recomeça o futuro sem esquecer o passado

5 de julho de 2026

A Saída da Missa

Se hoje é sábado eu já estou a fazer planos para amanhã. Começo o dia com o santo sacrifício da saída da missa.

A missa de domingo termina sempre da mesma maneira: com um "Ide em paz e o Senhor vos acompanhe" e dita esta frase pelo Padre Dinis eu já cheguei à Igreja faz um tempinho e estou no lado de lá da estrada, do lado da falésia, umas vezes a olhar o mar outras a olhar para dentro a imaginar.

Mal o padre diz as últimas palavras, há quem agradeça tão depressa que já vai no terceiro banco antes do coro acabar o último acorde. Parece que a fé é profunda, mas o ar cá fora é mais puro.

À porta, porém, acontece o verdadeiro milagre. Quem lá dentro esteve uma hora em silêncio transforma-se num comentador profissional da vida alheia.

— Como está?
— Vou andando...
— E o reumático?
— Anda mais depressa do que eu.

Esta seria a conversa dos mais velhos que vêm á missa das 6. Poucos estão a esta hora. É a missa dos jovens.

às seis, duas senhoras trocariam receitas de bacalhau como se estivessem a negociar tratados internacionais. A esta hora é mais o que vais fazer a seguir.

- Eu vou para a praia?

- Eu também. Vou como os colegas. E tu?

- Vou com os meus pais.

- Que achaste o serão de hoje? Não percebi onde ele queria ir...

- Não faço ideia... mas gostei muito da parte em que o padre levantou a voz. Dá sempre mais convicção.

As crianças da catequese, que sobreviveram heroicamente aos sessenta minutos sem correr pela igreja, explodem finalmente em energia. Correm pelo passeio como se alguém tivesse carregado no botão "libertar" e elas se sentem livres.

Os mais velhos, que vieram só para tomar contas das mais novas, despedem-se pela décima vez.

— Então, até para a semana!
— Se Deus quiser.
— E se a minha mulher deixar.

Toda a gente ri. Até a mulher.

Ao fim de meia hora, metade das pessoas continua à porta da igreja. Afinal, a missa durou uma hora, mas o convívio pós-missa é que é verdadeiramente eterno. É assim um repositório de conversas adiadas, de dizeres que a semana esqueceu.

E há uma conclusão inevitável: a fé reúne as pessoas lá dentro. Mas é cá fora, entre apertos de mão, gargalhadas, receitas, futebol e promessas de café que a comunidade faz o seu segundo acto litúrgico sem precisar de missal. E outros, como eu e mais alguns, ficam babados a vê-las saírem como a sua roupa dominical, o seu ar angelical e beatificadas sorrindo.

Até para a semana, na mesma saída de missa, porque agora vou para a praia ver se quem não foi à missa já lá está.


Sanzalando

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