Tudo começou às 23:42 de uma terça-feira. Eu estava deitado na minha cama, olhando para o teto a imaginar como seria o formato das nuvens se elas fossem feitas de algodão-doce e tivessem o cheiro do shampoo de frutos vermelhos da Valentina.
Eu decidi que era hora. Eu ia me declarar via bilhete postal com selo e posto no posto dos correios para não se perder em intermediários. Escrevi:
"Valentina és o oxigénio do meu pulmão, o brilho da da minha alma. Sem ti, eu sou apenas um parágrafo sem ponto final, uma fotografia sem legenda, um pão sem queijo."
Reli. Achei pouco. Eu queria ser profundo. Eu queria ser como um poeta do século XIX preso no corpo de um garoto.
"O teu sorriso brilha mais que um reclame luminoso tipo neon. Eu te gosto tanto que sinto que meu peito vai explodir como uma cerveja quente"
No momento em que reuni coragem para apertar ir no posto dos correios, tocaram à campainha da porta. Tremi. Se fosse hoje eu ia usar o Whatsapp e o assunto estava enviado, mas naquele tempo tinha mesmo de ir no posto dos correios comprar o selo. Assim fui na porta, depois de esconder o postal e perguntei:
Era a Valentina que respondeu do lado de fora:
- Eu!
Entrei em colapso. Considerei seriamente saltar a janela, trocar de nome e ir viver isolado em uma caverna comendo apenas musgo. Mas, três segundos depois (os três segundos mais longos da história da humanidade), abri a porta.
- Queres ir dar uma volta de carro com os meus pais? - perguntou-me ela sorrindo
Eu só me dizia que aquele momento era uma metáfora, era mais que chuva a limpar a minha solidão. E enquanto me falava eu lhe sorria como se estivesse a lhe dizer o meu pensamento.
- Estás estranho! Estás doente ou quê?
- Não. Tudo bem. Estava a pensar em ir estudar. Só isso.
- Hum! Tu? Vamos. - e segui em direcção ao carro boca de sapo castanho que estava um pouco abaixo da minha porta.
Segui-a. Sorria com vontade de chorar ou vice versa.
Fomos na Praia Azul. Eu estava feliz mas a minha cara não sei porquê estava triste. Tentei tudo para sorrir, mas as lágrimas queriam sair.
Ela estava só a acelerar o meu ritmo cardíaco. Eu suava e não estava calor para isso. O pai deve ter percebido qualquer coisa pois olhando-me pelo retrovisor me disse:
- Estás taciturno. Desabafa. - e gargalhou - não sejas avestruz.
A verdade mesmo é que o meu cérebro estava a tropeçar em cada pensamento e logo se estatelava num disparatado olhar que mais parecia um beijo.
Num ar mais descontraído passeamos lado a lado na Praia Azul, onde bebi uma coca-cola apesar de só me apetecer atirar para o colo dela, mas fazendo cara de paisagem, esqueci os atropelamentos mentais que me faziam quase explodir de coração aberto e passamos uma tarde agradável que ainda me recordo.
Hoje, tantos anos depois, não sei onde guardei o postal que nunca foi ao posto dos correios.
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