recomeça o futuro sem esquecer o passado
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12 de novembro de 2013

Recordar outros escritos (5)

Fui á caça 01-11-2003 01:20 Forum: Liceu Américo Tomás

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Hoje fui á caça. 
Quer dizer, me levaram no JEEP para o meio do mato. Também não era assim muito mato. 
Sabes, mermão, a minha mãe tem um Mini Morris 850, por isso não costuma me levar para além do aeroporto. Por motivos que não vos digo, nunca foi a Porto Alexandre no carro dela, nunca passou do estádio do Benfica. No outro lado só foi até à Kipola, em dia de peregrinação. Também não sei se algum dia foi além da Torre do Tombo. Acho a minha mãe não sabe que a Amélia tem uma praia mais lá para a frente, donde acaba o mundo dela. Resumindo, sou mesmo menino da cidade e hoje fui ao mato. 
Se vocês pudessem me ver, iam ver a minha chapala toda cheia de alegria. Fui à caça! Há uns dias vi o Beto Reis com um leão no seu Land Rover. Tava todo morto mas era lindo, imponente, magestoso. Eu só lhe tinha visto de fotografia e de ouvido. Eu ouvia as estórias na Oásis do Tó Kuribeca, do Sr. Miranda, do Turra e sei mais quem e ficava de boca aberta como que a pedir mosca. 
Mas eu hoje fui à caça. Fui com o Tó Kuribeca, o sr. Júlio Santos, a filha dele e o Ferrão. Fomos à caça. Me levantei ainda era noite e parecia eu ainda não tinha dormido tudo mas que não importava. Tava cacimbo mas eu também não me importei. Eu estava quente, eu não se via mas ardia que até pensei ia explodir de alegria, assim num rebentar parece sai fitas do carnaval. Passei na Kipola, passei o Giraul, eu já tava a andar bué, mas queria lá saber. Eu ia para a caça! Chegamos ao mato, não era a floresta do Maiombe, mas era mato cerrado para mim. Se me deixassem lá ainda hoje podiam andar à minha procura. Eu estava no mato. Comecei a ver Gazelas. Tão bonitas aos saltos. Não era Bolshoi, era melhor. Tantas e tão lindas. Eu adoro isto. Me deixem ficar aqui. Eu sento ai na pedra só a olhar nelas. Tem Zebras ali. Não, eu gosto mais das Gazelas. Uma Impala. Tito puxa duma arma e pum. Impala ao fundo, assim parece estou a jogar nas batalha campal, num campo parece não tem fim. 
Que arma tão pesada. Isto deve dar cabo dum tanque de guerra, disse eu atrás duns olhos de arregalado. 
Todos se riram. Que importa. Eu estava na caça. Eu estava feliz. Fomos seguindo umas pegadas. Era disto, não era daquilo. Quero lá saber, a mim parece é mesmo marca dum boi que passou ali e não tem palácio à frente. Me levem só. Cada vez tinha mais mato. Ué! ali tem deserto. Ficamos aqui a dormir. Saca da Impala. O Tó começou a descascar a Impala, a cortar a carne. Os putos foram apanhar lenha. Que grande assada. Me deixaram beber uma cerveja. Ué, tou grande! Tava a começar a ficar escuro e se fez um jogo. Só vale matar coelhos com 'supositório' - ele tem que estar a correr e dar tiro por trás. Me deram uma 22 qualquer coisa. Eu tremia com o peso, da responsabilidade, se entenda. O primeiro pum e coelho já tá, outro pum e coelho vira. Minha vez. cadê coelho? 
- Tá ali um, pá! toda a gente grita parece eu sou cego.
- Onde, Onde Onde? Já vi. Tá parado e parado não vale. Foge sacana. 
- Não digas isso e dispara. 
- Não senhor eu jogo limpo. Mal sabia eu que ia ser sempre assim.
Atiro pedra e ele fugiu. Parece que ainda tou a ouvir o riso dele na gozação comigo. Nunca vi coelho rir mas imagino desde esse dia cada vez que alguém fala em coelho.
- Ali tá outro. todo o mundo gritou a me orientar no mundo real-
Fechei um olho e pum. Quando abri os dois olhos eu vi uma coisa aos saltos. Me disseram para ir buscar. Eu fui! E ele saltava. Puxei o pé atrás e záz. Ainda hoje tenho a cicatriz no dedo grande do pé. Nunca mais vi o coelho, mas não esqueço as estrelas e os passarinhos que vi. Acertei com o dedão numa pedra. 
Mas, meu irmão, eu fui à caça. Fui com o Tó Kuribeca, o sr. Júlio Santos, a filha dele e o Ferrão.
Não era Março e também não chovia. Mas eu fui à caça, uma vez na minha vida.


Sanzalando

9 de novembro de 2013

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te lembras? 28-10-2003 20:54 Forum: Liceu Américo Tomás

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Te lembras ainda da 1ª discoteca que frequentaste? Mermão, eu lembro mesmo bem caté parece estou a sair de lá num agorinha mesmo. Foi lá que comecei a fazer de..., como se diz agora? DJ. Te lembras da cave dos Fonsecas? Te lembras meu irmão do Henrique feliz por ter ali aos amigos todos. Que paciência da D. Lúcia é preciso ter com esta cambada miúdos irrequietos e compnhia. Esta foi a primeira Discoteca de muitos de nós. Te lembras. Quantos anitos tinhas. Eu sei que cabelos brancos eu nem pensava que um dia eles iam aparecer. E Sr. Fonseca sempre calado e grande... Mena era pequenina. Te lembras meu irmão?
Depois fizeram outra mesmo na Igreja de Sto. Adrião. Essa foi a 2ª. O puto continuava a pôr as músicas: BaBy Love dos Majoraty One, Deep, Rolling, muito Let be. Te lembras? Como chamava mesmo o negão que trabalhava lá na Igreja e desenhava para cachuxo? E o Mendes, Garoupa, Esteves, Lilá, Nelson, Grades e um and so on que num tem espaço nem memória. Ué, tanta gente que não tem net que aguente.
Te lembras meu irmão, às 18.00 horas o Formula POP?
Tempo passa...mas fica, porque faz parte da gente mesmo. Complicado?
Te lembras vai continuar um dia e depois noutro.
Toma atenção


Sanzalando

7 de novembro de 2013

Recordar outros escritos (2)

outra estóra 27-10-2003 20:54 Forum: Liceu Américo Tomás

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Á frente da Casa de Saúde estava a casa dos 'Martinzes'. Se lembram? 
Tinha 2 F
figueiras enormes que dávam figos verdes de pingo que só de me lembrar até parece babei outra vez. Quem nunca lá os foi gamar, da minha geração, das anteriores e das posteriores propriamente ditas? 
E as castanheiras que estavam na mesma rua? Quem foi que não atirou pedras nelas para comer os castanhas? 
Quem foi que levante o braço que eu daqui estou a ver? Desconsegui de ver um braço no ar. Mentira. Eu vi um braço no ar. Meu amigo Rui Miranda. Se lembram dele? Pois é. Esse nunca foi lá, não. E o Corado foi? Ué! Tá claro! Esse puto era terrível! Só mesmo paciência com ele e grande dose de amizade.
Tem coisas mesmo fantásticas na memória da gente. Te lembras de ver o negro velho da casa (Domingos, não é?) a pôr a gente na rua com pau e a xingar parecia as figueiras eram dele?
Tem razões que só a razão explica, porque é que a galinha bebe água e não mija e eu me ponho aqui a explicar coisas que não têm como explicar. Aconteceram ?


Sanzalando

6 de novembro de 2013

Recordar outras escritas

Para lembrar recordações publicadas em 26-10-2003 23:12
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Eu e mais alguns faltamos nas aulas. Não fomos na praia nem nada. Não fomos ver a miúdas do Lubango que vem sempre nas Festas do Mar. Não senhora fomos só mesmo para o Aero Club - Rua dos Pescadores- jogar bilhar. Perde paga e não tem discussão. O Reis joga para caramba, eu também, o Zé Pedro, o Victor, irmão do Fisga. Já disse nomes e não tem lista que podia parecer era edital. Depois fomos comer um pastel de nata à Oásis. Ué, alcatrão está quente e tem tampinhas soldadas parece é serpentina e queima nas sandálias gastas com buracos. Vamos mas é até ao Liceu que tem lá as nossas Garinas bonitas. Mas eu sei elas so ligam mesmos aos mais velhos... Cresce e aparece, miúdo. Filho da Lavadeira tem destas coisas, quer parecer mais do que é. Que aconteceu mesmo? Chumbou! E tudo isto foi no liceu e aconteceu mesmo..


Sanzalando

5 de novembro de 2011

recordando um passado.


Num Giradiscos igual a este ouvi os meus vinis - Morandi, Rita Pavoni e depois o Silia, Zeca e José Mário Branca. Antes o meu pai ouvia aqui a suas centenas de EPs que iam do Max à popular música francesa onde davam os primeiros passos um tal de Aznavor, uma Piaf e mais uns tantos que a memória não guardou. Ah! e também ouvi um vinil, dele, uma tal Beatriz Costa a cantar o Arre Burro, noutro a Borracha do Rocha e muito mais tarde o Calhambeque da Helena Rocha. 
Aqui ouvia o relato da bola e ouvia a emissão da minha rádio empregadora.
Tantos anos depois venho encontrar o 'meu' velho rádio-giradiscos a servor de biblot no hall dum Hotel.
apeteceu-me cantarolar:
"Oh Rocha empresta a borracha 
tira a borracha da caixa
 
empresta a borracha oh Rocha
 
tira da caixa a borracha
 
apaga o lapes com a borracha do Rocha
 
e mata o Lopes com a rocha da borracha"



Sanzalando

16 de maio de 2011

vento e a cidade

Mergulho no mar da imaginação, procuro imagens de memória e acabo sorrindo com um brilho nos olhos. Felizmente a praia está deserta porque apenas eu tento aqui segurar o vento, fazer com que ele não invada as ruas desertas da minha cidade adormecida no tempo. Seguro o vento e as areias do deserto que com ele viajam. As minhas amarras, as cordas que me seguram, são férteis pensamentos que trago na imaginação decorados numa memória que já não sei se é real ou apenas isso mesmo, imaginação. Mas sorrio porque me lembro do teu sorriso de Mona Lisa quando nem ainda sabia quem era esta, porque recordo o teu olhar brilhante que brilhava como que nem dois diamantes quando nem sabia o que era isso. Para o que me havia de dar neste dia de vento leste. A tua imagem, a tua fotomemória, o teu sorriso e o teu olhar. Deve ser sueste, ou outro cardinal que para isso não tenho preferências.
Tu, o vento e a cidade, as minhas constantes memórias. Sopra vento que eu te seguro antes de chegares na cidade.



Sanzalando

19 de março de 2011

Dia do meu Pai

Tinha 4 anos e sem dizeres adeus, por falta de tempo, só pode, desapareceste da minha vida. Não me consigo lembrar se depois do carro preto do Dr. teu amigo, dono dessa foto em que lhe roubei o teu pedaço, que foi lá em casa dizer que tu tinhas viajado para sempre, e que eu me lembro como se fosse hoje dessa hora de almoço desse domingo, eu chorei muito, eu desesperei, birrei ou que é que fiz. Se apagou tudo da memória e ao longo dos tempos, quando eu comecei a juntar pensamentos e ideias na minha cabeça fui juntando fragmentos e fui fazendo a tua história. Me lembro de para aí ao 12 anos ter 'assaltado' aquela caixa de madeira que a mãe guardava zelosamente e quase que parecia secretamente na garagem e ter tirado de lá o Advogado do Diabo e lido como se estivesse a cometer um crime. Me lembro de me dizerem que te escondias em casa se o teu clube perdia lá terra que não conhecias e parece que até nem gostavas, para que os teus amigos não brincassem com essa tua 'doença'. Sorte que nesse tempo até parece que não te acontecia muito, pois se fosse hoje eles iam pensar que tinhas hibernado ou que a tua águia tinha deixado de voar. Me lembro que me disseram que tinhas tanta certeza que o teu primeiro filho ia ser um másculo e te saiu uma fêmea e por isso te escondeste uns tempo. Me disse a mãe que andavas sempre de gravata, só que amarrotada no bolso porque a lei não dizia onde é que ela tinha de estar.
Me contaram que nas terras do Lobito escreveste porque as mulheres começaram a andar de calças e tu não gostaste de ver, hoje estavas feito na azia porque onde quer que olhes não ias ver saias.
Me contaram que salvaste pessoas do primeiro balcão no dia do incêndio no cinema que até parecias eras herói.
Pai, tanta coisa mais me contaram e eu não te posso perguntar se é verdade, ou foi só coisas para me encher o ego. Eu sei que por aí se ouve tudo e por isso estás a ouvir o que eu estou aqui a te falar e assim me vais dizer que a tua falta de tempo nestes tempos todos foi só porque estavas ocupado a ser como sempre foste: boa gente e um dia vais me contar tudo e voltar a ser o meu Pai.
Sanzalando

9 de janeiro de 2011

Me confesso e não sei porquê

Eu me confesso. 
Este humilde autor do blog existe. É real, angolano de coração, português por oportunismo, exerce uma profissão por vocação e é pobre por destino.
Tem muita vontade de aprender a escrever, tem esperança, que um dia vai aprender e vai conseguir escrever como gente crescida, coisas para gente crescida e gente curiosa. 
Porém, é bom que diga, que a personagem que quase sempre aparece neste blog não existe, não é baseada em factos reais nem em lamechismo copiados de revistas e outros lugares. É apenas fruto da imaginação deste autor que um dia aprender a escrever como gente crescida. 
Hoje como é um dia como os outros se esqueceu de ter inspiração para imaginar outra coisa para além desta confissão.
Podia calcorrear ruas, estórias de pessoas conhecidas, inventadas e transponíveis em realidades virtuais. Mas a inspiração não deu para mais e a paciência se esgotou num time out de olhar para a tela branca e ver que o mar tinha desaparecido, que as ondas não traziam mukandas da banda nem a banda bambuleava a bunda ao som duma kizomba, nem o sol espreitava por detrás da cinzenta nuvem que entristece a alma e lacrimeja o olho.
Podia contar estórias de caça em que na noite de luar chutou uma raíz a pensar era uma cobra e partiu um dedo e nunca mais foi em caçadas; podia contar a única vez que atirou uma linha com anzol ao mar e mais não fez que apanhar uma pedra que lhe deu cabo da faina; podia falar de tantas paixões, umas correspondidas, outras não e as não sabidas pelas outras partes; podia fazer tanta coisa aqui sentado a olhar este mar que hoje teima em ser uma tela branca. Podia ler a Arquitectura Urbana da Cidade X, a biografia do Herói ou Heroína Y e Z; podia apenas estar aqui sentado a ver se conseguia ver-te com o teu ar de adolescente, o teu sorriso inocente e o teu olhar ausente mas seria mais ima tarde de imaginação porque hoje estás... como direi se não sei?
Eu me confesso que após seis anos de tentar aprender a escrever concluo que não sei se não é melhor parar e deixar a minha boca calada a ver filmes com legendas, porque não me apetece ouvir, apenas ler, porque não me apetece imaginar, apenas ver, porque não me apetece chorar apenas recordar o que atraiçoadamente me vou esquecendo de imaginar.
Pausa. O blog segue dentro de momentos.
Eu me confesso que é mais uma das minhas despedidas. Um dia acertarei como acertarei na vida.



Sanzalando

7 de janeiro de 2011

recordando (6) - último (digo eu que nem sei se digo a verdade)

Aqui, perto do mar revolto, recordo-te. Apenas porque me revolto por saber que não me olhaste no dia que eu te olhei e vi que tu eras o meu cinema, o meu filme de amor que acabou numa película muda dum actor apenas. Tu ias ao cinema e eu ia ao cinema. Não sei que filmes vi. Apenas queria no intervalo olhar-te, ver-te e saber-te ali, na mesma sala que eu, mesmo que estivéssemos ao ar livre. Não sei se vi filmes com a Scalett O'hara, a Natacha Kinsky  ou Brigite Bardot e outras que nessa altura se calhar ainda não eram dadas como nascidas. Eu apenas via-te e suspirava-te e o resto do mundo era apenas cenário.
Mas tu não me olhaste.
Depois de hoje nem eu mais te olharei nem te imaginarei e se calhar sonhar-te, virarei a cara para outro lado e dormirei.
Sabes, passou o tempo e me disseram que o tempo é o melhor conselheiro. Eu sei que sou surdo e não lhe ouvi, sei que sou teimoso e não lhe liguei. Mas o tempo disse-me que o tempo tudo apaga e se calhar é o que pode estar a acontecer.
Deve ser mesmo porque o mar está revolto e eu aqui tão calmamente revoltado porque me lembrei de ti, que de hoje em avante cantarei o um dó li tó se a tua fotografia me vier à memória.



Sanzalando

6 de janeiro de 2011

recordando (5)

Me sentei no Clube Náutico. Era domingo e ia haver uma matiné dançante. Acho quem vai tocar é o Mini Nota. Conjunto miniatura da Nota. Se não é passa a ser porque na minha imaginação é assim e eu lhe respeito. Este não tem o Sr. Matos e o seu saxofone, nem o Sousa Santos no seu baixo nem o Minas a cantar Deixa meu Cabelo em Paz, nem toca nos bailes do Ferrovia. O Zito também não vem cantar aqui o Percy Sledge a dizer que um Homem ama uma Mulher.  Também já não me lembro que músicas eles tocam, mas ninguém vai me dizer, porque ninguém me ouve falar. Eu sussurro num monólogo entre mim e eu, entre o hoje e o muito ontem da vida e isso não tem interesse de ninguém. Mas não é por isso que eu vou me calar. Me lembro, falo, registo e me calo. Afinal de contas é mesmo só a minha ficção, a minha realidade imaginada e pouco mais que a minha vida vivida.
Me sentei no Clube Náutico porque eu sei ela vem na matiné dançante e quem sabe é hoje o dia que eu lhe vou ouvir a voz num directo discurso comigo?
ÉH. eu e os meus sonhos.
Um dia vou sonhar realidade e vocês vão ficar com cara de espanto e perguntar mesmo que é que eu sonhei. Não vos digo, porque eu só lhes falo do mais que ontem e o amanhã é meu. 
Egoistei e desgostei de falar de futuros passados.
Pelo menos hoje!

Sanzalando

5 de janeiro de 2011

recordando (4)

Que tem a minha cabeça que assim num instante começou a ver o passado parece um filme a preto e branco e movimento acelerado? Se emperro numa palavra mais difícil perco metade do filme porque ele não fica gravado numa fita. Como é que te vou explicar? Eu te projecto o filme em palavras mesmo na hora que ele está a ser filmado na minha cabeça. Tás a ver?
Hoje me sentei na esplanada, mesmo na esquina a dominar ambas as ruas. Se ela vier da Avenida, ou se vier da Drogaria Nova,  eu lhe topo ao longe, me endireito na cadeira, apago o cigarro, escondo a chávena da bica e não lhe vou parecer o vadio que me estou a tornar. É verdade que fui nas aulas, é verdade que ela me viu no Liceu. Pelo menos os olhos dela se passearam por mim num décimo de segundo. Mas depois ela foi estudar já o dia de amanhã e eu fui no AeroClub jogar bilhar com os vadios dos meus amigos. Modo de dizer, é claro, que acho tirando eu, nem um deles chumbou alguma vez.
Mas tá na hora dela passar. Só não sei mesmo ela vem sentada deste do carro ou do outro. Acho ela sabe eu estou aqui, ela vai mudar para o outro lado e mais uma vez vai fazer para não me ver.
Te prometo um dia ela me vai olhar e me vai dizer olá.

Sanzalando

4 de janeiro de 2011

recordando (3)

Seria bem que mais fácil se a gente quando nasce tivesse com a gente um livro de instruções. Mas não. Dão-nos a chupeta e a gente que tenha paciência e cresça devagar tornando difícil a realização futura e a conjugação da imaginação com a realidade no depois.
Como é que eu um dia ia saber que tu ficarias assim tão zangada que nem me olhar me olhaste mais? Eu sei que foi por falta de livro de instruções que eu meti água num algures qualquer, que não dei valor aos valores que tu davas, que eu não amanheci os teus amanheceres e que xinguei a minha alma num xingar que até hoje ainda estou a ouvir o eco.
Mas a vida é assim, errar, aprender, acertar, vencer e ter esperança que um dia tu cresças e me desculpes com um olá e depois digas segue o teu caminho que eu segui o meu.
Mas a vida é assim e se tu continuas como eras nunca vais dizer nem um i nem o seu ponto para mim.
Mas, olha, recordei-te neste tempo e vi-te tal e qual eras, sem tirar nem pôr como se tivesse por aqui uma fotografia a preto e branco onde estivéssemos os dois.
Também penso em cada impossibilidade. Incurável a minha doença de imaginação.








Sanzalando

3 de janeiro de 2011

recordando (2)

O céu está vermelho, me ensinaram que quer dizer que amanhã vai estar um dia de sol grande neste verão e podemos ir correr na praia, saltar e mergulhar como crianças felizes que somos. Quer dizer, como eu gostava que fosse assim tão fácil. Mas entre nós existe a indiferença. Não é reciproca, mas a que vem desde o teu lado chega para os dois.
Mas não interessa, vamos na praia, eu fico uns 10 metros a dar para leste, e assim na surdina do desconhecimento eu te olho e te admiro. Vais chegar no teu biquini azul, estender a tua toalha colorida de muitas cores, sob o guardassol cor de laranja e vais te estender até o corpo ficar moreno. Depois vais na água, teu andar direito de bico de pés que te devem ter ensinado que se anda assim, e mergulhas que até o mar se esquece de fazer ondas. Eu estarei sentado, algures na areia a fotografar de memória cada pose tua.
Na hora do almoço te mandas para casa, de carro e eu a correr por becos e vielas para chegar primeiro e te poder ver entrar desde o meu ponto de observação escondido.
Eu, o teu guardador, que ainda hoje te guardo por entre as minhas estrelas e constelações.




Sanzalando

2 de janeiro de 2011

recordando (1)

Jogo palavras sobre o lusco fusco da memória.
Me lembro as tuas estórias, me lembro o teu sorriso, me lembro o teu olhar e me lembro de te ver a jogar ténis nos sábados de manhã.
Não sei porque jogo assim as palavras. Hoje já não deves ser igual ao que eu me lembro, o teu olhar deve deitar fogo, as tuas palavras devem ser silêncios que ferem mais que o cavalo-marinho da minha infância e o teu sorriso já não deve ter o brilho de outrora. 
Mas são assim as palavras, cruzadas no quadriculado da adolescência e do cabelo grisalho da maturidade.
Eras a flor de água, o motor do meu sorriso, a gargalhada da minha piada. Agora, deves ser a lança que espera um momento de distracção. Não, agora és a minha memória e eu a ti sou nada ou um pouco menos ainda que isso.
Palavras que jogo no tempo e caiem no teu colo. Queria eu... que já nem sabes que eu existo.
Talvez se eu colasse por aqui a minha foto, em tamanho grande, porque a visão já te deve faltar, poderias dizer, desde que eu não ouvisse, tenho uma vaga ideia dele. Mas mesmo assim, se bem te conheço, ficarias calada, estamparias no teu rosto a esfinge serena de poder dizer um não conheço convincente.
Jogo palavras ao ar com a esperança que alguma te caia no colo, um dia.

Sanzalando

6 de julho de 2007

Hoje sou memória

Caminho sentado sobre palavras e pensamentos, numa salada de coisas boas que o tempo me foi deixando como reserva. Viajo na memória, de memória. Desnecessito cábula, sebenta amarelecida no tempo, ponto soprando em voz ciciada. É essa reserva mesmo que me ajuda a dar os passos que dou, a olhar o amanhã com um sorriso, a me sentir uma sombra embebido de sol.
Já houve tempo que eu pensei era uma cidade sem nome, uma rua deserta, uma porta perdida. Já houve tempos que eu suspeitava que era portador de passos cegos, mãos vazias de promessas secas. Já houve tempo que eu pensei era um coração perdido assim como uma flor sem jarra.
Hoje assim de memória sei que sou uma chave. Não me lembro mesmo é de qual é que é porta.
Mas eu sei, também de memória, que a porta está mais ou menos aqui, no labirinto da vida, num sinal luminoso que se calhar ainda não acendeu, na curva duma estrada que se calhar ainda não foi feita. Mas está que eu sei, de memória, que está.
Assim como eu sei, de memória, as estórias que eu contava-me ao pé das gazelas de bronze, das horas a que o boca de sapo dourado passava e eu me mostrava para que fosse visto, dos amigos que em troca de um café ficávamos horas a falar de coisas e tantas assim de coisas nenhumas.
Por isso eu sei, de memória, que o teu sorriso se abriu agora quando me ouviste falar as palavras que me saem da memória.
De memória eu sei que te vou voltar a encontrar, mais dia menos ano que o tempo não apaga a memória.



Sanzalando

15 de março de 2007

Valeu a pena


Vá lá, esperemos que amanheça num amanhecer de sol, mas façamos algo de útil, alguma coisa que nos dê prazer, que nos faça feliz no instante deste momento.


Se eu tivesse um espelho para olhar-me, ver as curvas da cara se vincarem numa marca indelével do tempo, que abstractamente não existe porque o tempo é real, e ver-me sorrir porque me sinto feliz.


Depois de uns tantos anos de sonhos e fantasias queria olhar-me e ver se valeu a pena, queria perguntar-me se é o destino que me conduz ou se é a força de um trabalho que me alcançou até aqui. Queria ver-me, numa de cara a cara, e saber se o desejado tinha sido alcançado e se por algum motivo eu devia estar arrependido dos caminhos até então percorridos.


Sem o espelho eu imagino que o esforço das vontades confluíram até este momento em que sorrio porque estou feliz. Sem o espelho penso que valeram a pena os anos, os dias e as noites de insónia.


Esse lugar que me persegue nas horas que têm os dias está ali. Espera-me. Eu lhe olho outra vez desde longe. Experimentei-o, saboreei-o, vivi-o. Cresci, amadureci e aprendi. Sem o espelho digo-me que valeu a pena, mesmo que eu me sinta prisioneiro dele. Mesmo que a força dos meus desejos arrastem para longe as moscas que, num equilíbrio instável, pairam sobre a minha cabeça como se fossem helicópteros tentando ler-me o pensamento. Mesmo que os meus suspiros façam acinzentarem os castanhos cabelos que ainda teimam em resistir. Mesmo que o sorriso fácil tenha dado lugar ao esboço e eu me sente sobre as piadas contadas. Mesmo que olhares confusos me olhem. Valeu a pena!


Sanzalando

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18 de janeiro de 2007

Me arrumando



Anda, senta aqui e repousa o corpo que a caminhada é longa e é necessário ter forças para lhe aguentar.
Tu sabes que há dias em que a gente se derruba por dentro. Sabes que hoje me olhei e no espelho e parecia uma dessas casas assim do tipo património mundial ou coisa mais pequena, em que só lá está a fachada e por dentro está assim é um vazio grande que enche qualquer espaço que parece está escondido dos olhos. É, parece o mundo desabou nos pés e a desordem se inundou-me. As recordações se amontoam sem qualquer ordem sobre a capacidade de pensar, que por sua vez se descola dos sentimentos. Misturei-te as ideias? Pois é mais ou menos assim que eu me baralho hoje nesta desvontade de caminhar e recuperar alguma força para continuar a caminhada.
As sensações desapareceram, todas menos a tristeza, que se fez senhora e dona do meu cérebro, dominando acções, reacções, gestos e palavras.
Pois é, tu sabes, que há dias em que eu mesmo me derrubo por dentro.
Assim como mais assim é mesmo melhor a gente se sentar nesta areia de mil cores, olhar o zulmarinho se baloiçando e ver se consigo pôr em ordem a desordem em que me arrumo e que faz um peso danado nos meus pés este desabar do mundo sobre eles.
Um a um vou-lhes organizar os pensamentos, as recordações e os sentimentos. Os que não me interessa ter porque são velhos, absurdos ou são aborrecidos deixarei enterrados aí num buraco que farei na areia. Assim, me reconstruirei por dentro e se verá por fora.
Sentes a brisa que sopra? Ela mesmo vai tapar esse buraco.
Olha bem para cima daquele monte de areia que fizemos numa das nossas caminhadas. Em cima dele está a minha indecisão. Como é pesada a brisa ainda não lhe conseguiu levar para longe. Olha ali rebolando contra o zulmarinho todas as palavras que eu nunca deveria ter dito. Agora vê sobre as ondas, como que boiando, os antigos amores como que não sabendo se vão ao fundo ou se voltam para terra para arrancar o que resta do meu coração.
Vês como é fácil a gente se arrumar por dentro e transparecer por fora?


Sanzalando

15 de outubro de 2004

RECORDAR (41)

28-05-2004 22:46
Forum: Liceu Américo Tomás
Estou sentado nos hexágonos que seguem a marginal mesmo caté ao Porto grande, onde tem cancela que só quem pode é que passa. Estou sentado a ver que o mar vai para trás e para frente como que tá a desafiar eu e ainda salpica água salgada para cima de mim. Ele ameaça chegar nos meus pés mas um hexágono antes ele vai de arrecua. Eu estou só sentado admirar ele. Como é que este monte de azul que parece a calma em pessoa de vez em quando desata a subir isto tudo e ainda vai atá mesmo na Minhota? Não pode ser este mar aqui. Vais ver de vez em quando ele vai de férias e fica outro aqui no lugar dele. Vou sentar mais vezes aqui e tomar conta para ver se não é como eu penso. Me lembro da casa do caminho de ferro, que ficava mesmo no fimzinho de onde acabou o alcatrão e que depois ainda fizeram o parque de campismo, e que a água desse mar mesmo ia regar as flores de mamãe, por isso ela não queria mais a não ser nas celhas.
Mas eu estou sentado aqui e esse mar de mar vai e vem suave como que acariciar essa barreira que os homens fizeram para ficar tudo mais direito. Mas se calhar vais ver ele de vez em quando fica zangado porque quer mais, quer mesmo ir no fundo da terra e não ficar ali, quer ter a liberdade de saltar e ir ver outras coisas mais que aqueles hexágonos que os homens fizeram. Mas não pode ser este mar que está a aqui nos meus pés, porque este é calmo mesmo. Sussurra um ruído que parece de prazer nos seus movimentos de vai e vem.
Já estamos em Maio e ele está ali sereno.

7 de março de 2004

um jantar (7)

Sanzalando em Angola
7 03-02-2004 22:14 Forum: Estamos Juntos!

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(...)
Que tou aqui a imaginar o que falaram na mesa lá daquele canto onde estava F. Nóbrega, Orlando Salvador, Walter e o Toninho das estórias. Duas enciclopédias juntas deviam que estar a falar de cada grão de areia do deserto, dos arbustos da savana, da Serra da Chela e das suas mulolas que de vez em quando não deixava vir os mapundeiros molhar os pés na beira do mar. Se calhar estavam a falar do Sr. Zé qualquer coisa, das romarias à Kipola ou á Senhora do Monte. Como pode saber se estava mesmo longe, na Cimeira Imberso/Karipande...Que faltou ali Pássaro, Quilha, Rui Amaro, Muganda e Pedro Dornellas - queres ver que inda está a procurar máquina de lavar. E Cadima que disse que ia mas num foi que faltou? E se vai organizar congresso próximo se vai! Ficou tantas ideias no ar que sem Congresso de 3 dias nunca vai acentar.
Mas mesmo Fenix que desvia o olhar e assunto novo estava na mesa.
Começa um momento que tem parece o 10 de Junho. Vitor Carrilho tenta chamar pessoa por pessoa mas os abraços e o matar de saudade num deixa que ouvir a sua Voz. Veio a ajuda sempre prestável da impagável LengLoi e pôs todo o mundo em silêncio. Trabalheira de VCarrilho num CD que só posso dizer que divinal que num sei escrever palavra mais dificíl para definir ele. Aqui o repórter da Holla (edição L'avante) também ganhou e já deixou cair uma lágrima no canto do olho.
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