12 de janeiro de 2026

O arco e o pião

Na minha terra não tinha sol de agosto, que era para aí em janeiro ou fevereiro que ele ia alto, mas a gente tinha escola e por isso no cacimbo de agosto a gente se encontrava na avenida ou no parque infantil. Na mão direita, trazia o meu bem mais precioso: um pião de madeira comprado no Passa Fome, com a ponta de ferro ainda brilhante de tanto bater no chão e não ficar esquecido numa qualquer gaveta, que era o que acontecia quando a gente se fartava. Às vezes eu ia para lá, avenida ou parque infantil, conduzindo o meu arco, o que me fazia ir a correr, com uma perícia que deixava os mais velhos boquiabertos, e às vezes a mim também.

- Duvido que consigas pô-lo a girar na palma da mão! - tinha sempre um que desafiava, agarrando o aro que servia de arco e ia dar uma volta enquanto eu ficava a atirar o pião.

Raramente respondia, mas enrolava a guita com o cuidado de um cirurgião, mal sabendo o futuro que estava à minha espera. Com um movimento brusco e certeiro, lançava o pião. O som parecia música: um zumbido constante enquanto a madeira rodopiava furiosamente, parecendo estática de tão rápida. Com um jeito de mestre, passava a guita por baixo do pião e elevava-o. O pião saltava para a mão, continuava a girar, provocando a primeira vaga de gargalhadas e aplausos que faziam eco no meu ego. 

Depois de meia dúzia de vezes a fazer os meus números de pião, o pessoal fartava-se e íamos fazer corrida de arcos, quando ele caía ou esbarrava tinha que se parar e acorrida terminava ali, a daquele arco. Mas não era por questão de afinação do arco, era mesmo por falta de pulmão que eu desistia à segunda ou na terceira volta. Raramente perdia o controlo. Era lindo ouvir o barulho do metal e o respirar ofegante. O suor escorria que nem mulola, mas a alegria fazia esquecer o cacimbo daquele mês de agosto.

Às vezes, exaustos, deitávamo-nos na relva, riamos só porque sim, ou então porque estávamos vivos, ou porque alguém tinha caído num rasteira gramatical ou numa poça de infantilidade. 

Quando a cor do céu passava de azul a cor de laranja, a nos dizer que ia embora, era hora de voltar para casa, arco na mão, pião no bolso e alegria na alma. 

Depois, muitos agostos depois, veio a adolescência e se foi a inocência. Nasceu a paixão e se foi a alegria infantil das tardes passadas na avenida ou no parque infantil.

As gargalhadas, quando voltavam, eram mais suaves, mais contidas e quando caminhávamos para casa, sabendo que a felicidade ia intervalar durante a noite me lembrava que anos atrás, afinal essa felicidade, cabia toda no arco de um círculo e no bico de um pião.


Sanzalando

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