7 de março de 2026

eu li Luandino quando comecei a ter dinheiro

Eu, quando comecei a ganhar dinheiro, porque antes não podia, sujeito dado a leituras que me eram dadas, mas de pouco balanço, resolvi comprar o Luuanda. Cheguei em casa, sentei-me na na cadeira de cordas e abri o livro com aquela pose de quem vai resolver um algoritmo que nem sabia existia essa palavra, mas queria saber quem eram os escritores que escreveram a minha terra.

Primeiros 10 minutos li uma frase e o cérebro fazia um barulho de engrenagem enferrujada. Luandino escrevia "estória" com "e", inventava verbos que não pediam licença ao dicionário e as palavras pareciam que estavam a dançar sem música.

- Mas esse gajo está a escrever em português ou está a semear sementes de palavras no papel e eu vou ter que esperar elas cresçam? perguntei-me.

Depois de uma hora a magia começou a bater, já não estava na sala de leitura. Eu estava lá, no meio do pó da rua, a ouvir o banzé dos miúdos e o cheiro do peixe a fritar. O problema é que o Luandino tem um feitiço, ele desarruma a gramática de um jeito que a gente começa a achar que o erro é que é o certo.

Lá pelas tantas, os companheiros me gritaram vais jantar ou ficas por aqui o comer palavras?

Eu, possuído pelo espírito do Ngangula, olhou para eles e respondi: 

- Ó pá, não me venham com estórias de comer que o meu estômago está a fazer maka com a minha fome. A vida é um desassossego de palavras e eu estou aqui a "estoriar" com os meus botões!

Eles me olharam estupefactos e pararam. Nunca me tinham ouvido dizer "maka" na vida. Mas me deixaram ali a passear as palavras ou a ser passeado por elas.

O livro foi lido em três dias. No quarto dia, fui ao banco. O gerente, muito engomado, veio explicar-me as taxas de juro: 

- Veja bem, a flutuação do mercado... blá blá - por aí fora, conversa de banco

Eu, com aquela cadência que só quem leu Luandino entende, interrompi: 

- Ouça-me, deixe lá esses papéis. O que o senhor está a fazer é uma conversa de fiado, um banzé de números que não têm coração. O dinheiro é como o vento no capim: assobia mas não se apanha!

O gerente ficou mudo. Eu sai do banco a gingar, sentindo-se o dono da língua de estalar.

A Lição da Estória

Ler Luandino Vieira é um perigo público:

Risco 1:  começas a achar que a gramática tradicional é uma camisa de forças dois tamanhos abaixo do meu, que nem respirar consegues.

Risco 2: passas a ver poesia num pneu velho ou numa conversa de vizinha.

Risco 3: a boca ganha um balanço que nenhum curso de oratória consegue ensinar. Até gingas a falar.



Sanzalando

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