Numa esplanada, na minha pequena cidade que não era mais pequena porque o mar trazia gente até ela, três pastéis de nata estavam na mesa, cada um o seu futuro mastigador, que, como quem não quer a coisa, os deixavam a arrefecer e filosofavam.
- Digo-vos já — começou o Um, olhando para o estaladiço e vaidoso pastel que até parecia o olhava - que nasci para ser conhecido, sem condimentos nem cunhas apesar de achar que a vida sem canela, pimenta ou gidungo, é vazia.
- Discordo — respondeu o Dois, mais babando-se no seu existencialismo. O verdadeiro sentido da vida é o equilíbrio entre a massa e o conteúdo. A canela, pimenta, sal ou gindungo são meros acessórios emocionais.
O Três, que já tinha entretanto dado uma dentada indeciso, suspirou:
-Vocês falam porque ainda estão puros. Quando já se perdeu um bocado de nós, percebemos que o destino de todos é a solidão, o vazio, o insonso, a dieta pobre em quase tudo.
Entretanto, o empregado, que hoje não se chama Acácio, mas podia ser o Figueiras, aproximou-se com um café pingado.
- Então, meus senhores, estão prontos?
Os pastéis estaladiços crocantes aparentemente perderam a sua crocância e gelaram. Literalmente e metaforicamente.
- Eu ainda não fotografei o meu para o Instagram! — gritou o Um.
- Ninguém aprecia a minha complexidade interior, a utilidade de suprir o básico da existência! — lamentou-se o Dois.
- Ao menos que sejam rápidos — disse o Três enquanto devorava o seu. - Se este tivesse ao menos açúcar em pó, eu chamar-lhe-ia que nem um figo. Sempre quis saber como eram os pasteis da Metrópole..
O empregado, sem ouvir nada disto (como é hábito dos empregados), olhou-os e para a mesa ao lado. Um senhor de bigode sorriu, pediu uma nata e disse:
- Nada como um pastel de nata numa esplanada. A vida até parece melhor.
E parecia mesmo. Pelo menos durante duas dentadas e meia, enquanto o Um, o Dois e o Três se emudeceram por verem a rapidez como aquele estranho havia devorado o seu pastel, sem filosofias.
Sanzalando
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