31 de dezembro de 2025

Esta Música tem uma História 41 - Paulo de Carvalho - Sábado à Tarde - K'arranca às Quartas 99


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Tesourinhos Musicais 74 - Celina Pereira - Programa K'arranca às Quartas 99


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Crónica de João Portelinha da Silva (5) Programa K'arranca às Quartas 99


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Crónica 87 - Programa K'arranca às Quartas 99


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Programa 99


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 31 de Dezembro - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.
Hoje tem a sorte de só ouvir música e as rubricas gravadas. A minha voz em directo por obra e graças da tecnologia não ficou registado. Coisas do mundo tecnológico!

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje fizemos um programa especial, apesar de todos os K'arranca às Quartas o serem. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr e falei do último dia do ano e das inovações
Falei do autor José Fernandes, um brasileiro dos muitos José Fernandes, que eu saiba publicou dois livros apenas e carregados de romantismo
Esta Música tem uma história trouxe Paulo de Carvalho e Sábdo à Tarde, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje com foram com a Celina Pereira, uma voz de Cabo Verde
POESIA - Quadras solitárias de Alda Lara
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de Selda, a cantora angolana que é sua sobrinha e que tem uma voz doce
e e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.
Falei Boas festas...
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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30 de dezembro de 2025

a estrela do mar

Me disseram que no fundo do oceano azul, os corais são coloridos e dançavam suavemente com a corrente. Tem peixes de todas as cores que nadavam alegremente e até tem estrela-do-mar. Será que estrela do mar também sonha?

Acho mesmo ela pensa em voar, não no ar de todas as gravidades, mas ela voa no mar.

Claro que as estrelas-do-mar não voam. Elas nem sequer nadam muito bem. Mas quem passa horas a olhar os peixes e as tartarugas, imagina como seria sentir a água a passar rapidamente por seus braços, elevando-a em direção à superfície. Será que estrela do mar tem imaginação?

Se ela pensa e tem imaginação, então ela vai pensar "eu nunca vou ser assim", enquanto olha os peixes.

Mas se ela tem pensamento e imaginação então eu vou dizer que o mar tem espírito e pode fazer-lhe  voar.

Aí ela vai-me dizer que é imaginação minha porque estrelas do mar ão voam, não têm pensamento nem imaginação.

Mas se calhar o mar tem mesmo espírito e pode não pensar que nem eu. Voar não precisa ser com asas, não precisa ter ar, basta ter liberdade. Se a estrela do mar tiver inspiração ela vai ter liberdade de voar por entre correntes, ondas e marés.

É, tem coisas entre mim e o mar que nem vou conseguir explicar. Eu sou uma estrela do mar. Eu voo, eu quase posso tocar o céu


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29 de dezembro de 2025

me entreolhei numas páginas que li

Mermão, me sentei assim de agachado nos hexágonos da marginal a ver o céu para lá da linha recta que é curva. Se me perguntares o que eu lhe estava a fazer eu te vou responder que esqueci. Pois fiquei só mesmo a olhar, assim para um livro que não foi publicado mas devia. Eu estou lá no livro às páginas tantas. Tu, mermão Dido, também lá estás. Ela não esqueceu, porque me diz que lhe fazemos parte da história. Dois que sentaram na mesma marginal e que ela foi encontrar em lugares distantes, em momentos diferentes com um denominador comum: ela. Coisas da vida. Tem sinas que não vale a pena fugir. Uns vão dizer é Karma e outros sina e eu coincidência. Seja.
Mermão, me olhei na fotografia e pensei era assim eu? Gajo bonito que nem lembro mais como eu fui. Sei, fui de sorte e de sorte tenho vivido. Sorte nos amigos e nas amigas que tenho nesta vida. Olha só esse mar calmo que me segreda as coisas e me oferece o som no seu marulhar de calma. 
Mermão, se um dia e for à ilha eu lhe vou agradecer de coração. É bonito olhar esse passado e viver este presente. 


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28 de dezembro de 2025

o intelectual

Tempos houve que o intelectual era visto como uma espécie de farol, solitário, que do alto da sua torre de marfim, lançava luz sobre a ignorância das massas. Hoje, essa imagem não só está desactualizada como é, no limite, arrogante. Numa era onde a informação é instantânea e a opinião é uma mercadoria barata, o que resta, afinal, para aquele que se dedica ao pensamento crítico?
O que mais se espera de um intelectual hoje não é que ele tenha todas as respostas, mas que saiba fazer as perguntas certas mesmo que sejam desconfortáveis. Num mundo de polarização cega, onde todos têm certezas absolutas sobre tudo, da geopolítica à virologia, o intelectual deve ser o primeiro a dizer: "É mais complexo do que parece". A sua função é resistir à sedução do simplismo e devolver ao debate a sua necessária nuance.
Espera-se que o intelectual seja um "traidor" por natureza — não dos valores éticos, mas das bolhas ideológicas. Se um pensador apenas valida o que o seu grupo político ou social quer ouvir, ele não é um intelectual; é um relações-públicas. O verdadeiro intelectual é aquele que está disposto a criticar os seus próprios aliados quando estes atropelam a coerência ou a honestidade intelectual.
De que serve uma ideia brilhante se ela estiver trancada num dialeto hermético que apenas três académicos compreendem? Espera-se que o intelectual seja um ponte. Ele deve ser capaz de traduzir a complexidade do mundo para uma linguagem que dialogue, sem com isso sacrificar o rigor. O pensamento deve servir para elevar o nível da conversa coletiva, e não para criar novos muros de exclusão social. Por fim, espera-se que ele habite a periferia do poder. O intelectual que se aproxima demasiado do trono corre o risco de se tornar um cortesão. A sua posição deve ser a de um observador atento, alguém que mantém a distância necessária para denunciar o abuso, a injustiça e, acima de tudo, a manipulação da linguagem, que é onde a tirania costuma começar. 
Em suma, o intelectual não é o dono da verdade, mas o seu eterno perseguidor. Dele não esperamos o conforto da solução, mas o desconforto da lucidez. Num tempo de algoritmos que nos dão sempre a razão, o intelectual é aquele que nos lembra de que podemos estar errados. E essa é, talvez, a maior generosidade que alguém pode oferecer à sociedade.


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22 de dezembro de 2025

Boas festas digital

Houve um tempo em que o "Boas Festas" pesava. Pesava no papel encorpado do postal, no relevo dourado da escrita e no selo que precisávamos lamber antes de confiar ao marco do correio. Hoje, o desejo de felicidade viaja à velocidade da luz, desmaterializado em pixels, mas carregando o mesmo dilema humano de sempre: como fazer-se presente quando se está ausente?

Desejar boas festas remotamente tornou-se uma espécie de coreografia digital. Há quem prefira o "bombardeio" de GIFs cintilantes nos grupos, aqueles onde o brilho da árvore de Natal virtual parece competir com a bateria do telemóvel. Há quem opte pela elegância sóbria de uma mensagem direta, personalizada, que tenta furar a barreira da frieza do ecrã com um lembrei-me de ti.

Desejar um feliz Natal remotamente é uma prova de resistência que faria o Pai Natal trocar o trenó por uma reforma antecipada nas Bahamas.

Depois temos o WhatsApp. Desejar boas festas por mensagem tornou-se uma modalidade olímpica de Copy-Paste. Há a "Mensagem Encaminhada" com aquele selo de vergonha no topo, enviada por aquele primo que claramente mandou o mesmo texto para os 457 contactos da agenda, incluindo o senhor que lhe vendeu um sofá no OLX em 2019.

No fim do dia, seja por um e-mail formal, uma mensagem de WhatsApp cheia de emojis ou uma chamada de vídeo tremida, o "Boas Festas" remoto é o nosso jeito moderno de dizer: "Eu podia estar em qualquer lugar, mas escolhi usar este segundo para te encontrar no espaço digital."

E, talvez, o segredo da magia de Natal hoje em dia não seja a conexão Wi-Fi, mas a conexão que ela permite manter viva, mesmo quando o Wi-Fi falha.


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Conversas à Mesa nº2



Programa de Rádio de Conversas à volta da Mesa - 22 de Dezembro - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.





Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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20 de dezembro de 2025

anúncio de inverno

O inverno tem destas crises de identidade. No calendário, ele já se anuncia com o rigor das sombras longas, mas aqui fora, na quase entrada da sua estação, o céu parece não se decidir entre a despedida do outono e a chegada do frio. É um dia de sol e chuva, um daqueles espetáculos meteorológicos que nos obrigam a uma dança constante com o guarda-chuva, o casaco e a gabardine.

Acordamos com luz de uma nitidez cruel. O sol de dezembro não é o sol quente e preguiçoso de agosto, é uma luz limpa, de cristal, que não aquece a pele mas ilumina cada detalhe da rua, que brilha no olhar baço de um dia que irá ser. As poças de água da noite anterior brilham como espelhos partidos no asfalto. Há uma promessa de claridade que nos engana, fazendo-nos deixar o casaco mais pesado em casa, num excesso de otimismo.

Mas a atmosfera é traiçoeira. No horizonte, as nuvens não chegam devagar; elas galopam quais cavalos à solta. São cinzentas, carregadas, com barrigas pesadas de chumbo que contrastam com o azul elétrico que ainda resiste por cima das nossas cabeças.

De repente, sem aviso de vento ou trovoada, as gotas começam a cair. É uma chuva grossa, mas iluminada. É o que os antigos chamavam de "chuva das bruxas". A cidade ganha um aspeto surrealista: as pessoas correm para as marquises enquanto os seus rostos continuam banhados por raios solares.

Há algo de profundamente poético nesta indecisão do tempo. É assim como se o céu estivesse a tentar lavar a poeira do mundo sem querer apagar a luz. O cheiro que sobe da terra mistura-se com o ar gelado, criando uma perfume que é a própria essência da mudança de estação.

Neste dia de "sim mas não", aprendemos a aceitar a impermanência. O arco-íris surge, tímido e incompleto, entre dois prédios, lembrando-nos que a beleza precisa sempre de dois elementos opostos para se manifestar. O ritmo da cidade abranda. O café da esquina enche-se de gente que olha pela montra, à espera que a nuvem passe, enquanto o sol continua a refletir-se nas chávenas.

Na entrada do inverno, estes dias servem para nos preparar. Dizem-nos que o cinzento está a chegar, sim, mas que o sol não desapareceu, apenas mudou de tática. Ele agora brinca às escondidas, aparecendo apenas o tempo suficiente para nos lembrar que, mesmo nos meses mais curtos, a luz guarda sempre um lugar na agenda.

Termina a tarde e o céu fica de um laranja dramático, lavado pela água e polido pelo frio. É o inverno a dizer-nos que, mesmo na chuva, há uma claridade que só ele sabe dar.




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19 de dezembro de 2025

ter saudade

A saudade é uma palavra que se veste de gala na língua portuguesa, se forma poesia ou romance, mas que, na verdade, prefere andar descalça pelos cantos da nossa memória. A saudade é o preço que pagamos por termos vivido algo que valeu a pena.

A saudade não é uma falta vazia. O vazio é silencioso e gelado. A saudade, pelo contrário, é barulhenta. Ela ocupa um espaço imenso na sala, senta-se à mesa connosco e insiste em recontar histórias que já sabemos de cor. É a presença de uma ausência.

Estranhamente, ela não nasce apenas do que perdemos. Existe uma saudade que é quase uma profecia: aquela que sentimos enquanto ainda abraçamos alguém, antecipando o momento em que os braços se vão soltar. É o medo de que o agora se torne num ontem depressa demais.

Tem gente que diz que a saudade dói. E dói, de facto, como um aperto na alma. Mas há uma doçura clandestina nesse aperto. Se não sentíssemos saudade, significaria que nada nos marcou, que passámos pela vida sem deixar que o mundo nos tocasse. É o cheiro da maresia ou o som de uma porta que rangia de forma específica na casa dos avós. É o eco de uma gargalhada que já não habita o presente, mas que continua a fazer vibrar o ar quando fechamos os olhos. Talvez a mais difícil de carregar, a falta que sentimos da pessoa que fomos em determinado momento da vida, antes das responsabilidades nos endurecerem a pele, nos enrugarmos de idade.

Olhamos para o mar e, mesmo sem ter ninguém do outro lado, sentimos que algo nos falta. É um estado de espírito que nos permite estar aqui, mas com o coração em algures, do outro lado. Se calhar, mesmo do outro lado de nós.

No fim de contas, a saudade é a prova viva de que o tempo não é uma linha. O passado não ficou lá trás, ele viaja connosco, guardado em frascos de perfume, em melodias de rádio e em nomes que o tempo não consegue apagar.

Ter saudade é, acima de tudo, ter para onde voltar, mesmo que esse lugar já só exista dentro de nós.



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18 de dezembro de 2025

força maninha

O quarto da minha irmã passou a cheirar a álcool e a ter um sabor de doença. É um quarto de hospital. Eu, que sou mais novo, não gosto muito daquele cheiro nem do seu sabor, para não falar de hospital. Para mim, o quarto da minha irmã deveria cheirar a bonecas, trapos e outras coisas como dantes.

A minha irmã está com uma doença, como diria a minha mãe se cá estivesse para nos mimar. É uma daquelas que pede muito descanso, mantas fofas e dias inteiros deitada a olhar para a janela e sorrir. Eu não gosto de ver ou saber que a minha irmã está pálida, mesmo sabendo que não perdeu o sentido de humor, que não é igual ao meu mas é dela mesmo. Fico assim de coração apertado como se tivesse dado um nó nos atacadores que me estrangulam até na alma.

A minha irmã não vai ficar boa num passe de mágica, mas até sorrir também com os olhos, eu vou olhar para todas as estrelas e ver qual delas lhe vai brilhar na alma e fazer pensar que não foi mais que o susto de um relâmpago que me assustou.

Força maninha, tu consegues voltar-me a sorrir também com os olhos.



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17 de dezembro de 2025

Tesourinhos Musicais 73 - Banda do Casaco - K'arranca às Quartas 98


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Livro - Djaimilia Pereira de Almeida - Esse Cabelo - K'arranca às Quartas 98


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Crónica de João Portelinha da Silva (4) - K'arranca às Quartas 98


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Crónica 86 - Programa K'arranca às Quartas 98


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Programa 98 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 17 de Dezembro - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje fizemos um programa especial, apesar de todos os K'arranca às Quartas o serem. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr e falei da Prenda, a especial 
Falei do livro Esses Cabelos de Djaimilia Pereira de Almeida
Esta Música tem uma história trouxe Roberta S'a e martinho da Vila em Me faz um dengo, numa colaboração de José Leite; 
Os Tesourinhos Musicais hoje com foram com a Banda do casaco e Nuno Rodrigues
POESIA - Versos na voz de Nuno Rodrigues, um poema de Florbela Espanca 
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de Helga Fêty, a cantora angolana que é sua filha
e e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.
Falei Boas festas...
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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16 de dezembro de 2025

e eu tive Natal, muitos

Eu não ligo ao Natal. Nada de confusões, não ligo porque não tenho o número. Tenho o do Natalino, do Dr. Jesus, o de Maria Madalena, minha mãe, mas não tenho o do Natal. Porém, todavia e por causa das coisas eu já passei por muitos natais que é o mesmo que dizer eu já tive muitos Natal, porque afinal o Natal é só um e só acontece uma vez por ano. Por isso a minha estória foi passada num desses que eu passei lá na terra.

Era véspera de Natal no deserto, um lugar onde o céu estrelado brilhava forte, mas a neve era apenas uma história contada por viajantes, livros e filmes. A areia ainda guardava o calor do dia, e o vento soprava suave, desenhando ondas douradas ao redor.

No oásis havia uma pequena aldeia e as pessoas se reuniam à volta duma fogueira. Em vez de pinheiros cobertos de branco, havia árvores, cujo nome nunca perguntei, enfeitadas com a luz da lua. As crianças não usavam casacos pesados, mas corriam descalças, rindo, com os rostos iluminados pelo fogo.

Naquela noite, uma família preparava a ceia. Não havia peru nem rabanadas, mas pão quente, tâmaras doces e leite de vaca. A minha avó contava que o Natal não precisava de frio para ser verdadeiro, precisava de partilha. Cada pessoa trazia algo simples, e tudo se tornava abundante quando colocado no mesmo tapete que servia de toalha.

Quando a lua cheia subiu alta, mesmo por cima de nós, um viajante chegou cansado. Trazia pouca bagagem e muita sede. Sem perguntas, oferecemos-lhe água e comida. Ele sorriu e contou que vinha de longe, seguindo uma estrela que parecia mais brilhante naquela noite. As crianças olharam para o céu e, pela primeira vez, repararam numa luz diferente, tranquila, quase acolhedora.

Sentados na areia, ouviram histórias de esperança, de recomeços e de um menino que nascera há muito tempo para lembrar o mundo do amor. O silêncio do deserto envolveu todos, como um abraço.

E assim foi o Natal naquele lugar onde não neva e sem frio, sem gelo, mas cheio de calor humano. Porque, mesmo no deserto, quando há partilha, acolhimento e luz, é Natal.



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15 de dezembro de 2025

eu e o cachorro-quente

Naquela noite de sábado, a feira parecia respirar preguiça. A noite tinha caído depois de um Pôr-do-Sol mágico, os bancos de madeira das arcadas estavam vazias frente à barraquinha dos cachorros-quentes do Sr. Ferrão.

Eu cheguei com a fome de quem tinha jantado um jantar leve. O cheiro do pão aquecido, da salsicha aquecida na água e da mostarda faziam-me uma qualquer promessa que se dissolver no ar e me dizia que era hora de aproveitar a não chegada de muita gente. Pedi um cachorro-quente com tudo, porque há decisões que pedem coragem. E eu além dela tinha fome. D. Lígia me reconheceu e achou estranho:

- Não jantaste, João Carlos?

Que sim, respondi meio a medo não fosse ela não querer me dar o saboroso e antecipado babar de cachorro quente. Virou-se para o marido e disse para me dar o cachorro-quente. Foi caprichado. Estava mais saboroso do que é habito. Achei eu

O Sr. Ferrão sorriu como quem me entrega um segredo. Mostarda em zigue-zague. Quando mordi, o mundo diminuiu de tamanho. O barulho da feira virou fundo musical, e cada mordidela era um acordo silencioso entre prazer e bagunça escorrendo pelos cantos da boca.

Ao meu lado, uma criança ria porque o molho escapou e pintou-me a camisa. Do outro, um casal discutia se comiam ou não com cachorro-quente, discussão antiga, com vencedores antecipado que foi quem disse que ia. Eu mastigava devagar, respeitando o ritual, sentindo o pão ceder, a salsicha responder, os sabores se encontrarem no meio do caminho.

Quando terminei, os dedos estavam sujos e o coração, limpo. Limpei as mãos num guardanapo insuficiente, como manda a tradição, e fiquei ali mais um pouco, vendo a vida passar em passos curtos. Às vezes, a felicidade cabe num pão macio, numa salsicha quente e na certeza de que, por alguns minutos, nada mais importa.



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13 de dezembro de 2025

eu e a couve-flor

O sol estava com as forças fracas, próprias de um outono quase inverno e das 9h da manhã, eu era portador de um optimismo primaveril. Era hora de eu ir ao Mercado Municipal, levando um saco de ráfia ou coisas parecida, que tinha um desenho suspeito de uma abelha com óculos de sol.

O primeiro objectivo era simples: comprar uma couve-flor quase perfeita.

- Bom dia,! Cedo hoje, hein? - cumprimentou-me o Sr. Juvenal, o homem da segurança, com um sorriso sonolento.

- Cedo, sim, Juvenal. A caçada à Brassica oleracea exige pontualidade. - respondi com a seriedade de um general prestes a entrar em batalha e mostrando toda a minha cultura que não é agrícola.

Ao entrar no mercado, mergulhei imediatamente no caos vibrante. O ar cheirava a terra fresca, coentros, e um leve toque de desespero matinal.

A primeira paragem foi na banca do Tiago, o verdadeiramente conhecido por ter o melhor repolho e o humor mais azedo da região.

- Tiago, não há couves-flores que prestam? - disparei inspecionando uma que parecia ter levado um soco.

Tiago, sem tirar os olhos do que estava a fazer, murmurou: 

- Estão ali, perto das abóboras. Não reclame, o preço está nas alturas. Culpa do tempo, dos impostos, e do meu gato que não me deixa dormir.

Suspirei. Eu sabia que o Tiago inventava histórias. Na semana passada, a desculpa foi o stress pós-traumático de uma beterraba estragada.

Dirigi-me à pilha de couves-flores, onde me deparei com sua arqui-inimiga matinal: Dona Euredice, estava a inspeccionar cada cabeça de couve-flor com a meticulosidade de um perito forense.

- Euredice! Que surpresa desagradável! Pensei que estivesse na sua casa, a meditar sobre a humildade, o reumático ou os netos que não tem - alfinetei.

Dona Euredice levantou uma sobrancelha, os óculos deslizando para a ponta do nariz:

- Meu querido. Estou apenas a garantir que esta couve-flor não tenha a mesma textura esponjosa que a sua moral. Ah, olhe! Esta aqui está perfeita!

Euredice pegou a couve-flor mais branca, mais firme e de aparência mais angelical da pilha.

Num acto de pura audácia e reflexo, estendi a mão para pegar uma segunda, igualmente majestosa, mas o cotovelo de um apressado bateu na minha sacola.

A couve-flor perfeita escorregou dos meus dedos e rolou acabando num estatelado e fragmentado.

Bem, não apenas rolou, ela ganhou impulso. Ela passou pelo pé do Tiago, que mal a notou. Ela curvou por cima de uma caixa de batatas-doces, desviou-se de um carrinho de compras e, com um toque dramático, escondeu-se sob a banca de pimentos coloridos, feita em fragalhos.

Larguei o saco, agachei-me, engatinhei, afastando as pernas das pessoas, ignorando os "Desculpe!" e "Cuidado, pá".

- Eu vi! Ela fugiu para perto do chuchus!", gritou um menino.

Dona Euredice, inicialmente chocada, agora estava a rir-se em silêncio.

Finalmente cheguei à banca dos pimentos. Olhei para o chão, mas a couve-flor não estava lá, o que estava lá eram pedaços de cérebro.

- Ei, pá, estás à procura de algum um anel de diamante? - perguntou o Sr. Domingos que vendia os pimentos, rindo.

- Perdi o meu futuro almoço! Ela... ela fugiu-me.

Nesse momento, uma senhora de chapéu grande inclinou-se, aponta para o lado e diz-me.

- Não fugiu, querido! Seu cérebro está fazendo um picado pelo mercado. Olhe lá a sujeira que fez!

Corri dali para fora, fui para a secção de pães, por outros corredores, e cheguei à seção de queijos, ofegante.

Lá estava uma tão bela Brassica oleracea, como a fugitiva branca, encostada suavemente num grande conjunto de queijos.

Peguei-a, abracei-a como se fosse um recém-nascido, uma pérola, uma pedra preciosa.

- És minha, não vai escapar de mim! Vou fazer-te em puré tão bom que o Tiago vai ter que admitir que errou nas suas inverosímeis desculpas. 

- Esta ida ao mercado hoje foi uma aventura. - disse Euredice que me olhava desde o início - Mas sugiro que lave essa coisa. Está com cheiro de Parmesão ou Estrela - continuou.

Sorri, segurando a couve-flor ligeiramente temperada com queijo.

- Prefiro pensar, Euredice, que ela apenas adquiriu um toque de sabor gourmet.

Afinal de contas eu fui ao mercado e cumpri com a minha missão


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Bom Dia Mercado 11



Programa de Rádio feito no Mercado Municipal de Portimão - 13 de Dezembro de 2025
Uma alegria ter a rádio em directo. Mercado Cheio e já com Sabores de natal e nós cheios de coisas boas. 
Ouça-nos e visite-nos



Ouça em diferido o directo de hoje
Muito bom de ouvir. Sirva-se


 





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12 de dezembro de 2025

Sabores do Mundo à Mesa

O convite dizia apenas: “Jantar em minha casa. Traz apetite e curiosidade.” Não mencionava dress code, mas percebi que era noite de aventura quando cheguei e senti, ainda no corredor, um perfume indecifrável — algo entre gengibre, manteiga quente e qualquer coisa que lembrava férias.

A porta abriu-se com a alegria de sempre, e lá estavam os amigos, cada um com o sorriso de quem já viaja há horas, embora ninguém tivesse passado da sala. A mesa era um mapa: tomates italianos conversavam com nacos mexicanos, enquanto especiarias indianas faziam uma dança silenciosa ao lado de uma travessa que, juro, parecia ter sido preparada por alguém que confundiu receita com poesia.

Começámos a provar, como quem visita cidades sem mapa, ao acaso. A primeira paragem foi Itália, bruschettas simples, mas tão boas que alguém comentou que deviam ser ilegais fora de Roma. Depois, Japão, numa salada tão leve que parecia ter sido feita para flutuar. México chegou em festa, com tacos que exigiam duas mãos e pouca vergonha. E Índia apareceu como sempre aparece na cozinha: deixando um perfume que fica na roupa, na memória e talvez na alma.

A certa altura, ninguém falava do prato que estava a comer. Falava-se da vez em que quase se perdeu um voo, da mãe que fazia bolo-bom, do medo de mudar de vida, do amor que foi e do que ainda pode vir. Descobrimos que, quando há sabores do mundo na mesa, as conversas também atravessam fronteiras.

No fim, enquanto a sobremesa francesa esperava pela devida atenção, alguém disse:
- Devíamos fazer isto mais vezes.

E era verdade. Não porque os pratos estavam perfeitos — não estavam, e talvez por isso mesmo estavam tão bons — mas porque ali, naquela mesa que parecia abarcar o planeta, percebemos que viajar não requer mala nem passaporte. Basta companhia certa, fome sincera e um punhado de especiarias.

Saí tarde, com o casaco a cheirar a histórias e a promessa silenciosa de que o mundo cabe inteiro num jantar entre amigos.

E se calhar é por isso que hoje há jantar do meu antigo serviço



Sanzalando

11 de dezembro de 2025

as pernas longas do tempo

Na minha cidade, feita de poeira e sem pressas, onde relógios brilham nos pulsos dos mais velhos, sem ansiedade impaciente, vivia um velho relojoeiro. Ele não consertava apenas engrenagens; ela ouvia o coração do tempo, até dos atrasados Cauny ou dos novíssimos Omega, dos simples aos cronômetros complicados.

Um dia, um viajante cansado, de fato cinzento e passos silenciosos, parou na porta da sua loja.

- Relojoeiro - disse o viajante, na sua voz que mais parecia com o sussurro da areia que caía numa ampulheta antiga - os meus sapatos estão gastos. Eu sigo as pernas longas do tempo, e elas nunca cansam, porém o meu relógio desde ontem que paralisou no tempo.

Ele mostrou o seu sorriso, sem largar a minúscula lente com que observava um velho relógio que também se cansara de circular ponteiros. 

- Ah, as pernas longas que o tempo tem, têm um alcance impressionante, não é?

O viajante melancólico disse que sim e continuou:

- Quando nasci, elas deram um passo. Um passo largo o suficiente para me tirar da infância num piscar de olhos, fazendo o quintal parecer subitamente pequeno. Pensei que o tempo estivesse a fugir para longe de mim.

- Muitos pensam - murmurou o relojoeiro sem tirar os olhos do tempo parado do velho relógio que tentava recriar.

 - Mas eu observei - continuou ele - e percebi que não era a velocidade. Era a escala. Em momentos de alegria, ou de espera angustiante, as pernas longas simplesmente se dobram. Elas dão um passo tão minúsculo que um único segundo se estica e se desenrola, revelando cada respiração, cada tom de cor. Um beijo pode durar uma vida, um adeus pode ser instantâneo.

O viajante olhou para a rua onde não passava ninguém e continuou:

- Agora, elas estão marcham rápido de novo. Levam as montanhas até o mar e transformam reinos em lendas antes que eu possa terminar um copo de água.

- E o que o assusta nelas agora? - perguntou o relojeiro, finalmente erguendo os olhos e largando a velha lente sobre a palma da mão que a esperava.

- O facto de que elas não têm direção - respondeu o viajante - Elas andam para a frente, mas também para trás, trazendo de volta memórias com tanta vivacidade que o passado se torna presente. Elas não me levam apenas para o futuro; elas carregam tudo. E quando elas derem o passo final de uma vida, eu me pergunto, onde elas pisarão a seguir?

O relojoeiro pousou as ferramentas, ouviu-se um clique suave do metal e disse:

- Este já tiquetaqueia de novo. Meu caro - disse ele, apontando para o coração pulsante de um relógio de pêndulo - as pernas longas do tempo nunca param. Elas não caminham sobre a poeira da Terra; elas caminham sobre o significado que damos a cada momento. Quando o seu tempo terminar, as pernas longas do tempo não desaparecem. Elas simplesmente dão o passo mais longo de todos, aquele que transforma a sua vida em história. E então, elas começam a marchar através da memória de quem fica.

O viajante sorriu pela primeira vez. 

- Então, as pernas longas do tempo são na verdade as pernas da eternidade disfarçadas?

- Não - disse o relojoeiro piscando os olhos - São apenas o ritmo da vida. Cabe a nós decidir se o próximo passo é uma corrida ou uma dança.

O viajante saiu, e o relojoeiro ouviu o passo constante e interminável das pernas longas do tempo, como se fosse um concerto de melodia tiquetaquizada  infinitamente.



Sanzalando

10 de dezembro de 2025

Programa 97 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 10 de Dezembro - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje fizemos um programa especial, apesar de todos os K'arranca às Quartas o serem. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr e se faltarem os jornais 
Falei do Bento Espinoza com as palavras de Anabela Quelhas  Esta Música tem uma história trouxe Roubei-te um Beijo de Buba Espinho, numa colaboração de José Leite; 
não faltaram os Tesourinhos Musicais hoje com The Fevers que vieram do Brasil
POESIA - ELES - Hugo Vieira Costa 
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de Té Macedo, a cantora lírica angolana
e e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.
Falei do tal telefonema anual de Boas festas...
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Livro - O Milagre de Espinosa - K'arranca às Quartas 97


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Tesourinhos Musicais 72 - The Fevers - K'arranca às Quartas 97


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Crónica de João Portelinha da Silva (3) - K'arranca às Quartas 97


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Crónica 85 - Programa K'arranca às Quartas 97


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9 de dezembro de 2025

O Grande Dia da Carta de Condução


No glorioso dia em que você finalmente ia tirar a carta de condução, parecia que o universo inteiro tinha decidido fazer testes contigo também. Logo de manhã, o despertador não tocou, talvez estivesse solidário com o meu nervosismo, e eu acordei com aquela sensação de “faltava qualquer coisa”… até lembrar que faltava tudo, principalmente sair da cama a correr, apesar de serem sete da manhã e o exame ser só às 11. Mas tal como o meu avô eu não gosto de chegar tarde e por isso duas horas antes é bom.

Chegando ao edifício das Obras Públicas, local de fazer o dito e referido exame, que eram dois, para tirar a carta de condução,  o examinador, com aquele olhar de quem já viu de tudo, disse apenas:
-  Hoje é o dia, hein? Não atropeles ninguém nem aleijes o examinador… 

- Sr. Hilário, espero não magoar ninguém nem ter que cá voltar.

- Isso é o que vamos ver. 

- Qual é o carro em vamos fazer o exame?

- No Colt do meu tio Cláudio. disse eu a pensar que ele estava a meter-se comigo, pois há mais de um mês que eu tinha lá deixado os papéis. 

- Não é no da Escola de Condução? - perguntou assim como que a fazer uma cara que não era de fazer amigos.

- Não. Não andei na escola. Eu propus-me a exame. disse eu já a ver o meu mundo a girar contra.

- Esse carro não dá. Não tem as medidas...

- Quê?! gritei eu já a tremer.

Lá me explicou que não vira os papeis e que o Colt como o Mini não podiam ser utilizados.

E agora. Sentei-me no passeio, lágrima a cair da cara muito devagar. Levantei-me, fui à Secretaria e pedi para ligar à minha mãe que estava a trabalhar nos Caminhos de Ferro. 

- Mãe. Tenho meia hora para arranjar um carro grande para fazer exame porque o do tio Cláudio não dá.

- Onde é que vou arranjar um carro agora? Olha, está ali o tio Adelino e vou pedir-lhe um conselho.

Claro que naquela altura os telefones eram fixos e as chamadas eram pedidas às telefonistas dos CTT.

- Filho, o tio Adelino vai aí ter contigo e já arranjam uma solução.

Abreviando, o tio deu o livrete, o examinador disse que sim e o exame podia começar.

Eu nunca tinha andado de Opel Kadet. 

Assim fomos para uma sala onde me fez uma série de perguntas sobre sinais, prioridades, luzes e na maquete a brincar com Dink Toys, passa este e não aquele por isto e aquilo.

O código sabia eu na ponta da língua. 

- Vamos para o carro. 

Ah, o tio Adelino deixou o carro e foi trabalhar. 

Carro a trabalhar e agora como se mete a marcha atrás para tirar do bem estacionado que estava? Pois é, não sei. No Mini e no Colt era fácil. Aqui não sei mesmo. Várias tentativas e nada. 

- Devia ter treinado. 

- Mas o senhor que sabe tudo e até é examinador pode fazer o favor de me dizer como é que é? - estava eu desesperado e ao ataque antes que me desse um ataque de nervos.

Ele tentou e nada. Sem querer ela entrou. Era assim, Puxa para cima e depois tudo para mim e depois para a frente. Totalmente ao contrário do que eu acho ser normal. 

- Como é que fizeste isso? perguntou ele quase a sair do carro.

- Simples, pensei! respondo como se estivesse num pedestal a olhar para ele de cima.

Arrancamos dali para fora. Na rotunda do Radich manda-me virar à esquerda e eu, calma e serenamente encosto à direita e preparo para contorná-la.

- Eu disse esquerda. - barafustou ele de modo intimidatório.

- Sim, e eu contorno a rotunda e vou para o parque infantil. - respondi com ar descontraído que estava a começar a ter. 

- Estaciona ali.- brusco.

Faço o pisca, parei. Sr. Hilário, não é perigoso fazer inversão de marcha aqi frente ao liceu para estacionar daquele lado e frente a um portão?

- Segue.

E eu segui

Vira para aqui, vira para ali e perto do Sporting há um lugar para estacionar e ele manda-me fazê-lo.

Eu achei um pouco apertado mas não podia esticar mais a corda. Faço o pisca e de marcha a ré vou virando o volante e fazendo as minhas medidas, mas curiosamente o carro de trás acompanhava os meus movimentos, isto é, deu-me espaço para estacionar. O Sr. Hilário saiu do carro, olhou bem e disse-me:

- Andas por aí a conduzir sem carta é?

- Não. Só no campo é que a minha mãe me ensinou a conduzir. Nunca conduzi na cidade. - afirmativo estava eu, ao mesmo tempo que estava a dizer uma grande mentira.

Agora vamos para a subida da Rua dos Pescadores para fazer o ponto de embraiagem. Se o carro não descair podemos terminar.

Fiz o ponto de embraiagem mesmo em frente ao portão da minha casa. Foi fácil.

Seguimos para as Obras Públicas e eu perguntei, já fora do carro.

- E agora como é?

- Esperas um bocado e dão-te uma guia. 

- Então posso levar o colt para casa, já encartado?

- Quem o trouxe?

- Hã? o meu tio, claro. - por acaso tinha sido eu e por isso é que eu fui antes das Obras públicas abrirem.

E assim nasceu o mais novo condutor do país, mal acabado de fazer os 18 anos, emancipado.



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7 de dezembro de 2025

a bicicleta levou-me ao Mundo

Chegado à minha idade, os anos passados num jeito tranquilo de quem já viveu muita coisa, depois de me reformar do trabalho de 40 anos, descobri que tinha tempo e muitos silêncios. Foi então que decidi tirar da garagem a velha bicicleta que nunca parou de andar, a mesma que usava, nas horas livres, mas agora para ver o mundo vais devagar.

Na primeira manhã, sai devagarinho, as pernas não reclamaram, mas logo foram-me lembrando que os movimentos não eram tão rápidos quanto o tinham sido uns anos muito atrás. O bairro onde moro parecia outro: os beirais eram trabalhados e algumas casas eram novas, árvores pareciam-me mais altas, os rostos cruzados na rua de todos os dias pareciam-me desconhecidos. A sensação de liberdade era a mesma de quando tinha 20 anos mas o olhar era agora mais apurado. Olhava e via. 

Pedalei até ao centro da cidade. Lá, crianças corriam nos passeios, os donos passeavam cães e alguns jovens faziam manobras em bicicletas modernas. Quando passavam por mim, acenaram com respeito. “Bom dia, campeão!”, disse um deles. Ri, fazia anos que não me chamavam assim. Curioso. Eu estava com tempo para ver o mundo.

Beira rio +parei e sentei-me num banco a observar a água balançando devagar. Senti o coração bater forte, não de cansaço, mas de alegria. Era como redescobrir um pedaço esquecido da vida.

A partir daquele dia, o passeio de bicicleta virou ritual. Ver o mundo passou a ser hábito. Nalguns dias ia ao parque, noutros explorava as ruas onde nunca tinha passado. Às vezes conversava com gente nova; outras vezes pedalava em silêncio, apreciando o vento no rosto e a certeza de que nunca é tarde para começar alguma aventura.

E assim, descobri que a reforma não era o fim do caminho — era só o começo de um pedal mais leve, mais livre e cheio de pequenas descobertas. Tinha um mundo enorme para conhecer



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5 de dezembro de 2025

o segredo do morro de salalé

Nas vastas terras avermelhadas da banda, mesmo onde fica a Vila que já foi Arriaga e que agora lhe chamam de Bibala, tinha um imbondeiro generosamente grande que até parecia a fortaleza do  Morro de Salalé que ficava na ponta da sua sombra. Não era apenas um monte de terra, mas uma arquitetura gigantesca, uma torre de argila pura que parecia tocar o céu. Tão antigo quanto a memória da primeira chuva, ele era a casa de milhões de salalés, os pequenos obreiros que, ao longo de séculos, teceram aquela maravilha. Apetecia fazer um telhado para evitar o desmoronamento em dia de chuva no sopé da Chela. 

Para o povo das aldeias à volta, o Morro não era só um ninho de insetos. Era o guardião do silêncio, o lugar onde a sabedoria dos mais velhos se misturava ao murmúrio incessante da natureza. Ninguém lhe tocava, pois dizia-se que lá, onde a argila era mais fina e o sol mais forte, residia o espírito de Nzinga, a rainha-mãe dos salalés, que podia conceder um único desejo a quem fosse puro de coração.

Havia na aldeia uma jovem chamada Kianda, conhecida pela sua curiosidade indomável. Enquanto os outros jovens temiam o Morro, Kianda sentia-se atraída por ele, sonhando em descobrir o segredo da rainha Nzinga. O que ela desejava não era riqueza nem poder, mas sim a capacidade de ouvir a terra, de compreender os sussurros do vento que pareciam carregar histórias esquecidas.

Num ano, a seca apertou o povo da Bibala. A água dos poços secou, e os rios encolheram-se como os cabelos dos velhos cansados. O desespero abateu-se sobre a vila. O velho Soba lembrou-se então da lenda de Nzinga e do desejo que ela podia conceder.

Kianda, movida pela compaixão, decidiu ir.

À luz da lua crescente, ela iniciou a subida. O Morro, liso e duro como pedra, parecia observá-la. Sentia os pequenos salalés a correrem por debaixo da superfície, como um coração a palpitar. Ao chegar ao topo, o ar tremeu. Não havia um palácio de rainha, nem um trono de ouro, apenas um único buraco no cume, por onde soprava um bafo quente e perfumado a terra.

Kianda ajoelhou-se e, com a voz quase sussurrada, pediu: "Rainha Nzinga, não peço por mim. Peço para que a minha gente possa ouvir onde a água se esconde, para que saibam onde cavar e onde a vida espera."

O silêncio que se seguiu foi mais alto do que qualquer grito. Sugundos depois, do buraco, subiu um ténue pó de terra avermelhada que a envolveu. Kianda desceu o Morro, vazia de esperança, mas com um estranho zumbido nos ouvidos.

Ao chegar à aldeia, notou algo novo. Quando fechava os olhos, conseguia sentir a paisagem. Ela ouvia o barulho fresco da água subterrânea a correr, como o som de um tambor distante, vindo de uma zona de mato seco.

Guiada por este novo "ouvido da terra", Kianda levou os homens para lá. E cavaram. E cavaram. Até que, finalmente, a água jorrou, pura e abundante, salvando Bibala da seca e da morte certa.

Kianda nunca mais regressou ao topo do Morro. Ela não precisava. A rainha Nzinga tinha-lhe concedido não um desejo, mas um dom: a capacidade de ser a voz da terra.

A partir desse dia, o Morro de Salalé não foi só o guardião do silêncio, mas também o sussurro da esperança. E Kianda, a "mulher que ouve a água", tornou-se a nova guardiã da sabedoria, lembrando a todos que, mesmo nos mais pequenos obreiros da natureza, se esconde o maior dos milagres.



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4 de dezembro de 2025

eu e o mar

Era ainda cedo quando cheguei à praia. A areia ainda estava fria e o vento da manhã trazia consigo o cheiro fresco de mar. Fiquei ali parado, quieto, como se tivesse medo de assustar o mar, de lhe acordar num acordar sobressaltado, daquelas calemas que vão até na falésia da fortaleza e suja a estrada de terra, pedras e mar..

O horizonte era uma linha azul infinita que parece é recta mas é curva tal e qual a terra o é. Olhos arregalados, porque sempre me disseram que o mar era grande, mas ninguém dissera que era também vivo. As ondas vinham e iam como se respirassem, e cada uma parecia querer contar-me um segredo.

Sentei-me na areia e fiquei a ouvi-las. A primeira onda contou-me sobre peixes que brilhavam como estrelas debaixo d’água. A segunda falou de barcos que cruzavam mundos. A terceira… a terceira só suspirou, como quem carrega uma saudade antiga.

- O que foi? — perguntei-lhe.

A onda não respondeu, recuou muda após tocar-me os pés suavemente. Levantei-me e entrei alguns passos no mar. A água estava fria, mas não assustadora.

- Eu não entendo — disse baixinho. — Mas prometo voltar para ouvir mais.

E foi aí que o mar, pela primeira vez, sorriu-me, com uma onda pequena e morna que me chegou aos joelhos. Era como um abraço, pensei.

Naquele dia, descobri que o mar não se vê apenas com os olhos. Vê-se com a alma, e ouve-se com o coração. E por isso, desde então, sempre que a vida me parece grande demais, eu volto à praia, sento-me na areia fria e deixo o mar contar-me mais um pedaço da sua estória infinita.



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3 de dezembro de 2025

Livro - Afonso Cruz - Programa K'arranca às Quartas 96


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Crónica de João Portelinha da Silva (2) - Programa K'arranca às Quartas 92


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Esta Música tem uma História 38 - Os Quatro e Meia - Na escola - Programa K'arranca às Quartas 96


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Tesourinhos Musicais 71 - OS Diamantes - Programa K'arranca às Quartas 96


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Crónica 84 - Programa K'arranca às Quartas 96


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Programa 96 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 26 de Novembro - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje fizemos um programa especial, apesar de todos os K'arranca às Quartas o serem. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr sobre A literatura lusófona e este Programa 
Falei do Afonso Cruz  Esta Música tem uma história trouxe os Quatro e Meia e Na escola, numa colaboração de José Leite; 
não faltaram os Tesourinhos Musicais hoje com Os Censurados
POEMA de Joaquim Pessoa - Morrer de amor é assim 
e João Portelinha da Silva, cronista no K'arranca às Quartas que falou de Agostinho Neto e António Jacinto
e e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.
Falei do quando em vez de como e do que
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

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uma esplanada na minha cidade

Na minha pacata cidade, aninhada entre o deserto e o mar, havia uma esplanada que parecia uma janela do tempo. Não era um lugar qualquer; era um ponto de encontro onde as gerações se entrelaçavam, um testemunho vivo de que o tempo, embora implacável, também podia ser generoso.

Depois do almoço o lado esquerdo da esplanada pertencia aos "Velhos Sábios". João Trindade Junior, Figueiras das Ameijoas, João Aldrabão, Artur Gomes, e mais uns quantos. Sentados em cadeiras de chapa, gastas mas confortáveis, os senhores todos com cabelos grisalhos e alguma brilhantina, olhares serenos falavam do dia. O cheiro do café e as páginas dos jornais amarrotados contrabalançavam a conversa ao tom de desafio. Ali, o João Aldrabão, um pescador que não sei se lá foi alguma vez, até parecia o Raul Gomes, pai do Artur, a falar de peixes que eram tão grandes que acho não cabiam no barco onde iam e mais com histórias de mar para dar e vender, jogava xadrez verbal com o João Trindade, benfiquista de gema, despachante de alfândega e ar muito sério porém sorriso que mostrava o desafio. Nestes tempos sem pressa, o melhor remédio é uma boa prosa e um café forte, costumava dizer o Sr.Reis, enquanto observava o movimento da rua com um sorriso enigmático e via o seu café cheio.

O lado direito eram jovens. Uns já considerados adultos outros ainda adolescentes. Era um ponto de aprendizagem, com o lado contrário e também de má linguagem, num corte e custura que nem velhas alcoviteiras. Todos eram passados a pente fino. À tarde, a esplanada começava a ganhar uma nova energia. Aos poucos, os jovens da cidade começavam a aparecer, paulatinamente ocupando o lado esquerdo porque eles eram homens de trabalho. A maior parte estudantes, uns ainda com livros outros já sem eles, gastavam o tempo até terem tempo de ir para o Áero-Clube jogar bilhar, na maior parte das vezes ao perde- paga. 

A Esplanada da Oásis deixou de ser apenas uma esplanada do café, tornou-se um símbolo de união, um lugar onde o passado e o futuro se encontravam no presente. Era um lembrete de que, apesar das diferenças de idade e de experiência, todos partilhavam a mesma humanidade, a mesma necessidade de conexão e a mesma sede de histórias para contar e ouvir. E assim, na pacata cidade, a esplanada continuou a ser um refúgio, um porto seguro onde as gerações se encontravam, aprendiam e celebravam a beleza da vida em todas as suas fases.



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2 de dezembro de 2025

o meu papagaio de papel

Numa ensolarada tarde de verão, na minha cidade de ventos do deserto onde a minha avó dizia que o que estragava tudo era o vento leste, vivia eu que além de adorar chuinga também gostava de papagaios de papel. Sempre sonhei em ter o maior e mais bonito papagaio de papel, e que voasse tão alto que pudesse tocar as nuvens.

Um dia, enquanto saboreava um gelado comprado no Tico-Tico, de morango ou baunilha por serem tão diferentes eu agora não me lembro, tive uma ideia brilhante. "E se eu fizesse um papagaio de papel que parecesse um gelado gigante?" Usei a imaginação e desenhei na cabeça um papagaio de papel com listras vermelhas e brancas, uma ponta castanha como se fosse o cone e um delicioso aroma de morango e baunilha voando no ar.

Passei a semana a desenhar e a construir o meu papagaio de gelado. Usei papel colorido, varetas leves feitas de caniço e muita cola feita de farinha. A minha mãe, habilidosa, ajudou a cortar e construir a cauda, que ela fez parecer um a derreter, escorrendo em cores berrantes.

Finalmente, o dia do papagaio ficar pronto chegou. Levei o meu papagaio de gelado para o campo aberto, perto do campo do Benfica, lá para o lado dos estaleiros do Guerra, onde não havia postes nem antenas nem outros empecilhos. Ali era eu e o meu papagaio que era diferente de todos os outros que eu já tinha visto. Ele era grande, colorido e tinha a forma de um delicioso gelado. Não, já tinha feito joeiras coloridas mas agora eu queria um papagaio de papel como um dia vi num qualquer filme de matiné, possivelmente feito em Macau ou arredores. Eu agora tinha um papagaio de papel. Joeira era para os outros. 

Segurei o fio de sapateiro com firmeza e, com um empurrão do vento, o papagaio de gelado subiu no céu. Ele dançou e girou, as cores berrantes brilhavam ao sol. Náo tinha ninguém para olhar o meu papagaio de papel, original e lindo. O papagaio subiu cada vez mais alto, até parecer um pequeno gelado a voar em direção ao sol.

Enquanto o papagaio voava, senti uma onda de felicidade. Eu tinha criado algo único, algo que trazia alegria. Veio uma rajada mais forte, dei-lhe guita, ele subiu e rodopiou numa volta gigante e se desfez com estrondo quando bateu na areia dura do velho acampamento do Guerra. O meu papagaio de papel feito em forma de gelado tinha 'derretido' ao sol da minha alegria



Sanzalando

30 de novembro de 2025

Mulher bonita não perde oportunidades

Diz-se, por aí, que mulher bonita não perde oportunidades. Que o mundo se abre, generoso, quando ela passa, como se portas se movessem sozinhas, guiadas apenas pelo som dos saltos no chão, pelo caminhar como quem voa numa passarela. Mas a verdade, a verdadeira, raramente se mostra nessa superficialidade.

Porque, na maior parte das vezes, a mulher chamada “bonita” aprendeu cedo que o brilho do olhar atrai luz e também muitas sombras. Aprendeu a medir as palavras, a escolher batalhas, a perceber que a beleza que se lhe atribui é uma carta que joga a favor apenas quando não contradiz ninguém, quando não confronta, quando não exige.

Tantas descobrem ainda jovens que os elogios são créditos que o mundo cobra depois com juros: risos forçados em diálogos que não queria ter, convites que não podia recusar, expectativas que não tinha como cumprir.

Mas também descobrem outra coisa: que a beleza que se lhes atribuí pode ser uma ponte. Muitas decidem atravessar essa ponte com a própria bagagem, a ambição, o estudo, a coragem, as quedas que poucos veem. Não aceitam nada só porque se acham bonitas. 

Crescem a ouvir que mulher bonita não perde oportunidades. Hoje, passados os anos, muitas sorriem ao pensar nisso.

Não perde, não.
Ela cria.
Ela luta.
Ela exige.
Ela escolhe.

Porque a verdadeira oportunidade não está no olhar dos outros sobre ela — mas na maneira como ela se vê.

E, quando uma mulher percebe que a sua beleza é apenas uma das muitas forças que carrega… aí sim, o mundo inteiro se torna pequeno para o tamanho das suas possibilidades.


Sanzalando

29 de novembro de 2025

numa tarde de sol

Numa tarde ensolarada, o que não era coisa rara na minha cidade, um grupo de crianças animadas decidiu ir ao parque infantil. Não, desta vez não era para chatear o Sr. Sousa, era mesmo para brincar nos baloiços, no escorrega ou no cavalinho que quase parece a querer sair dos ferros que o prendiam. Lá estava a com seu vestido vermelho, o Tó e o seu irmão Marzé, e o, bem como a, e mais uns tantos outros que éramos dez. Todos cheios de energia, o que eu penso era próprio da idade.

Assim que chegaram, a correu diretinho para o escorrega. "Quem chega primeiro?", gritou ela, e escorregou com um uhuuu! O Marzé foi logo atrás, com um sorriso enorme no rosto. Era o mais novo mas talvez o mais destemido.

Depois de muitas descidas no escorrega, todos vimos a alto nos baloiços. "Olha como eu voo alto!", enquanto dava mais balanço num jogo de corpo e pernas. O e a juntaram-se a ela, e logo os três estavam a baloiçar tão alto que parecia que iam tocar nas nuvens ou simplesmente fazer 360 graus à volta do suporte. Esses mesmo pareciam artistas de circo. 

Depois de tanto baloiçar, os três decidiram sentar na área da areia que circundava os baloiços. Tal era o cansaço. Faziam montinhos ou buracos. Ganhavam tempo para respirar com calma. Tirando estes três, os outros sete calçaram os patins e foram para o ringue patinar. Era a minha praia, já que para artista de circo e seus trapézios metiam-me medo. 

Afinal de contas era apenas um dia de sol, numa cidade do sul e todos nós tínhamos idade para isso. Hoje, acho eu, nenhum dos que por ainda andam vão ao parque infantil e ao que sei também ainda não há o parque geriátrico

Sanzalando

28 de novembro de 2025

poema à sandes de atum

Era uma vez, nuns tempos distante, um jovem muito parecidinho comigo, o típico adolescente que passava horas a jogar bilhar num tal de Aero Clube ou mergulhado nas águas azuis do seu mar, navegando nos sonhos e inspirações e nas horas ocupadas ia ao Liceu.. Mas tinha uma paixão secreta: a poesia. E, para o desespero da mãe, essa paixão  manifestava-se nos momentos mais incalculados e inesperados.

Um dia, enquanto tentava escrever um poema épico sobre a melancolia de um sanduíche de atum ou de qualquer outra conserva, viu-se em apuros. Ele estava atrasado para a escola e a sua mãe, estava prestes a explodir.

"Vais faltar à escola outra vez?!", gritou, com a paciência esgotada como um último verso antes do chapadão.

Num relâmpago de inspiração poética, respondeu:

"Ó, mãe, não sejas assim, 

Pois a musa me abraça, 

Em versos de atum, 

Estou quase no fim

Deixo a carcaça

em troco de verso algum.

Mande-me lá um."

Mãe, acostumada com os devaneios poéticos deste seu filho, apenas suspirou. "Se não apareceres aqui agora, vou-me embora e ponho-te porta fora!"

Com esta ameaça velada, desceu correndo, ainda murmurando versos sobre a efemeridade do pão com manteiga que já nem tinha atum e muito menos sardinha.

No Liceu, a situação não era muito diferente, tinha o hábito de recitar os seus poemas em voz alta, sem se importar com o lugar ou a ocasião. Durante a aula de matemática, enquanto o professor explicava a fórmula do X ao quadrado levantou a mão.

"Dr. Coutinho, posso recitar um poema sobre a beleza dos números primos?", perguntou, com os olhos brilhando e cara de felicidade.

O professor, que já conhecia a "veia artística", respondeu com um sorriso cansado: "por favor, deixe os números primos em paz por um momento e tente entender o valor de 'x' nesta equação."

Mas não desistiu. No recreio, aproximou-se dum grupo de colegas que conversavam perto da cantina.

"Ó, bravos guerreiros da escola, Que correm pelo areal, Com a fúria de um leão, E a graça dum pavão, Deixem-me lhes recitar, Um poema sobre a glória, De um golo em câmera lenta, nesta bebida sedenta que escrevi na minha velha sebenta!"

Os colegas, acostumados com as suas performances, apenas riram e continuaram a conversa.  Apenas um deles, talvez o Beto ou o Manel, a memória já não ajuda, atirou: "devias escrever um poema sobre como chutar a bola no recreio da escola e quem sabe, aprender que a vida não é só escrever?

Ele muito parecinho comigo, era terrível no futebol, sendo a bola redonda e devido ao ar dentro, lhe fugia como diabo da cruz, apenas sorriu e murmurou: "A poesia é a bola da alma, e o meu chuto é a metáfora da calma!"

Apesar das brincadeiras e da incompreensão alheia, não se abalava. Ele continuava a escrever seus poemas, sobre tudo e sobre nada, sobre o amor e a dor, sobre a vida e a morte, e até sobre a importância de usar meias limpas.

Um dia, a escola organizou um concurso de talentos. Ele, é claro, se inscreveu para recitar os seus poemas. Todos tentaram dissuadi-lo. Colegas de sala, de recreio e até a afamília.

"Tens a certeza que queres fazer isso? Talvez seja melhor outra coisa qualquer, fazer uma magia ou ficar simplesmente a assistir", foi o que mais ele ouviu.

"A poesia é a magia da alma, o instrumento do coração! Eu preciso mostrar ao mundo a beleza das palavras!", respondeu, com a convicção de um poeta em ascensão.

No dia do concurso, subiu ao palco, um pouco nervoso, mas com a cabeça erguida e um ar profissional. A plateia, composta por alunos, pais e professores, estava em silêncio. Ele respirou fundo e começou a recitar um de seus poemas mais recentes, sobre a importância de ser ele mesmo.

"No meio da multidão, 

Em busca de aprovação, 

Não te percas, ó alma, 

Em caminhos alheios, 

Pois a verdadeira beleza, 

Está em ter a certeza, 

De que cada verso, é uma flor

Uma rosa ou outro símbolo de amor!"

A princípio, houve um silêncio constrangedor. Mas, aos poucos, as pessoas começaram a rir. Não era um riso de escárnio, mas um riso de admiração e carinho. Foram-se deixado levar pela paixão e pela sinceridade do poeta e declamador.

Ao final do poema, a plateia explodiu em aplausos. surpreendido e emocionado, não conseguiu conter as lágrimas. Ele não tinha ganho o concurso, mas tinha conquistado algo muito mais valioso: o respeito e o carinho de seus colegas e professores.

A partir daquele dia, continuou a ser o poeta da escola, mas agora, com um toque de reconhecimento. Os seus colegas até começaram a pedir para ele escrever poemas sobre seus próprios dramas adolescentes, desde a paixão não correspondida até à dificuldade de tirar notas boas em química.

E, o adolescente armado em poeta, muito parecido comigo, continuou a espalhar a beleza das palavras por onde quer que fosse, mostrando a todos que a poesia pode estar em tudo, até mesmo em um sanduíche de atum.



Sanzalando

27 de novembro de 2025

O Grande banho da Marginal


Era um daqueles dias quentes em Moçâmedes, em que até as lagartixas, osgas e carochas procuram uma sombra. Eu, todo animado, decidi que nada melhor do que um mergulho na Marginal para refrescar a cabeça. Calcei as minhas chinelas, que mais tarde soube chamarem-se as havaianas mas naqueles tempos eram simplesmente chinelos de plástico, já meio gastas para não queimar os pés no asfalto quente que até parece derrete.

Quando cheguei, o mar brilhava bonito, mas as ondas estavam com uma energia que parecia ter bebido café forte! Cheio de coragem, pensei:
- Hoje eu mostro quem manda aqui! Tirei a camisa, larguei os chinelos, corri, preparei um salto tipo mergulho olímpico e... parei.  A onda parecia esperar mas zás, rebentou nas pedras e caiu como chuveiro sobre mim. Olhei o mar e pensei ele me tinha vencido. Eu não mando nada aqui..

- Só queria cumprimentar o mar - disse, tentando manter a dignidade enquanto um grupo de miúdos ria ali perto.

Não satisfeito, tentei de novo. Entrei devagarinho, calculando a maré, não escorregando nas pedras e afundei o meu corpo para fora da zona pedregosa. Respirei fundo mas assim num de repente fui atirado por outra onda desprogramada contra as pedras, hexágonos e assim ligeiramente esfolado olhei surpreendido com o boiar das minha chinelas que mais tarde eu ia saber eram havaianas irem mar fora. Elas se aguentaram no mar e eu atirado para as pedras. Elas não queriam ia à agua. Mundo contrariado.

Enquanto os miúdos, que se tinham aproximado, gritavam:
— Tio! As tuas sandálias são mais rápidas que a tua natação!

Ri com vontade de chorar e com a camisa, que sobrara porém enxarcada, caminhei para casa num andar tipo saltinhos para demorar menos tempo cada pé no chão.

Mas a verdade é que, apesar das quedas, das ondas teimosas e das sandálias fujonas… sai dali com um sorriso, andar novo e com a lição que mergulhar na marginal não era boa ideia, antes na praia que era ali tão perto. Porque banho na Marginal de Moçâmedes é assim mesmo: se não cair, não valeu!



Sanzalando

26 de novembro de 2025

Livro - A Crónica dos Bons Malandros - Mário Zambujal - K'arranca às Quartas 95


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A Crónica de João Portelinha da Silva (01) - K'arranca às Quartas 95


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Tesourinhos Musicais 70 - OS CENSURADOS - K'arranca às Quartas 95


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Esta Música tem uma História 37 - Miguel Araujo - A Incrivel História de Gabriela de Jesus - K'arranca às Quartas 95


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crónica 83 - Programa K'arranca às Quartas 95


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Programa 95 - K'arranca às Quartas


Programa de Rádio com palavras, livros e música  - 26 de Novembro - tal e qual como se fez em directo para ouvir indirectamente aqui ou em qualquer outro lugar, aos cortes ou de seguida. A opção é sua.

Ouça com atenção e pense, porque este programa faz-se pensando e como tal deve ser ouvido, com o pensamento.
Hoje fizemos um programa especial, apesar de todos os K'arranca às Quartas o serem. 
Ler só faz mal à ignorância e ouvir o K'arranca as Quartas sempre se aprende qualquer coisinha porque é um programa para ouvir com o pensamento



Hoje tivemos a Crónica ou Coluna ou seja lá o que fôr sobre "A Magia Invisível da Rádio
Falei do Livro "A Crónica dos Bons Malandros", de Mário Zambujal;  Esta Música tem uma história trouxe Miguel Araújo e "A Incrível História de Gabriela de Jesus, numa colaboração de José Leite; 
não faltaram os Tesourinhos Musicais hoje com Os Censurados
POEMA - Da Mais Alta Janela da Minha Casa - Alberto Caeiro na Voz de Mário Viegas  
e hoje foi a estreia de João Portelinha da Silva como crónista no K'arranca às Quartas
e e a música da lusofonia imprescindível nas tardes de Quarta-feira.
Falei da capacidade do Homem vencer a Máquina porque esta não tem consciência, apesar de ter saber
O K'arranca às Quartas é um programa para ouvir com ouvidos de pensar e o tema, sempre o tema de ouvir para pensar



Tudo imperdível
Mesmo assim vale a pena ouvir

Não perca e ouça a boa música que tenho para lhe dar

Sanzalando

Uma Estória de Fazer Rádio


Desde pequeno, eu gostava de falar sozinho. Conversava com o travesseiro, entrevistava o cão e fazia o relato do café da manhã. A família achava engraçado, mas só eu sabia o que aquilo significava. Um dia, sentei-me na sala e tinha nas mãos um radiozinho velho, daqueles que ainda tinham antena de metal que desaparecia dentro do rádio e um botão que fazia estática quando girava para sintonizar. Eu procurava nas três ondas a rádio que eu fazia e não encontrava. Não tinha a mínima noção que era preciso um emissor. Para onde ia o som da minha voz quando eu falava ao meu microfone que mais não era que o cartão velho de um rolo de papel higiénico?

- O rádio é magia - dizia-me. - A gente fala baixinho num canto… e chega no ouvido de alguém lá do outro lado da cidade. Pensava eu

Nunca esqueci. Cresci com essa ideia na cabeça: fazer rádio era conversar com o mundo e por isso logo que tive oportunidade lá fui pedir uma. E deram.

Consegui um estágio no RCM. Era pequeno, edifício inacabado, gente simpática. Mas, para mim, era como entrar num castelo, num palácio e aqueles eram os artistas que eu conhecia de voz. Três estúdios, sendo um minúsculo, outro médio e o grande; sala técnica comum aos três mas com seus gravadores de fita e consola independentes. O locutor punha discos e falava aos microfones, com fones enormes nos ouvido  e uma janela de vidro que separava o locutor da área técnica, quase como portal para outra dimensão.

No primeiro dia ao vivo, a voz tremeu. O microfone parecia um monstro à espera para devorar-me. Mas respirei fundo, lembrando-me das conversas com o cão e o travesseiro.

- Boa tarde, ouvintes! Eu , disse o meu nome e este é o Programa a Nossa Voz é o Mar e passou um bailinho da Madeira. Depois Tristão da Silva, Roberto Carlos e de quando em vez eu dizia uma frase para os pescadores que estavam no mar, em casa ou só a arranjar as redes.

A meio perguntei

- Alô… alguém está-me a ouvir?

Até hoje ainda não tive resposta




Sanzalando

25 de novembro de 2025

a paixão da voz fria de cacimbo

Na minha pequena cidade, onde não me lembro se as folhas caíam em tons de laranja quando chegava o cacimbo, eu vivia e convivia. Tinha para aí uns dezassete anos, cabelos castanhos sempre um pouco bagunçados a dar para o comprido e um sorriso simpático que raramente guardava. Era um sonhador, com a cabeça cheia de melodias e letras de músicas que raramente mostrava a alguém.

Meu mundo, porém, girava em torno de uma pessoa cujo o nome nem hoje consigo soletrar. Ela era como o sol de cacimbo, vibrante e cheia de vida. Os seus longos cabelos castanhos dançavam com o vento, e seu riso, quem mais não era que sorriso, me soava a melodia doce quando me era dirigido. Estávamos na mesma turma, a observava de longe, assim faz de conta era um admirador silencioso.

Eu sabia tudo sobre ela, seu amor por livros, a maneira como ela mordia o lábio quando estava concentrada, e seu sonho de viajar pelo mundo depois de se formar. Eu guardava esses detalhes no meu coração como tesouros, e a cada nova descoberta, o tal do amor crescia.

Tentei me aproximar, é claro. Nos estudos e nos trabalhos em grupo, eu garantia que estivessem no mesmo. Ela era sempre simpática, conversava com sobre as matérias e sorria de minhas piadas, às vezes sem graça, fazendo-me engraçadinho. Mas nunca passou de ser mais do que uma amizade cordial e simpática.

Uma tarde, enquanto caminhavam para casa depois da escola, sob o céu, que não sei se estava já alaranjado do pôr do sol, reuni toda a minha coragem. Lhe balbuciei o nome, senti o meu coração martelar no peito que nem piston de comboio de minério, e lhe disse que tinha escrito uma canção para ela. Tirei um papel amarrotado do bolso e tremendo comecei

Morena morena

Dos olhos galantes

Quem te deu morena

Esses diamantes

A música saída da minha boca devia parecer arrepio, tal a minha falta de jeito para ela.

Ela me olhou e disse

- Está giro.

Eu tinha mais versos para ler mas aquelas palavras, mais frias que o cacimbo, tiraram som às minhas e mudo, engoli em seco, e da minha boca saíram palavras que eu não sei como foram lá parar

- Obrigado. És a minha melhor amiga.

Ela me olhou, sorriu e disse:

-Ainda bem.

Caminhámos até a casa, sendo ela minha vizinha, sem trocar ou tropeçar qualquer palavra. Eu, sinceramente estava de rastos. À porta da minha casa despedimo-nos com um até amanhã que não tinha mais do que palavras porque era um até amanhã vazio.

Em casa o impulso foi rasgar o papel, porem, dei ao Beto no dia seguinte e uns dias depois ele gravou lá no Rádio e passámos num domingo de manhã. Nem ele sabia a estória e nem sei se ela ouviu rádio nessa manhã.

A minha versão de Júlio Dantas estava mais carregada de paixão que a dele e eu não tinha pena de mim. Mudei, cresci e os dezassete anos ficaram para sempre para trás. Nunca lhe cantei o poema, nunca mais ouvi-lhe a voz fria de cacimbo.




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