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1 de junho de 2026

No Meu Tempo de Criança, o Dia da Criança era Todos os Dias e Nenhum

Haverá maior injustiça histórica do que termos nascido numa época em que o Dia da Criança ainda não tinha sido inventado pelo marketing moderno?

Hoje, no dia 1 de junho, as redes sociais inundam-se de fotografias de miúdos felizes, com a cara pintada de homem-aranha, a lamber gelados artesanais e a saltar em insufláveis do tamanho de prédios de três andares. Há tudo menos aulas, teatros de marionetas e pais tão amorosos a prometer que hoje o dia é todo teu, meu amor.

No meu tempo de criança era como? Se eu dissesse à minha mãe que queria celebrar o “Dia da Criança”, ela provavelmente olhava para mim, pousava o ferro de engomar e dizia, com aquela doçura que só as mães dos anos 60/70 conseguiam reunir:
- Dia da Criança? Olha que levas já duas dores de dentes que te passa logo a mania do protagonismo. Vai mas é deitar o lixo fora e fazer os trabalhos de casa

O Estatuto da Criança vintage. Olhando de hoje para aquele ontem
Naquela altura, a infância não era uma instituição protegida por tratados internacionais; era um estado de sobrevivência. Nós não tínhamos direitos; tínhamos obrigações e uma imunidade bacteriana digna de um super-herói que não há nas crianças de hoje.
Vejamos as diferenças estruturais entre o "Dia da Criança Moderno" e um dia qualquer da nossa infância:
Hoje/lá longe: Joelheiras, capacete, protector solar 50/ Veste o casaco
                        Sumo biológico e fruta descascada/ Pãp com manteiga e gasosa
                        Tablets xpto/ aro de bicicleta e um ferro
                    Cadeirinha para o carro de isto e aquilo/Cinco gajos soltos na traseira duma carrinha de caixa aberta

Se hoje os miúdos exigem parques de diversões com controlo de temperatura, o nosso parque de diversões era a rua. E o nosso insuflável era, textualmente, o entulho das obras do vizinho.
Passávamos a tarde a saltar de cima de tijolos, a cravar pregos ferrugentos nos kedes os míticos Sanjo ou All Star já sem sola ou simples imitação e a testar as leis da gravidade em bicicletas sem travões.

Quando caíamos e esfolávamos os joelhos até ao osso, a terapia de choque consistia em lavar a ferida com água da fonte ou saliva e ouvir o clássico diagnóstico materno: “Bem feito. Quem te manda andar a correr? Se estragaste as calças, ficas sem pele nas nalgas.” E levávamos com «mercúrio ó cromo». E funcionava! Ninguém coxeva mais do que meia hora. O medo da chinelada era um antibiótico natural poderosíssimo.

Não havia caixas de subscrição de brinquedos, nem festas temáticas com catering nem fotos de instagram. O mais próximo que tínhamos de um "brinde" era o balão que o senhor do banco nos dava quando o nosso pai ia pagar a prestação do carro, ou o pião de madeira que o carpinteiro do bairro nos oferecia se não fizéssemos muito barulho.

E sabem que mais? Éramos incrivelmente felizes.
Não precisávamos que a Unicef ou o calendário nos recordassem que éramos especiais. Nós sabíamos que éramos sobreviventes. Sabíamos negociar a posse de uma bola de futebol furada como diplomatas da ONU e sabíamos que o toque de recolher era quando os candeeiros da rua se acendiam. Não havia GPS, mas ninguém se perdia.

Por isso, meus caros amigos ainda crianças, hoje celebro o Dia da Criança à vossa saúde. Mas se me dão licença, vou ali comer um pão com manteiga e açúcar à janela, só para ver se a minha mãe me manda entrar para ir estudar.


Sanzalando


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