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21 de setembro de 2025

A Rádio saiu à Rua

Era manhã de sábado, e a cidade ainda espreguiçava-se entre o cheiro a café e o barulho das carrinhas a descarregar pão, fruta fresca e outras iguarias. Eu, de auscultadores na cabeça e aparelhos digitais e computador à frente, montava uma pequena mesa improvisada no que já fora um talho no mercado já apinhado de gente. Um estúdio portátil, quase ao ar livre, porque o mercado é grande porém é coberto, com mais ruído de vida do que cabos organizados.

Transmitir rádio em directo na rua é como abrir a janela da casa para deixar entrar quem passa. Não há paredes, não há isolamento acústico, só a vida a acontecer, sem filtros e sem rede de protecção. Enquanto ajustava os botões e revia ligações, uma criança parou para olhar, um amigo mais velho indignado perguntou o que eu fazia ali, outro veio mesmo dar-me um abraço. Chegaram os músicos. Um casal que se comprometeram a tocar umas quantas músicas para animar a emissão ao vivo e a cores de uma rádio que saiu à rua. Mais ligações e novo teste de som. Tudo pronto para ir para o ar quando for hora de o fazer,

Alguém desconhecido e um pouco atónito disparou:

- Isto é televisão?

Sorri. Expliquei-lhe que não, que era rádio, que se ouvia mas não se via. Ficou intrigada: "Então fala-se para o ar e alguém do outro lado ouve?" Era isso mesmo. Rádio a sério. Ainda a há. Embora também estivéssemos a transmitir com imagem para uma rede social. Mas não é essa a minha praia

Toca o genérico mas o som não sai da minha mesa e não entra no computador e portanto não chega ao estúdio. Improviso e mando uma música para o ar. Refeito do susto, resolvido o botão que se havia desligado por obra e graça dum qualquer fantasma, estávamos no ar, como se diz na gíria radiofónica. Apresentações feitas. A rádio na rua é assim: agenda-se uma coisa, e acontece outra ainda melhor que obriga a pensar, imaginar e resolver.

O primeiro entrevistado foi a convidada agendada, contou ao que vinha, o que queria. Falava bem e se prolongou no tempo, fazendo esquecer que o tempo é contado quando o programa tem hora para começar e outra marcada para acabar. A gente entusiasma-se e segue livre, animado e despreocupado.

As pessoas, de saco carregado paravam, olhavam, sorriam e seguiam, o trânsito pedonal à nossa frente de vez em quando engarrafava. Por sorte nossa ninguém levou buzinas nem outros barulhos que poderiam virar vírgulas inesperadas, e a branca às vezes fazia o microfone engolir-se num silêncio inesperado. Mas a verdade é que esse caos é a beleza: é o som da vida a misturar-se com a voz. Outros convidados foram aparecendo, falaram livre e claramente e por vezes tinham de ser cortados porque o tempo é inimigo da gente.

Os músicos, pacientes tocaram duas músicas numa harmonia de espanto. Aplausos e mais umas quantas entrevistas. Alguém olha para o relógio e o mercado cheio a passar despercebido. Estava onde eu queria estar. A fazer Rádio na Rua e em directo.

Fazer rádio em directo na rua é estar vulnerável, aberto ao imprevisto, um vizinho que reclama, um aplauso espontâneo de quem ouve e reconhece a sua própria história a passar nas ondas, um amigo que te acena. Uma opinião que se regista.

Quando desliguei o transmissor, horas depois, ficou um eco dentro de mim: a sensação de que a rádio não pertence só ao estúdio, mas à rua, às pessoas que não pedem para ser ouvidas mas que têm tanto para contar.

Naquele sábado, mais do que uma emissão, senti que tinha aberto uma praça invisível, onde todos cabem.


Sanzalando

13 de setembro de 2025

A Voz da rádio

Eu tinha apenas 15 anos, mas já carregava um sonho diferente dos outros garotos. Enquanto muitos queriam ser jogadores de futebol ou músicos famosos, eu passava as tardes e noites dentro do pequeno rádio Rádio Clube da minha cidade. Edifício inacabado, três estúdios, uma sala de reuniões com um piano vertical, uma discoteca e uma secretaria. O resto era apenas fundações de uma sala de baile e se calhar gabinetes e mais estúdios. Nunca vi a planta pelo que estou a falar de cor.

Tudo começou quando pediu para ajudar o senhor Sousa Santos, o técnico mais antigo da rádio. Primeiro, só organizava discos, lia bilhetes de ouvintes e atendia ligações, ajustava publicidade e ajudava em gravações. Mas, aos poucos, fui ganhando confiança. Até que, numa noite que se calhar fazia frio, entrou no TicTac e fez uma rúbrica que era nem mais que o Senhor Fonseca, com pronuncia portuguesa do norte a criticar as coisas ruins da cidade.

A partir dali, nunca mais parei.

Eu adorava a sensação de estar ligado com pessoas que não via, mas sabia que o escutavam. Recebia cartas, bilhetes e até recados deixados na secretaria. Havia quem dissesse que a voz era calma, outros afirmavam que parecia trazer esperança e outras gostavam apenas de falar das coisas bonitas que eu dizia. Eu lia as redações que eu fazia sobre tudo e quase nada.

E tinha também ouvintes fieis que por vezes pediam músicas fosse aquilo um programa de discos pedidos.  Ela sempre ligava para pedir músicas românticas. João, mesmo sem conhecê-la, sentia o coração acelerar toda vez que reconhecia sua voz do outro lado da linha.

A rádio não era apenas trabalho. Era um lugar onde os sonhos ganhavam som, onde amizades surgiam sem rosto e onde, talvez, um primeiro amor estivesse a nascer través das ondas invisíveis do ar.

Um dia o sonho acabou. A Rádio fechou e meio século depois reabriu, numa onda diferente, num estar diferente. Eu era diferente. Os ouvintes são diferentes. Já sem pronuncia, ou sem pedidos musicais, se vai informando de modo a dar conhecimentos em voz que se ouve com ouvidos de pensar.



Sanzalando

30 de abril de 2025

Viva a rádio e quem nela aposta. Quando tudo apagou, a rádio brilhou!

Antes da primeira música do K'arranca às Quartas de hoje:

Houve um apagão. Primeiro, veio aquele silêncio estranho das máquinas desligadas: o frigorifico sem fazer o seu ruído, o exaustor calado no meio do cozinhado, e a luz dos relógios digitais deixaram de dizer as horas. Por um instante, a casa parecia ter parado de respirar. A vizinha bateu à porta e fez a pergunta: Têm Luz vizinho? Nesse momento fiquei a saber que o bairro estava sem eletricidade. Minutos depois deste silêncio chega uma mensagem ao telemóvel: ouça a Antena 1. Fiquei então a saber que não era o bairro. Não era a cidade. Não era o país. Era a península ibérica que ficara às escuras.

Mas o mais importante é que no meio da escuridão, embora ainda fosse meio-dia, vi que algo resistia. O velho aparelho de rádio a pilhas, esquecido numa prateleira de casa, desde o último relato de futebol ouvido, voltava a ganhar importância. De repente o som chiado das vozes virou companhia. A Rádio esteve em alta, não em métricas digitais mas nos corações de quem como eu queria ser informado.

Viva a rádio e quem nela aposta. Quando tudo apagou, a rádio brilhou!



Sanzalando