A esplanada estava cheia. De um lado, o Sr. João, de alcunha o Malcriado, um cliente de raiz que frequenta o local pelo menos desde que eu nasci, e acredita que o café deve custar 50 centavos para sempre. Do outro, o Acácio, um empregado novo que decidiu aplicar técnicas modernas de atendimento.
Acácio aproxima-se com um bloco de notas e um sorriso de quem leu todos os manuais de hospitalidade.
- Boa tarde, senhor. Bem-vindo à nossa experiência sensorial. Posso oferecer-lhe a nossa carta de infusões botânicas ou prefere explorar a nossa seleção de grãos de origem única com notas de avelã tostada e solo vulcânico?
O Sr. João, de alcunha o Malcriado, olha para o rapaz como se ele estivesse a falar chinês.
- Ó filho, deixa lá o vulcão em paz. Quero uma bica curta, bem escaldada a chávena, que até pode ser no vulcão, e uma torrada com muita manteiga a derreter que nem lava a escorrer. Mas muita mesmo, que eu não quero uma torrada, quero uma esponja amarela fumegante.
Acácio suspira, mantendo o profissionalismo:
- Com certeza. Informo apenas que a nossa torrada é feita de pão artesanal de fermentação lenta (48 horas), com manteiga biológica de vacas de pasto, finalizada com cristais de flor de sal.
- Quarenta e oito horas para fazer um pão? - pergunta o Sr. João, de alcunha o Malcriado, chocado. - O padeiro trabalha em câmara lenta ou está maneta? E guarda o sal para as batatas, eu quero é gordura e sem flores! Pensas que eu sou quê?
Dez minutos depois, Acácio está de volta. Traz o café numa chávena de design minimalista (sem asa) e a torrada... bem, a torrada era uma estrutura arquitetónica. Três fatias de pão escuro, empilhadas, com uns raminhos de alecrim por cima para decorar.
O Sr. João, de alcunha o Malcriado, olha para a mesa. Toca na chávena e queima os dedos, já que não havia asa.
- Mas o que é isto? Onde é que se agarra esta geringonça? Agora fazem chávenas com a asa para dentro? É para beber ou para fazer um transplante de pele?
- É uma peça ergonómica, senhor - explica Acácio - Foi desenhada para que a mão sinta o calor da bebida em comunhão com o espírito.
- O meu espírito está a ficar com bolhas e está aqui está a rebentar! — grita o Sr. João, de alcunha o Malcriado. - E este mato em cima do pão? Eu pedi uma torrada, não pedi para o meu pequeno-almoço vir decorado com o jardim da rotunda nem com o matagal da virgem!
Nisto, passa uma pomba, a verdadeira dona das esplanadas. Com uma precisão de sniper, a pomba faz o que as pombas fazem, acertando precisamente no topo da arquitetura de pão artesanal de 48 horas de fabrico.
O silêncio instala-se. Acácio fica pálido. O Sr. João, de alcunha o Malcriado olha para a torrada, olha para a pomba e depois para o empregado.
— Olha, Sr.... ( os três pontos são para serem substituídos por todas as palavras do vernáculo português, inglês ou chinês - diz o sr. João, de alcunha o Malcriado, com os olhos a saltarem da cara. - Podes levar a conta para a... (continuam as palavras vernaculares conhecidas e outras que não cabem na imaginação).
- Mas senhor, eu posso trocar a torrada! Foi um acidente biológico! - disse Acácio que aprendera na escola que a paciência e a calma eram uma virtude.
- Não vale a pena — responde o Sr. João, de alcunha o Malcriado, levantando-se. A pomba foi a única que percebeu o que faltava aqui.
— O quê, senhor?
— O molho. Pelos vistos, até os pássaros acham que este teu pão de 48 horas estava um bocado seco.
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