2 de janeiro de 2026

A Passagem do Ano, ou os 10 Segundos Mais Optimistas do Ano

A passagem do ano é aquele momento mágico em que toda a gente acredita que a vida vai mudar radicalmente… em exactamente dez segundos. Contamos de trás para a frente com uma seriedade quase religiosa, como se o Universo estivesse mesmo à espera do nosso “três, dois, um” para carregar no botão do reset.

À meia-noite, há abraços a pessoas que vimos pela última vez em Agosto, beijos distribuídos com critério duvidoso e votos de “um óptimo ano” ditos com a convicção de quem não faz ideia do que está a dizer, mas espera sinceramente que resulte. O espumante sabe sempre melhor nessa noite, talvez porque vem misturado com esperança e um ligeiro risco de engasgamento durante as doze passas. E será que eu contei bem as passas ou passo pelo Algarve? Regressemos às passas.

As passas, aliás, são o verdadeiro teste de carácter. Há quem as coma todas em silêncio respeitoso, concentrado nos desejos profundos. Há quem se atrase na quarta e decida que o resto conta em pacote. E há sempre alguém que se esquece de desejar alguma coisa, mas come as passas na mesma, por via das dúvidas. Como diria o povo, não acredito em bruxas, mas que as há...

Lá fora, o fogo-de-artifício explode como se o céu estivesse a celebrar connosco, embora na verdade esteja apenas a assustar cães e a acordar bebés que não pediram para entrar no novo ano assim. Dentro de casa, alguém pergunta: “então, o que é que desejaste?” E respondemos vagamente: “saúde”, porque dá sempre jeito e não exige esforço imediato e não depende da vontade nem certificado de veracidade.

Quando tudo acalma, fica aquela sensação estranha de que afinal somos os mesmos, só que com um calendário novo. Mas está tudo bem. Porque a passagem do ano não serve para mudar a vida, serve para nos dar desculpa para tentar outra vez. E isso, convenhamos, já é motivo suficiente para festejar.



Sanzalando

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