Me disseram que a adolescência é aquela idade em que somos um rascunho de gente, escrito a caneta bic de corpo transparente que falha a meio e com demasiados erros de ortografia emocional. Olhar para trás, para esse território cinzento entre as calças curtas e os primeiros pelos do bigode exige sempre um de dois superpoderes: ou uma amnésia profundamente selectiva, ou uma robusta e saudável dose de humor. Escolho a segunda, com a leveza de quem sabe que o tempo é o melhor amaciador de memórias.
Crescer é um despropósito biológico. Aos catorze anos, as nossas articulações parecem não ter recebido a notificação de que o resto do corpo mudou de tamanho. É a idade de ouro dos joelhos esfolados, do acne que decidia fazer uma convenção na ponta do nariz exatamente no dia da festa da escola, e daquela timidez incapacitante que nos fazia gaguejar ao pedir um simples pastel de nata na pastelaria da esquina. Éramos uma espécie de girafas recém-nascidas a tentar dançar uma valsa num chão inclinado
E, no entanto, que saudade há nessa maravilhosa e ridícula vulnerabilidade!
Hoje, com a distância da segurança que os anos nos dão, olho para as fotografias desse tempo com uma ternura e uma vontade incontrolável de rir. As modas, por exemplo. Que pacto coletivo de insanidade mental nos levava a usar aquelas roupas? Havia uma necessidade visceral de pertença que nos fazia adotar penteados que hoje seriam classificados como crimes contra a estética. Se o cabelo estivesse farto, o gel tratava de o transformar numa arma branca; se a atitude exigisse rebeldia, o olhar melancólico e os braços cruzados faziam o resto do trabalho.
Tínhamos certezas absolutas sobre coisas das quais não sabíamos absolutamente nada. Discutíamos filosofia barata nas esquinas até às duas da manhã, jurávamos amor eterno a cada três semanas e sofríamos por desgostos de amor que duravam tanto tempo quanto uma canção no rádio. O mundo era um palco gigante e nós éramos os protagonistas de um drama intenso, quando, na verdade, éramos apenas figurantes dum filme cómico barato.
A grande beleza de olhar para a adolescência com uma saudade feliz é perceber que toda aquela intensidade não passou de um ensaio geral. Os complexos que nos pareciam montanhas intransitáveis hoje são apenas pequenas dunas de areia que o vento da maturidade desfez. Aquela rapariga que não nos ligava nenhuma? Hoje já nem nos lembramos bem do apelido dela. A nota dramática no teste de Matemática? Acabou por não ditar o resto do nosso destino trágico.
Recordar esses anos com um sorriso largo é fazer as pazes com o miúdo que fomos. É abraçar a nossa própria tontice. Afinal, fomos felizes na nossa ignorância. Sobrevivemos às primeiras festas de garagem com luzes psicadélicas improvisadas, às fitas gravadas com a voz do locutor a meio só para nos lixar a gravação, aos verões intermináveis que pareciam durar uma eternidade e às promessas feitas ao luar que o amanhecer fazia esquecer.
Ter uma adolescência saudável na memória não significa que ela tenha sido perfeita; significa que aprendemos a rir dos nossos próprios naufrágios de copo de água. E há uma enorme dignidade em olhar para o espelho do passado, ver aquele jovem desajeitado e de sobrancelhas rebeldes, e dizer-lhe, baixinho e com orgulho: Obrigado pela coragem. Olha que, apesar de tudo, não nos correu nada mal.
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