Durante trinta e nove anos anos fui quase cirurgião e cirurgião, daqueles a sério. Bata impecável, olhar concentrado, mãos firmes e uma caligrafia tão má que até os farmacêuticos me telefonavam para confirmar se eu tinha receitado um antibiótico ou uma máquina de lavar roupa. Aqui estou a exagerar mas com o passar dos anos a minha letra passou de redonda a gráfico de eletroencefalograma.
A cirurgia era a minha vida. Abria, fechava, cosia, recomendava repouso e depois passava noites sem dormir porque os doentes insistiam em não cumprir nada do que eu dizia. Um dizia:
- Doutor, posso beber um copinho?
E eu:
- Não.
Dois dias depois aparecia feliz:
- Doutor, só bebi a garrafa toda porque o copo era pequeno.
Com os anos fui ficando cansado. Não da medicina e nem das pessoas. A medicina até evoluiu muito. As pessoas já começaram a chegar ao gabinete diagnosticadas pela internet, o tal Dr. Google.
- Doutor, tenho quase a certeza que é uma doença rara da Mongólia Interior ou de um qualquer país que só aparece no Risco
- O que sente?
- Um soluço quando espirro.
Reformei-me da cirurgia. Mas como médico nunca nos deixam em paz, comecei a dar pareceres.
E aí encontrei finalmente a felicidade.
Hoje sou homem de pareceres. Não corto nada, não coso ninguém e não tenho de acordar às três da manhã porque alguém decidiu engolir uma espinha de robalo atravessada na horizontal.
Agora sento-me muito direito, cruzo os braços, faço cara séria e digo frases importantes:
- Hum… é preciso avaliar.
Ou então:
- Convém vigiar.
As pessoas adoram.
Outro dia um colega telefonou-me:
— Precisamos do teu parecer urgente.
Fiquei vaidosíssimo. Pensei que fosse um caso raro, complexo, dramático.
Era para combinar um almoço.
Mesmo assim dei um parecer técnico:
- Há aqui claramente uma deterioração progressiva, cada vez vêm menos aos almoços..
Hoje dou pareceres sobre tudo. Medicina, política, vizinhos, casamentos e até bacalhau à Brás que não tolero. O Brás merecia melhor que o tal de bacalhau..
A minha mulher pergunta:
- Gostas desta cortina?
E eu respondo:
- Em princípio sim, mas aconselho uma segunda opinião.
Há dias um amigo disse-me:
- Tu agora não decides nada.
Respondi:
- Exactamente. O segredo da felicidade está aí. Quem decide, compromete-se. Quem dá pareceres parece sempre inteligente e raramente leva com alguma culpa.
É uma profissão maravilhosa.
Os cirurgiões salvam vidas. Os homens dos pareceres salvam-se a si próprios.
E digo-vos mais: depois de uma vida inteira a abrir pessoas, descobri finalmente a grande verdade da existência humana…
Toda a gente quer uma solução.
Mas o que tranquiliza mesmo é ouvir alguém dizer, muito devagar:
- Isso… depende.

























