2 de fevereiro de 2026

sonho sem realidade

Eu tinha para aí quinze anos e um coração com mais botões do que a camisa da farda de gala de um tropa. Cada botão era um segredo e quase todos tinham o nome dela. Bastava ela passar na frente da minha casa ou vê-la no corredor do Liceu para o ar ficar mais fino, mais assim como se alguém tivesse aberto uma janela invisível para o mar, mesmo ali, longe da praia, eu sentia cheiro a sal.

Ensaiava frases ao espelho:
“Gosto de ti.” “Queres ir dar uma volta?” “Sabes que és bonita?”

Mas na hora, a língua ficava de férias e só sobrava um “olá” torto, meio engasgado, que ela respondia com simpatia, aquela simpatia que não promete nada, mas também não magoa. E isso era o pior: não doía o suficiente para desistir, nem alegrava o bastante para sonhar.

À noite, deitado, eu inventava filmes na cabeça. Nuns, ela sorria só para mim. Noutros, ela dizia “somos só amigos”, com uma voz tão suave que parecia um pedido de desculpas. Bolas, acordava sempre antes do final. O raio da realidade tem menos imaginação que um sonho.

Ser adolescente apaixonado e não correspondido é isso. É ter um coração a fazer barulho dentro do peito, como um conjunto rock a ensaiar numa garagem, enquanto o mundo lá fora passa, distraído, sem bilhete nem interesse para o concerto.


Sanzalando

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