15 de janeiro de 2026

o meu ferrugem de rolamentos

Não sei quantas estórias contei dos meus carros de rolamentos. Na descida dos Fonsecas, que por acaso também era a minha, era do Corado e dos Santanas, mas era assim conhecida e assim eu não vou desviar-me.  Eu tinha um carrinho de rolamentos, que tinha ido buscar à oficina do Abel, e lhe chamei de Ferrugem, era assim mais parecido com Ferrari mas era original, porque era meu, feito por mim e também por mim baptizado.

Ferrugem é claro que não tinha motor, não tinha travões para lá do tacão dos meus sapatos ou sandálias e muito menos cinto de segurança que naquela altura tudo era seguro. O volante era uma corda e mais seguro a gente não podia estar já que segurávamos a corda com duas mãos. O meu carro de rolamentos tinha uma coisa: tinha atitude. Seus rolamentos corriam numa roda viva como quem diz estou aqui mas já ali, com rapidez.

Todos os fins de tarde era corridas. Passeio de cimento lizinho que até parecia tinha sido feito de propósito para as corridas de rolamentos. Tinha o carrinho do Álvaro, do Robalo, do Corado, do Santana. Está aqui e falta alguém mas a velocidade do Ferrugem lhe deixou para trás no esquecimento. P

Tem dias ganho eu, outros ganha outro. 
— Hoje eu ganho e é só porque estou a descrever as palavras da descida com a D. Maria Guedes na janela e só abana a cabeça que estes miúdos não têm.

A simplicidade dos carros de rolamentos que a gente fazia era condicionado pelo gosto. O meu tinha direcção assistida porque era gerido com emoção, logo tinha direcção emocional.

A descida terminava numa curva a noventa graus e a velocidade tinha de ser controlada porque de contrário era um estatelado no asfalto ou no poste. 

Ferrugem deixou saudades e algumas cicatrizes. Boas memórias para além da algazarra, das reclamações vizinhas que a gente geria com um ar de inocência.

Daqueles tempo ficou uma frase:

Se a vida é uma descida, desço rindo, tendo cuidado com os rolamentos que rolam.



Sanzalando

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