A ideia parecia brilhante na minha cabeça. O hóquei em patins é um desporto rápido, dinâmico e elegante. Eu gostava de o ver nos jogos do Atlético. O problema começou quando decidi que um dia eu ia ser jogador e me inscrevi, ou me inscreveram no CID com o Sr. Vergílio. Percebi que a minha relação com a gravidade é puramente unilateral: ela puxa-me e eu caio. E andei nestas andanças uma semana. As rodas metálicas não me deixavam quieto um instante. Ou os patins iam para trás e o meu corpo para a frente, ou vice versa. O estatelado era garantia da casa.
Fato treino encarnado vestido e lá ia eu sempre sorridente para o Ringue do Benfica onde estava sediado o tal de CID. Paciência Vergiliana. Nódoa negra eu era cliente. Mal calçava os patins, o meu corpo assumia uma postura defensiva semelhante à de um recém-nascido de girafa. Já viram uma girafa acabada de nascer? Eu vi muitos anos mais tarde e só me lembrava desses tempos em que eu queria ser jogador de hóquei. O equilíbrio era inexistente, os braços dançavam como as velas de um moinho. Se alguma vez eu fiz espargata, lá deve ter sido.
Na verdade aprendi a andar naquilo. Não me lembro quanto tempo depois de ter começado. Tantas foram as quedas que uma delas apanhou a zona da lembrança. Dava voltas ao campo e aguentava até que já conseguia fazer malabarismos. É facil, pensei eu esquecendo todo o sofrimento anterior.
- Hoje vais andar com o stick. - dissera-me o Sr. Vergílio no alto da sua máxima paciência.
Em vez de ser uma extensão do meu braço ele mais parecia um pau de vassoura com vontade própria. Uma ou dez vezes falhei a bola por 30 cm no mais perto que lhe passei. Quando acertava na bola, aquele alcatrão redondo atirava-me ao chão. Eu, de músculo-esquelético acho que só tinha a parte esquelética.
Aos poucos lá fui encarrilhando naquele desporto. Umas vezes o tal de pau de vassoura servia-me de bengala e outras eu conseguia mesmo usar para a sua finalidade máxima, fazer um remate à baliza. Quantas vezes acertei nela? Faz parte da zona esquecida.
