recomeça o futuro sem esquecer o passado
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19 de maio de 2025

Confissões de um Eleitor Frustrado

Votei. Juro que votei. Com orgulho, esperança e e com alegria de quem diz que pode escolher! Acordei cedo, ~pronto a enfrentar uma fila que não existia, apanhei um banho de sol porque aproveitei para conversar à saída com gente que a gente só encontra nestas ocasiões. Estava certo que tinha feito o meu xis no quadrado vencedor. Voltei e certifiquei-me na consciência.

E hoje? Hoje eu olho para as notícias com o mesmo entusiasmo de quem abre o extrato do banco no dia do vencimento.
Eu sabia que cada promessa era uma representação digna de um filme, encenada, trabalhada. Mas agora eu queria ver os resultados. Eu achava que tinha escolhido alguém pra liderar o país. Mas, aparentemente, apostei sem graça num desengraçado desgraçado que perdeu. Era diferente a realidade da minha realidade. Não volto a comprar pipocas para ver este filme em que eu não tenho sorte na escolha. O filme não é o que eu esperava, as personagens não são os actores que eu escolhi e o PIB, a Pensão, a Defesa e a Habitação não passam de meros números em cima de uma qualquer secretária à espera de se transformarem num enredo de um outro novo filme que será sequela número X num universo paralelo. 

Mas sigo, frustrado, descontente. Mas vivo, rindo e já preparado para o discurso de que haverá próximas eleições mal estejam reunidas outras condições.

E se não for… bom, pelo menos a comédia está garantida para novos episódios


Sanzalando

16 de maio de 2025

JCCarranca mostrando ser sério quando lhe apetece

Sou nostálgico e caminho num passeio de palavras. Tenho como companhia a dúvida e a incerteza, que são experiências humanas universais e profundamente interligadas. Ambas emergem da limitação do conhecimento e da imprevisibilidade da realidade. A dúvida é o sentimento ou estado de hesitação diante de algo que não se pode afirmar com certeza. Já a incerteza é a condição objetiva ou subjetiva de não saber o que vai acontecer ou qual é a verdade sobre algo. Noutras palavras, a dúvida é o efeito interno da incerteza — é como a incerteza se manifesta na mente humana

Sanzalando



15 de maio de 2025

Primavera, Vento e Futebol

Na primavera, o campo floresce. As flores assistem em silêncio, mas intensamente, pelo que vejo como dançam. O vento sopra leve, dança entre as traves e leva o grito da claque para lá dos estádios e espalha esperança nos adeptos que querem ser campeões, nem que seja de bancada.

As chuteiras revolvem a relva verdejante, como pincéis numa tela viva, parecendo que cada passe seja um poema chamado golo.
O vento, brincando, muda o rumo da bola, afastando-a das balizas e os assobios se ouvem como um protesto invisível de frustação. É primavera a ser cúmplice e sorridente dos suores renascidos das esperanças que se afastam numa disputa de glória.

Sanzalando

13 de maio de 2025

primavera, rádio e velhos tempos

Hoje me apetece falar simples, mas com grande coração: primavera, rádio e os velhos tempos — três coisas que, curiosamente, continuam a saber bem com o passar dos anos. Como um pão quente com manteiga ou uma fotografia esquecida no fundo de uma gaveta ou a lembrança das tardes quentes na varanda a olhar para qualquer coisa do tipo ontem.

A primavera sempre teve um jeito especial de chegar. Não bate à porta, entra pela janela, Sai pela porta, afoga-se em chuva diluviana, evapora-se em tarde quente e esgueira-se no cheiro das flores, no riso das crianças que voltam a brincar na rua, no canto de um pássaro que só canta quando sente que é agora. A gente já não marca no relógio. Simplesmente sente. E isso, para mim, sempre foi parecido com o ouvir rádio.

A rádio era isso: não se via, mas estava lá. Como a primavera. Era a companhia dos fins de tarde em que se faziam os trabalhos de casa na mesa da cozinha ou sentados na velha cadeira de baloiço do avô, o rádio a trabalhar e a voz de um locutor que parecia saber exatamente o que dizer para não nos sentirmos sozinhos. Era a música certa na hora certa, ou aquele programa da noite em que se contavam histórias que nos faziam sonhar com lugares onde nunca tínhamos estado.

Lembro-me bem. Nos velhos tempos, ouvir rádio era um ritual. Um botão rodado devagar, à procura da estação certa. Às vezes com chiado, às vezes com interferências, como quem sintoniza a vida e aceita que nem tudo se ouve com clareza à primeira. A minha mãe deixava o rádio ligado o dia todo. Dizia que a casa parecia menos vazia. Talvez fosse isso mesmo: o rádio era o calor que vinha das palavras.

E agora, nesta primavera que insiste em misturar sol com vento ou chuva, volto a lembrar-me desses dias. Há qualquer coisa de eterno nisto tudo. As estações mudam, os rádios agora são digitais, os tempos são outros — mas o encanto permanece. Ainda há primaveras tímidas, rádios que nos abraçam com vozes familiares, e memórias que nos chegam sem aviso.

Hoje, mais do que nunca, vale a pena parar um bocadinho. Abrir a janela, deixar entrar o cheiro do campo e do mar, ligar o rádio e ouvir. Só isso. Ouvir. Quem sabe o locutor diga uma frase qualquer que nos leve de volta ao tempo em que éramos miúdos e o mundo parecia mais simples?

Porque há coisas que não mudam. A primavera ainda chega devagar, o rádio ainda fala connosco e os velhos tempos… ah, esses, vivem dentro de nós — e voltam sempre que queremos.



Sanzalando

12 de maio de 2025

Primavera e frio na praia

A primavera chegou, mas esqueceu-se de avisar o vento. No calendário, flores desabrocham, os dias alongam-se e os guarda-sóis deviam começar a espreguiçar-se na areia. Mas na praia, tudo parece ainda suspenso no inverno. O mar continua azul esquisito, espumoso, ameaçador, como se quisesse lembrar que há coisas que o tempo não manda.

Mesmo assim, há sempre um ou outro teimoso. Um casal enrolado em mantas, de mãos dadas, olhando o horizonte como se o frio fosse apenas um detalhe menor. Uma senhora caminha descalça, desafiando o gelo da maré-vazia com a dignidade de quem já viu muitas primaveras. Um cão corre atrás de gaivotas, indiferente à estação, à temperatura, à filosofia da vida.

As esplanadas estão meio-vazias, mas abertas. O empregado serve café com um sorriso que treme um pouco ao vento. Os óculos de sol convivem com cachecóis, e os casacos de lã contrastam com os ténis leves de quem ainda acredita que abril é sinónimo de calor. Não é. Não ainda.

Na primavera fria da praia, há uma beleza discreta, quase melancólica. É uma estação em transição, como nós tantas vezes estamos. Não é o inverno, mas também não é verão e muito menos a primavera que eu estava a pensar. É um tempo que pede paciência. Que nos lembra que nem tudo floresce à primeira tentativa e que a ansiedade parece ter lugar cativo nesta incerteza temporal.

Talvez seja por isso que não gosto destes dias. Porque são sinceramente tristes. Porque não mentem com promessas de calor. Porque nos obrigam a encontrar conforto no desconforto de malhas e camadas que nos envolvem como correntes, porém, leva-nos a reconhecer que há beleza até no arrepio.


Sanzalando

9 de maio de 2025

bicicleta versus primavera

Hoje manhã cedo de primavera decidi pegar na bicicleta que estava encostada na garagem. Encontrei-a coberta de poeira e muitas memórias. Ela olhou-me com aquele ar de “até que enfim”, ao que me apeteceu dizer-lhe que a culpa não era minha mas sim dos dias de chuva que a primavera nos tem presenteado por tanto termos chorado por falta de água. Mas achei-me não louco suficiente para falar com uma bicicleta. Calibrei os pneus, passei um pano no selim e parti, como quem foge de casa mas sabe exatamente para onde vai. Só me apetecia apanhar o ar fresco na cara, deixar pensamentos para trás e saborear a liberdade que ela me transmite

As ruas estavam mais coloridas. Não pelas paredes — que continuam com suas tintas desbotadas pelo tempo — mas pelas árvores, pelos sorrisos que se entrecruzam com o meu olhar, pelas cores da roupa de quem passeia. A primavera tem esse dom de deixar tudo com cara de começo, mesmo que seja meio do ano e se ontem choveu, amanhã também pode voltar a fazê-lo.

Pedalava sem rumo, como quem caminha por dentro. Acho mesmo que eu gosto da bicicleta para caminhar dentro de mim. O vento não era só brisa, também tinha vestígios de memória. Trazia o cheiro das flores e da infância, quando pedalar era a forma mais rápida de sentir liberdade. E ali estava eu, de novo criança por alguns quilómetros, com as mãos firmes e a alma solta, leve levitando por sonhos.

Cruzei-me com outros ciclistas, alguns apressados, outros devagar como eu. Nossos olhares se cruzaram por segundos, mas diziam: “sim, a gente sabe... tem algo diferente no ar.” Talvez fosse só o pólen, talvez fosse essa vontade coletiva de renascer.

Na primavera, tudo parece possível. Até acreditar que o mundo pode ser mais simples, como uma bicicleta a deslizar pela estrada, sem buzinas, sem pressa, com flores no caminho, com gente.


Sanzalando

8 de maio de 2025

Chove, faz sol e dizem que é primavera

Se o clima tivesse um perfil, ele estaria classificado de como "é muito complicado". 

Acordo com chuva, almoço com sol, e antes do jantar já estou de volta ao modo lareira e drama existencial. E o mais impressionante: isto é primavera. A estação que, segundo a tradição, deveria trazer flores, amores e sorrisos na cara das pessoas que circulam em ruas carregadas de gente. Vejo nos meus livros do tempo de escola que era a alegria personificada

Mas o que temos?

Chove. Faz sol. Às vezes os dois juntos, como se o céu tivesse esquecido de escolher o figurino e dissesse: “Vai tudo a monte porque ninguém vai notar”. Mas a gente nota — com o guarda-chuva numa mão e os óculos de sol na outra, equilibrando a dignidade como pode, firmeza no olhar e rugas de testa franzida como que chateados com o vida .

E ainda me dizem: “Ah, a primavera!”. Dizem com um suspiro poético, como se fosse uma estação de contos de fada. Mas a realidade é que a primavera é tipo uma aplicação em construção: promete muito, entrega cruzamentos climáticos e ainda exige que você sorria porque “é a estação das flores”.

Flores? Eu vi uma ontem. Estava murcha, ensopada, e com ar de quem também não entende o clima.

No fim das contas, a primavera é a gente seguir, entre poças e bronzeados inesperados, rindo para não molhar — quer dizer, chorar.


Sanzalando

6 de maio de 2025

Primavera de Chuva e Sol: indecisão climática com flores

A primavera é aquela estação do ano que é linda, as flores desabrocham, os pássaros cantam... e o clima entra em crise existencial, porque tanto chove como brilha o sol, tanto me aquece como me arrefece.

Acordo com o sol brilhante, céu azul, passarinhos felizes como se fizessem parte de um anuncio de margarina vegetal. Saio todo empolgado, de óculos escuros e roupa leve. Quinze minutos depois, está debaixo de um beiral, parecendo um ensopador humano, enquanto uma tempestade tenta ensinar-me o que é humildade, humidade e enxarcado.

É o clima no seu ponto mais indeciso do ano. Numa hora é verão das Caraíbas, outra hora é Londres em dia que lhe visito. E o pior: a previsão do tempo mente. Ela diz "chuva isolada", mas a única coisa isolada sou eu, no beiral com cara de quem tomou banho de roupa vestido.

A primavera é a estação da esperança: esperança de sair seco de casa, esperança de que o céu azul dure mais de meia hora. Mas, acima de tudo, é a estação de camadas: visto simples, levo casaco impermeável, guarda-chuva, e talvez um casaquito de malha, por segurança.

É a estação em que o sol e a chuva decidem namorar. E o arco-íris? Esse é o cupido que aparece dizendo: "relaxa, vai passar… até a próxima nuvem".


Sanzalando

24 de abril de 2025

Vou e estou no passado e no presente

Vou buscar à memória os sons dos meus tempos de criança. O telefone tocava sempre da mesma maneira. Os SAAB faziam o mesmo barulho de motor tal como os DKV. As motorizadas e as hondas tinham roncares verdadeiramente típicos. A D. Maria gritava pelo neto da mesma forma todas as tardes, eu cantava mal todos os dias e a minha mãe dizia sempre que eram horas de levantar.
Vou à memória buscar os rostos. Poucos eram os sisudos e mal barbeados. Os olhares eram radiantes e os sorrisos notáveis.
Hoje falta-me memória dos dias de agora, em que os rostos são agrestes, os sorrisos inexistentes e os telemóveis tocam cada um a sua canção.
Os carros não fazem barulho, as crianças não brincam na rua, os silêncios são interrompidos pelas poucas cigarras que se ouvem e as pessoas correm, quase sempre para lado nenhum.


Sanzalando

24 de março de 2022

triste

Hoje fugi de mim e escondi-me num canto do meu passado. Dos meus olhos saíram palavras de silêncio e da minha boca um universo de ideias paralelas, um horizonte de linhas cruzadas, um beijo quente de verão, um sonho de sons cantados.
Hoje refugiei-me no calor da minha existência, nos monossílabos ditos pela minha mãe através do olhar, numa tradução livre de maumaria.
Hoje perguntei-me o que é que eu sabia da tristeza.
Hoje estou só assim: triste!


Sanzalando

20 de junho de 2021

eu e a adolescência

Acordou manhã de chuva num quase verão que tarda em chegar. Com um tempo destes caiu na saudade de memórias que já nem sei se são realidade ou fruto duma imaginar delirante. Memória ou delírio pouco me importa desde que eu as sinta real e vivamente. 
Quando eu caminhava na areia escaldante da minha praia em busca dum amor perdido ou simplesmente de amigos; quando eu percorria de bicicleta o quadriculado da minha cidade em busca de gastar o tempo que tinha, quando divertidamente riamos na esquina das parvoíces que dizíamos num humor que não tenho memória; quando corria a brincar aos cowboys num tau-tau que morreste e nem soubeste; quando me cruzava com alguém, mesmo desconhecido, e recebia em troca um sorriso de bom-dia; quando acordava e via o sol sorrir-me - eu era feliz e não fazia a mínima ideia.
Hoje acordou faz chuva e as pessoas estão iguais a ontem e nada parecidas às pessoas da minha memória que já não seri eram realidade ou delírios dum adolescente perdido.


Sanzalando

19 de junho de 2021

eu, criança

Acho eu que o mundo me era mais simples quando eu tinha medo de monstros, de feras escondidas debaixo da cama e do imaginário mundo para lá do meu horizonte. Agora, de idade grande, tenho medo de tantas coisas, de fracassar, decepcionar família, amigos ou pessoas simplesmente, da insegurança do pensamento, de ter de lidar com uma cabeça carregada de conhecimento, filtrar e pensar antes de agir.
Antes, viver era tão mais simples... que eu quero voltar a ser criança e pouco saber como sabia antes.


Sanzalando

18 de junho de 2021

eu e meu pai

Hoje caminho na nostalgia e na saudade. 
Nostalgia porque não consigo sair da tristeza profunda, deste estado melancólico, por saudade de não me recordar dos 4 anos que tive a meu lado o meu pai. Recordo momentos, instantes, pequenos fragmentos da minha história com ele. Tudo o que sei é porque me contaram ou li nos jornais que escreveu. 
Faz hoje exactamente 60 anos que ele partiu para o éter, desencarnou, faleceu ou foi para o céu no seu descanso definitivo. Várias formas de o dizer e nenhuma me aconchega a alma. 
Não me lembro de nenhuma carícia nem de algum diálogo havido. Lembro-me de o ver com o seu pulôver vermelho a olhar o mar que ficava na traseira da casa. Lembro-me de o ver sair uma noite para o cinema com a minha mãe. Lembro-me da sua NSU laranja (ou seria vermelha?).
Lembro-me do carro preto do Dr. Carneiro chegar perto da hora do almoço e depois desapareci para acordar muitos anos depois. Faz hoje 60 anos sem tirar nem pôr e eu tenho saudades.


Sanzalando

17 de junho de 2021

eu e os dias

Tem dias que apetece dar o sumiço. Eu me desfazer em pó a vaguear ao sabor do vento faz conta sou poeira fina, como que num desfazer-me aos poucos, ao poto de só ficar a parte boa de mim. Um quase nada do eu, uma mensagem da minha estória, uma lágrima que chorei com sabor a mar, uma voz sussurrada como um eco dos meus anseios.
Tem dias que eu não devia nem existir nem se quer ter existido, não vá a minha poeira ser poluente. 
Tem dias que eu sou a frente da minha batalha numa luta que inventei e perdi porque não sou guerreiro. 
Tem dias, mas esse ainda não chegou.



Sanzalando

16 de junho de 2021

eu complexo

Vou pensar que é nuvem passageira que veio tapar o sol por estes dias. Outonou-se o tempo e com ele se enlutou o meu cérebro. Me macabunzei. Me escondi atrás duma cara mais pesada que a tonelada de vontade de nada fazer. Preguicei no total recanto da minha hora de silêncio total. Entristeci. Fruto do tempo. Deve ter dado vente leste. A minha avó me dizia que com vento leste é melhor nem acordar. Me esqueci para anos mais tarde, hoje, recordar. Hoje estou num dia de me dizer descansa em paz. Respaldo-me no sofá e olho para longe dum lugar nenhum. Até isso me dá trabalho fazer. 
Olhar o passado para passar o tempo? Não tenho tempo para isso que o passado é maior que o futuro que teria para o fazer.
Olhar para nada cansa a vista que já não está como é que era. Vou mudar de pessoa para ver se muda alguma coisa. Mas como pessoa estou bem assim vou mudar mais para quê?
Vou pensar em voltar a renascer e começar de novo como se não tivesse passado. Falta-me tempo.


Sanzalando

15 de junho de 2021

eu e a memória

Hoje caminho suave e lentamente pelas ruas da minha memória. Há tanta coisa no meu passado que eu não queria esquecer, porém o destino foi mais forte e não me lembro de quase nada. Um nome e lá vem uma ou outra memória. Uma foto ainda no preto e branco das cores fotográficas e lá me vem uma estória qualquer que já nem sei se é real ou apenas fruto de minha imaginação. Um amor, dois ou três, de tantas vezes que morri de amores. Nomes para catalogar a memória começam a falhar. Os rostos que me lembram são os rostos do antigamente. A memória não se deu ao trabalho de os maquilhar conforme o tempo.
Eu sei que não sou má pessoa. Mas também não tenho a certeza que sou boa. A memória já não me deixa ter um juízo de valor isento e bem pensado. Todas as acções passadas foram-nas bem? Acho que sim. Não me rói a consciência por isso não deve haver pesadelos. 
Eu e a memória vamo-nos vendo por aí.

Sanzalando

14 de junho de 2021

eu gosto

Gosto de falar-te. Gosto de ouvir-te. Gosto de ti. Gosto de te falar com calma, gosto de me sentir feliz enquanto te falo, embora saiba que a felicidade não é uma medida de tempo. Sei que não posso falar-te o dia todo mas esses pequenos bocados são grandes momentos de felicidade.
Te gosto e espero que cada momento dure um bocado mais de modo que sejam momentões.
Às vezes preciso de um abraço que complemente as palavras. Outras vezes de um beijo. Outras serve apenas o olhar.
Eu gosto.


Sanzalando

12 de junho de 2021

eu e o céu

Se faz sol eu protesto porque me aquece o cérebro. Se faz frio eu contesto porque estou gelado. Se está vento eu refilo porque me despenteio. Se chove eu grito porque me molho. Eu sou de facto uma pessoa desaconselhada a estar por perto, no entanto eu sou a pessoa que melhor me entendo, que não me contradigo nem me amuo. Eu sou quem melhor me aturo. Eu sou quem se entrega por todo no que quero fazer. Quem melhor que eu para me entender a mim mesmo?
Não sou pessoa de tirar o folego a ninguém, nem de fazer uma fila atrás. Eu sou só uma pessoa que tem altos e baixos, que sorri e que chora, que é feliz porque tem um bem precioso: a vida. 
Nesta vida já fiz muito e sei que muito mais eu ainda devo fazer. Não estou sentado na bananeira, à sombra ou ao sol, à espera que caía do céu um pedaço dele para mim. Eu já ganhei o céu, o meu céu, eu já dei céus, muitos dos meus céus. Eu ainda tenho céus para dar. 
Mas deixem-me lá aproveitar esta vida...






Sanzalando

11 de junho de 2021

eu real

Se eu me tivesse perdido no tempo que tempo teria sido o meu? Acho que futuro, pois estou certo que dirão que sempre andei à frente no tempo. Sou mais velho e gosto fazer coisas de criança. Gosto de brincar de carrinhos, gosto de carrinhos de rolamentos, gosto de bicicleta e gosto de me perder de vista. 
Olhando-me num espelho mental revejo-me em cada passo que dei, em cada desejo que tive, em cada frase que desenhei na mente.
O meu corpo físico ultrapassou-me o tempo mental apesar das cicatrizes dos amores doridos, das caminhadas sofridas, dos ódios estimados. O tempo mental manteve-se parado na juventude porém mais maduro, menos colorido porém mais alegre.

Sanzalando

10 de junho de 2021

eu e o caminho

Sigo os passos que desenhei numa carta imaginária. Este é o meu percurso, a minha linha mestra de viagem. Pelo que me conheço já sei que haverá muito tracejado pelo caminho a dizer que fui por ali indevidamente ou descuidadamente. Haverá logo alguém a dizer-me que me tinha já avisado e coisas e tal. Mas as minhas rotas e os meus caminhos, apesar de pensados têm muito de improvisação, apetência momentânea, gosto e desejo de paixão. 
Os corações ardem e o amor é impalpável. A nossa figurinha é que nos faz demonstrá-lo. Às vezes o amor é carregado de dor e só uma lágrima descuidado o denuncia. Ele pode romper a alma mas ninguém ouve o rasgar dela a não ser o destroços que esvoaçam na indignação, nas pregas da cara, no recovar dos ombros.
Às vezes o amor parte-nos em dois e ninguém nos vê em duplicado. 
Assim sigo os passos que desenhei e mais aqueles que inventei pelo caminho.


Sanzalando