3 de fevereiro de 2026

eu, a memória e os nonkakus

Houve um tempo em que o mundo cabia num par de calções gastos ou já rotos e nuns pés calçados com sandálias de pneu, que na minha terra jurei chamar nonkakus. Não eram sandálias: eram armaduras. Feitas de borracha rija de pneu gasto, cheiravam a estrada e a oficina, e tinham fivelas que rangiam como se protestassem contra cada passo. Mas aguentavam tudo: espinhos, pedras, poças de água barrenta e até a queimadura do chão quente ao meio-dia.

Os calções eram curtos por necessidade e por liberdade. Curto era sinónimo de correr mais depressa. As pernas, sempre riscadas de arranhões, eram como mapas de batalhas: aqui uma queda de bicicleta, ali uma pedrada mal calculada, mais acima o arranhão dum espinho de uma silva vingativa. Cada marca tinha uma história, e todas davam direito a exagero.

Saía de casa depois do pequeno-almoço e só regressava quando o sol começava a corar o céu, com a promessa sagrada: “Já vou, mãe!”, que queria dizer “daqui a uma hora… talvez”. As sandálias de pneu batiam no chão, chap-chap como um tambor de guerra anunciando mais uma aventura: ir ao rio, jogar à bola com uma meia enrolada, subir à figueira do senhor  Martins (sempre às escondidas) ou espreitar o quintal onde diziam que havia uma cobra, que afinal era sempre um lagarto muito ofendido.

No verão, os pés ganhavam uma cor própria, uma espécie de preto-oficina, mistura de pó, suor e sol. E mesmo assim, ninguém se queixava. Porque aqueles pés sabiam o caminho para todo o lado: para a mercearia onde havia rebuçados e podia comprar fiado, para o campo de futebol improvisado, para o sítio secreto onde se guardavam berlindes e segredos. Todo o lado era o meu lado, desde que não saísse da cidade do alcatrão. Eu era menino do mato, mas só na cidade do alcatrão. Para lá dele eu era um perdido medricas de me perder e não encontrar o caminho de volta.

Hoje, quando calço sapatos sérios, desses que prometem postura e respeitabilidade, às vezes sinto a falta do barulho seco das sandálias de pneu e da leveza dos calções. Não era só roupa: era uma maneira de estar no mundo. Com os joelhos ao vento e o coração sem relógio.

E, no fundo, ainda ando por aí assim — só que agora as sandálias são invisíveis, e os calções ficaram guardados numa gaveta chamada memória, que cheira vagamente a borracha quente e a tardes sem pressa.



Sanzalando

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