recomeça o futuro sem esquecer o passado

6 de julho de 2026

a minha cidade

O parque infantil da minha cidade, que em tempos pareceu um recreio de todas as escolas, ganhou um eco tão grande que agora basta um espirro para assustar os pombos, andorinhas e borboletas durante meia hora.

Mesmo assim, quando a minha cidade existia de papel passado e assinatura reconhecida, havia dias estranhos.

No verão, que nela era em Março que até tinha Mar e Março nos cartazes por toda a cidade, chegavam carros de matrícula ASB. E a gente sorria ao ver sair deles gente branquinha que acho nunca tinham visto sol até naquele dia que chegavam na minha cidade

As ruas enchiam-se de abraços, malas, crianças aos gritos e avós a distribuir comida suficiente para alimentar um batalhão. Era a festa de família que ali tão perto se viam de ano a ano, à torreira do sol e no salgado do mar.

Durante quinze dias a cidade voltava a acreditar que podia ser uma cidade de Cê grande.

Os cafés faziam horas extraordinárias e as esplanadas passavam a ser pequenas.

A padaria esgotava o pão. A Quintanda deixava cedo de ter frescura verde e fruta de gosto. 

Ao fim da tarde os bancos de jardim tinham fila de espera. A avenida virava mar de gente que punha as palavras em dia num interminável gosto de estar. Fazia-se balanço da vida e até o relógio da praça parecia mexer um dos ponteiros, só para não parecer completamente desinteressado.

Mas Abril aproximava-se com a delicadeza de um carteiro que traz más notícias e as malas voltavam às bagageiras, os abraços ficavam mais demorados e os beijos secavam as lágrimas das promessas feitas. Para o ano há mais verão na minha cidade, dizia-se quando ela existia de vida passada. O tempo estava escondido porque se dizia havia tempo de sobra.

Nesse tempo a cidade não perdia habitantes apesar de haver ausências.

Agora a ausência virou constância e a cidade não existe de certidão e papel carimbado, ela é mais uma cidade de memória, com memórias nas conversas levadas pelas brisas de reencontros furtuitos em bancos de jardim de certa idade madura.

Mas eu tenho saudade dos bancos de madeira do jardim onde os meus avós se sentavam nas tardes de domingo. Eu tenho saudade dos escorregas do parque onde todos os recreios eram brincadeira de escola. Eu tenho saudade dos tempos em que o meu corpo não conhecia a força da gravidade e o meu cérebro não ouvia o chamar da terra.

A minha cidade tem ruas mas não as ruas que eu corri de sandálias e calções. Hoje as ruas são passagens de memória, becos de recordações, flashes de sonhos. Hoje a minha cidade não tem cheiro, não sabe a maresia nem tem brisa carregada de areia amarela do deserto.

O tempo pode levar habitantes, mas nunca conseguirá levar o coração da minha terra.

Esse continua sempre à espera de quem regresse… nem que seja só para matar saudades e dizer, como todos dizem, antes de voltar à estrada:

- Um dia ainda venho para cá viver.

O tempo sorri.

Já ouviu essa frase milhares de vezes.

Mas, no fundo, até ele gostava que um dia fosse verdade.



Sanzalando

5 de julho de 2026

A Saída da Missa

Se hoje é sábado eu já estou a fazer planos para amanhã. Começo o dia com o santo sacrifício da saída da missa.

A missa de domingo termina sempre da mesma maneira: com um "Ide em paz e o Senhor vos acompanhe" e dita esta frase pelo Padre Dinis eu já cheguei à Igreja faz um tempinho e estou no lado de lá da estrada, do lado da falésia, umas vezes a olhar o mar outras a olhar para dentro a imaginar.

Mal o padre diz as últimas palavras, há quem agradeça tão depressa que já vai no terceiro banco antes do coro acabar o último acorde. Parece que a fé é profunda, mas o ar cá fora é mais puro.

À porta, porém, acontece o verdadeiro milagre. Quem lá dentro esteve uma hora em silêncio transforma-se num comentador profissional da vida alheia.

— Como está?
— Vou andando...
— E o reumático?
— Anda mais depressa do que eu.

Esta seria a conversa dos mais velhos que vêm á missa das 6. Poucos estão a esta hora. É a missa dos jovens.

às seis, duas senhoras trocariam receitas de bacalhau como se estivessem a negociar tratados internacionais. A esta hora é mais o que vais fazer a seguir.

- Eu vou para a praia?

- Eu também. Vou como os colegas. E tu?

- Vou com os meus pais.

- Que achaste o serão de hoje? Não percebi onde ele queria ir...

- Não faço ideia... mas gostei muito da parte em que o padre levantou a voz. Dá sempre mais convicção.

As crianças da catequese, que sobreviveram heroicamente aos sessenta minutos sem correr pela igreja, explodem finalmente em energia. Correm pelo passeio como se alguém tivesse carregado no botão "libertar" e elas se sentem livres.

Os mais velhos, que vieram só para tomar contas das mais novas, despedem-se pela décima vez.

— Então, até para a semana!
— Se Deus quiser.
— E se a minha mulher deixar.

Toda a gente ri. Até a mulher.

Ao fim de meia hora, metade das pessoas continua à porta da igreja. Afinal, a missa durou uma hora, mas o convívio pós-missa é que é verdadeiramente eterno. É assim um repositório de conversas adiadas, de dizeres que a semana esqueceu.

E há uma conclusão inevitável: a fé reúne as pessoas lá dentro. Mas é cá fora, entre apertos de mão, gargalhadas, receitas, futebol e promessas de café que a comunidade faz o seu segundo acto litúrgico sem precisar de missal. E outros, como eu e mais alguns, ficam babados a vê-las saírem como a sua roupa dominical, o seu ar angelical e beatificadas sorrindo.

Até para a semana, na mesma saída de missa, porque agora vou para a praia ver se quem não foi à missa já lá está.


Sanzalando

3 de julho de 2026

Na minha cidade o tempo é Presidente da Câmara

Há cidades que perdem habitantes porque fechou a fábrica. Outras porque os jovens foram estudar e nunca mais voltaram. E depois há a minha, que os perde por culpa do tempo. O tempo, esse malandro, que nunca concorreu a eleições mas governa isto há décadas.

O primeiro a abandonar a cidade foi o relógio da praça. Ouviram-se tiros, criaram-se boatos, desapareceram sentimentos e as verdades evaporaram-se num cacimbo cerrado que até hoje ninguém mais encontrou. Uns ainda vão na sua procura, mas não encontram. O espaço está, o ar desértico está, mas falta aquela coisa que a gente sentia e não explicava. As palavras não têm significado para descrever o que é a minha cidade. É só a minha cidade, num ponto paragráfico e já está dito e explicado.

E o relógio de quando em vez volta a parar. A minha cidade perdeu mais um, levado pelo tempo. Não por avaria, só mesmo porque chegou o tempo dele deixar a cidade. Um dia vai chegar o meu tempo e eu deixarei a minha cidade, mesmo que contrariado. Nunca por cansaço, apenas porque chegou o tempo.

Nunca ninguém me ouvirá dizer:

- Já vivi horas suficientes. Agora desenrasquem-se sem mim. Mas eu sei que o tempo tem limite mesmo que incógnito.

Ninguém consegue reparar o tempo ou enganá-lo. Afinal, naquela terra todos sabiam as horas. Eram sempre “quase hora do almoço”, “daqui a bocadinho”, ou “já é tarde para isso”. Era assim o tempo na minha cidade antes do relógio da praça ter parado de dizer à sua gente o tempo que era. Hoje o tempo, que ninguém diz, vai levando um a um e a minha cidad, vai perdendo gente por causa do tempo que passa.

No tempo em que havia o relógio da praça, desapareciam crianças porque cresciam. Apareciam outras e outras. Hoje na minha cidade não aparecem crianças porque na minha cidade faz tempo que o tempo deixou de ter tempo para ver as crianças nascerem. Eram as pessoas da minha cidade, aquelas que respiravam o mesmo ar, que sentiam a mesma areia, que mergulhavam no mesmo mar. Hoje aquele espaço existe. Tem crianças, tem gente que mergulha no mar, que brinca, que corre, que ri que chora, mas não são da minha cidade porque a minha cidade mudou-se quando o relógio da praça deixou de dizer as horas.

É um fenómeno pouco estudado, mas muito frequente. Um rapaz de doze anos acorda um dia com vinte e cinco, milhares de quilómetros de distância. Promete voltar um dia. Depois descobre que os fins de semana também envelhecem, que os meses passam a anos e décadas depois o tempo escasseia.

Os senhores que discutiam futebol na minha cidade já foram faz tempo levados por ele, o tempo que passa. Hoje há senhores que se calhar no mesmo lugar continuam a discutir futebol, mas não são os da minha cidade.

Hoje, se encontrar alguém da minha cidade a conversa que terei será tão antiga que um dos dois vai tossir por causa do pó das palavras. Olhando para as minhas conversas conversadas em papel vejo que elas até têm musgo. 

Hoje a minha cidade tem mais silêncio do que conversas. As esplanadas da vida levaram as palavras, a areia do deserto enterrou frases. Hoje sobra o silêncio que de quando em vez lhe interrompo para dizer de memória as coisas que não visitei por preguiça e que agora poderá faltar-me tempo. 

Nunca ninguém arranjou um relógio novo para a praça! Se calhar não ia ser a mesma coisa e a minha cidade, esta que eu lhes estou a contar, não existiria. Nesta minha cidade os cães ladram devagar porque só os tenho na memória e esta já não corre como corriam os discos de 33 rpm nem os de 45 rpm. 

Hoje a minha cidade leva cada silêncio a ser merecido. 


Sanzalando

2 de julho de 2026

O dia em que quase conquistei o ringue ou antes pelo contrário

A ideia parecia brilhante na minha cabeça. O hóquei em patins é um desporto rápido, dinâmico e elegante. Eu gostava de o ver nos jogos do Atlético. O problema começou quando decidi que um dia eu ia ser jogador e me inscrevi, ou me inscreveram no CID com o Sr. Vergílio. Percebi que a minha relação com a gravidade é puramente unilateral: ela puxa-me e eu caio. E andei nestas andanças uma semana. As rodas metálicas não me deixavam quieto um instante. Ou os patins iam para trás e o meu corpo para a frente, ou vice versa. O estatelado era garantia da casa.
Fato treino encarnado vestido e lá ia eu sempre sorridente para o Ringue do Benfica onde estava sediado o tal de CID. Paciência Vergiliana. Nódoa negra eu era cliente. Mal calçava os patins, o meu corpo assumia uma postura defensiva semelhante à de um recém-nascido de girafa. Já viram uma girafa acabada de nascer? Eu vi muitos anos mais tarde e só me lembrava desses tempos em que eu queria ser jogador de hóquei. O equilíbrio era inexistente, os braços dançavam como as velas de um moinho. Se alguma vez eu fiz espargata, lá deve ter sido.
Na verdade aprendi a andar naquilo. Não me lembro quanto tempo depois de ter começado. Tantas foram as quedas que uma delas apanhou a zona da lembrança. Dava voltas ao campo e aguentava até que já conseguia fazer malabarismos. É facil, pensei eu esquecendo todo o sofrimento anterior. 
- Hoje vais andar com o stick. -  dissera-me o Sr. Vergílio no alto da sua máxima paciência.
Em vez de ser uma extensão do meu braço ele mais parecia um pau de vassoura com vontade própria. Uma ou dez vezes falhei a bola por 30 cm no mais perto que lhe passei. Quando acertava na bola, aquele alcatrão redondo atirava-me ao chão. Eu, de músculo-esquelético acho que só tinha a parte esquelética.
Aos poucos lá fui encarrilhando naquele desporto. Umas vezes o tal de pau de vassoura servia-me de bengala e outras eu conseguia mesmo usar para a sua finalidade máxima, fazer um remate à baliza. Quantas vezes acertei nela? Faz parte da zona esquecida. 


Sanzalando

1 de julho de 2026

Tesourinhos Musicais 99 - Betinho e o seu conjunto - K'arranca às Quartas 125


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Anabela Quelhas - Autora - K'arranca às Quartas 125


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Esta Música tem uma História 65 -Carlos Paião - Versos de amor - K'arranca às Quartas 125


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Crónicas de Carlos Osório (24) - K'arranca às Quartas 125


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Crónica de João Portelinha da Silva (30) - K'arranca às Quartas 125


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Crónica 112 - K'arranca às Quartas 125


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Programa 125 - K'arranca ás Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 01 de Julho de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.


Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este era dedicado à Feira do Livro que decorre na Cidade de Portimão. Programa especial também porque foi especialmente feito para si
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - o meu equilíbio perfeito

Palavras sobre Anabela Quelhas, a autora escolhida da por mim
Hoje houve Esta Música tem uma história com Carlos Paião e Versos de Amor
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, 99º edição Betinho e o seu Conjunto
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos Tsunami e a mitologia nos dias de hoje
Florbela Espanca e Eu no poema na voz de O Mundo dos Poetas

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

30 de junho de 2026

Pertinências 15 - via Youtube


Sanzalando

Pertinências 15 - Concerto dos Terrakota

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas
















Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.


Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Imperdível



Sanzalando

26 de junho de 2026

eu e Babel

Só porque alguém me mandou uma mensagem a contar o episódio do Babel. Olha lá um coreano que fala alemão em Portugal ia dar mais o quê? E então sorri e derrapei nas letras.

Diz o mito que Deus baralhou as línguas em Babel para castigar a vaidade humana, e espalhou a confusão. Claramente, quem escreveu essa história lá nunca tentou pedir um café numa esplanada na Praia da Rocha ou em Alvor. Babel não foi um castigo, foi o ensaio geral para a cidade moderna.

Hoje, entrar num elevador ou caminhar pela rua é mergulhar numa polifonia absurda. À esquerda, discute-se o mercado num inglês nórdico; à direita, gesticula-se em espanhol; ao fundo, negoceia-se em mandarim e por cima voa um avião americano feito com chips da China e coisas da Coreia.

O verdadeiro milagre, contudo, opera-se numa cafetaria qualquer. Isto é, já não as há.  Mas nos similares que têm nome pomposo onde antes se pedia um galão e uma torrada, hoje exige-se um flat white com leite de aveia e um avocado toast em pão de sourdough. O cliente, baralhado perante os hieróglifos do menu, tenta pagar com uma nota de dez euros. O funcionário, um jovem estrangeiro em ano sabático, olha para o dinheiro como se fosse um artefacto do Neolítico. MbWay please! Não partilham mais nenhuma palavra, mas a transação faz-se com um aceno de cabeça universal.

Na rua, a sinfonia ganha rodas. Condutores de Uber guiam-se por vozes robóticas, turistas em trotinetes gritam "Sorry!" enquanto galgam passeios, e ciclistas tentam explicar por gestos que a ciclovia não é uma passadeira.

Se o plano original de Babel era separar-nos pela incompreensão, falhou redondamente. A cidade moderna criou a sua própria língua franca: o desenrascanço. É o idioma de quem se entende por mímica, sorrisos e Google Maps ou Waze.

A nossa torre contemporânea continua de pé, tem Wi-Fi e não cai. No fundo, descobrimos o que os babilónios esqueceram: para conviver, não precisamos de falar a mesma língua. Só precisamos de partilhar o mesmo espanto por estarmos todos no mesmo caos.


Sanzalando

25 de junho de 2026

eu e o futebol de rua

Na minha rua havia uma regra sagrada, escrita em lugar nenhum, mas respeitada por toda a gente: quem fosse o dono da bola jogava sempre.

Era uma espécie de Constituição da República do Futebol de Rua, ainda a gente nem sabia havia Constituição

Não interessava se o rapaz corria como um armário ou avestruz, não interessava se confundia um passe com um remate ou se tinha medo de cabecear porque despenteava. O dono da bola era titular absoluto.

E esse dono, às vezes era eu.

O problema é que Deus distribuiu talento futebolístico pelos meus amigos todos e, quando chegou à minha vez, já devia estar na pausa para café ou tinha ido à casa de banho. Tinha bola mas faltava-me o tal de jeito. Era assim um tipo mais de uma verdadeira queda vertical no gráfico da eficácia chutativa.

Os outros faziam fintas. Eu fazia acidentes em que o acidentado quase sempre era eu.

Eles dominavam a bola com o peito. Eu dominava-a com a testa, com as costas ou canela e sempre sem querer.

Quando me gritavam:
— Passa!

Eu passava, quase sempre ao adversário.

Era uma visão democrática do futebol, quando esta palavra era altamente proibida. Eu acreditava que todos tinham direito a tocar na bola, incluindo a equipa contrária.

Mas ninguém se atrevia a dizer:
— Não jogas.

Porque a resposta era imediata:
— Então a bola também não joga.

Seguia-se um silêncio dramático.

A bola debaixo do braço tinha um poder que nem o melhor árbitro do munndo possuía.

Começavam logo as negociações.

— Está bem jogas à defesa.

Cinco minutos depois alguém da minha equipa dizia:

— Se calhar ficas melhor a guarda-redes.

Outros cinco minutos depois:

— Sabes que mais? Fica ali no meio-campo mas sem mexer muito, para ver se não atrapalhas o Zé.

No fundo, tinham acabado de inventara a posição de obstáculo humano. Eu não marcava ninguém, mas ocupava espaço. Havia dias em que nem tocava na bola. Ainda assim, era considerado um jogador importante, porque, sem mim, não havia jogo.

A minha carreira futebolística viveu sempre desse paradoxo extraordinário: era o pior jogador em campo e, simultaneamente, o mais indispensável.

Nunca marquei um grande golo e só por acaso também não me lembro de nenhum pequeno.

Marquei, isso sim, muitos postes de iluminação já que ficávamos muitas vezes lado a lado e só não à conversa porque ele era o candeeiro e eu não sou parvo.

Uma vez rematei com tanta força que a bola foi parar ao quintal da Dona Teodora. A bola voltou três dias depois. Eu ainda hoje desconfio que ela lhe deu um castigo por mau comportamento ou estava com pensa da minha fraca evolução desportiva.

Quando os meus amigos gritavam:
— Chuta para a baliza!

E eu obedecia... desde que a baliza estivesse aproximadamente na direção para onde a bola saía, naquele acaso.

As balizas também eram um espetáculo. Dois tijolos, duas pedra, duas mochilas, às vezes dois chinelos. O problema começava quando alguém chutava para fora e aparecia um génio a perguntar:
— Mas foi dentro ou foi ao lado do chinelo?

Discutia-se meia hora.

Se existisse VAR naquela rua, ainda hoje estávamos a analisar o lance.

O mais curioso é que ninguém queria saber de contratos milionários, chuteiras de última geração ou relvados perfeitos.

A bola já tinha perdido a cor original, levava remendos, parecia ter sobrevivido a três guerras e dois carnavais. Mas era a melhor bola do mundo, porque era a minha e era a única maneira de eu jogar.

Hoje, vejo crianças com equipamentos iguais aos dos grandes clubes, bolas oficiais, aplicações que contam os quilómetros percorridos e relógios que medem o ritmo cardíaco.

Nós medíamos outra coisa: quantas vezes a mãe chamava da janela até decidirmos ir jantar.

E esse era o verdadeiro apito final.

Nunca tive jeito para jogar à bola.

Mas tive o privilégio de ser dono da bola.

E, olhando para trás, percebo que, na infância, ter a bola era muito mais importante do que saber jogar.

Porque o talento fazia ganhar partidas. Mas a bola fazia nascer amizades que ainda hoje continuam a vigorar, como aquelas tardes intermináveis em que o campeonato só acabava quando desaparecia a luz do dia ou quando alguém levava a bola para casa debaixo do braço, lembrando a todos quem era, afinal, o verdadeiro presidente da federação da rua.



Sanzalando

Esta Música tem uma História 64 -Chico & Milton - O que será? - K'arranca às Quartas 124


Sanzalando

Rui Couceiro - A MAIS BELA MALDIÇÃO (Anabela Quelhas) - livro - K'arranca às Quartas 124


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (29) - K'arranca às Quartas 124


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (23) - K'arranca às Quartas 124


Sanzalando

Crónica 111


Sanzalando

Angola Toma a Palavra - Feira do Livro de Portimão





Ontem a Feira do Livro Portimão 2026 recebeu "Angola Toma a Palavra", um encontro especial que reuniu os autores Tomás Lima Coelho, Sedrick Carvalho, Kalunga, João Rodrigues, Graça Sousa, Valério Guerra e João Carlos Carranca para uma conversa plural sobre literatura, sociedade, humanidade, cultura e os laços que unem diferentes experiências e perspetivas.





Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

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Sanzalando

24 de junho de 2026

Programa 124 - K'arranca às Quartas



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 24 de junho de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.


Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este era dedicado à Feira do Livro que decorre na Cidade de Portimão. Programa especial também porque foi especialmente feito para si
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - livros no Verão ou coisa do género

Trouxe Rui Couceiro nas palavras de Anabela Quelhas
Hoje houve Esta Música tem uma história Milton e Chico - O que será?
Hoje não houve Os Tesourinhos Musicais porque a primeira hora foi preenchida com o concerto de abertura da Feira do Livro por Eduardo Ramos
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos a bola ou nem por isso

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no erro


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

23 de junho de 2026

Serenata à chuva

O meu plano era infalível, ou pelo menos era o que eu achava que sim antes de ver o estado em que estava o tempo.

Lá estava eu, às dez da noite, no passeio embaixo da janela dela. O plano pedia um luar romântico, uma brisa suave e acordes chorosos no viola. Em vez disso, a noite parecia ter nascido num breu absoluto.

Como eu não sabia cantar nem violar as cordas de uma guitarra, me socorri de dois amigos que o faziam na perfeição.

O Beto limpou a garganta, ajeitou os dedos nas cordas e começou a dedilhar, acompanhado pelo Manel. Eu era corpo presente no silêncio ausente.

- Oh, minha amada, que brilha mais que o sol... - cantou, na sua voz baladeira..

A janela se abriu num ápice. Uma silhueta apareceu. Sorri no escuro com a esperança de ser visto. Foi quando um holofote daqueles dos filmes de guerra para ver os aviões nos céus, era a cortesia simpática do pai dela.

- Que diabo se passa aqui? - naquele breu a voz até que parecia vinha dum trovão desgovernado.

Completamente cego pela luz, tentei soletrar uma ou outra palavra mas nada me chegava à boca. Era silêncio presente com vontade de corpo ausente.

- Sr.Ju! Boa noite... Sou o Beto e viemos fazer uma serenata à sua filha. Desculpe não termos trazido o luar - como ouviram foi o Beto quem salvou a situação. Eu estava estatuado na vertical parada do tempo.

- O luar eu não sei, Fadista da lixeira, mas a chuva está a chegar se vocês não se calam! - gritou o dono da luz que não a desligou um segundo, para eu despetrificar..

Como se fosse um efeito sonoro encomendado pelo destino, o primeiro pingo de chuva do tamanho de cinco tostões caiu bem na ponta do meu nariz. Em três segundos, o céu desabou. Não era uma chuva romântica de filme; era um entornado que parecia ter vindo de balde, se não viesse mesmo do céu

A janela do quarto ao lado abriu-se e, finalmente, ela apareceu, tentando segurar o riso enquanto protegia o cabelo.

-Entrem. Vocês são doidos. Abriguem-se aqui dentro.

Eu, já estava empedrado tinha virado agora encharcado até a alma, com o cabelo colado à testa e a dignidade escorrida rua abaixo gritei:

-  Não há força na natureza que me desarme - na verdade eu estava aterrado só de pensar ver o Sr. Ju a olhar-me de perto.

- Deixa-te de dramas e entra. A serenata foi um desastre, mas a minha esposa acabou de pôr a mesa com biscoitos e coca-cola.

Nem nos olhámos para pensar. Corremos para a varanda, sacudindo a roupa para enxarcar o menos possível qualquer entrada. O luar podia ter faltado, mas a ceia foi um regalo de gosto e sabor.



Sanzalando

22 de junho de 2026

Se tempo é dinheiro...

Diz o ditrado português que tempo é dinheiro. Eu desconfio de que é que diz isso. Normalmente são os mesmos que chegam atrasadas e depois vão dizer que o trânsito estava impossível. Se o tempo fosse dinheiro, havia muito boa gente a declarar falência, porque tem gente que sofre de falta de tempo que até irrita.

Eu prefiro outra teoria: quem compra um livro compra tempo.

Não parece. À primeira vista, compra papel, tinta, uma capa bonita e, nos dias que correm, uma carteira mais leve. Mas basta abrir a primeira página para perceber que ali dentro há muito mais do que letras alinhadas, frases feitas e anos condensados. Tem o tempo que o escritor levou a imaginara estória, a apagar capítulos inteiros, a reescrever frases que nunca ficam exatamente como ele as queria. Há madrugadas, cafés frios e momentos em que olhou para o tecto à procura da palavra certa, da construção correcta ou imaginada.  Quando compramos um livro, estamos a adquirir esse tempo todo por empréstimo.

Há livros que nos fazem viajar até Roma Antiga, ou ao futuro, ou ao fundo do mar ou à infância de alguém que nunca conhecemos. Tudo sem anúncios irritantes ou um X num dos cantos para apagar o reencaminhamento para não sei onde.

O máximo que pode acontecer é adormecermos ao fim da terceira página. Mas isso não é culpa do livro, às vezes é culpa do sofá.



Sanzalando

21 de junho de 2026

Pertinências 14 - Epicuro e Epicurismo Por Gabriela Baião

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas







Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.


Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Imperdível



Sanzalando

20 de junho de 2026

eu, a voz, o erro ou gaffe com dois efes que tem mais pinta

Diz-se que a voz humana é um instrumento divinal. Se assim for, há dias em que o meu instrumento precisa urgentemente de ir à oficina ou, no mínimo, de ser afinado com uma marreta. Fazer locução é um exercício de alta cavalgada: exige postura, respiração cuidada, uma dicção impecável e, acima de tudo, a ilusão absoluta de que temos o controlo da situação mesmo quando as linhas do texto se cruzam na nossa cabeça como os rabiscos de uma criança em folha de papel. O problema é quando o cérebro decide fazer uma pausa para café a meio da frase e deixa a boca a funcionar em piloto automático. O resultado nunca é bonito.

Tudo começa com a falsa sensação de segurança. Olhamos para o texto, as palavras parecem fáceis, amigáveis, quase familiares. Respiramos fundo, colocamos aquele tom aveludado de quem jantou com o locutor da BBC e arrancamos:

“Muito boa tarde. Sejam bem-vindos a mais uma edição do nosso programa, onde hoje vamos analisar a lusofonia na palavra e na música sem que haja um consenso" e aqui "constitucional ou apenas institucional sobre o que é a língua portuguesa”

E é aqui que o destino se ri de nós. A palavra seguinte é "constitucional". Uma palavra simples, certo? Errado. Na boca de um locutor confiante, "constitucional" transforma-se, por artes mágicas, em "consti-tu-xio-nal" e paro, corrijo ou sigo

O erro em locução tem várias fases, todas elas dolorosas, que acontecem no espaço de um microssegundo. O Tropeço em que  a língua bate no céu da boca de forma errada. É o equivalente fonético a ir a andar na rua e tropeçar num paralelo levantado da calçada. O Pânico dos Olhos em que os olhos arregalam-se. Percebemos que o que saiu pela boca não pertence a nenhum dicionário da língua portuguesa. Acabámos de inventar um dialeto novo. A Tentativa de Salvação em que em vez de pararmos, tentamos corrigir enquanto continuamos a falar, criando um efeito de areia movediça. Quanto mais tentamos sair dali, mais nos enterramos. O "consenso constitucional" passa a ser o "tecido constituxu... constitulal... o tecido das leis!". Pronto, improvisou-se, ninguém notou, pensamos nós.

O pior são as consoantes dobradas. Quem foi o sádico que decidiu colocar "rres" e "lles" seguidos em textos que têm de ser lidos sem respirar? Há dias em que a frase "o rato roeu a rolha" parece um tratado de física quântica. A meio do caminho, o "rato" já é um "gato", a "rolha" desapareceu e nós estamos a arquejar como se tivéssemos corrido uma maratona. 

Há outras formas de errar. Se a gravação for em diferido, temos o maravilhoso botão de delete na nossa consola e após praguejar um bocadinho contra os antepassados do autor do texto, bebe-se um golo de água e repete-se a faixa pela décima vez, fingindo que somos profissionaisíssimos.

Mas se for em direto... Ah, o direto! O direto tem o requinte de crueldade de congelar o tempo. Quando falhamos uma palavra em direto, fazem-se dois segundos de silêncio que parecem durar duas semanas. Conseguimos ouvir o suor a escorrer pela testa. Conseguimos ouvir os ouvintes em casa a largar a colher de sopa e a perguntar: "O senhor da rádio está a ter um AVC?" O truque clássico do locutor apanhado em falso é a "tosse de recurso". Enganaste-te numa palavra? Dá um pigarro autoritário, como se um grão de poeira cósmica tivesse entrado na tua garganta sagrada, e repete a frase com o dobro da imponência. Se fores suficientemente confiante, as pessoas acham que a culpa é do dicionário, não tua.

A verdade é que há uma beleza escondida na gaffe. O ouvinte não quer uma máquina de inteligência artificial a debitar sílabas perfeitas sem alma. O ouvinte quer saber que do outro lado do microfone está alguém que, tal como ele, também se embrulha a tentar dizer "paralelepípedo" à segunda feira de manhã ou na noite de sexta.

Por isso, celebremos os nós na língua. São eles que dão sabor à emissão. E agora, se me dão licença, vou ali treinar a leitura de um texto sobre a desestatização dos estabelecimentos agropecuários, prisionais e os dos caleidoscópios espaciais. Desejem-me sorte, ou chamem já o terapeuta da fala.


Sanzalando

18 de junho de 2026

Ribeirinha Beach 2026 - uma conversa à beira rio com Tó Feu




Programa de Rádio à beira rio. Num fim de tarde de calor, uma conversa amena com Tó Feu no lugar onde passou a infância e que agora está para os portimonenses usufruírem. Num convite da P.O.I.S. estivemos à beira rio a recordar e a fazer futurologia. E quando estávamos quase a despedirmo-nos vimos que ia dar um concerto de 1 hora a fadista Catrina que haviamos conhecido num Bom Dia Mercado e aproveitámos para uma mini conversa. Foi bom ter estado ali, naquele instante com gente boa




Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

17 de junho de 2026

LIVRO - Jornal sem Data - Fernando Namora - K'arranca às Quartas 123


Sanzalando

Esta Música tem uma História 63 -Bonga - Mona Ki Ñngi Xica - K'arranca às Quartas 123


Sanzalando

Tesourinhos Musicais 98 - António Mourão - K'arranca às Quartas 123


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (28) - K'arranca às Quartas 123


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Crónicas de Carlos Osório (22) - K'arranca às Quartas 123


Sanzalando

Crónica 110 - K'arranca às Quartas 123


Sanzalando

Programa K'arranca às Quartas 123



Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 17 de junho de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Programa especial porque foi especialmente feito para si

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque todos os K'arranca às Quartas o são. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - festivais de verão

Falei de Fernando Namora e o seu último livro - Jornal sem Data
Hoje houve Esta Música tem uma história Bongae o seu Mona Ki Ngi Xica
Os Tesourinhos Musicais falei de António Mourão, o do Tempo Volta pra Trás
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos os livros e suas feiras ou não
Tivemos o poema Elefante de João Melo na minha própria voz
Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no erro


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Operação Toalha na Alameda ou como criei a "Praia da Alameda"

Sempre achei que o maior defeito do urbanismo moderno é a falta de uma ondulação marítima a escassos metros do café central. 
Sempre morei pertinho da praia, mas penso muito nos que moram a uns sofridos 80 quilómetros do oceano mais próximo. No pico do verão, quando o termómetro da farmácia marca uns tórridos 38°C e o asfalto ameaça derreter as solas dos sapatos, julgo que o cérebro entra em modo de sobrevivência. E foi precisamente num desses dias de canícula que pensei: se a montanha não vai a Maomé, a praia vem ao centro da cidade. E então fiz o teste na minha cidade. Se aqui der certo, dará em qualquer lugar, pensei.

Munido de uma cadeira de praia queimada pelo sol desde 2014, uma toalha com o brasão do Alguidares de Baixo e uma geleira azul vazia, que era para não carregar peso, rumei à Alameda. O meu objetivo? aproveitar o repuxo que faz tempo não funciona.

Cheguei por volta das duas da tarde, a hora em que os lagartos procuram a sombra e os humanos sensatos estão fechados em casa com o ar condicionado no máximo. O cenário era perfeito. Estendi a minha toalha mesmo na berma da calçada portuguesa, a um metro e meio do repuxo de água que mais um dia não saiu para funcionar. Acho ele ausentou-se de vez. 

Instalei-me. Calções de banho floridos, óculos de sol espelhados e o corpo generosamente untado com protetor solar factor 50, cujo aroma a coco começou imediatamente a travar uma batalha química contra o cheiro a fritos dos restaurantes das redondezas. A calçada portuguesa, quando exposta ao sol do meio-dia, retém o calor de uma forma que faz a areia de uma praia verdadeira parecer um cubo de gelo. Deitar-me de costas foi um erro tático que quase me custou a pele das omoplatas.

Uma praia precisa de banhistas, mas na Praia da Alameda, a fauna era ligeiramente diferente. O Pombo-Gaivota não tardou até que um bando de pombos urbanos se aproximasse. Olhei para eles com nostalgia. Fechando bem os olhos, o "ru-ru" daquelas aves cinzentas quase parecia o grasnar de gaivotas esfomeadas atrás de uma bola de Berlim. O senhor Artur, velho conhecido e empregada de um restaurante ali perto, olhava-me com a expressão de quem questionava se devia ligar para o 112 ou para a minha família. Um casal de nórdicos, vermelhos como lagostas, parou a olhar para mim. Olharam para o mapa, olharam para a minha cadeira de praia, e por um segundo vi o brilho da esperança nos seus olhos. Estariam finalmente no Algarve?

Às três da tarde, a brisa marítima provocada pela passagem dos carros trouxe o tão desejado fresco. Cada vez que um carro passava, o deslocamento de ar recriava perfeitamente a sensação de uma nortada na Praia do Guincho, incluindo o bónus de me atirar com poeira e bilhetes de raspadinha usados à cara.

E o banho? Bem, o chafariz tinha uma placa bem visível: "Água Não Potável" mas na verdade também não havia qualquer outro tipo de água. Mas ninguém disse nada sobre ser "Não Praticável". Quando o calor se tornou insuportável, levantei-me com a dignidade de um nadador-salvador e pensei ir até casa tomar um banho.

Enquanto arrumava a toalha e a cadeira ainda deu para ouvir uma senhora idosa que passou, benzeu-se e murmurou: "Valha-me Deus, a droga faz mesmo mal aos jovens". Sorri e acenei-lhe como se estivesse num iate em Vilamoura.

 O "mar" tinha secado. Eu estava desidratado. Arrecadei a minha toalha, agora preta do fumo dos escapes, fechei a cadeira de praia e caminhei de volta a casa, de chinelos a estalar no alcatrão quente.

Posso não ter trazido conchas nos bolsos, nem o bronzeado perfeito, mas trouxe a certeza absoluta de que a felicidade é um estado de espírito. E que, com a dose certa de lata e calor, qualquer rotunda com água se transforma na Côte d'Azur.

E foi então que soube que havia uma praia, de nome inglês à beira rio, onde não precisaria de ter levado cadeira, toalha nem geleira e talvez ninguém me tivesse um lunático da Alameda. Fui lá. Sim, alguém tinha pensado bem melhor que eu. E quase todas as cidades têm um rio, um ribeiro ou uma fonte que funciona e a ideia teria funcionado bem melhor.



Sanzalando

16 de junho de 2026

fui à praia

Em 1973, o mundo podia estar a mudar ao som de David Bowie e dos Pink Floyd, mas para um rapaz de dezassete anos, o universo reduzia-se a duas constantes absolutas: a crueza do escaldão de primeiro dia e o mistério insondável das raparigas na praia.

O plano traçado na véspera era muito simples. Ir à praia. O objetivo real? Tentar parecer minimamente interessante na direção do areal onde as "garotas" estendiam as toalhas.

A preparação começou cedo. Os calções de banho que já não se usavam, aqueles tão curtos que quase exigiam uma licença de porte de arma e uma camisa de malha que tinha um jacaré bordado que na minha cabeça de jovem, me deixava com um ar vagamente saído de um filme de Hollywood, mas que na realidade me fazia parecer, vejo hoje nas fotografias, um cruzamento entre um faroleiro e uma abelha sobressaltada. Para realçar o visual, uma quantidade generosa de brilhantina no cabelo, que prometia resistir a qualquer rajada de vento, e os incontornáveis óculos de sol de massa escura, que tinham o superpoder de escurecer tanto a visão que o qualquer rapaz corria o risco de tropeçar num cão vadio antes de chegar ao mar.

A caminhada até à praia foi uma ode à autoconfiança. Com o peito feito num esforço hercúleo para parecer mais musculado do que as costelas permitiam, cheguei cedinho. Olhei, procurei um lugar que fosse estratégico. Entrei na praia com o ar mais decidido que alguma vez tinha tido, pensava eu.

Ao pisar a areia quente, o coração começou a bater ao ritmo de um solo de bateria. Lá estavam elas. Um grupo de três ou quatro raparigas, com os seus biquínis floridos e cabelos compridos, rindo de piadas que eu daria um braço para conhecer. No ar havia um aroma a óleo de coco e a uma sofisticação que parecia estar a anos-luz da sua caderneta de cromos e das borbulhas na testa.

- É agora - pensei. Adotei uma postura natural. Tipo Charles Bronson mas com mais bronze e continuei a caminhar.

O plano de aproximação era simples: caminhar naturalmente em direção à água, passar a uma distância perfeitamente calculada de dois metros da toalha delas, lançar um olhar enigmático de soslaio, e talvez, se a coragem não desertasse, dar um aceno de cabeça vagamente desinteressado.

A execução começou bem. Os primeiros passos foram firmes. O olhar de soslaio foi disparado com precisão cirúrgica. Uma das raparigas, a de biquíni azul, desviou os olhos do livro e olhou na minha direção. 

O mundo parou-me. Senti-me um Alain Delon numa praia francesa.

Foi exatamente nesse milésimo de segundo de glória que o destino, sempre dotado de um sentido de humor cruel, resolveu intervir.

O meu pé direito encontrou o buraco mais fundo e clandestino alguma vez escavado na história das praias, provavelmente obra de uma criança de cinco anos armada com uma pá de plástico vermelha. Sem qualquer aviso, o tornozelo cedeu. O corpo, que há segundos transbordava charme, transformou-se num croquete humano.

Literalmente voei e rebolei. Não foi um tombo discreto nem disfarçável. Foi uma queda coreografada pelas leis da gravidade mais impiedosas. Os óculos de sol voaram para a esquerda, a toalha que levava ao ombro viajou para a direita, e eu aterrei de barriga diretamente na areia húmida, deslizando cerca de meio metro como um pinguim desajeitado.

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som das ondas e, logo depois, por uma sinfonia de gargalhadas não abafadas, vindas precisamente da direção da toalha das garotas.

Com a boca cheia de areia e o orgulho reduzido a pó, levantei-me o mais rápido possível. O cabelo cheio de brilhantina parecia agora um panado empastado duma cobertura de barraca de feira, coberto de grãos de areia da raiz às pontas. Em vez de fugir para o mar e simular um afogamento voluntário para salvar a honra, decidi usar a última cartada da adolescência: fingir que tudo aquilo fazia parte de um plano superior.

Limpei a cara com a mão, recuperei os óculos cheios de riscos, olhei para o grupo de raparigas que ainda sorria e, com a voz ligeiramente desafinada pela entrada súbita de oxigénio e areia nos pulmões, disse:

- A areia deste ano está incrivelmente macia, não acham? Um pouco salgada talvez!

A rapariga do biquíni azul não resistiu e soltou uma gargalhada clara.

- Bastante. Mas acho que a tua toalha ficou ali atrás.

Sorri, um sorriso amarelo que misturava vergonha e o alívio de ter, finalmente, conseguido iniciar uma conversa. O engate de 1973 não tinha corrido exatamente como nos manuais, mas a verdade é que, no resto daquela tarde, entre mergulhos para tirar a areia do cabelo e piadas sobre buracos na praia, acabei por descobrir que, às vezes, um bom trambolhão funciona muito melhor do que qualquer pose de artista de cinema.



Sanzalando

15 de junho de 2026

O boca de sapo

O ano é 1972, mais coisa menos coisa que eu não fui confirmar ao diário que nunca fiz. Eu tenho 16 anos, uma guedelha que teima em tapar-me as orelhas, calças à boca de sino que funcionam como vassouras públicas e que ao fim de uns tempos de uso a bainha parecia literalmente uma vassoura e a firme convicção de que sou a reencarnação de um gajo moderno. Mas o verdadeiro protagonista deste ano não sou eu. É o orgulho e alegria de passear num Citroën DS novinho em folha.

Para o homem comum, era o pináculo do design francês. Para a vizinhança, era o "Boca de Sapo". Para mim, era uma nave espacial que tinha aterrado diretamente de Marte na garagem da vizinha.

Andar no DS exigia conhecimento científico. Não era só dar à chave e andar. Aquilo tinha um processo de iniciação que parecia o lançamento de uma nave espacial. Para mim era só espacial. Eu sentia-me na lua. Não só pelo carro mas... voltemos a ele para eu não me esparramar aqui em inconfidências esquecidas e que possam despertar monstros escondidos nos baús da memória.

Dava-se à chave e o motor começava a trabalhar, emitindo uma série de cliques e suspiros pneumáticos, como um monstro asmático a acordar. Devagar, muito devagar, a suspensão hidropneumática começava a subir. Primeiro a traseira, depois a frente. Parecia um camelo a levantar-se preguiçosamente. Só quando o carro atingia a sua altura regulamentar é que parecia acender a luz verde de andar. Se tentassem avançar antes disso, corriam o risco de raspar o fundo do carro na primeira formiga que cruzasse a estrada. Ou era o que eu imaginava. Eu ali era o homem na lua. Era brilho nos olhos e coração a palpitar. Ir à boleia no DS era uma experiência radical. O volante tinha apenas um raio, o que me fez pensar que os franceses tinham ficado sem dinheiro a meio do fabrico. Mas o verdadeiro perigo residia no chão: o travãoNo Citroën DS, o travão não era um pedal normal. Era um botão de borracha no chão, redondo, que parecia um cogumelo de brincar. Mas de brincar não tinha nada. 

A sensibilidade daquilo, me diziam, era atómica. Nas primeiras vezes que travaram, não estavam habituados. Apenas a sola do sapato se aproximava um pouco mais do botão e PÁ! todos eram atirados contra o vido ou a traseira do banco da frente. O carro parava instantaneamente.

E a suspensão. Sim, o carro ignorava os buracos das estradas mesmo que eu estive na lua e lá havia caracteras lunares.. Mas o efeito secundário era que o DS não andava; ele flutuava. Se eu por paixão já o fazia no DS era dupla. Eu, encostado ao banco de pele, com um ar misterioso e sedutor. Eu, virava extra-terrestre.

O "Boca de Sapo" tinha uma aura imbatível. O carro deslizava pela marginal ao pôr do sol, eu esquecia-me dos solavancos do travão, dos problemas da matemática, dos nãos que ouvia a toda a hora. Eu via ali o futuro. Mas afinal ele não me levou à lua e os meus olhos brilharam por outras estradas.



Sanzalando

PERTINÊNCIAS 13 - POR DENTRO DO CHEGA

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS - Sábados a partir das 21 horas, excepto no penúltimo sábado do mês

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.


Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Gustavo falou de Música e de conceitos, ideias e pensamentos



Imperdível

















Sanzalando

12 de junho de 2026

moral mente, me perco

Chamar-lhe a minha moral é, desde logo, uma manifestação de optimismo. Dá a entender que ela é um objeto sólido, bem esculpido, guardado numa redoma de vidro algures entre o bom senso e o civismo. Mas a verdade, que confesso aqui entre nós, sem a presença de um juiz ou de um fiscal de linha, é que a minha moral se parece muito mais com um elástico de escritório: extraordinariamente maleável, surpreendentemente resistente nas grandes crises, mas com uma perigosa tendência para ceder nas pequenas coisas do quotidiano.

Eu gosto de pensar que sou um homem de princípios inabaláveis. Perante os grandes dilemas da humanidade, a minha bússola aponta sempre para o Norte da virtude. Se me cruzar com uma carteira recheada no meio da rua, sinto o peso da integridade esmagar-me os ombros; devolvo-a intacta, com cartões e notas alinhadas por ordem decrescente de valor, e ainda recuso a recompensa com um aceno de mão vagamente heroico. A minha macro-moral é impecável. O problema é a micro-moral. É no retalho do dia a dia que a coisa ganha contornos de comédia.

A micro-moral é aquela que é posta à prova, por exemplo, na fila do supermercado quando a caixa ao lado abre de repente. O protocolo civilizacional dita que a prioridade pertence a quem já esperava há mais tempo na fila original. Mas a minha moral bate o olho no tapete rolante vazio e sofre uma mutação instantânea, transformando-se num tratado de sobrevivência. Num piscar de olhos, o meu corpo move-se com a agilidade de um felino, o carrinho de compras descreve uma curva perfeita e, quando dou por mim, já estou a descarregar os iogurtes com um ar falsamente distraído, evitando fixar o olhar no casal de mais idosos que ultrapassei por milímetros. Se a minha consciência me morde? Morde, mas o remorso passa logo quando percebo que vou chegar a casa cinco minutos antes dele.

A verdade é que a nossa relação com a ética é profundamente sazonal e geográfica. Veja-se o caso do trânsito. Sou um cidadão exemplar a pé, peço desculpa se esbarro em alguém e respeito as passadeiras com o zelo de um seminarista. Mas ponham-me ao volante de um carro e a minha moralidade passa a ser ditada pelo código de conduta de um pirata das Caraíbas. O condutor que não faz o pisca na rotunda deixa de ser um concidadão distraído para passar a ser um inimigo público que merece ir a julgamento. No entanto, se for eu a esquecer-me do pisca, a minha moral autojustifica-se de imediato: Foi uma distração legítima, toda a gente percebeu para onde eu ia.

Há também a fascinante moral da conveniência desportiva. Jogar padel ou qualquer outra atividade com amigos é um teste de fogo. Se a bola bate na linha e favorece o adversário, a minha visão torna-se instantaneamente telescópica e infalível: Claramente fora, meu caro, vi o pó a levantar a dois centímetros do risco. Se favorece o meu lado: Tocou na linha, de certeza absoluta, a geometria não mente. A justiça, descobri tardiamente, é uma questão de perspetiva e de quem está a segurar a raquete.

E o que dizer da moral ecológica e do civismo urbano? Separo o plástico, o vidro e o papel com uma disciplina quase militar. Mas se estou na rua, o vento me arranca um pequeno talão de multibanco dos dedos e o papelinho sai a voar pela calçada fora como uma folha de árvore no outono, a minha moral faz um cálculo rápido de custo-benefício. Olho para a esquerda, olho para a direita. Correr cem metros atrás de um pedaço de papel térmico com este calor, correndo o risco de parecer um louco a caçar borboletas invisíveis? Ou assumir que o talão agora pertence ao universo e que a equipa de limpeza urbana precisa de ter trabalho? Vence o universo, claro. Sigo o meu caminho com as mãos nos bolsos, assobiando uma melodia qualquer, normalmente original porque o ouvido para a música não me calhou em sorte, convencido de que, no grande esquema das coisas, acabei de contribuir para a economia local.

No fundo, a minha moral é uma criatura pragmática. Ela não quer o pedestal da santidade, porque o topo do pedestal é frio e não tem onde apoiar o café. Ela prefere caminhar por aqui, no rés do chão, cometendo pequenos pecados que não vêm no Código Penal, mas que dão sabor aos dias. Afinal de boa intenção está o inferno cheio, e eu prefiro ir garantindo o meu lugar no purgatório, onde a conversa é certamente mais animada e as regras, com um bocado de jeito, também se podem negociar.



Sanzalando