os meus joelhos decidiram cumprimentar o meu queixo com convicção. A lona, fiel ao seu propósito, devolveu-me aos ares. Mas não para cima. Devolveu-me na diagonal. Acabei estatelado na borda almofadada.

Fiquei ali, imóvel, a contemplar o tecto e a questionar todas as minhas escolhas de vida desde a escola primária. Um miúdo de quatro anos, a mastigar uma pastilha elástica, aproximou-se e perguntou:

-  Tio, isso fazia parte do truque?

Levantei o polegar, mesmo sem sentir metade do braço, e respondi com a voz trémula de quem acabou de ver a luz:

- Claro... É só para profissionais.

Acordei, não estava no Estádio do benfica e não era o 10 de Junho


Sanzalando

4 de maio de 2026

O Velho Luandino e a Arte de "Muximar" as Palavras

Olha só, noventa e um! Isso já não é idade, é uma instituição. Se o tempo fosse um rio, o Luandino Vieira já tinha feito o Kwanza recuar só para ver como é que a água se comporta quando está com pressa.

Fazer 91 anos em plena forma de espírito é um despropósito para os simples mortais. O homem caminha pelos dias como quem caminha pelas ruas de Luanda antiga: sem pressa de chegar, porque o importante não é o destino, é a conversa que se apanha pelo caminho.

Dizem que o português é uma língua rígida, cheia de regras e sapatos apertados. Pois o Luandino olhou para o dicionário e disse: “Moço, tira lá essa gravata que aqui o calor é muito!”. Ele não escreve frases, ele faz pirão com as letras. Mistura o Kimbundo com Camões, tempera com um bocado de jindungo, e quando dás por ti, estás a ler uma palavra que nunca existiu, mas que tu entendes perfeitamente porque ela te bateu direto no peito.

"Ele não inventa palavras, ele só lhes tira o pó e ensina-as a dançar."

Celebrar o Luandino é celebrar aquela Luanda que ele desenhou na nossa cabeça. Aquela dos musseques onde a vida é um emaranhado de histórias, onde o "Luuanda" é uma personagem viva que acorda com remela nos olhos e vai dormir com um sorriso de quem sabe das coisas.

Ele ensinou-nos que se pode estar preso e ele esteve, que o Tarrafal não era propriamente um resort de cinco estrelas e, ainda assim, ser o homem mais livre do mundo. Como? Criando mundos. O homem escrevia tanto e tão bem que as paredes da cela devem ter pedido por favor para ele parar, só para não ficarem com demasiada alma.

Diz que aos 91 anos a pessoa deve sossegar. Mas o Luandino não sossega. Ele continua aí, com aquele ar de quem sabe um segredo que nós ainda não descobrimos. Se calhar o segredo é esse: manter a a alma viva. Não deixar a língua secar, não deixar a memória virar estátua.

Luandino, meu kota de referência, hoje não há "Vidas Novas", hoje é a tua vida que a gente celebra. Bebe-se uma Cuca mesmo que seja imaginária, para não subir à cabeça e agradece-se por teres ensinado Portugal e Angola a falarem um com o outro sem precisarem de tradutor, apenas de sentimento.

Que a vida continue a ser esse teu "Luuanda" infinito, cheio de sol e de palavras bem "muzunguiadas".



Sanzalando

3 de maio de 2026

Dia da Mãe

O Dia da Mãe chegou sem pedir licença um ano depois do outro Dia da Mãe e com uma pontinha de nostalgia que se instala entre o café da manhã e a primeira tentativa de não pensar muito no assunto.

Levantei-me decidido: hoje vai ser um dia alegre. Nada de dramatismos, nada de suspiros profundos a olhar pela janela. A minha mãe, se cá estivesse, diria logo:
- Ó rapaz, deixa-te disso, que a vida não é um velório permanente nem uma espera eterna!

E pronto, comecei o dia como ela gostava com barulho na cozinha. Não há melhor homenagem do que fazer um pequeno-almoço digno de confusão: torradas ligeiramente queimadas como ela fazia de propósito, café forte que acorda até o vizinho e uma tentativa falhada de arrumar tudo sem sujar mais.

Sentei-me à mesa e, quase sem dar conta, comecei a falar em voz alta:
- Então, mãe, hoje deram-te de folga aí no céu ou andas por aí a inspeccionar o que o teu filho faz?

Claro que não houve resposta… mas houve aquela sensação estranha e boa de que, de alguma forma, ela estava ali. Talvez a rir-se da torrada demasiado escura.

Depois veio a parte mais perigosa: mexer em fotografias antigas. Aquilo é uma armadilha. Começa-se com um vou só ver uma e, de repente, já estamos a rir de penteados impossíveis, roupas que hoje dariam direito a intervenção familiar e expressões que só as mães conseguem fazer uma mistura de autoridade e ternura com um toque de já te conheço há demasiado tempo.

E lá estava ela, em todas as fotos, com aquele olhar que dizia tudo:
- Podes fazer asneiras à vontade, mas eu estou aqui.

E esteve. Sempre.

Ao meio do dia, dei por mim a fazer outra coisa muito típica dela: falar com pessoas que não conheço. No café, meti conversa com o empregado como se fosse primo afastado. E pensei: pronto, isto é herança. Não vem no testamento, mas vem na vida.

A verdade é que o Dia da Mãe mudou. Já não há telefonema, nem abraço, nem aquele leva um casaco que está vento, dito mesmo quando estão 30 graus. Mas há outra coisa uma espécie de presença teimosa, bem-disposta, que aparece nas pequenas coisas.

No fundo, a minha mãe não desapareceu. Espalhou-se.

Está na maneira como faço café, mal, mas com convicção, na forma como implico com quem gosto, nas frases que me saem sem autorização e até naquele talento especial para rir nos momentos menos apropriados.

Ao final do dia, levantei o copo sozinho, mas não propriamente e disse:
- Feliz dia, mãe. Continuas a dar trabalho… mas também continuas a dar alegria.

E, juro, naquele instante, tive quase a certeza de ouvir:
- Claro que dou, filho. Quem é que pensavas que te ensinou a ser assim?



Sanzalando

Pertinências 8 - Rastreio e prevenção do cancro colo-rectal (Cirurgia 2 - Portimão)

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.






Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.



Março Azul - mês da prevenção e rastreio do cancro colo-rectal. Uma secção de esclarecimento realiazada pelo Serviço de Cirurgia 2 da ULS ALGARVE - Unidade Hospitalar de Portimão



Imperdível





Sanzalando

um dia escreverei e tudo mudará

Estava aqui sentado quando me lembrei que faz tempo ouvi dizer que o poeta é um fingidor, e sem querer completei a frase com: o escritor que não escreve, ao meio-dia numa praia portuguesa no auge do verão, é essencialmente um suicida por convecção.

Lá estava eu, o "Mestre da Busca do Silêncio", abandonando o conforto da minha página em branco e do ar-condicionado para enfrentar o elemento mais hostil do universo recém conhecido: a areia de Alvor às doze badaladas de um dia de sol de Agosto.

Eu já caminhara no deserto mesmo sem nunca ter ido ao dito propriamente dito. Na margem do deserto, melhor escrevendo, e não é a mesma coisa. No deserto eu tinha os meus nonkakos, os meus kedes ou, nas palavras novas que aprendi, sapatilhas. Na praia os meus pés de estufa fria estavam pelados, descalçados ou descalçados de pele. Verdade acima de tudo.

Mas voltemos ao assunto para não me perder em labirintos de palavras ocas e depois já não sei por onde ando. Se eu deixasse palavras perdidas pelo caminho de modo a voltar por elas, ainda vá, mas tenho por hábito deixar silêncios e esses vão com o vento.. 

O plano era romântico, digno de uma obra que eu jamais escreverei: caminhar à beira-mar para ouvir o que as ondas têm a dizer. Spoiler: as ondas só diziam: Sai daí, ó tonto, que vais ficar em brasa e à noite não te aguentas. É estrangeirismo mas na tugália eu tenho de saber falar como é que é.

Na verdade a logística da caminhada revelou-se um pesadelo existencial: Entre o meu pé e a linha da água, havia dez metros de um areia que, suspeito, era composto por restos de lava vulcânica e mágoa, pois não parecia mas estava incandescente ao meu pisar . Cada passo era um passo de bailado histérico. Eu não caminhava; eu executava uma dança folclórica de sofrimento e que até me fez lembrar uma dança zulu que eu tinha visto num filme qualquer. E o sol não brilhava, ele martelava-me com os seus raios. Eu sentia o meu couro cabeludo a fritar como um ovo. Olhando-me eu parecia estar a evaporar-me numa núvem que me contornava, fazendo-me ver o mundo através de um filtro de névoa e ardor.

A meio do caminho, cruzei-me com um grupo de turistas alemães. Eles estavam rosados um tom de rosa, tipo camarão ou lagostins já que qualquer deles era maior que o outro. Olharam para mim, o Grande Escritor, à espera de uma frase profunda. Pelo menos foi isso que me pareceu ao vê-los.  Eu ia vociferar algo sobre o ser efémero que me estava a tornar, quase a passar do estado sólido ao volátil, mas a único som que saiu foi em muito semelhante ao rasgar de uma folha de papel queimada pelo tempo.

A inspiração é como a areia da praia: entra em todos os sítios onde não foi convidada e queima-te as plantas dos pés se não fores rápido. Foi a frase que consegui rabiscar ao chegar à toalha. Repousei com os pés virados para o céu à espera que arrefecessem. Achados mais frios finalmente, fui a água. O choque térmico foi tão violento que o meu cérebro, por um breve segundo, considerou realmente escrever um japonês. Mas a sensação de passar de frango de churrasco para bacalhau demolhado em dois segundos é a única coisa que importou naquele instante.

Fiquei ali, boiando como um tronco à deriva, observando as pessoas a lutarem com guarda-sóis que teimavam em voar. Pensei: Eis a metáfora da minha carreira. O guarda-sol é a minha fama; o vento é a minha total ausência de obra; e eu sou o gajo que está só a ver o circo pegar fogo porque tem preguiça de correr.”

Saí da água renovado. Voltei para casa, abri o meu documento em branco e escrevi o meu maior sucesso do dia:

Fui à praia. Estava calor. Amanhã vejo o resto.

Apaguei logo a seguir. A perfeição, como sabem, não admite rascunhos.



Sanzalando

2 de maio de 2026

eu, luso-metafísico

Sempre que me perguntam como é a rotina de um escritor de renome mundial que, tecnicamente, nunca publicou uma única linha, eu respondo com um sorriso enigmático, aquele que os críticos chamam de profundidade luso-metafísica, mas que na verdade é apenas o medo de que percebam que meu teclado ainda tem aquele plástico protetor de fábrica. É assim mais ou menos como um rótulo de um vinho famoso com sabor a frutos silvestres que só levou uva e meia dúzia de aromatizantes que só os poetas do rótulo conseguem sentir.

Ser um génio do silêncio exige um esforço monumental. Enquanto os meus colegas perdem cabelos a cumprir prazos, ouvir revisores e sentem ansiedades de página em branco, eu sofro com a crise da página imaculada. É uma questão de pureza estética. Por que corromper a brancura perfeita do papel com substantivos comuns e adjetivos desgastados? Sou o complemento directo da pureza do papel. Há Arte de Não Fazer Nada. 

Um dia alguém me perguntou, ou fui só eu que imaginei, o que é que eu estava a escrever? Respondo sempre que exploro o silêncio que existe entre vogais e consoante o vento estruturo a palavra como um amontoado de ideias gramaticais. Chorei de emoção sobre esta frase que me tem levado a colóquios, simpósios e a exposições. Na verdade eu olho para o horizonte, componho um pensamento épico e a ideia é tão densa que ainda está no estado gasoso pelo que não faço ideia como será o líquido nem a sua materialização em forma de palavra escrita.

Já procurei ao menos escrever o título, mas para lá de Estórias Materializadas em Monte de Palavras, só me sai a Geometria Assimétrica do Nada. E na indecisão, mantenho a página em branco porque não tenho vontade de reescrever o que ainda não foi escrito.

O escritor que não escreve é um arquiteto de castelos de ar. E, convenhamos, não me apetece encher o disco do pc com palavras vazias, pois posso precisar dele para guardar os meus sonhos, as minhas fantasias, os meus delírios, ou só o manter virgem por forretice.

Uma qualquer tarde, darei autógrafos em guardanapos em branco. Os fãs dirão: a ausência de palavras diz tudo!. Eu concordo, emocionado. Afinal, escrever dá um trabalho danado, tem que concordar sujeito com verbo, cuidar da pontuação... Uma canseira que não estou nem a imaginar fazer quanto mais materializá-la

Hoje decidi escrever um parágrafo. Sentei-me no pc e verifiquei que as palavras estavam em greve de fome por um mundo melhor.

Pensei, eu mereço um prémio Nobel, sou o melhor escritor da minha geração, pelo menos no restrito mundo da minha casa. Não tenho erros ortográficos, não me perco em virgulas, não tropeço em aspas nem rasteiro em parêntesis. A minha obra é perfeita. Tem todas as qualidades que nenhuma obra real possui. Ela é a imagem que cada um dá dela.

Agora, se me dão licença, aproveitando a greve das palavras, vou ali não escrever o próximo capítulo. O silêncio não se cultiva sozinho.



Sanzalando

1 de maio de 2026

dia do trabalhador

Numa daquelas tardes em que o sol parece preguiçoso demais para se pôr e o relógio da parede insistia em bocejar a cada segundo, João Carlos Carranca encara uma folha de papel em branco. A folha desafia-o. Estava imaculada, estéril, irritantemente vazia. E Carranca, conhecido pelo seu feitio que fazia jus ao apelido sempre que a inspiração teimava em desertar, decidiu que aquele era o dia perfeito para escrever sobre coisa nenhuma.
- Bora - resmungou para os seus botões, ajeitando os óculos na ponta do nariz e brandindo os dedos sobre o teclado como se estivesse a bater um bife da testa, a ver se o amacia. 
Começou por descrever o silêncio. Mas o silêncio era demasiado barulhento; ouvia-se o zumbido de uma mosca tonta que tentava atravessar o vidro da janela fechada e o som metálico do frigorífico a fingir que trabalhava em dia feriado. Decidiu então focar-se no próprio nada.
O nada, pensou Carranca enquanto mordiscava uma banana, é uma coisa fascinante. É o espaço que fica entre o pensamento que acabámos de ter e aquele que nunca chegaremos a pensar. É o recheio de um pastel vazio, a cor de um camaleão num quarto escuro, ou a utilidade daquele pequeno bolso que as calças de ganga trazem e onde nunca cabe nada a não ser uma unha encravada.
Escreveu duas linhas sobre a poeira que dançava num raio de sol. Uma coreografia caótica de pequenos nadas suspensos no ar, sem destino, sem pressa e, acima de tudo, sem qualquer tipo de mensagem profunda para a humanidade.
Escrever sobre coisa nenhuma é uma arte incompreendida, rabiscou ele, com um sorriso de canto de boca que quase lhe desmanchava a cara séria. Exige um esforço hercúleo para não deixar escapar nenhuma ideia com pés e cabeça. Se uma ideia útil se atreve a aparecer, temos de a escorraçar imediatamente com o delete.
De repente, o computador falhou. Carranca agitou-se com energia, mas o pc recusava-se a cooperar. Olhou para o botão de power. Era o pináculo da sua obra: um ecran apagado, escuro e perfeitamente representativo de coisa nenhuma.
Rindo-se sozinho daquela ironia abstrata, João Carlos Carranca recostou-se na cadeira e deu o dia por terminado. Tinha finalmente conseguido produzir uma obra-prima sobre o vazio absoluto. E o melhor de tudo? Não havia ninguém que pudesse criticar o conteúdo, pela simples e maravilhosa razão de que ele não existia.
Era feriado. Curiosamente era o dia do trabalhador.


Sanzalando

30 de abril de 2026

eu, em autobiografia não autorizada

Nasci sem manual de instruções, como toda a gente, acho eu, mas com uma particularidade: desde cedo ficou claro que eu tinha um talento raro… para fazer asneiras.

Cresci numa casa onde a paciência dos adultos era posta à prova como se fosse um concurso dos jornais que chegavam á província. E eu concorria para ganhar e nunca soube se alguém ganhava. Havia miúdos que aprendiam a andar de bicicleta, eu, pessoa rara, aprendi a cair de bicicleta com estilo. Havia quem desmontasse relógios para perceber como funcionavam, eu desmontava e depois ficava com peças suficientes para montar… outro problema que nunca conseguia justificar.

Na escola, a minha relação com o saber era cordial, mas distante. Eu olhava para a matéria, a matéria olhava para mim, e nenhum de nós dava o primeiro passo. Já os disparates… esses vinham ter comigo sem convite nem qualquer tipo de preparação. Uma vez levei um grilo para uma aula, tipo estudo científico para estudo científico. O grilo saiu mais instruído do que eu e a professora nunca mais confiou na minha vocação académica.

Na adolescência, refinei o meu talento. Já não eram só asneiras pequenas, eram asneiras ambiciosas. Uma vez tentei impressionar num baile. Treinei passos de dança em casa, sozinho, com uma vassoura como parceira , foi a única que alinhou sem se queixar. Chegado ao baile entrei em pista cheio de confiança… e saí de lá com a dignidade em coma. Descobri que o problema não era a vassoura: era mesmo eu.

Mas há uma coisa curiosa nas asneiras que fiz: ensinaram-me. Às vezes devagar, às vezes com nódoas negras, mas ensinaram. Cada disparate vinha com uma lição escondida, normalmente bem escondida, que eu também não ajudava muito a encontrá-la e quando isso acontecia tentava assobiar para o lado.

Com o tempo, comecei a perceber que a vida não é um concurso de perfeição. É mais um campeonato de resistência ao ridículo. E nisso, modéstia à parte, eu já tinha anos de treino.

Fui tropeçando, levantando-me, voltando a tropeçar num estilo para não perder o hábito, até que um dia dei por mim… a acertar. Não sempre que isso poderia parecer suspeito, mas o suficiente para dizer que afinal, isto vai. E não é que foi?!

Hoje, quando olho para trás, vejo um percurso cheio de asneiras. Algumas memoráveis, outras que ainda me fazem corar quando me lembro sobretudo nas madrugadas de insónia, que é quando o cérebro decide fazer reposições como nos cinemas de antigamente. Mas também vejo uma coisa importante: sobrevivi a todas elas e com diploma a atestar.

E mais, aprendi a rir-me delas.

Porque, no fundo, vencer não foi deixar de fazer asneiras. Foi começar a usá-las como degraus, ainda que, de vez em quando, eu suba dois e desça três, só para manter a coerência.

E cá continuo: nasci, cresci, fiz asneiras… e, entre tropeções e gargalhadas, vou vencendo. Nem que seja por pontos, nem que seja com palavras soltas e estórias de inventar, mas no concurso do Província ou do Diário eu agora ia ganhar... tempo de recordar




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29 de abril de 2026

O ÚLTIMO AVÔ – Afonso Reis Cabral - K'arranca às Quartas 116


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Esta Música tem uma História - 57 - Futuros Amantes - Gal Costa - K'arranca às Quartas 116


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Tesourinhos Musicais 91 - Armando Gama - K'arranca às Quartas 116


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Crónica de João Portelinha da Silva 21 - K'arranca às Quartas 116


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Crónicas de Carlos Osório 15 - K'arranca às Quartas 116


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Crónica 104 - K'arranca às Quartas 116


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Programa 116 K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 22 de Abril de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é Liberdade e Trabalho uma forma de ver

Hoje falámos de O Último Avô de Afonso Reis Cabral nas palavras de Anabela Quelhas.

Hoje houve Esta Música tem uma história com Gal Costa num poema de Chico Buarque, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje falei de Armando Gama e a sua carreira.
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou do 25 de Abril e a África Lusófona
Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos a toponímia e sua relevância e algum esquecimento


Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado na Força Mental


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

porque olho

Sentado no passeio olho em volta e o que vejo? Para além dos anos que vivi, vejo o presente que desperdiço porque me sentei no passeio a olhar. De via estar aqui a pensar mas estou apenas a olhar. Olho e só vejo os anos que passei a viver. Foram bons? Foram maus? Que importa se foram os meus anos que passei. E hoje? Olho para onde. Se eu pudesse ver o amanhã?! Não teria graça!

Sanzalando

28 de abril de 2026

fui à praia

O despertador tocou às 8h. O meu plano era perfeito: chegar cedo, garantir o melhor lugar, pegar um bronzeado digno de capa de revista do estilo Crónica Feminina e ela ia me olhar com outros olhos.

Cheguei à praia às 9h. O mar parecia uma piscina de gelo, o que dava a certeza que não tinha pica-pica, entrei, depois de 15 minutos a molhar apenas os dedos dos pés até congelar a alma e ter vontade de entrar. Quando na volta me sentei na toalha, senti-me vitorioso embora a minha pele parecia um arrepiado tipo pele de galinha lixada.

Dez minutos depois, uma família de onze pessoas, para não dizer mapundeiros, instalou-se ao meu lado. O pai, um mestre da construção civil em areia, começou a cavar um fosso que, por volta das 11h, já ameaçava a estrutura da minha cadeira, as arcadas e quem sabe o ecran de cinema. Às 12h, uma gaivota, com uma pontaria cirúrgica e um sentido de oportunidade duvidoso, decidiu que a minha toalha era o alvo perfeito para a sua contribuição matinal.

Às 13h, desisti. Voltei para casa, arreliado, com areia pelos cabelos e a certeza absoluta de que, amanhã, estarei lá outra vez.


Sanzalando

27 de abril de 2026

uma festa de anos que fui

Ah, os anos 60! Se hoje o drama é a senha do Wi-Fi, em 1968 o drama era o volume do gira-discos e a quantidade de laca ou brilhantina necessária para manter um penteado intacto diante de uma ventoínha,

Aqui vou contar uma versão de uma estória quase verdadeira, com mini-hondas, brilhantina e o terror de todos os pais daquela época: o conjunto rock que abrilhantavam os bailes e festas de garagem.

Tudo começou quando o Álvaro, que acabava de completar 16 anos e achava que era a reencarnação do James Dean ou, na pior da hipóteses, o Alan Delon, já para não falar do Morandi ou no Holliday. Ele resolveu que a festa iria ser na Discoteca e que ia ser um estouro.

A senhora sua mãe deve ter passado os três dias anteriores a fazer croquetes, rissóis, panados e um tal de ponche de frutas que agora baptizaram de sangria. 

O pai, estava na sala a testar o gira-discos e os muitos vinis afim de colmatar qualquer falha da banda convidada. Ele tinha uma regra clara:

- Se eu ouvir esse tal de Roberto Carlos gritar que 'está proibido fumar', eu desligo a luz e acaba-se a festa. É que ele não respirava, fumava.

Os convidados foram chegando, uns nas sua mini-hondas, outros na Mini Suzuki, outros a pé e poucos à boleia do carro dos pais. As meninas tentavam desesperadamente manter as saias rodadas, curtas e sem vincos. Não era moda a saia plissada e os pais não deixavam as saias se encurtarem mais.

Entrar na festa exigia um protocolo: os rapazes entravam com o pente de bolso na mão, dando aquele retoque final na franja e as moças chegavam com uma invisível névoa de perfume e um palmo dos joelhos à mostra.

Quando o conjunto rock começou a tocar Twist and Shout dos Beatles, a sala parecia tinha virado um campo de batalha. O objetivo era mexer os joelhos o mais rápido possível sem derrubar nada.

O ápice foi o lent". Quando a música diminuiu o ritmo, o pai do Álvaro levantou-se do sofá como se tivesse ouvido um alarme de incêndio. Ele circulava pelo salão com uma lanterna, sim, uma lanterna, garantindo que houvesse, no mínimo, o espaço de uma Bíblia Sagrada entre cada par que dançava.

No meio da festa, o conjunto tentou tocar os Rolling Stones. A senhora mãe dele logo apareceu ali a gritar que aquilo é música de quem não toma banho nem se penteia. A banda parou, amuou e abalou. Não era refrão, foi mesmo decisão. Aí estava o prevenido pai com os seus vinís e todos dançaram um banho de lua ao som do gira-discos. Tinha acabado de anoitecer, porque depois das nove é coisa só de cinema americano, a festa terminou.

Depois de quase todos terem saído, contrariados, uns de mão dada outros apenasmente a ter visão dupla por causa da tal ponche bebida em exagero.

Eu era quase da casa, assim com mais uns dois ou três ficámos para a limpeza combinada.

O cenário era de dar dó:

O chão estava tão grudento de ponche derramado que os sapatos faziam ploc a cada passo. Havia marcas de brilhantina em todas as almofadas de cetim. o Álvaro estava no canto, a tentar convencer futura namorada de que ele ia ganhar um Simca Chambord de presente, mentira deslavada.

O pai, soprando uma baforada afirmou:

- Para  Ano que vem, vais comemorar na igreja, que é mais seguro.


Sanzalando

26 de abril de 2026

sem palavras

Era domingo e perdi as letras. Não encontrei nem uma. Foi assim que passei um domingo sem conseguir escrever uma palavra. Faltavam-me as letras. Mas onde foi mesmo que as deixei? Numa qualquer rua escura, num beco, numa praia, num deserto, na praça onde a multidão gritava? Procurei em todos os lugares da minha cabeça. Nem uma letra e sem letras não há palavras. Não as uso hoje.


Sanzalando

Pertinências 7 - Equipes de Rua - III Colóquio do Grato

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.




Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.



O Padre Rui Fernandes moderou o painel intitulado os desafios das equipes de rua no âmbito das adições e saúde mental

Falarão Ricardo Rodrigues, Ana Margarida Teixeira, Fábio Simão e Luís Norte



Imperdícel





Sanzalando

25 de abril de 2026

Ser livre

Com o sol em Abril chega sempre a vontade de arejar a casa, abrir as janelas, sacodir os tapetes e deixar entrar luz sem ter de pedir licença. 

Num outro Abril a Revolução dos Cravos, fez isso mesmo, mas em versão nacional: abriu as janelas de Portugal e disse agora respira.

O problema. deliciosamente, é que a liberdade vem sem manual de instruções. Não traz um folheto do a explicar e não diz: Parabéns, adquiriste a tua liberdade. Monta com cuidado e usa com responsabilidade. Nada disso. A liberdade chega como a primavera: bonita, espalhafatosa e um bocadinho desorganizada.

Há quem, perante tanta liberdade, se comporte como criança em loja brinquedos: quer tudo ao mesmo tempo. Fala mais alto, opina sobre tudo, partilha até o que não sabe. E está tudo certo, é o entusiasmo de querer usar toda a liberdade ao mesmo tempo. 

Entra em cena a irmã menos popular da liberdade: a responsabilidade. Não é tão airosa, não tem cravos na lapela, nem músicas bonitas associadas. A responsabilidade é mais daquele género que diz: Sim, podes dizer o que quiseres… mas pensa primeiro. E aí começa o verdadeiro desafio.

Porque ser livre é fácil num dia de sol. 

Difícil é ser livre quando discordamos do vizinho, quando a opinião do outro nos irrita, quando apetece responder com um comentário que faria corar um falecido. A liberdade testa-se nesses momentos pequenos, não nos discursos solenes, pomposos e tantas vezes circunstanciais.

Abril, com a sua primavera, ensina-nos isso todos os anos. As flores não pedem autorização para nascer, mas também não crescem à martelada. Há um ritmo, um equilíbrio invisível. A liberdade é igual: cresce melhor quando é cuidada, tratada, construída, instruída, e levada à séria.

E assim andamos nós, entre cravos e espirros de pólen, a tentar equilibrar essa equação improvável: dizer tudo sem dizer demais, fazer tudo sem atropelar ninguém, ser livres… mas com juízo.

No fundo, Abril não nos pede perfeição. Pede-nos apenas que não confundamos liberdade com vale-tudo. Porque a verdadeira liberdade, essa que floresce todos os anos, não é gritar mais alto, é saber quando vale a pena falar… e quando vale ainda mais a pena ouvir.



Sanzalando

24 de abril de 2026

eu sou os ontens

Diz-se por aí que quem se renova, vive. Sinto uma certa nobreza em ser um fóssil bem conservado. Se sou hoje o que fui nos muitos ontens da vida, não é por falta de tentativa de atualização de software, é porque o hardware original, ainda que com alguns ruídos na dobradiça, tem um charme que as versões beta não conseguem replicar.

Olhar para o espelho é visitar uma exposição permanente. Estão lá as mesmas teimosias de 1968, o mesmo pânico de atender chamadas desconhecidas e aquela incapacidade crónica de decidir o que jantar. Mudei de morada, mudei de lugar e, segundo os dermatologistas, mudei todas as células da pele. Mas a alma? Essa continua a usar as mesmas pantufas mentais.

Dizem que a maturidade traz a serenidade. No meu caso, a maturidade apenas trouxe uma forma mais articulada de reclamar do preço do azeite, a incapacidade de ficar especado a olhar os vazios, a possibilidade de dizer o que vai no pensamento sem ter medo que lhe cortem as raízes. Antes esquecia-me das chaves de casa e era o ponto final. Hoje esqueço-me das chaves e agora faço uma reflexão filosófica sobre como o objeto é um símbolo da nossa prisão urbana enquanto procuro no bolso errado.

A essência permanece: continuo a rir nas horas impróprias e a achar que para a semana começo a correr mais. Esse ontem de boas intenções é o meu companheiro mais fiel, aquele que trago sempre comigo.

Ser hoje o que se foi ontem é um acto de rebeldia num mundo que nos obriga a ser "versão 2.0" todas as manhãs. Existe um conforto em saber que, se eu me encontrasse comigo mesmo aos dez anos de idade, ambos escolheríamos o mesmo sabor de gelado e a mesma estratégia para evitar arrumar o quarto. Mudar é necessário, mas manter o próprio absurdo é o que nos salva da monotonia de sermos perfeitos.

No fundo, a vida não é uma linha recta rumo à evolução, mas sim um looping da montanha-russa, o cenário muda, o vento sopra mais forte, mas o grito e o frio na barriga é exatamente o mesmo de sempre. E que sorte a minha, pois aquele "eu" de ontem era, apesar de tudo, um tipo bastante porreiro para se levar na mochila.


Sanzalando

23 de abril de 2026

O Beto e o Manel na viola e eu nas letras

O Beto e o Manel tocavam viola e com eles fazíamos serenatas à janela. Entusiasmo era mais que muito, a técnica não sei como é que era, mas com uma confiança absolutamente injustificada, saíamos à sexta-feira, qualquer coisa como 10 da noite e, escolhidas as janelas, lá estávamos com todo o nosso ar sério. Eu, por um, fazia as letras o que, na prática, significava que rimava “amor” com “flor” até ao limite do aceitável… e um bocadinho além e quando terminava o nosso reportório íamos para a balada, mesmo que fosse política. Amor não tem facção.

Juntos, éramos uma espécie de tripla artística de garagem, sem garagem e sem grande parte artística, mas com uma coisa essencial: tempo. Muito tempo. E uma capacidade extraordinária de o gastar em coisas perfeitamente inúteis que na época eram-no muito. Uteis, é claro.

Passávamos tardes inteiras sentados num banco do parque infantil. Eles afinavam (ou diziam que afinava), eu escrevia (ou fingia que escrevia), e entre um acorde duvidoso e uma rima sofrível, lá saía mais uma obra.

- Isto está profundo — dizia o Beto, depois de tocar três acordes seguidos sem tropeçar.

- Isto está confuso - acrescentava o Manel e eu dizia que era o melhor que conseguia, rimar coração com camaleão.

Mas ríamos. Ríamos muito. Porque, no fundo, aquilo não era sobre música, nem sobre poesia era sobre o intervalo entre uma coisa e outra. Era sobre inventar canções que nunca ninguém ia ouvir, sobre discutir se o refrão devia entrar antes ou depois de não sabermos bem o quê, sobre achar que estávamos a criar algo genial… e desistir ao fim de dez minutos para ir beber qualquer coisa à Cábula.

Houve uma fase em que tentámos ser sérios. Lembro-me bem. O Beto até fechava os olhos enquanto tocava, como se estivesse num concerto importante. Eu escrevi uma letra sem uma única rima óbvia.

O vento ondula searas

O mar banha a terra

Acontecem coisas raras

Num mundo em guerra...

Morena, morena

dos olhos galantes

quem te deu morena

esses dois diamantes

Resultado: ninguém percebeu nada, e se calhar nem nós. 

- Esta é a nossa melhor música - dizia ele, com ar mais sério que lhe vi.

- Concordo - respondia o Manel, que não sei se brincava ou falava sério.

E assim se passávamos o tempo até chegar à sexta-feira e irmos testar na serenata propriamente dita.. Não a correr, nem a voar, a escorregar, suavemente, entre acordes tocados e palavras meio inventadas nos suspiros da respiração. 

Se alguém nos perguntasse o que estávamos a fazer, diríamos música. Mas a verdade é que estávamos só a viver devagar, com banda sonora improvisada e recriada nos bancos do parque infantil.

Hoje penso nisso e percebo: não éramos bons músicos, nem grandes letristas. Mas éramos excelentes a perder tempo e, curiosamente, era aí que tudo fazia sentido.

O Beto tocava viola, o Manel tocava viola e eu fazia letras. E juntos, com muito humor e zero pressa, afinávamos o essencial: a arte de não levar a vida demasiado a sério.



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22 de abril de 2026

Programa K'arranca às Quartas 115



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 22 de Abril de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é a calma ainda vai ser moda - A pressa

Hoje falámos de Agustina Bessa Luís a propósito de Estações da Vida.

Hoje houve Esta Música tem uma história com Amélia dos Olhos Doces de Carlos Mendes e Joaquim Pessoa, numa colaboração de José Leite; Os Tesourinhos Musicais hoje falei de José Afonso.
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de moçambicana na pessoa de Marcelino dos Santos e nas 
Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos Sérgio Godinho e não só


Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado na liderança.
E ainda houve tempo para o lançamento mundial de nova música de Zé Manel Martins - Benguela para além de uma música de JAZZ do Dinis... com o mês de Abril e da Liberdade assim se escreveu este programa

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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Tesourinhos Musicais 90 - José Afonso


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As Estações da Vida - Agustina Bessa-Luís


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Esta Música tem uma História 56 - Carlos Mendes e Amélia dos olhos Doces


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Crónica de João Portelinha da Silva 20 - K'arranca às Quartas 115


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Crónica 14 de Carlos Osório - K'arranca às Quartas 115


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Crónica 103 - K'arranca às Quartas 115


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Fui à praia mas não conto a ninguém

Ah, o verão de quando eu era adolescente. Aquela época era mágica, a gente acreditava piamente que ia parecer um anúncio de gasosa, mas acaba por aparecer como figurante de um documentário sobre desastres naturais.

Aqui vai o relato de um dia "inesquecível". 

O plano era simples e infalível: chegar à praia, exibir o tronco que nem Tarzan de trazer por casa, cultivado a fazer três flexões diárias, poucas mas compenetradas, passar bronzeador com a elegância de um artista de filme e, quem sabe, trocar olhares significativos com a menina do guarda sol azul. A Entrada na praia parecia Triunfal, andar na areia com aquele andar despojado, mas havia um problema: a areia estava a aproximadamente 180°C, mais coisa menos qualquer outra. Em vez de um galã, parecia uma pipoca saltitante, soltando pequenos guinchos de dor enquanto buscava desesperadamente uma sombra. Como não queria pedir ajuda, porque homem não precisa de ajuda, tentei alcançar logo o mar. O resultado foi uma performance de contorcionismo que atraiu olhares, mas não de admiração. Terminei o dia com uns pés de urso branco pelado. 

Mas saltemos o desinteressante poder de estar sentado a olhar o mar, sem ter pés para caminhar.

O mar estava clássico, segundo os veteranos. Para mim, parecia o cenário de O Dia Depois de Amanhã. Vi um grupo de meninas a olhar com olhar de quem tinha algum interesse. Era a hora. Mergulhei, com algum esforço, numa onda que parecia inofensiva. Três segundos depois, as leis da física decidiram se estar ausentes. Eu girei 360 graus na horizontal e na vertical simultaneamente, num número de circo que nem contorcionista profissional. Perdi o sentido de orientação e achei que o fundo do mar era o céu por uns breves momentos, o que deu tempo para engolir uma caneca de água salgada à temperatura tropical. Alguém correu em meu auxílio e me perguntou se eu estava bem e eu respondi com a maior das mentiras que estava óptimo, enquanto tinha vontade de drenar dois litros de água do meu pobre estômago. 

Nesses momento senti que para lá das leis da física a minha dignidade também tinha fugido para parte incerta. Só faltava a sílica da areia ser soprada para a minha boca e eu estar a apreciar uma crocância salgada.

Voltei para casa, escaldado, de corpo e alma, e com pés que nem chinelos de pneu eram suportados.

Foi nesse dia que pensei: daqui a uns anos, quando inventarem as redes sociais nunca lá contarei esta estória.


Sanzalando

21 de abril de 2026

eu e os meus livros

Ah, o clássico momento do intelectual de fachada ou o desafio de manter a compostura quando o livro é realmente engraçado! Ler na adolescência tinha todo um protocolo, especialmente quando a intenção era parecer descolado ou fugir da tristeza das aulas.

Tínha aquele que lia o livro, por dentro do livro escolar. Por fora era Trigonometria ou um qualquer outro tratado chato, por dentro era um livro de quadrinhos, uma revista ou um romance proibido que até podia ser a Corin Telado. O risco de ser apanhado era o que dava o tempero àquele risco. Ou então, sabes aquele banco estratégico onde o sol batia e eu abria um livro só para ver se a pessoa de quem gostava passava e me achava profundo? O humor estava em perceber que li a mesma página dez vezes porque estava ocupado demais a controlar o corredor. Ou então ler algo de humor em público e tentar segurar o riso para não parecer maluco, mas acabar a soltar aquele som de porquinho pelo nariz~, tentando segurar o riso. O que mudou de lá para cá?

"Antigamente, a gente lia para fugir do mundo. Hoje, a gente lê e o telemóvel vibra avisando que o mundo quer fugir connosco."

Naquele tempo, se o livro fosse bom, ele circulava pela sala inteira. Ele voltava com dedicatórias nas margens, migalhas nas páginas e, às vezes, com um número de telefone anotado na última página.

Me conta aí uma coisa: nesse meu reino, qual era o tipo de livro que dava status? Era o clássico denso que ninguém entendia, o de terror que dava medo de ir às escuras à casa de banho, ou as revistas de fofoca ou livros de cowboys que eram tratadas como Bíblia?



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20 de abril de 2026

um almoço que não irei

Há qualquer coisa de profundamente suspeito nos almoços da minha cidade a que não posso ir. Não digo isto com mágoa, digo com experiência. Porque um almoço ao qual comparecemos é apenas um almoço. Mas um almoço ao qual faltamos… esse transforma-se imediatamente numa epopeia gastronómica, social e até espiritual.

Vamos por partes e antes que me parta todo.

Tudo começa com o convite: “Aparece, vai ser bom.” A palavra “bom” é o primeiro indício de que estamos perante um evento que, na nossa ausência, evoluirá para banquete digno daquele encontro que sempre foi impossível. Nós, ingénuos, acreditamos e fazemos filmes, como pintamos cenários e acreditamos na nossa capacidade imaginativa. Até que surge aquele compromisso inadiável, o dentista, a reunião, ou pior: a necessidade de ficar em casa a fazer absolutamente nada, o que, como todos sabemos, é uma tarefa exigente. Mas na verdade são dois programas de rádio que sem mim simplesmente deixam de existir. Mania de ser imprescindível.

E assim vamos falhar o almoço.

No dia a seguir, começam os relatos. Nunca são objetivos. Ninguém diz: “Olha, comemos e conversámos.” Não. Dizem coisas como:  “Nem imaginas o que perdeste…”

E pronto. A partir daí, a nossa imaginação entra novamente em modo cinematográfico.

O arroz de pato, que provavelmente estava competente e honesto, passa a ser descrito como “o melhor arroz de pato desde que há memória e patos”. A sobremesa — um pudim — ganha contornos de revelação divina. “Aquilo derretia-se na boca!” Claro que derretia. Pudim tem essa tendência, mas dito assim parece que desafiava as leis da física.

E depois há o ambiente. Ah, o ambiente! “Foi uma animação pegada!”

Ninguém fala do tal possível impossível encontro. Contam coisas e fogem. Malandros a ver se perguntamos algo e depois ficam a rir de nós. Mas eu vou desperguntar sempre. Eles vão ter que me contar de vontade própria.

O mais intrigante é a solidariedade que se instala entre os que estiveram presente. Criam-se alianças, cumplicidades, histórias internas e silêncios profundos. Quando finalmente voltamos ao convívio, já há referências que não entendemos:
 “Lembras-te do episódio do garfo?”
E nós, de fora, a acenar com a cabeça como quem percebe, mas por dentro a pensar: “Que garfo? O que é que um garfo pode fazer?”

Há também aquela pessoa que tenta ser simpática: “Para a próxima tens mesmo de vir.”

O que, na prática, significa: “Perdeste algo irrepetível e agora vais viver com isso.”

Mas a verdade é que há uma certa beleza nisto tudo. Os almoços a que não vamos ganham uma dimensão mítica que nenhum almoço real conseguiria atingir. Tornam-se melhores precisamente porque não estivemos lá para confirmar que o arroz podia estar um bocadinho seco e que alguém monopolizou a conversa durante quarenta minutos.

Talvez seja esse o segredo: a felicidade dos outros cresce um pouco mais quando não a testemunhamos diretamente. E a nossa curiosidade também.

Por isso, da próxima vez que não puder ir a um almoço da minha cidade, já sei o que fazer: nada. Ficar em casa, tranquilo, a imaginar que lá fora estão a viver o melhor almoço da história enquanto eu, com um simples prato aquecido no micro-ondas, tenho o privilégio raro de não ter de ouvir a história do tal garfo pela quinta vez.

Mas afinal de contas ela foi ou não. Mais tarde saberei!



Sanzalando

19 de abril de 2026

18 de abril de 2026

eu e a chifuta

Eu quando era pré-adolescente tinha uma fisga que por acaso era uma chifuta. Assim mesmo. Fisga foi mesmo só quando apareceu na revista uma gravura humorística ou o meu amigo que até era parecido com esse desenho. Não era uma chifuta qualquer, na minha cabeça, era uma arma de precisão digna de filme de acção. Na realidade, era um pau em forma de Y, com umas tiras de borracha de câmara de ar, um pedaço de cabedal no meio das tiras.

Eu era préadolescente, o que por si só já é uma condição clínica delicada, muita confiança, pouca pontaria e fraca força. E foi assim que começou a minha carreira de atirador, com entusiasmo ilimitado e resultados… imaginativos e fracamanente reais.

O primeiro alvo, para treinar, foi uma lata vazia pousada no muro do quintalão.

- Isto vai ser fácil - disse-me enquanto aperfeiçoava a posição corporal.

Puxei as borrachas para trás, fechei um olho, fiz cara de quem sabe o que está a fazer… e disparei.

A pedra deve ter descrito uma trajetória elegante, para um lado completamente diferente do que eu olhava, porque na lata nem raspou. Desapareceu-me.

- Técnica! - gritei-me como que a ver se aparecia por artes mágicas algum jeito para a coisa.

Muitas pedras depois uma lá acertou na lata. Nos dias seguintes, treinei arduamente. Apontei a árvores e acertava no chão, apontei a pedras acertava noutras pedras que eu nem tinha reparado estavam ali, e uma vez tentei acertar numa lâmpada de candeeiro quando zangado atirei para o ar e imagino quase acertei na lua. 

O problema é que tinha uma relação muito particular com a pontaria: quanto mais queria acertar, menos acertava e mais me afastava do alvo. Era como se o universo, em vez de alinhar, resolvesse fazer troça de mim. Eu acho que a rotação da terra acelerava quando eu atirava, só para o alvo ficar fora do alcance.

Um dia decidi impressionar a malta da escola.

- Aposto que consigo acertar naquela tampa ali - disse apontando para um alvo perfeitamente imóvel e a uma distância razoável. Por simpatia, acho, ninguém apostou mas os  amigos afastaram-se, acho que não por respeito, mas por instinto de sobrevivência.

Estiquei as borrachas, concentrei-me profundamente, respirei fundo… e disparei.

A pedra deu em cheio na tampa, levou-a para longe e ficou tudo em silêncio. Eu de espanto e eles estupfactos.

Guardei a chifuta e ainda hoje me lembro que aquele foi o meu último tiro na vida.



Sanzalando

16 de abril de 2026

a diferença geracional

A tarde estava com aquele calor que faz a gente perguntar porque o asfalto ainda não derreteu de vez, fica só assim mole que esconde a tapinha da garrafa de cerveja. Na Oásis, quatro adolescentes — dividindo uma única Coca-Cola para economizar a mesada tentavam parecer descolados.

Na mesa ao lado, o senado das mais velhos: o Sr. Trindade, o Sr. Zé Malcriado e o Sr. Figueiras das Ameijoas. Eles não falavam, eles proclamavam verdades universais entre um golo de café e uma qualquer aguardente velha.

"Ouve bem o que eu te digo, Trindade," dizia o Sr. Zé, batendo com a palma da mão na mesa de metal com a força de um martelo hidráulico. "No meu tempo, a gente não precisava de qualquer instrumento. Se um gajo se perdia no mato, perguntava ao vento ou seguia o rasto dos animais. Hoje em dia? Essa criançada morrem de fome à porta de casa! Nem em casa se sabem desenrascar"

Trocámos olhares. O Moreira, mais velho, tentou meter-se contestando: "Nós podemos seguir o vento" O Fisga, mais brincalhão, sussurrou: — "Perguntamos ao vento? O senhor Zé, desta vez deixou o Malcriado de lado e gargalhou. 

O Sr. Trindade, que tinha as sobrancelhas fartas, abanou a cabeça com desdém: "E o amor, Zé? Estes jovens agora... é tudo no 'fotonovela'. No meu tempo, para dar um beijo na rapariga, era preciso primeiro lutar com o pai dela, convencer o padre e carregar três sacos de batatas de vinte quilos ladeira acima só para ela nos dar um sorriso de lado!"

"Três sacos de batatas? Isso não é romance, é exploração laboral, credo." disse eu armado aos cucos perante os mais velhos.

A conversa dos velhotes subiu de tom quando o assunto passou a ser a tecnologia.

"E aquela coisa de irem à lua" perguntou o Sr. Figueiras, esquecendo as ameijoas, genuinamente preocupado. "Dizem que as fotografias são inventadas. Ó Trindade, e será que na lua chove?"

O Sr. Zé, dois palavrões depois, respondeu: "eu ouvi tudinho na rádio e eles foram mesmo lá." 

Nisto acabou-se a coca-cola, pedimos uma Alpine frequinha e ouvimos:

- "Ó miúdos! Já que tens aí esse ar de malandro... vê lá aí nesse jornal se o Benfica já contratou um defesa esquerdo de jeito, para ver se o Trindade se cala um bocadinho!"

Nós miúdos rimo-nos, os velhos riram-se, e por cinco minutos, a esplanada foi o único lugar no mundo onde coexistira em perfeita harmonia a diferença geracional.




Sanzalando

15 de abril de 2026

Programa K'arranca às Quartas 114



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 15 de Abril de 2026 - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é  Estrangeirismos

Hoje falámos de Auto-Autores, aqueles que se editam a eles mesmo. 

Hoje houve Esta Música tem uma história Elis Regina e Alô Alô Marciano de Rita Lee e Roberto de Carvalho, numa colaboração de José Leite; Os Tesourinhos Musicais hoje falei de António Macedo, o cantautor que foi-se esquecendo porém recordamos o Canta Canta Amigo Canta.
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de moçambicana e nas 
Crónicas de Carlos Osório, trouxe-nos a confusão das mentes nos dias de hoje esquecendo a evolução doas tempos


Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado na liderança.
E ainda houve tempo para o lançamento mundial de duas novas músicas de Zé Manel Martins

Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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