Há quem faça palavras cruzadas, há quem veja séries na tv, há quem passe horas a discutir política nas redes sociais como se estivesse a negociar a paz mundial ou a abrir novas guerras, há quem nas redes se sinta importante e impune e despache palavras como quem esvazia o rancor. Eu descobri uma atividade muito mais simples e muito mais útil: ler ao vento.
Note-se que não me refiro a ler sobre o vento. Refiro-me a pegar num livro, sentar-me num banco de jardim, numa esplanada ou à beira-mar, e deixar que a brisa participe activamente na leitura. Porque o vento não é um simples espectador. O vento é um leitor crítico, daqueles que não respeitam a ordem das páginas nem a velocidade que leio.
Abro o livro na página 23 e, como se houvesse um sopro de entusiasmado, passo imediatamente para a 57. A personagem ainda nem tinha saído de casa e já estava divorciada, reformada e com três netos. É uma leitura dinâmica, quase um curso acelerado de literatura.
O vento também tem a mania de funcionar como marcador de páginas. O problema é que escolhe sempre uma página diferente daquela que eu estava a ler. Quando volto ao livro, encontro-me no meio de uma descrição de uma sopa de nabiças ou de uma batalha medieval sem perceber como lá cheguei. É como viajar de comboio e acordar numa estação errada. Muito gosta ele de me dobrar páginas em vez de usar um marcador.
Mas ler ao vento tem vantagens. O tempo passa sem darmos por isso. Uma hora de leitura ao vento equivale a três horas de entretenimento convencional. Não apenas lemos um livro, como seguramos páginas rebeldes, protegemos chapéus, recuperamos marcadores desaparecidos e afastamos grãos de areia que insistem em tornar-se personagens secundárias da história.
Há ainda o lado poético da coisa. O vento parece querer ler connosco. Espreita as páginas, mexe nas folhas, sopra frases para o ar. É uma espécie de clube de leitura atmosférico, embora os seus comentários sejam sempre um pouco difíceis de interpretar. Ou será que sou eu que já estou tonto de tanto o contrariar?
No fim, quando fecho o livro, percebo que talvez não tenha compreendido todos os capítulos. Algumas partes ficaram misturadas, outras voaram literalmente para longe. Mas o objetivo foi cumprido: o tempo passou.
E talvez esse seja um dos grandes segredos da leitura. Não importa se estamos numa biblioteca silenciosa ou num banco de jardim em luta aberta contra uma ventania. Um livro tem essa capacidade extraordinária de fazer os minutos correrem mais depressa.
Embora, convenhamos, quando o vento leva o marcador de páginas para longe num voar rotativo, já não é apenas literatura, é um duatlo, que mete já a corrida nos entretantos.
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