A experiência começava antes mesmo de tocar na água. Existia um ritual de passagem que era pôr o protector solar, que naquele tempo só se dizia pôr Nivea ou Piz Buin.. Havia quem punha coca-cola e outras mesclas feitas em casa para dar o tom mulato na pele. Para a minha mãe não passava em pôr protetor; ela rebocava uma parede que era a minha pele. Eu saía debaixo da sombrinha e parecia um boneco de neve que tinha acabado de cair numa batedeira de claras em castelo.
O problema é que o protetor solar de antigamente agia como um ímã de alta potência para a areia. Em cinco minutos, eu não era mais uma criança; eu era um croquete bem panado. Se eu caísse, eu não me machucava, mas se tropeçasse em alguém eu apenas lixava a pele adversária.
Naquele tempo, nesse tempo em que eu deixava ser besuntado qual margarina no pão, havia um propósito maior, era o dia em que ia fazer o maior castelo do mundo, com fosso e sistema de irrigação. Mas havia sempre uma qualquer coisa que impedia o pensamento de ser feito. O balde sempre partia ou a areia estava seca demais ou molhada demais ou os mais velhos jogavam à bola com tal violência que era impossível sobreviver de cócoras à beira mar sem ser atropelado. Ou então passava duas horas cavando um buraco fundo o suficiente para encontrar petróleo e lá vinha apenas uma onda média vir e transformá-lo em campa rasa em três segundos.
Entrar no mar era uma negociação constante. Ia caminhando, sentia a água subir até à canela, joelho... e então vinha o ponto de não retorno: quando a água batia naquela parte que o frio atrofiava e parecia que deixava de os ter. Era o momento de perguntar por todas as suas escolhas de vida futura sem saber qual seria ele.
E aí, nesse exacto momento, vinha a onda traiçoeira. Sabe aquela onda que parece pequena, mas tem a força de um tractor de obras incompletas? Ela te dava um chapadão. Eu girava no fundo do mar como se estivesse dentro de uma máquina de lavar roupa vertical ligada no modo centrifugação. Depois de rebolar sem saber como nem porquê, emergia com areia em lugares que a ciência ainda não explicou, o fato de banho puxado quase até ao pescoço e a dignidade deixada em alto mar.
Depois de vários destes acidentes não existe maior fome que a fome depois de mar. O problema é que comer na praia é um desafio logístico. A sandes de fiambre que a mãe tirava do saco era 90% pão, 5% fiambre transparente e os outros 5% eram crocância mineral. Sentia o creck-creck nos dentes a cada mordida, o sabor a areia colado no céu da boca. No fim, já nem ligava, a areia era apenas um tempero extra, uma fonte exótica de sais minerais para a dieta.
No fim do dia, a gente voltava para casa a pé, com a pele ardendo mesmo depois de ter estado barrado como se fosse um estucador estucado, o cabelo duro de sal e o cansaço de quem lutou uma guerra contra as marés. E a pergunta era sempre a mesma: podemos voltar amanhã?
Porque, apesar dos desaires e da areia no lanche, ser criança à beira-mar era a certeza de que o mundo era vasto, azul e cheirava a infância.
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