recomeça o futuro sem esquecer o passado
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10 de novembro de 2025

vou por aí

Vou por aí, estrada fora, levo um livro, talvez Fernando Namora. Vou sem rumo, soletrando pensamentos, daqueles tempos em que trabalhava e agora só tenho retalhos de memória que me fazem ter uma história para lembrar.
Vou por aí, dançando ao som duma música que invento, pulando ao sabor do vento, vagueando porque tenho tempo.
Vou, sem rumo, ideia fixada num qualquer lápis mental num mapa imaginário. Vou sem qualquer mal, sem pintar qualquer cenário, real ou inventado, vivido ou imaginado. Vou por aí porque não me apetece ficar aqui.


Sanzalando

19 de dezembro de 2024

Tem gente

Tem gente que se ocupa em ser feliz para esconder a tristeza, tem gente que se acostumou em abraçar mentiras para não gastar as verdades.
Tem gente para tudo e tem gente para nada.
Tem gente que ri com gosto e tem gente que ri para esconder o desgosto.
Tem gente que só é gente porque a gente assim lhes chama
Tem gente que sente e ama e tem gente que se acama em silêncios interiores que quase parece morreram vivas.
Tem gente que é gente de verdade. Letra grande ou grande letra de ser gente
Tem gente.

Sanzalando

23 de outubro de 2024

És musa

Atraente não são as curvas bonitas do corpo,
mas sim as curvas bonitas da alma.
Lindo mesmo é o olhar.
A transparência do sentir,
a lucidez do ver,
a suavidade do paladar,
a volta do vir
sem ter que olhar

És a musa que inspira.

Quem me dera ser o colo que te recebe.
Quem me dera ser a carícia que te dou.
Quem me dera ser o amor que te tenho.

És a musa que inspira

Cabelos ao vento
cabelos apanhados
livre pensamento
os que tenho pensado.



Sanzalando

13 de junho de 2024

por este mar (tentei ser poeta)

Por este mar viajo, falo e canto se soubesse eu cantar.
Por este mar me embalo na vida tantas vezes sem parar.
Por aqui, sabor a sal, avanço sem medo.
Por este mar arrisco decisões e não guardo segredo.

Por este mar não vivo pela metade.
Por este mar vivo-me por inteiro
Por este mar olho a minha verdade
Por este mar arrisco ser certeiro

Podem atirar-me balas
Sigo por este mar sem medo
Podem adultera-me falas
Porque eu não tenho segredo

Por este mar meus sonhos são definidos
Meus pesadelos são acalmados
Por este mar não tenho outros sentidos
Nem outras queres alcançados.

Poe este mar me fiz poeta
Por este mar me acalmo
Seja verdade ou treta 
Por este mar me faço salmo.

Sanzalando

13 de setembro de 2022

me movo

Me movo de norte a sul, na força de ter esperança, na dor de uma alma ferida, no banho duma saudade que me abraça na noite escura duma insónia. 
Me movo com os olhos acompanhando a lua cheia ao som de uma melodia que invento no meu silêncio. 
Me movo num copo de vinho que me aquece o espírito solitário ao som dos meus passos lentos e imprecisos enquanto revejo cada fotograma da minha vida.
Me movo a cada passo de amargura que prevejo um dia possa chegar e causar dor no meu peito.
Me movo na minha ausência através de muros que mentalmente construí e barrei-me numa clausura de solidão.
Me movo em cada quadro pintado num desejo de ser artista imaginado de mim.
Me movo eternamente enquanto alguém se lembrar de mim.


Sanzalando

22 de março de 2022

céu cósmico

Acho vou alinhar a minha linha cósmica que parece uma desilusão. 
No céu de Março, em início da primavera, não vejo uma única estrela, nenhuma constelação conhecida se apresenta alinhada aos meus olhos e no meu coração palpita a luz ténue duma flor triste que resiste à força da chuva. Num canto do céu, onde não há nenhuma nuvem a cobri-lo, nem uma luz apagada de lua se observa. Acho que é um sinal dos céus para os tempos que correm.
De equívoco em equivoco deixo desadequadamente um suspiro, um desejo de reencontro, um quase nada de mim. Secreto silêncio se ouve no ar. Nem um som musical nem um qualquer outro ruído. Sinal dos tempos duma linha desalinhada no meu cósmico existir.
Falta-me um mar de estrelas


Sanzalando

4 de julho de 2021

versejando-me

Passei o dia a reler apontamentos. 
Estórias soltas, palavras vadias, 
ideias e pensamentos, 
algumas más outras sadias
e nada novo li
nada novo encontrei, 
sei que o que vivi
e nada me diz como viverei.

Estou certo chegará o dia
que do alto da minha sabedoria
gritarei
foi difícil mas cheguei.



Sanzalando

7 de novembro de 2020

amor e o tempo

Eu aprendi a viver contigo, 
mas sem ti a meu lado
eras uma constante, um abrigo
num silencio calado.

Aprendi a respirar o teu nome
quase esquecendo o meu
senti borboletas de fome
sonhando o rosto teu.

Eras uma constante
amiga e confidente. 
Estavas distante
mesmo noutro continente

Olhei fotografias, 
guardei recordações
e com o passar dos dias
perdi-me noutras paixões

Sempre quis mais
sem medir intensidades
e tu foste uma das tais
que quis ter por eternidades

Mas o tempo foi-te apagando, 
o amor feito dor
fui-me mudando
como murcha uma flor.



Sanzalando

5 de março de 2019

tentei poeMAR

Eu sei que um dia,
depois de esperar,
eu vou voltar.

Eu sei que verei
a senhora da Muxima
cá de baixo ou lá de cima.

Eu sei que o Bero
em dia de cheia
correrá na areia
em direcção ao mar
e se o alcançar,
tal como espero,
me acastanhará o mar
com areia do Lubango


Sanzalando

21 de março de 2015

poema cansado

Tenho medo de me cansar. Canso-me do silêncio,  da mentira,  da irá, do ócio. Tenho medo de me cansar de que um dia te cales. Cansado te peço: não te cales.



Sanzalando

1 de janeiro de 2014

2014

Sou filho deste mundo,
rodeado de seres racionais
e uns tantos irracionais.

Sou um filho deste mundo
que transporto sentimentos,
alguns penosos
e outros normais.

Sou um filho deste mundo
batido pelo drama
duma corrida que me trama
e duma cena em chama.

Sou o amigão,
por vezes vilão,
dissimulado ou idiota,
mas sempre valentão
que não entra pela porta,
com medo de ser alma morta.

Sou filho deste mundo,
dono da minha liberdade,
criador das minhas graças e desgraças,
sem rumo,
sem caminho
ou sem cidade

Sou filho deste mundo
que chega a 2014


Sanzalando

5 de maio de 2013

António Gedeão para o Dia da Mãe


MÃEZINHA
António Gedeão
«A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem misseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exata,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.
Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.
Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego, às horas em
que entrava e saía do emprego.
Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.
A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.»



Sanzalando