1 de janeiro de 2026

Mensagem de Ano Novo

À meia-noite, troquei de roupa como quem muda de pele. Não fiz barulho, quem fez foram os copos a tilintar e as muitas promessas ditas a correrem, mais depressa do que a coragem de pensar nas que falharam o passado ano. O calendário virou a página e fingiu que isso bastou para nos endireitar a vida.

Há quem passe a passagem de ano a contar segundos; há quem conte ausências. As ruas cheiram a pólvora dos fogos artificiais que coloriram os céus por esses lados todos por onde me virei e a esperança, mistura perigosa que dura pouco. Os fogos riscam o céu como se fossem sublinhados luminosos: atenção, isto é importante. E é, por uns minutos. Depois, o silêncio volta a sentar-se ao nosso lado no sofá, como um amigo antigo que conhece os nossos defeitos.

O Ano Novo é uma festa civil: abraços que prometem continuidade, mensagens copiadas e coladas com carinho suficiente, dietas juradas entre duas rabanadas. Dizemos “este ano é que vai ser” com a convicção de quem já disse isso antes e sobreviveu. Talvez seja essa a graça: continuar apesar de tudo.

Na manhã seguinte, o mundo acordou com ressaca e pássaros. As ruas estão mais calmas, os planos mais tímidos. O futuro, esse, não se apresentou à hora marcada, ele tem a mania de chegar sempre atrasado. Mas há café quente, uma janela aberta, e a sensação discreta de recomeço que não precisa de foguetes.

O Ano Novo não é um milagre; é um intervalo. Um parágrafo em branco entre capítulos confusos. E talvez basta escrever a próxima frase com menos pressa, mais verdade e um pouco de gentileza. O resto, como sempre, o tempo trata de corrigir.



Sanzalando

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