recomeça o futuro sem esquecer o passado

22 de julho de 2026

Tesourinhos Musicais 102 - Amália Rodrigues - K'arranca às Quartas 128


Sanzalando

Livro - O Dicionário (Anabela Quelhas) - K'arranca às Quartas 128


Sanzalando

Esta Música tem uma História 66 -Chico Buarque - Futuros Amantes - K'arranca às Quartas 128


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (27) - K'arranca às Quartas 128


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (33) - K'arranca às Quartas 128


Sanzalando

Crónica 115 - K'arranca às Quartas 128


Sanzalando

Programa 128 - K'arranca às Quartas





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 22 de Julho de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.


Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é a que intitulei Há quem associe o verão à liberdadeEsta Música tem uma história com Chico Buarque e Futuros amantes, numa colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, 102º edição com Amáilia Rodrigues
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia Cabo Verde 
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos IA e os que precisam de ser substituídos...
Falei do Dicionário com as palavras de Anabela Quelhas e tivemos poesia angolana na escrita e voz A Paz e nada Mais de Sandra bande
Homenageamos Luís Represas que aos 69 anos deixou-nos

Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

20 de julho de 2026

abraço pensado

Dizem os entendidos em física que nada viaja mais rápido do que a luz. Claramente, esses cientistas nunca experimentaram a velocidade a que a saudade aperta quando se está longe de quem se gosta. A saudade é aquele passageiro clandestino que se instala sem pedir licença, toma conta do peito e, se não tivermos cuidado, ainda nos faz suspirar para a janela como se estivéssemos num momento trágico dos anos 70 do século passado.

Mas a distância, essa grande desenhadora de mapas e fazedora de quilómetros, cometeu um erro grave ao subestimar a ferramenta mais poderosa do ser humano, a imaginação sem vergonha nenhuma.

Quando os quilómetros teimam em fazerem-se de fortes, a mente assume o papel de engenheira de pontes invisíveis. Afinal, a geografia é apenas uma convenção burocrática inventada por quem desenha mapas. No mundo real do pensamento, a física quântica é um jogo de crianças. Na impossibilidade de dobrar o espaço-tempo ou de inventar uma máquina de teletransporte que, convenhamos, estaria constantemente avariada ou presa na alfândega, a mente desenvolve os seus próprios truques de ilusionismo. De repente, aquela chávena de café de manhã não é tomada a solo. A mente encarrega-se de puxar a cadeira em frente e colocar lá o sorriso de quem está longe. O café continua a ser um expresso normal, mas o sabor passa a ser o de uma conversa cruzada a uns tantos fusos horários de distância. Fecha-se os olhos e, num piscar de pestanas, faz-se uma viagem e estamos lá. A gargalhada ouvida ontem ao telefone ecoa hoje na sala como se estivesse a ser emitida em som surround de alta definição. A verdadeira magia da criatividade é que ela recusa-se a aceitar o ditado longe da vista, longe do coração. Na verdade, quanto mais longe da vista, mais a mente se desdobra em acrobacias para manter tudo perto.

Criam-se piadas privadas que só o ecran do telemóvel entende, inventam-se rituais absurdos de presença à distância e descobre-se que a saudade, quando devidamente temperada com bom humor, perde aquele peso poeirento e transforma-se numa espécie de combustível. Um combustível estranho, é certo, mas capaz de fazer a mente voar por cima de qualquer oceano sem pagar taxa de bagagem de mão.

A distância pode mandar nos quilómetros, no relógio e no preço da viagem. Mas a mente? A mente ri-se do GPS, traça um atalho na imaginação e encarrega-se de encurtar o mundo até caber inteirinho dentro de um abraço pensado.

É, a minha mente, a minha imaginação, o meu sonho, tudo está numa conjugação de tempo e espaço, numa equação em que as incógnitas X ou Y não são meras ilusões, mas apenas sentimentos de simplicidade.


Sanzalando

19 de julho de 2026

os pelos do antebraço

Há dias em que a nostalgia bate forte. Mas esqueçam que eu não vou falar da saudade da antiga namorada, do carro de juventude ou daquela viagem épica de mochila s costas. A minha nostalgia é muito mais capilar, mais localizada. Tenho saudades e assumo sem qualquer pudor de ver os pelos dos meus braços ficarem louros no verão.

Antigamente, o processo era um clássico do Mar e Março. Bastavam dois ou três dias de praia, uma pomada de sol na Praia das Miragens e o milagre acontecia: a pele ficava morena e os pelos dos braços ganhavam aquele tom dourado, digno de um anúncio a gelados nos anos 70. Olhava para os braços e sentia-me o próprio um astro de bem usar a praia. Havia ali um orgulho estival, uma medalha de ouro capilar que gritava ao mundo: Sim, eu estive ao sol e isto é pura sedução.

Corta-se o pensamento e regresso ao presente.

Hoje olhei para os meus braços sob a luz implacável do sol de julho. E o que é que vi? Oirinhos espetados nos meus antebraços? Reflexos de solstício do verão? Nada disso. Vi uma colónia de fios brancos, reluzentes, que parecem agulhas de gelo ou filamentos de lâmpadas LED de alta intensidade.

O meu corpo saltou a fase do louro-surfista e passou diretamente para a fase Pai Natal da Costa Algarvia.

O mais fascinante para não dizer assustador é a textura. O pelo branco não é um pelo normal que perdeu a cor. Não, ele ganha uma personalidade própria. Fica mais espetado, mais rebelde, com uma espessura que quase me permite sintonizar a rádio local se os apontar na direção certa. Se o braço fica moreno, então o contraste é uma obra de arte do surrealismo, pareço uma zebra invertida ou um dálmata ao contrário.

Tentei convencer-me de que isto me dá um ar interessante, uma aura de George Clooney dos trópicos, mas a verdade é que quando o vento sopra, os meus braços parecem o topo da Serra da Estrela em pleno janeiro.

Dizem que a velhice traz sabedoria. Olho para os meus braços e a única coisa que vejo é que os meus pelos decidiram reformar-se mais cedo e vestir-se de linho branco para ir jogar dominó num banco de jardim.

Tenho saudades daquele dourado, confesso. Mas, pensando bem, há que ver o lado prático: se a coisa continuar a este ritmo, no próximo inverno já nem preciso de casaco. Basta pentear os braços para o lado e fingir que estou de casaco de pele. Uma pele muito sábia, muito experiente... e irremediavelmente branca.



Sanzalando

Pertinências 18 - James McSill e Júlia Domingues

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas








O programa Pertinências transmite, em diferido, James MsSill
A conversa abordou os desafios da Inteligência Artificial, criatividade e não só com tanto para falar e discutir

Na Feira do Livro de Portimão

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.


Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Imperdível



Sanzalando

18 de julho de 2026

posfácio do livro que não escrevi

Viver a saudade misturando humor e nostalgia é uma das formas mais bonitas e saudáveis de manter o passado vivo sem ficar preso a ele. A saudade pura pode ser pesada, mas quando lhe juntamos uma pitada de ironia e um sorriso de canto de boca, ela transforma-se numa espécie de melancolia feliz.

Aqui ficam algumas pistas de como navegar nessa arte que cultivo, transformando o tenho saudade num lembras-te daquela loucura ou daquele dia?

A memória tem a mania de romantizar as coisas, mas o humor vive nos detalhes imperfeitos. Recordar o passado com nostalgia e humor exige que olhemos para quem éramos sem filtros de grandiosidade.

Riu-me das modas e dos penteados: Lembro-me daquela fotografia antiga com um corte de cabelo indefensável ou uma roupa que, na altura, parecia o auge do estilo. As grandes  tragédias que olho hoje e me parecem comédia: Aquela viagem de férias em que o carro avariou no meio do nada, a tempestade que inundou a tenda de campismo, ou o primeiro desgosto de amor que parecia o fim do mundo e hoje é só uma boa história de café.

Olhar para as memórias como se eu fosse um narrador da minha própria vida, ajuda a distanciar a dor e a focar na piada das situações.

Ao lembrar-me de um verão antigo ou da infância, tento focar nos contrastes: como a vida parecia incrivelmente analógica, as praias cheias de de gente picnicando, ou os verões infinitos onde a maior preocupação era saber se a bicicleta tinha ar nos pneus ou eu tinha liberdade para sair.

A nostalgia ganha leveza quando a trato como um filme ligeiro e castiço, cheio de personagens caricatas como aquele tio que contava sempre a mesma estória, ou o vizinho resmungão que nunca vi sorrir.

A música é o gatilho mais rápido para a nostalgia. Mas para manter o humor, brinco com os contrastes temporais. Faça uma viagem no tempo e ouço aquelas canções antigas que hoje soam deliciosamente datadas. Vale tudo: desde os clássicos da rádio dos anos 60 e 70, às que os meus pais ouviam no gira-discos, até aos refrões, agora pimba, ou os pop exagerados da adolescência. Cantar alto um drama musical do passado enquanto se conduz ou se cozinha tira o peso à ausência e transforma a saudade numa celebração vibrante.

A saudade solitária tende a carregar no drama; a saudade partilhada tende a virar comédia. Quando escrevo para os amigos de longa data ou família, recupero as velhas histórias, Uso o clássico recurso do exagero humorístico: aumento o tamanho da onda que quase vos levou na praia, acrescento drama àquela vez em que me esqueci de ir ter com alguém. O acto de contar e rir em conjunto exorciza a melancolia da perda e foca-me no privilégio de ter vivido algo digno de ser lembrado.

Viver a saudade assim é aceitar que o olho pode ficar húmido, mas a boca curva-se para cima. Não há mal nenhum em sentir um aperto no peito por um tempo que já lá vai ou por pessoas que estão longe ou que já partiram. O segredo está em olhar para trás, não com o lamento de quem perdeu, mas com a cumplicidade de quem sabe que foi muito feliz naquelas imperfeições.

Como dizia o outro, a melhor forma de honrar os bons velhos tempos é garantir que eles renderam boas novas gargalhadas cada vez que são lembrados.



Sanzalando

17 de julho de 2026

futebol de rua

Nos anos 60, o asfalto da rua era o maior campo de futebol do mundo, e não precisava de relva, de holofotes ou de VAR. Bastava que o sol desse tréguas e que alguém abrisse a janela para dar o grito de convocatória: "Ó Manel, traz a bola!", mesmo que não fosse o Manel o dono da bola

A bola, na verdade, era um elemento de luxo. Quase sempre era de plástico leve, que fazia uma curva impossível ao mínimo sopro de vento ou, no melhor dos cenários, de couro já gasto, cosida tantas vezes que parecia ter mais cicatrizes do que os joelhos da gente. Quando não havia nenhuma das duas, jogava-se com uma meia cheia de trapos e restos de jornal. O futebol não escolhia texturas nem classes.

As balizas? Duas pedras de cada lado, ou dois casacos empilhados ou os livros da escola. A largura do golo era medida a passos, e ai de quem tentasse fazer batota:

-Isso foi golo! 

Qual golo, o tanas - palavrão não havia porque a gente não era como o Zé Malcriado! 

- Passou por cima da pedra - dizia o mais espigado.

O trânsito raramente interrompia a partida. Porque na minha cidade isso era coisa de hora de almoço e fim de tarde, no chamado passeio dos tristes. De meia em meia hora, lá aparecia um carocha ou uma carrinha de caixa aberta a avançar lentamente. O jogo parava com o grito clássico: "Olha o carro!". Os jogadores encostavam-se aos muros, sentavam-se no passeio, o veículo passava, e o jogo recomeçava exatamente no mesmo segundo, com a mesma intensidade de uma final da Taça dos Campeões.

O verdadeiro perigo não eram os carros; eram as janelas das vizinhas e os muros intransponíveis. 

Havia também a D. Maria, com a sua permanente impecável, feita na cabeleireira Carlota, que odiava o barulho da bola a bater no portão:

- Se a bola cai aqui dentro, furo-a! — ameaçava.

E, claro, pela lei de Murphy do futebol de rua, era precisamente para o quintal da D. Maria que a bola ia parar depois de um remate em balão. Ficava tudo em silêncio. Olhavam uns para os outros, a medir quem tinha a coragem de ir tocar à campainha ou saltar o muro. O mais novo era quase sempre o sacrificado para a missão de espionagem. E lá estava o salta-muros pronto para a confusão. Tirando um ou outro grito de vez em quando nunca ela furou a bola e nunca com ela ficou.

O jogo só terminava verdadeiramente quando acontecia uma de duas coisas ou a bola rebentava do gasto, ou a noite caía e uma mãe gritava " Jantar!"

Davam de dez a zero uns aos outros, com os pés negros do pó da rua, os sapatos esfolados na biqueira, o pavor das mães e os joelhos corados com o inevitável mercurocromo vermelho. Mas iamos para casa felizes, com a certeza absoluta de que, no dia seguinte, o campeonato recomeçava.



Sanzalando

16 de julho de 2026

O campeão da mesa verde do Aero-Clube

Na escola sempre me disseram que eu tinha um futuro promissor. Nunca explicaram era em quê. As aulas começavam às sete e meia, mas o salão de bilhar abria às nove ou dez. Eu achava que era um sinal do destino: primeiro fazia o sacrifício de faltar à primeira aula, depois dedicava-me à ciência das tabelas.

Enquanto os colegas estudavam Matemática, eu calculava ângulos com uma precisão que faria inveja a qualquer professor. A diferença era que, no meu exame, se falhasse uma conta, a bola branca não tocava na terceira bola e toda a gente ria e alguns até que aplaudiam.

- Rapaz, com a quantidade de horas que passas aqui, já devias pagar renda em vez do que marca o contador. - diziam-me o encarregado daquele estabelecimento de batota e pouco aéreo, pelo menos ali.

Eu respondia  que estava a investir na minha formação profissional.

E era verdade. Aprendi a perder sem fazer drama, a ganhar sem fazer alarde e, sobretudo, a fugir pela porta das traseiras quando passava algum professor ou familiar.

Um dia encontraram-me por mero acaso.
- Então, Carranca, porque não está na escola?

Olhei para a mesa, para o taco e depois para ele.

- Professor, estou numa aula prática de Física. Estamos a estudar o movimento, os choques e as leis da reflexão e refracção.

Ele sorriu, abanou a cabeça e respondeu:
- O problema é que, no fim do período, quem leva com a tabela és tu.

Tinha razão. Eu perdi o ano. Quer dizer, ele passou, eu é que não, portanto foi o ano que me perdeu.

Pouco tempo mais tarde percebi que as aulas faziam falta. Mas também descobri que o bilhar me tinha ensinado uma coisa importante: antes de cada jogada é preciso parar, pensar e escolher bem a bola. Ela, não a bola, foi a razão da tacada aos estudos ter primazia em relação à tacada de bilhar de fim de tarde, depois da voltinha dos tristes que eu em triste figura ficava na esquina a ver o carro passar.

Com muito mais estratégia eu até que apanhei o comboio e lá encontrei o tal de futuro, que não só foi promissor como me é grato olhar para todo o passado e ter orgulho de ter tido tal passado. O taco está na caixa, a mesa mantem o pano verde, algum pó e o passeio dos tristes agora dou eu com alegria estampada no rosto


Sanzalando

15 de julho de 2026

Livro - Terra Sonâmbula - Mia Couto - K'arranca às Quartas 127


Sanzalando

Esta Música tem uma História 66 -Rui Veloso - Eu nunca me esqueci ti - K'arranca às Quartas 127


Sanzalando

Tesourinhos Musicais 101 - Wanderey Cardoso - K'arranca às Quartas 127


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (26) - K'arranca às Quartas 127


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (32) - K'arranca às Quartas 127


Sanzalando

Crónica 114 - K'arranca às Quartas 127


Sanzalando

Programa 127 - K'arranca às Quartas





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 15 de Julho de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.


Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é, Esta Música tem uma história com Rui Veloso e Nunca me esqueci de ti, numa colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, 101º edição com o Wanderley Cardoso
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia Cabo Verde e da Revista Claridade
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos os 'inteligentes de trazer por casa'.
Falei do Livro Terra Sonâmbula, de Mia Couto. Segunda vez que falo deste livro porque é marcante e mereceu uma nova leitura e abordagem.
Tivemos poesia de Carlos Drumond de Andrade com o poema José


Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

14 de julho de 2026

quem me dera descriançar

O processo voluntário de descriançar, a transição oficial para o mundo dos adultos, devia vir com um manual de instruções e um aviso de letras garrafais: Atenção, contém altos níveis de stress e dores nas costas. A verdade é que nenhum de nós quer realmente crescer. Nós fomos enganados pela falsa promessa de que ser adulto significava apenas comer gelado quando apetece e ir para a cama à hora que quisermos. Ninguém nos avisou sobre o preço da eletricidade ou sobre a humilhação que é escolher uma marca de detergente para a roupa com base no nível de suavidade, no perfume e na qualidade da água.
O diagnóstico de que fomos definitivamente descriançados não vem com a certidão de nascimento, mas sim com pequenos e trágicos sinais do quotidiano. O entusiasmo que antes sentíamos no corredor dos brinquedos foi substituído por uma alegria genuína ao encontrar um gel anti-inflamatório em promoção. Antigamente, dormir era um castigo penoso e havia birra na hora de ir. Hoje, dormir oito horas seguidas sem acordar com o pescoço preso é considerado um milagre divino e o ponto alto da semana. Damos por nós a discutir a qualidade do isolamento térmico das janelas com vizinhos que nem sequer conhecemos pelo nome.
Que saudades de quando o único despertador era o grito da mãe a dizer que já estás atrasado, em vez deste toque eletrónico infernal que nos causa micro-enfartes diários. E agora é o relógio de pulso que até parece está a ter uma convulsão no braço.
Se a maturidade é obrigatória por lei, a nostalgia devia ser um direito constitucional com direito a subsídio. Há dias em que a única coisa que realmente apetece é acionar um botão de emergência, encolher um metro de altura e voltar para o tempo em que o mundo se resolvia com uma moeda de dois e quinhentos na Oásis.

Sanzalando

13 de julho de 2026

O dia em que a tristeza se cansou de esperar

A tristeza é uma nuvem cinzenta e gorda que adorava sentar-se na cabeça das pessoas. Aloja-se, aninha-se e por ali permanece. Um dia, ela escolheu-me. 
Aqui vou eu, disse-me a tristeza, ajeitando as malas sobre os meus ombros enquanto procurava maneira de entrar.
No primeiro dia, a tristeza soprou um desânimo pesado. Senti a carga, mas disse:
- Bom, a pia está cheia. E comecei a lavar os pratos que ali jaziam faz horas. 
A tristeza achou estranho, pois esperava que eu chorasse no sofá. Ela pesou mais nos meus ombros como que a querer dizer que estava ali para me entristecer.
No segundo dia, a tristeza tentou apagar o sol. Olhei para o céu nublado, calei as sapatilhas velhas e fui caminhar. ~
- Só uma volta no quarteirão - murmurei. 
A tristeza, arrastada pelo vento da caminhada, começou a ficar despenteada e irritada. Sujeito teimoso, pensei eu tê-la ouvido.
No terceiro dia, a tristeza atacou com memórias melancólicas. Suspirei, sentei-me à mesa e peguei num caderno. Em vez de me lamentar, comecei a escrever uma lista de piadas ruins que me lembrava. A tristeza tentou ler, mas achou os trocadilhos tão infames que começou a ter uma enxaqueca existencial.
No quarto dia, a tristeza já estava exausta. Eu tinha mudado os móveis de sítio, insistia em regar as plantas e até tentava assobiar mesmo desafinado as músicas da minha infância. A persistência estava a ser uma máquina de moer a paciência dela.
No quinto dia, acordei, abri a janela e sorri para um pátio vazio. Foi o limite.
A tristeza pegou nas suas malas, indignada. 
- Desisto! Não há quem consiga trabalhar com este homem a mexer-se o tempo todo - reclamou ela, quase arrancando-me os ombros ao sair dali.
Senti o peso desaparecer, respirei fundo e percebi: a tristeza até pode ser forte, mas não tem pernas para acompanhar quem decide continuar a andar.


Sanzalando

12 de julho de 2026

Pertinências 17 - O Papel do Jornalismo em Tempos Sombrios"

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas






O programa Pertinências transmite, em diferido, a tertúlia "O Papel do Jornalismo em Tempos Sombrios", que teve como convidada a jornalista da revista Visão, Alexandra Correia.
A conversa abordou os desafios que o jornalismo enfrenta na atualidade, desde a desinformação e a proliferação das redes sociais até à importância da liberdade de imprensa e do rigor informativo.
A iniciativa foi organizada pelo Clube dos Poetas Vivos, no âmbito do Philosophy Spring Festival.

Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.


Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Imperdível



Sanzalando

11 de julho de 2026

Não vale nada fugir ao tempo

No dia em que a minha amiga decidiu fugir, ela não fez as malas. Ela levou apenas a roupa do corpo, a carteira e uma determinação feroz de deixar o passado para trás. 
- Não olho mais para trás - decretou para si mesma, pisando no acelerador do seu corpo. Ela queria fugir da rotina, das cobranças, dos olhares e, acima de tudo, do tempo que parecia correr depressa demais na cidade da vida.
Cinco quilómetros depois, uma primeira paragem para abastecer o olhar e repousar o corpo do cansaço, Ela olhou para o lado.
Ali, confortavelmente sentado ao seu lado e a ajustar um par de óculos de leitura imaginários, estava o Tempo. Não o tempo metafórico, mas um senhor de barba cinzenta, vestido com um fato feito de folhas de calendário e a segurar uma ampulheta como se fosse uma caneca de café.
- O que é que estás aqui a fazer? - gritou ela, assustada. - Eu fugi!
- Eu sei - disse o Tempo, bocejando. - Mas tu fugiste à pressa. E quem corre contra o tempo, acaba por me levar de boleia. Tu não olhaste para trás, mas eu estava no banco da tua frente.
Ela tentou ignorar a assombração cronológica e continuou o caminho para bem longe, em direção a um outro qualquer litoral. Pensou que, se vivesse sem horários, ele acabaria por desaparecer.
Não funcionou.
No dia seguinte, na praia, ela decidiu relaxar e não fazer absolutamente nada durante horas. Olhou para o lado e o Tempo estava deitado numa espreguiçadeira, a banhar-se em protetor solar fator 50.
- Ah, o ócio! - exclamou o Tempo, satisfeito. - Adoro quando não fazes nada. É aí que eu passo mesmo devagarinho. Repara como este minuto está a parecer uma hora?
Irritada, ela decidiu mudar de estratégia. Começou a fazer tudo a correr. Comeu o pequeno-almoço em trinta segundos, correu dez quilómetros na areia e limpou o quarto da vida duas vezes. Quando olhou para o lado, o Tempo estava a fazer flexões ao ritmo de uma música de aeróbica dos anos 80.
- Uau! - disse o Tempo, transpirando ponteiros. - Assim passamos num sopro! Já é noite, viste? Nem deste por ela!
Ela percebeu que não importava o quanto rápido corria, para onde viajava ou o quanto tentava ignorar o relógio. O Tempo era o passageiro mais fiel e irritante que ela alguma vez teria. Ele mudava de forma: às vezes pesado como chumbo quando ela estava aborrecida, às vezes veloz como um foguetão quando ela se estava a divertir.
Uma noite, sentada num restaurante a beber um copo de vinho e a ver o pôr do sol, ela parou de lutar. Olhou para o Tempo, que agora operava o saca-rolhas com uma precisão cirúrgica.
- Sabes - disse ela, a sorrir pela primeira vez em dias - eu fugi para não te ver passar.
O Tempo serviu o vinho, sentou-se e cruzou as pernas.
- O teu erro foi achar que eu estava a perseguir-te. Eu só estava a acompanhar-te. O truque não é fugir de mim. É saber o que fazer comigo enquanto estamos na estrada.
Ela brindou ao seu companheiro inevitável. Ela tinha fugido sem olhar para trás, mas percebeu que o futuro só valia a pena porque o Tempo tinha decidido ir com ela.

Sanzalando

Bom dia Mercado 16 - Rádio Portimão





Programa de Rádio feito no Mercado de Portimão, ao vivo hoje, 11 de Julho de 2026.
Convidados e música ao vivo. Tal e qual foi feito

Ouça-nos tal e qual lá estivemos







Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

10 de julho de 2026

na cozinha da avó

Anda para aqui um gajo a pensar, a ler, procurar, investigar e até consultar o Dr. Google para decifrar o segredo da longevidade e da felicidade. Perda de tempo! O segredo não está nas sementes de chia, nem no jejum intermitente, nem na kombucha, nem na alface ou no bife médio-mal passado. O segredo da verdadeira paz de espírito e do entupimento benigno das artérias esteve sempre guardado numa cozinha com cheiro a refogado, panelas de alumínio batido e num azulejo branco. Falo, pois claro, da comida da avó. A gastronomia avozística rege-se por leis da física e da matemática que desafiam a ciência moderna. A primeira grande lei é a do "Só Mais Um Bocadinho". Na mesa de uma avó, o teu prato nunca está vazio. Ele auto-regenera-se. Tu podes estar a meio de uma garfada, a lutar pela vida após três pratos de cozido, e, num milésimo de segundo em que olhas para o lado, pimba, aparece mais uma coxa de frango e duas batatas assadas. É o único lugar do universo onde a matéria se cria do nada.

- Avó, por amor de Deus, já não consigo respirar. 

- Deixa-te de fitas, que estás macilento. Olha para estes braços, parecem dois caniços. Come que isto é só substância!

A "substância", esse conceito místico. Para uma avó, "substância" é tudo aquilo que flutua em três dedos de azeite da cooperativa, e foi cozinhado em lume brando durante, no mínimo, cinco horas. Saladas? Alface? Isso é "comida de coelho" ou, na melhor das hipóteses, um enfeite que serve apenas para tapar as imperfeições da travessa. Se não faz o som de pão encharcado ao ir ao fundo do tacho, não alimenta.

Depois, há a total ausência de unidades de medida internacionais. Se tentares pedir a receita do arroz de pato ou das iscas, o diálogo será mais ou menos este

- Avó, quanto é que deito de sal?

- Ó filho, deitas um bocadinho na palma da mão, se o olhar te diz que chega, mandas lá para dentro.

- E de farinha?

- A que bastar, até a massa descolar dos dedos.

O olho da avó era mais preciso do que uma balança digital de alta precisão alemã acabadinha de comprar no super-mercado. Ela sabia, só pelo som do borbulhar do molho, se a carne estava tenra ou se precisava de mais um dente de alho que, na verdade, nunca era um dente, era a cabeça inteira, para espantar os espíritos e a tensão baixa.

O mais fascinante é que a comida da avó tinha um superpoder terapêutico. Curava desgostos de amor, exames falhados no liceu, constipações e crises existenciais. Não havia drama humano que resistisse a um prato cozinhado pela avó, uma canja com os miúdos todos lá dentro ou àquele bolo marmore que, por mais que eu tente refazer em casa, usando exatamente os mesmos ingredientes, na minha cozinha, ele fica com a consistência de um tijolo burro e na dela parecia uma nuvem caída do céu tal a leveza com que se comia.

A gastronomia da avó não se comia com o estômago; comia-se com a alma. E com um guardanapo de pano, padrão xadrez, bem encostado ao peito, enquanto ela nos olha de braços cruzados, a sorrir, a ver o prato desce de nível.

Por isso, se este fim de semana fosse visitar a avó, esquecia-me das calorias, do colesterol e deixava a balança no fundo do armário. Se ela me pusesse à frente uma travessa que daria para alimentar um quartel, eu teria que ganhar coragem e avançar. Afinal de contas, o amor mede-se em colheres de sopa. E na cozinha da avó, o amor nunca é demais.



Sanzalando

9 de julho de 2026

A Salvaguarda da Juventude Perdida

Dizem que a juventude se perde. Eu acho que ela apenas muda de esconderijo e se esconde no interior com um ar envergonhado de aparecer num corpo encarquilhado pelo tempo.

Há quem a procure nas fotografias antigas, outros nas primeiras rugas, e há ainda os mais optimistas que juram tê-la visto a passear de bicicleta, numa tarde de verão, sem qualquer compromisso marcado.

Na minha cidade, que cada vez tem menos gente, abriram até um imaginário Serviço de Salvaguarda da Juventude Perdida. Quem encontrasse um sonho esquecido, uma gargalhada sem motivo ou a coragem de começar de novo, devia entregá-los na recpeção, na Oásis, No Avenida ou até no Hotel Turismo. Mas tem gente que se perdeu e entregou na Minhota.

Mas poucos foram os que apareceram.

Não porque a juventude tivesse desaparecido, mas porque todos a tinham encontrado em segredo e tiveram medo de a desbaratar em vazios fazeres de contestar.

Um homem de setenta anos comprou uma guitarra. Uma senhora de rugas na idade decidiu aprender a nadar. Um avô começou a escrever histórias para mais tarde os netos recordarem. Uma rapariga desligou o telemóvel para ouvir o silêncio que lhe dizem que os pais tinham. Um rapaz descobriu que falhar também era uma maneira de crescer como haviam crescido tantos que noutras eras haviam falhado.

No final do dia, o diretor do serviço fechou as portas e escreveu no relatório:

- Caso encerrado. A juventude nunca esteve perdida. Apenas precisava de autorização para reaparecer e vontade de se manifestar

E talvez seja esse o maior segredo da vida: a idade soma anos, mas a juventude continua a esconder-se no primeiro sorriso que damos sem pedir licença ao calendário.



Sanzalando

8 de julho de 2026

Encerramento da Feira do Livro de Portimão - K'arranca ás Quartas 126


Sanzalando

Crónica 113 - K'arranca às Quartas 126


Sanzalando

Tesourinhos Musicais 100 - Conjunto Académico Orfeu - K'arranca às Quartas 126


Sanzalando

Esta Música tem uma História 66 -Roberto Carlos - Outra Vez - K'arranca às Quartas 126


Sanzalando

Crónicas de Carlos Osório (25) - K'arranca às Quartas 126


Sanzalando

Crónica de João Portelinha da Silva (31) - K'arranca às Quartas 126


Sanzalando

Programa K'arranca às Quartas 126





Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 01 de Julho de 2026 tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.


Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje não fizemos um programa especial, porque para além de todos os K'arranca às Quartas o serem este é de verão e verão que vale a pena ouvir. Não engorda, acompanha e ensina o pensamento a fluir. Ou não.
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que é - o gelado e a praia

Hoje não falei de livro nem de autores, foi mesmo o encerramento da Feira do Livro de Portimão 2026 que ocorreu no passado Domingo.
Hoje houve Esta Música tem uma história com Roberto Carlos e a canção Outra vez, uma colaboração com José Leite
Hoje houve Os Tesourinhos Musicais, 100º edição com o Conjunto Académico Orfeu
- João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de poesia de S. Tomé e Príncipe numa transição para outras paragens
 Crónicas de Carlos Osório, que trouxe-nos os exames e os professores e também não só.


Claro que música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira 

O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar, hoje debruçado no livro, bibliotecas e Feiras do livro ou só o livro nas várias visões da palavra


Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Pertinências 16 - As Abelhas

 No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS

 - Aos Sábados a partir das 21 horas







Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.


Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.


Porque falar por falar é conversa.
Falar com sentido… é Pertinências.


Pertinências: Onde a palavra tem lugar.


Imperdível



Sanzalando

7 de julho de 2026

eu fui ver a bola

Há quem veja futebol pela táctica. Outros pelas fintas, pelos golos ou pelo ambiente. Eu vejo pela esperança. E, curiosamente, é exatamente ela que costuma sair derrotada. Quantas vezes eu fui no campo pelado perto da esatação dos comboios ver o Matela, o Travassos, o Leopoldo ou Bitacaia se atirar no ar feito era passarinho num voo picado e segurar a bola. Ainda me lembro do Monteiro da Costo ou do Neto do Independente. Mas quem ganhava era sempre o Marcelino lá da Chela que voava mais alto.

O ritual começava sempre igual. Uma hora antes do jogo já estava convencido de que "hoje é diferente". A equipa deve ter treinado bem, o treinador, o Sr. Bauleth e o avançado prometeram marcar muitos golose até o Zé Manel Frota disse: 

- Hoje é a reviravolta da época.

Pronto. Caiu-me a armadilha.

Sento-me na micro bancada como quem vai assistir a um documentário sobre vitórias. Dez minutos depois já estou a discutir com a paciência, como se o lateral esquerdo conseguisse ouvir-me através do silêncio e transmitisse lá para dentro que a velocidade não significa jogar parado.

- Cruza a bola! - gritei como se eu percebesse o que estava a dizer

Ele não cruza.

- Agora remata! - voltei eu a gritar

Ele faz um passe para trás.

Começo a perceber que a minha equipa tem uma filosofia de jogo muito própria: fazer o adepto acreditar até ao último minuto... e desiludi-lo precisamente nesse instante.

Quando sofremos um golo, entro na fase da negociação.

-Não faz mal. Foi um acaso. O Flávio não queria fazer aquilo.

-Ainda falta muito? - pergunto ao vizinho do lado que não me responde.

Cinco minutos depois sofremos o segundo e eu já estou a procurar explicações científicas. Talvez o tereno esteja duro, ou o campo estivesse inclinado. Talvez o árbitro tenha confundido as balizas. Talvez a bola tivesse um íman escondido. Na verdade ainda não percebi se eles são mais que nós ou somos nós que não sabemos ganhar. Matela, Travassos, Leopoldo, Bitacaia e antes o Monteiro da Costa era igual. Iam buscar várias vezes a bola dentro da baliza. É curioso eu não perceber nada de futebol. Talvez o Rui Moutinho fizesse ali uns dribles para a gente dizer olé, mas afinal é o Armandinho que nos baila. 

O mais curioso é o pós-jogo. Na Oásis não se falou de mais nada. Jurei solenemente que nunca mais ia ver futebol.

- Acabou! Não volto a sofrer por isto. - disse em voz alta, mas por acaso esva sozinho a caminhar para casa cabisbacho.

Passam uns dias. Sai a convocatória para o próximo jogo que seria lá na Serra da Chela. Leio no Namibe e disse:

- Desta vez é que vai ser.

E lá estou eu, desta feita ouvido no rádio, equipado com uma fé inabalável, pronto para assistir a mais noventa minutos de terapia desportiva. O Zé Manel e o Edgar vão fazer o relato. Foi só mais uma vez. 

No fundo, o verdadeiro campeão não é quem levantou a taça. É quem continuou a acreditar depois de ver a sua equipa transformar um 0-2 num inesquecível 0-3, sempre para os lados de cima e ainda sorrir com esperança que um dia conseguiria derrotar os mapundeiros.


Sanzalando

6 de julho de 2026

a minha cidade

O parque infantil da minha cidade, que em tempos pareceu um recreio de todas as escolas, ganhou um eco tão grande que agora basta um espirro para assustar os pombos, andorinhas e borboletas durante meia hora.

Mesmo assim, quando a minha cidade existia de papel passado e assinatura reconhecida, havia dias estranhos.

No verão, que nela era em Março que até tinha Mar e Março nos cartazes por toda a cidade, chegavam carros de matrícula ASB. E a gente sorria ao ver sair deles gente branquinha que acho nunca tinham visto sol até naquele dia que chegavam na minha cidade

As ruas enchiam-se de abraços, malas, crianças aos gritos e avós a distribuir comida suficiente para alimentar um batalhão. Era a festa de família que ali tão perto se viam de ano a ano, à torreira do sol e no salgado do mar.

Durante quinze dias a cidade voltava a acreditar que podia ser uma cidade de Cê grande.

Os cafés faziam horas extraordinárias e as esplanadas passavam a ser pequenas.

A padaria esgotava o pão. A Quintanda deixava cedo de ter frescura verde e fruta de gosto. 

Ao fim da tarde os bancos de jardim tinham fila de espera. A avenida virava mar de gente que punha as palavras em dia num interminável gosto de estar. Fazia-se balanço da vida e até o relógio da praça parecia mexer um dos ponteiros, só para não parecer completamente desinteressado.

Mas Abril aproximava-se com a delicadeza de um carteiro que traz más notícias e as malas voltavam às bagageiras, os abraços ficavam mais demorados e os beijos secavam as lágrimas das promessas feitas. Para o ano há mais verão na minha cidade, dizia-se quando ela existia de vida passada. O tempo estava escondido porque se dizia havia tempo de sobra.

Nesse tempo a cidade não perdia habitantes apesar de haver ausências.

Agora a ausência virou constância e a cidade não existe de certidão e papel carimbado, ela é mais uma cidade de memória, com memórias nas conversas levadas pelas brisas de reencontros furtuitos em bancos de jardim de certa idade madura.

Mas eu tenho saudade dos bancos de madeira do jardim onde os meus avós se sentavam nas tardes de domingo. Eu tenho saudade dos escorregas do parque onde todos os recreios eram brincadeira de escola. Eu tenho saudade dos tempos em que o meu corpo não conhecia a força da gravidade e o meu cérebro não ouvia o chamar da terra.

A minha cidade tem ruas mas não as ruas que eu corri de sandálias e calções. Hoje as ruas são passagens de memória, becos de recordações, flashes de sonhos. Hoje a minha cidade não tem cheiro, não sabe a maresia nem tem brisa carregada de areia amarela do deserto.

O tempo pode levar habitantes, mas nunca conseguirá levar o coração da minha terra.

Esse continua sempre à espera de quem regresse… nem que seja só para matar saudades e dizer, como todos dizem, antes de voltar à estrada:

- Um dia ainda venho para cá viver.

O tempo sorri.

Já ouviu essa frase milhares de vezes.

Mas, no fundo, até ele gostava que um dia fosse verdade.



Sanzalando

5 de julho de 2026

A Saída da Missa

Se hoje é sábado eu já estou a fazer planos para amanhã. Começo o dia com o santo sacrifício da saída da missa.

A missa de domingo termina sempre da mesma maneira: com um "Ide em paz e o Senhor vos acompanhe" e dita esta frase pelo Padre Dinis eu já cheguei à Igreja faz um tempinho e estou no lado de lá da estrada, do lado da falésia, umas vezes a olhar o mar outras a olhar para dentro a imaginar.

Mal o padre diz as últimas palavras, há quem agradeça tão depressa que já vai no terceiro banco antes do coro acabar o último acorde. Parece que a fé é profunda, mas o ar cá fora é mais puro.

À porta, porém, acontece o verdadeiro milagre. Quem lá dentro esteve uma hora em silêncio transforma-se num comentador profissional da vida alheia.

— Como está?
— Vou andando...
— E o reumático?
— Anda mais depressa do que eu.

Esta seria a conversa dos mais velhos que vêm á missa das 6. Poucos estão a esta hora. É a missa dos jovens.

às seis, duas senhoras trocariam receitas de bacalhau como se estivessem a negociar tratados internacionais. A esta hora é mais o que vais fazer a seguir.

- Eu vou para a praia?

- Eu também. Vou como os colegas. E tu?

- Vou com os meus pais.

- Que achaste o serão de hoje? Não percebi onde ele queria ir...

- Não faço ideia... mas gostei muito da parte em que o padre levantou a voz. Dá sempre mais convicção.

As crianças da catequese, que sobreviveram heroicamente aos sessenta minutos sem correr pela igreja, explodem finalmente em energia. Correm pelo passeio como se alguém tivesse carregado no botão "libertar" e elas se sentem livres.

Os mais velhos, que vieram só para tomar contas das mais novas, despedem-se pela décima vez.

— Então, até para a semana!
— Se Deus quiser.
— E se a minha mulher deixar.

Toda a gente ri. Até a mulher.

Ao fim de meia hora, metade das pessoas continua à porta da igreja. Afinal, a missa durou uma hora, mas o convívio pós-missa é que é verdadeiramente eterno. É assim um repositório de conversas adiadas, de dizeres que a semana esqueceu.

E há uma conclusão inevitável: a fé reúne as pessoas lá dentro. Mas é cá fora, entre apertos de mão, gargalhadas, receitas, futebol e promessas de café que a comunidade faz o seu segundo acto litúrgico sem precisar de missal. E outros, como eu e mais alguns, ficam babados a vê-las saírem como a sua roupa dominical, o seu ar angelical e beatificadas sorrindo.

Até para a semana, na mesma saída de missa, porque agora vou para a praia ver se quem não foi à missa já lá está.


Sanzalando