Dizem que a juventude se perde. Eu acho que ela apenas muda de esconderijo e se esconde no interior com um ar envergonhado de aparecer num corpo encarquilhado pelo tempo.
Há quem a procure nas fotografias antigas, outros nas primeiras rugas, e há ainda os mais optimistas que juram tê-la visto a passear de bicicleta, numa tarde de verão, sem qualquer compromisso marcado.
Na minha cidade, que cada vez tem menos gente, abriram até um imaginário Serviço de Salvaguarda da Juventude Perdida. Quem encontrasse um sonho esquecido, uma gargalhada sem motivo ou a coragem de começar de novo, devia entregá-los na recpeção, na Oásis, No Avenida ou até no Hotel Turismo. Mas tem gente que se perdeu e entregou na Minhota.
Mas poucos foram os que apareceram.
Não porque a juventude tivesse desaparecido, mas porque todos a tinham encontrado em segredo e tiveram medo de a desbaratar em vazios fazeres de contestar.
Um homem de setenta anos comprou uma guitarra. Uma senhora de rugas na idade decidiu aprender a nadar. Um avô começou a escrever histórias para mais tarde os netos recordarem. Uma rapariga desligou o telemóvel para ouvir o silêncio que lhe dizem que os pais tinham. Um rapaz descobriu que falhar também era uma maneira de crescer como haviam crescido tantos que noutras eras haviam falhado.
No final do dia, o diretor do serviço fechou as portas e escreveu no relatório:
- Caso encerrado. A juventude nunca esteve perdida. Apenas precisava de autorização para reaparecer e vontade de se manifestar
E talvez seja esse o maior segredo da vida: a idade soma anos, mas a juventude continua a esconder-se no primeiro sorriso que damos sem pedir licença ao calendário.
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