Rádio Portimão
Programas K'arranca às Quartas no Blog
- Programa K'arranca às Quartas
- Programa 21
- Programa 22
- Programa 23
- Programa 24
- Programa 25
- Programa 26
- Programa 27
- Programa 28
- Programa 29
- Programa 30
- Programa 31
- Programa 32
- Programa 33
- Programa 34
- Programa 35
- Programa 36
- Programa 37
- Programa 39
- Programa 40
- Programa 41
- Programa 42
- Programa 43
- Programa 44
- Programa 45
- Programa 46
- Programa 47
- Programa 48
- Programa 49
- Programa 50
- Programa 51
- Programa 52 - ANIVERSÁRIO
- Programa 53
- Programa 54
- Programa 55
- Programa 56
- Programa 57
- Programa 58
- Programa 59
- Programa 60
- Programa 61
- Programa 62
- Programa 63
- Programa 64
- Programa 65
- Programa 66
- Programa 67
- Programa 69
- Programa 70
- Programa 71
- Programa 72
- Programa 73
- Programa 74
- Programa 75
- Programa 76
- Programa 77
- Programa 78
- Programa 79
- Programa 80
- Programa 81
- Programa 82
- Programa 83
- Programa 84
- Programa 86
- Programa 87
- Programa 88
- Programa 89
- Programa 90
- Programa 91
- Programa 92
- Programa 93
- Programa 94
- Programa 95
- Programa 96
- Programa 97
- Programa 98
- Programa 99
- Programa 100
- Programa 101
- Programa 102
- Programa 103
- Programa 104
- Programa 105
- Programa 106
- Programa 107
- Programa 108
- Programa 109
- Programa 110
- Programa 111
- Programa 112
- Programa 113
- Programa 114
- Programa 115
- Programa 116
- Programa 117
- Programa 118
- Programa 119
- Programa 120
- Programa 121
- Programa 122
- Programa 123
- Programa 124
- Programa 125
- Programa 126
- Programa 127
- Programa 128
Conversas à Mesa
PERTINÊNCIAS - um Programa de Rádio
- Pertinências 1 - Carlos Osório - Roblocks e os seus caminhos
- Pertinências 2 - Diagnóstico Dual - GRATO
- Pertinências 3 - "A Mulher (e as mulheres) segundo Fernando Pessoa"
- Pertinências 4 - Ir a Paris sem sair
- Perinências 5 - Prof. Carlos Fiolhais
- Pertinências 6 - Escritores algarvios
- Pertinências 7 - Equipes de Rua - GRATO
- Pertinências 8 - Rastreio e Prevenção do cancro do colon e recto
- PERTINÊNCIAS 9 - Enredados nas Palavras - Dulce Maria Cardoso
- PERTINÊNCIAS 10 - H(á) Mercado - Brasa Doirada
- PERTINÊNCIAS 11
- PERTINÊNCIAS 12
- PERTINÊNCIAS 13 - Por Dentro do CHEGA
- Pertinências 14 - Epicuro e Epicurismo Por Gabriela Baião
- Pertinências 15
- Pertinências 16 - As Abelhas
- Pertinências 17 - O Papel do Jornalismo em Tempos Sombrios"
- Pertinências 18 - James McSill
22 de julho de 2026
Programa 128 - K'arranca às Quartas
20 de julho de 2026
abraço pensado
Dizem os entendidos em física que nada viaja mais rápido do que a luz. Claramente, esses cientistas nunca experimentaram a velocidade a que a saudade aperta quando se está longe de quem se gosta. A saudade é aquele passageiro clandestino que se instala sem pedir licença, toma conta do peito e, se não tivermos cuidado, ainda nos faz suspirar para a janela como se estivéssemos num momento trágico dos anos 70 do século passado.
Mas a distância, essa grande desenhadora de mapas e fazedora de quilómetros, cometeu um erro grave ao subestimar a ferramenta mais poderosa do ser humano, a imaginação sem vergonha nenhuma.
Quando os quilómetros teimam em fazerem-se de fortes, a mente assume o papel de engenheira de pontes invisíveis. Afinal, a geografia é apenas uma convenção burocrática inventada por quem desenha mapas. No mundo real do pensamento, a física quântica é um jogo de crianças. Na impossibilidade de dobrar o espaço-tempo ou de inventar uma máquina de teletransporte que, convenhamos, estaria constantemente avariada ou presa na alfândega, a mente desenvolve os seus próprios truques de ilusionismo. De repente, aquela chávena de café de manhã não é tomada a solo. A mente encarrega-se de puxar a cadeira em frente e colocar lá o sorriso de quem está longe. O café continua a ser um expresso normal, mas o sabor passa a ser o de uma conversa cruzada a uns tantos fusos horários de distância. Fecha-se os olhos e, num piscar de pestanas, faz-se uma viagem e estamos lá. A gargalhada ouvida ontem ao telefone ecoa hoje na sala como se estivesse a ser emitida em som surround de alta definição. A verdadeira magia da criatividade é que ela recusa-se a aceitar o ditado longe da vista, longe do coração. Na verdade, quanto mais longe da vista, mais a mente se desdobra em acrobacias para manter tudo perto.
Criam-se piadas privadas que só o ecran do telemóvel entende, inventam-se rituais absurdos de presença à distância e descobre-se que a saudade, quando devidamente temperada com bom humor, perde aquele peso poeirento e transforma-se numa espécie de combustível. Um combustível estranho, é certo, mas capaz de fazer a mente voar por cima de qualquer oceano sem pagar taxa de bagagem de mão.
A distância pode mandar nos quilómetros, no relógio e no preço da viagem. Mas a mente? A mente ri-se do GPS, traça um atalho na imaginação e encarrega-se de encurtar o mundo até caber inteirinho dentro de um abraço pensado.
É, a minha mente, a minha imaginação, o meu sonho, tudo está numa conjugação de tempo e espaço, numa equação em que as incógnitas X ou Y não são meras ilusões, mas apenas sentimentos de simplicidade.
19 de julho de 2026
os pelos do antebraço
Há dias em que a nostalgia bate forte. Mas esqueçam que eu não vou falar da saudade da antiga namorada, do carro de juventude ou daquela viagem épica de mochila s costas. A minha nostalgia é muito mais capilar, mais localizada. Tenho saudades e assumo sem qualquer pudor de ver os pelos dos meus braços ficarem louros no verão.
Antigamente, o processo era um clássico do Mar e Março. Bastavam dois ou três dias de praia, uma pomada de sol na Praia das Miragens e o milagre acontecia: a pele ficava morena e os pelos dos braços ganhavam aquele tom dourado, digno de um anúncio a gelados nos anos 70. Olhava para os braços e sentia-me o próprio um astro de bem usar a praia. Havia ali um orgulho estival, uma medalha de ouro capilar que gritava ao mundo: Sim, eu estive ao sol e isto é pura sedução.
Corta-se o pensamento e regresso ao presente.
Hoje olhei para os meus braços sob a luz implacável do sol de julho. E o que é que vi? Oirinhos espetados nos meus antebraços? Reflexos de solstício do verão? Nada disso. Vi uma colónia de fios brancos, reluzentes, que parecem agulhas de gelo ou filamentos de lâmpadas LED de alta intensidade.
O meu corpo saltou a fase do louro-surfista e passou diretamente para a fase Pai Natal da Costa Algarvia.
O mais fascinante para não dizer assustador é a textura. O pelo branco não é um pelo normal que perdeu a cor. Não, ele ganha uma personalidade própria. Fica mais espetado, mais rebelde, com uma espessura que quase me permite sintonizar a rádio local se os apontar na direção certa. Se o braço fica moreno, então o contraste é uma obra de arte do surrealismo, pareço uma zebra invertida ou um dálmata ao contrário.
Tentei convencer-me de que isto me dá um ar interessante, uma aura de George Clooney dos trópicos, mas a verdade é que quando o vento sopra, os meus braços parecem o topo da Serra da Estrela em pleno janeiro.
Dizem que a velhice traz sabedoria. Olho para os meus braços e a única coisa que vejo é que os meus pelos decidiram reformar-se mais cedo e vestir-se de linho branco para ir jogar dominó num banco de jardim.
Tenho saudades daquele dourado, confesso. Mas, pensando bem, há que ver o lado prático: se a coisa continuar a este ritmo, no próximo inverno já nem preciso de casaco. Basta pentear os braços para o lado e fingir que estou de casaco de pele. Uma pele muito sábia, muito experiente... e irremediavelmente branca.
Pertinências 18 - James McSill e Júlia Domingues
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível
18 de julho de 2026
posfácio do livro que não escrevi
Viver a saudade misturando humor e nostalgia é uma das formas mais bonitas e saudáveis de manter o passado vivo sem ficar preso a ele. A saudade pura pode ser pesada, mas quando lhe juntamos uma pitada de ironia e um sorriso de canto de boca, ela transforma-se numa espécie de melancolia feliz.
Aqui ficam algumas pistas de como navegar nessa arte que cultivo, transformando o tenho saudade num lembras-te daquela loucura ou daquele dia?
A memória tem a mania de romantizar as coisas, mas o humor vive nos detalhes imperfeitos. Recordar o passado com nostalgia e humor exige que olhemos para quem éramos sem filtros de grandiosidade.
Viver a saudade assim é aceitar que o olho pode ficar húmido, mas a boca curva-se para cima. Não há mal nenhum em sentir um aperto no peito por um tempo que já lá vai ou por pessoas que estão longe ou que já partiram. O segredo está em olhar para trás, não com o lamento de quem perdeu, mas com a cumplicidade de quem sabe que foi muito feliz naquelas imperfeições.
Como dizia o outro, a melhor forma de honrar os bons velhos tempos é garantir que eles renderam boas novas gargalhadas cada vez que são lembrados.
17 de julho de 2026
futebol de rua
Nos anos 60, o asfalto da rua era o maior campo de futebol do mundo, e não precisava de relva, de holofotes ou de VAR. Bastava que o sol desse tréguas e que alguém abrisse a janela para dar o grito de convocatória: "Ó Manel, traz a bola!", mesmo que não fosse o Manel o dono da bola
A bola, na verdade, era um elemento de luxo. Quase sempre era de plástico leve, que fazia uma curva impossível ao mínimo sopro de vento ou, no melhor dos cenários, de couro já gasto, cosida tantas vezes que parecia ter mais cicatrizes do que os joelhos da gente. Quando não havia nenhuma das duas, jogava-se com uma meia cheia de trapos e restos de jornal. O futebol não escolhia texturas nem classes.
As balizas? Duas pedras de cada lado, ou dois casacos empilhados ou os livros da escola. A largura do golo era medida a passos, e ai de quem tentasse fazer batota:
-Isso foi golo!
- Qual golo, o tanas - palavrão não havia porque a gente não era como o Zé Malcriado!
- Passou por cima da pedra - dizia o mais espigado.
O trânsito raramente interrompia a partida. Porque na minha cidade isso era coisa de hora de almoço e fim de tarde, no chamado passeio dos tristes. De meia em meia hora, lá aparecia um carocha ou uma carrinha de caixa aberta a avançar lentamente. O jogo parava com o grito clássico: "Olha o carro!". Os jogadores encostavam-se aos muros, sentavam-se no passeio, o veículo passava, e o jogo recomeçava exatamente no mesmo segundo, com a mesma intensidade de uma final da Taça dos Campeões.
O verdadeiro perigo não eram os carros; eram as janelas das vizinhas e os muros intransponíveis.
Havia também a D. Maria, com a sua permanente impecável, feita na cabeleireira Carlota, que odiava o barulho da bola a bater no portão:
- Se a bola cai aqui dentro, furo-a! — ameaçava.
E, claro, pela lei de Murphy do futebol de rua, era precisamente para o quintal da D. Maria que a bola ia parar depois de um remate em balão. Ficava tudo em silêncio. Olhavam uns para os outros, a medir quem tinha a coragem de ir tocar à campainha ou saltar o muro. O mais novo era quase sempre o sacrificado para a missão de espionagem. E lá estava o salta-muros pronto para a confusão. Tirando um ou outro grito de vez em quando nunca ela furou a bola e nunca com ela ficou.
O jogo só terminava verdadeiramente quando acontecia uma de duas coisas ou a bola rebentava do gasto, ou a noite caía e uma mãe gritava " Jantar!"
Davam de dez a zero uns aos outros, com os pés negros do pó da rua, os sapatos esfolados na biqueira, o pavor das mães e os joelhos corados com o inevitável mercurocromo vermelho. Mas iamos para casa felizes, com a certeza absoluta de que, no dia seguinte, o campeonato recomeçava.
16 de julho de 2026
O campeão da mesa verde do Aero-Clube
Enquanto os colegas estudavam Matemática, eu calculava ângulos com uma precisão que faria inveja a qualquer professor. A diferença era que, no meu exame, se falhasse uma conta, a bola branca não tocava na terceira bola e toda a gente ria e alguns até que aplaudiam.
- Rapaz, com a quantidade de horas que passas aqui, já devias pagar renda em vez do que marca o contador. - diziam-me o encarregado daquele estabelecimento de batota e pouco aéreo, pelo menos ali.
Eu respondia que estava a investir na minha formação profissional.
E era verdade. Aprendi a perder sem fazer drama, a ganhar sem fazer alarde e, sobretudo, a fugir pela porta das traseiras quando passava algum professor ou familiar.
Um dia encontraram-me por mero acaso.
- Então, Carranca, porque não está na escola?
Olhei para a mesa, para o taco e depois para ele.
- Professor, estou numa aula prática de Física. Estamos a estudar o movimento, os choques e as leis da reflexão e refracção.
Ele sorriu, abanou a cabeça e respondeu:
- O problema é que, no fim do período, quem leva com a tabela és tu.
Tinha razão. Eu perdi o ano. Quer dizer, ele passou, eu é que não, portanto foi o ano que me perdeu.
Pouco tempo mais tarde percebi que as aulas faziam falta. Mas também descobri que o bilhar me tinha ensinado uma coisa importante: antes de cada jogada é preciso parar, pensar e escolher bem a bola. Ela, não a bola, foi a razão da tacada aos estudos ter primazia em relação à tacada de bilhar de fim de tarde, depois da voltinha dos tristes que eu em triste figura ficava na esquina a ver o carro passar.
Com muito mais estratégia eu até que apanhei o comboio e lá encontrei o tal de futuro, que não só foi promissor como me é grato olhar para todo o passado e ter orgulho de ter tido tal passado. O taco está na caixa, a mesa mantem o pano verde, algum pó e o passeio dos tristes agora dou eu com alegria estampada no rosto
15 de julho de 2026
Programa 127 - K'arranca às Quartas
14 de julho de 2026
quem me dera descriançar
13 de julho de 2026
O dia em que a tristeza se cansou de esperar
12 de julho de 2026
Pertinências 17 - O Papel do Jornalismo em Tempos Sombrios"
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Nem tudo é urgente… mas há coisas que são pertinentes.
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível
11 de julho de 2026
Não vale nada fugir ao tempo
Bom dia Mercado 16 - Rádio Portimão
10 de julho de 2026
na cozinha da avó
Anda para aqui um gajo a pensar, a ler, procurar, investigar e até consultar o Dr. Google para decifrar o segredo da longevidade e da felicidade. Perda de tempo! O segredo não está nas sementes de chia, nem no jejum intermitente, nem na kombucha, nem na alface ou no bife médio-mal passado. O segredo da verdadeira paz de espírito e do entupimento benigno das artérias esteve sempre guardado numa cozinha com cheiro a refogado, panelas de alumínio batido e num azulejo branco. Falo, pois claro, da comida da avó. A gastronomia avozística rege-se por leis da física e da matemática que desafiam a ciência moderna. A primeira grande lei é a do "Só Mais Um Bocadinho". Na mesa de uma avó, o teu prato nunca está vazio. Ele auto-regenera-se. Tu podes estar a meio de uma garfada, a lutar pela vida após três pratos de cozido, e, num milésimo de segundo em que olhas para o lado, pimba, aparece mais uma coxa de frango e duas batatas assadas. É o único lugar do universo onde a matéria se cria do nada.
- Avó, por amor de Deus, já não consigo respirar.
- Deixa-te de fitas, que estás macilento. Olha para estes braços, parecem dois caniços. Come que isto é só substância!
A "substância", esse conceito místico. Para uma avó, "substância" é tudo aquilo que flutua em três dedos de azeite da cooperativa, e foi cozinhado em lume brando durante, no mínimo, cinco horas. Saladas? Alface? Isso é "comida de coelho" ou, na melhor das hipóteses, um enfeite que serve apenas para tapar as imperfeições da travessa. Se não faz o som de pão encharcado ao ir ao fundo do tacho, não alimenta.
Depois, há a total ausência de unidades de medida internacionais. Se tentares pedir a receita do arroz de pato ou das iscas, o diálogo será mais ou menos este
- Avó, quanto é que deito de sal?
- Ó filho, deitas um bocadinho na palma da mão, se o olhar te diz que chega, mandas lá para dentro.
- E de farinha?
- A que bastar, até a massa descolar dos dedos.
O olho da avó era mais preciso do que uma balança digital de alta precisão alemã acabadinha de comprar no super-mercado. Ela sabia, só pelo som do borbulhar do molho, se a carne estava tenra ou se precisava de mais um dente de alho que, na verdade, nunca era um dente, era a cabeça inteira, para espantar os espíritos e a tensão baixa.
O mais fascinante é que a comida da avó tinha um superpoder terapêutico. Curava desgostos de amor, exames falhados no liceu, constipações e crises existenciais. Não havia drama humano que resistisse a um prato cozinhado pela avó, uma canja com os miúdos todos lá dentro ou àquele bolo marmore que, por mais que eu tente refazer em casa, usando exatamente os mesmos ingredientes, na minha cozinha, ele fica com a consistência de um tijolo burro e na dela parecia uma nuvem caída do céu tal a leveza com que se comia.
A gastronomia da avó não se comia com o estômago; comia-se com a alma. E com um guardanapo de pano, padrão xadrez, bem encostado ao peito, enquanto ela nos olha de braços cruzados, a sorrir, a ver o prato desce de nível.
Por isso, se este fim de semana fosse visitar a avó, esquecia-me das calorias, do colesterol e deixava a balança no fundo do armário. Se ela me pusesse à frente uma travessa que daria para alimentar um quartel, eu teria que ganhar coragem e avançar. Afinal de contas, o amor mede-se em colheres de sopa. E na cozinha da avó, o amor nunca é demais.
9 de julho de 2026
A Salvaguarda da Juventude Perdida
Dizem que a juventude se perde. Eu acho que ela apenas muda de esconderijo e se esconde no interior com um ar envergonhado de aparecer num corpo encarquilhado pelo tempo.
Há quem a procure nas fotografias antigas, outros nas primeiras rugas, e há ainda os mais optimistas que juram tê-la visto a passear de bicicleta, numa tarde de verão, sem qualquer compromisso marcado.
Na minha cidade, que cada vez tem menos gente, abriram até um imaginário Serviço de Salvaguarda da Juventude Perdida. Quem encontrasse um sonho esquecido, uma gargalhada sem motivo ou a coragem de começar de novo, devia entregá-los na recpeção, na Oásis, No Avenida ou até no Hotel Turismo. Mas tem gente que se perdeu e entregou na Minhota.
Mas poucos foram os que apareceram.
Não porque a juventude tivesse desaparecido, mas porque todos a tinham encontrado em segredo e tiveram medo de a desbaratar em vazios fazeres de contestar.
Um homem de setenta anos comprou uma guitarra. Uma senhora de rugas na idade decidiu aprender a nadar. Um avô começou a escrever histórias para mais tarde os netos recordarem. Uma rapariga desligou o telemóvel para ouvir o silêncio que lhe dizem que os pais tinham. Um rapaz descobriu que falhar também era uma maneira de crescer como haviam crescido tantos que noutras eras haviam falhado.
No final do dia, o diretor do serviço fechou as portas e escreveu no relatório:
- Caso encerrado. A juventude nunca esteve perdida. Apenas precisava de autorização para reaparecer e vontade de se manifestar
E talvez seja esse o maior segredo da vida: a idade soma anos, mas a juventude continua a esconder-se no primeiro sorriso que damos sem pedir licença ao calendário.
8 de julho de 2026
Programa K'arranca às Quartas 126
Pertinências 16 - As Abelhas
No dia 24 de Fevereiro, às 21 horas, começou, na Rádio Portimão, um novo programa - PERTINÊNCIAS
- Aos Sábados a partir das 21 horas
Ideias que fazem pensar. Perguntas que fazem sorrir. Respostas que… às vezes complicam.
Pertinências: Onde a palavra tem lugar.
Imperdível
7 de julho de 2026
eu fui ver a bola
Há quem veja futebol pela táctica. Outros pelas fintas, pelos golos ou pelo ambiente. Eu vejo pela esperança. E, curiosamente, é exatamente ela que costuma sair derrotada. Quantas vezes eu fui no campo pelado perto da esatação dos comboios ver o Matela, o Travassos, o Leopoldo ou Bitacaia se atirar no ar feito era passarinho num voo picado e segurar a bola. Ainda me lembro do Monteiro da Costo ou do Neto do Independente. Mas quem ganhava era sempre o Marcelino lá da Chela que voava mais alto.
O ritual começava sempre igual. Uma hora antes do jogo já estava convencido de que "hoje é diferente". A equipa deve ter treinado bem, o treinador, o Sr. Bauleth e o avançado prometeram marcar muitos golose até o Zé Manel Frota disse:
- Hoje é a reviravolta da época.
Pronto. Caiu-me a armadilha.
Sento-me na micro bancada como quem vai assistir a um documentário sobre vitórias. Dez minutos depois já estou a discutir com a paciência, como se o lateral esquerdo conseguisse ouvir-me através do silêncio e transmitisse lá para dentro que a velocidade não significa jogar parado.
- Cruza a bola! - gritei como se eu percebesse o que estava a dizer
Ele não cruza.
- Agora remata! - voltei eu a gritar
Ele faz um passe para trás.
Começo a perceber que a minha equipa tem uma filosofia de jogo muito própria: fazer o adepto acreditar até ao último minuto... e desiludi-lo precisamente nesse instante.
Quando sofremos um golo, entro na fase da negociação.
-Não faz mal. Foi um acaso. O Flávio não queria fazer aquilo.
-Ainda falta muito? - pergunto ao vizinho do lado que não me responde.
Cinco minutos depois sofremos o segundo e eu já estou a procurar explicações científicas. Talvez o tereno esteja duro, ou o campo estivesse inclinado. Talvez o árbitro tenha confundido as balizas. Talvez a bola tivesse um íman escondido. Na verdade ainda não percebi se eles são mais que nós ou somos nós que não sabemos ganhar. Matela, Travassos, Leopoldo, Bitacaia e antes o Monteiro da Costa era igual. Iam buscar várias vezes a bola dentro da baliza. É curioso eu não perceber nada de futebol. Talvez o Rui Moutinho fizesse ali uns dribles para a gente dizer olé, mas afinal é o Armandinho que nos baila.
O mais curioso é o pós-jogo. Na Oásis não se falou de mais nada. Jurei solenemente que nunca mais ia ver futebol.
- Acabou! Não volto a sofrer por isto. - disse em voz alta, mas por acaso esva sozinho a caminhar para casa cabisbacho.
Passam uns dias. Sai a convocatória para o próximo jogo que seria lá na Serra da Chela. Leio no Namibe e disse:
- Desta vez é que vai ser.
E lá estou eu, desta feita ouvido no rádio, equipado com uma fé inabalável, pronto para assistir a mais noventa minutos de terapia desportiva. O Zé Manel e o Edgar vão fazer o relato. Foi só mais uma vez.
No fundo, o verdadeiro campeão não é quem levantou a taça. É quem continuou a acreditar depois de ver a sua equipa transformar um 0-2 num inesquecível 0-3, sempre para os lados de cima e ainda sorrir com esperança que um dia conseguiria derrotar os mapundeiros.
6 de julho de 2026
a minha cidade
O parque infantil da minha cidade, que em tempos pareceu um
recreio de todas as escolas, ganhou um eco tão grande que agora basta um espirro para assustar os
pombos, andorinhas e borboletas durante meia hora.
Mesmo assim, quando a minha cidade existia de papel passado e assinatura reconhecida, havia dias estranhos.
No verão, que nela era em Março que até tinha Mar e Março nos cartazes por toda a cidade, chegavam carros de matrícula ASB. E a gente sorria ao ver sair deles gente branquinha que acho nunca tinham visto sol até naquele dia que chegavam na minha cidade
As ruas enchiam-se de abraços, malas,
crianças aos gritos e avós a distribuir comida suficiente para alimentar um
batalhão. Era a festa de família que ali tão perto se viam de ano a ano, à torreira do sol e no salgado do mar.
Durante quinze dias a cidade voltava a
acreditar que podia ser uma cidade de Cê grande.
Os cafés faziam horas extraordinárias e as esplanadas passavam a ser pequenas.
A padaria esgotava o pão. A Quintanda deixava cedo de ter frescura verde e fruta de gosto.
Ao fim da tarde os bancos de jardim tinham fila de espera. A avenida virava mar de gente que punha as palavras em dia num interminável gosto de estar. Fazia-se balanço da vida e até o relógio da praça parecia mexer um dos ponteiros, só para não parecer completamente desinteressado.
Mas Abril aproximava-se com a delicadeza de um carteiro que traz más notícias e as malas voltavam às bagageiras, os abraços ficavam mais demorados e os beijos secavam as lágrimas das promessas feitas. Para o ano há mais verão na minha cidade, dizia-se quando ela existia de vida passada. O tempo estava escondido porque se dizia havia tempo de sobra.
Nesse tempo a cidade não perdia habitantes apesar de haver ausências.
Agora a ausência virou constância e a cidade não existe de certidão e papel carimbado, ela é mais uma cidade de memória, com memórias nas conversas levadas pelas brisas de reencontros furtuitos em bancos de jardim de certa idade madura.
Mas eu tenho saudade dos bancos de madeira do jardim onde os meus avós se sentavam nas tardes de domingo. Eu tenho saudade dos escorregas do parque onde todos os recreios eram brincadeira de escola. Eu tenho saudade dos tempos em que o meu corpo não conhecia a força da gravidade e o meu cérebro não ouvia o chamar da terra.
A minha cidade tem ruas mas não as ruas que eu corri de sandálias e calções. Hoje as ruas são passagens de memória, becos de recordações, flashes de sonhos. Hoje a minha cidade não tem cheiro, não sabe a maresia nem tem brisa carregada de areia amarela do deserto.
O tempo pode levar habitantes, mas nunca conseguirá levar o coração da minha terra.
Esse continua sempre à espera de quem
regresse… nem que seja só para matar saudades e dizer, como todos dizem, antes
de voltar à estrada:
- Um dia ainda venho para cá viver.
O tempo sorri.
Já ouviu essa frase milhares de vezes.
Mas, no fundo, até ele gostava que um dia
fosse verdade.
5 de julho de 2026
A Saída da Missa
A missa de domingo termina sempre da mesma maneira: com um "Ide em paz e o Senhor vos acompanhe" e dita esta frase pelo Padre Dinis eu já cheguei à Igreja faz um tempinho e estou no lado de lá da estrada, do lado da falésia, umas vezes a olhar o mar outras a olhar para dentro a imaginar.
Mal o padre diz as últimas palavras, há quem agradeça tão depressa que já vai no terceiro banco antes do coro acabar o último acorde. Parece que a fé é profunda, mas o ar cá fora é mais puro.
À porta, porém, acontece o verdadeiro milagre. Quem lá dentro esteve uma hora em silêncio transforma-se num comentador profissional da vida alheia.
— Como está?
— Vou andando...
— E o reumático?
— Anda mais depressa do que eu.
Esta seria a conversa dos mais velhos que vêm á missa das 6. Poucos estão a esta hora. É a missa dos jovens.
às seis, duas senhoras trocariam receitas de bacalhau como se estivessem a negociar tratados internacionais. A esta hora é mais o que vais fazer a seguir.
- Eu vou para a praia?
- Eu também. Vou como os colegas. E tu?
- Vou com os meus pais.
- Que achaste o serão de hoje? Não percebi onde ele queria ir...
- Não faço ideia... mas gostei muito da parte em que o padre levantou a voz. Dá sempre mais convicção.
As crianças da catequese, que sobreviveram heroicamente aos sessenta minutos sem correr pela igreja, explodem finalmente em energia. Correm pelo passeio como se alguém tivesse carregado no botão "libertar" e elas se sentem livres.
Os mais velhos, que vieram só para tomar contas das mais novas, despedem-se pela décima vez.
— Então, até para a semana!
— Se Deus quiser.
— E se a minha mulher deixar.
Toda a gente ri. Até a mulher.
Ao fim de meia hora, metade das pessoas continua à porta da igreja. Afinal, a missa durou uma hora, mas o convívio pós-missa é que é verdadeiramente eterno. É assim um repositório de conversas adiadas, de dizeres que a semana esqueceu.
E há uma conclusão inevitável: a fé reúne as pessoas lá dentro. Mas é cá fora, entre apertos de mão, gargalhadas, receitas, futebol e promessas de café que a comunidade faz o seu segundo acto litúrgico sem precisar de missal. E outros, como eu e mais alguns, ficam babados a vê-las saírem como a sua roupa dominical, o seu ar angelical e beatificadas sorrindo.
Até para a semana, na mesma saída de missa, porque agora vou para a praia ver se quem não foi à missa já lá está.













