O primeiro a abandonar a cidade foi o
relógio da praça. Ouviram-se tiros, criaram-se boatos, desapareceram sentimentos e as verdades evaporaram-se num cacimbo cerrado que até hoje ninguém mais encontrou. Uns ainda vão na sua procura, mas não encontram. O espaço está, o ar desértico está, mas falta aquela coisa que a gente sentia e não explicava. As palavras não têm significado para descrever o que é a minha cidade. É só a minha cidade, num ponto paragráfico e já está dito e explicado.
E o relógio de quando em vez volta a parar. A minha cidade perdeu mais um, levado pelo tempo. Não por avaria, só mesmo porque chegou o tempo dele deixar a cidade. Um dia vai chegar o meu tempo e eu deixarei a minha cidade, mesmo que contrariado. Nunca por cansaço, apenas porque chegou o tempo.
Nunca ninguém me ouvirá dizer:
- Já vivi horas suficientes. Agora
desenrasquem-se sem mim. Mas eu sei que o tempo tem limite mesmo que incógnito.
Ninguém consegue reparar o tempo ou enganá-lo. Afinal,
naquela terra todos sabiam as horas. Eram sempre “quase hora do almoço”, “daqui
a bocadinho”, ou “já é tarde para isso”. Era assim o tempo na minha cidade antes do relógio da praça ter parado de dizer à sua gente o tempo que era. Hoje o tempo, que ninguém diz, vai levando um a um e a minha cidad, vai perdendo gente por causa do tempo que passa.
No tempo em que havia o relógio da praça, desapareciam crianças porque cresciam. Apareciam outras e outras. Hoje na minha cidade não aparecem crianças porque na minha cidade faz tempo que o tempo deixou de ter tempo para ver as crianças nascerem. Eram as pessoas da minha cidade, aquelas que respiravam o mesmo ar, que sentiam a mesma areia, que mergulhavam no mesmo mar. Hoje aquele espaço existe. Tem crianças, tem gente que mergulha no mar, que brinca, que corre, que ri que chora, mas não são da minha cidade porque a minha cidade mudou-se quando o relógio da praça deixou de dizer as horas.
É um fenómeno pouco estudado, mas muito frequente. Um rapaz de doze anos acorda um dia com vinte e cinco, milhares de quilómetros de distância. Promete voltar um dia. Depois descobre que os fins de semana também envelhecem, que os meses passam a anos e décadas depois o tempo escasseia.
Os senhores que discutiam futebol na minha cidade já foram faz tempo levados por ele, o tempo que passa. Hoje há senhores que se calhar no mesmo lugar continuam a discutir futebol, mas não são os da minha cidade.
Hoje, se encontrar alguém da minha cidade a conversa que terei será tão antiga que um dos dois vai tossir por causa do pó das palavras. Olhando para as minhas conversas conversadas em papel vejo que elas até têm musgo.
Hoje a minha cidade tem mais silêncio do que conversas. As esplanadas da vida levaram as palavras, a areia do deserto enterrou frases. Hoje sobra o silêncio que de quando em vez lhe interrompo para dizer de memória as coisas que não visitei por preguiça e que agora poderá faltar-me tempo.
Nunca ninguém arranjou um relógio novo para a praça! Se calhar não ia ser a mesma coisa e a minha cidade, esta que eu lhes estou a contar, não existiria. Nesta minha cidade os cães ladram devagar porque só os tenho na memória e esta já não corre como corriam os discos de 33 rpm nem os de 45 rpm.
Hoje a minha cidade leva cada silêncio a ser merecido.
Sanzalando
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