24 de fevereiro de 2026

fui no comboio

Eu tenho o prazer de ter feito uma das mais espetaculares viagens de comboio do mundo. Pelo menos do meu mundo, tenha ele o tamanho que tiver. O Caminho de Ferro de Moçâmedes (CFM) não é apenas um transporte; é uma transição dramática entre o deserto e a montanha.

Na estação, antes do Sr. Alves dar a partida ao comboio eu sentia o cheiro do deserto e também o do gasóleo, porque já não me lembro do fumo do vapor daquela locomotiva preta enorme que nem gigante cabia na minha imaginação de agora. O sol ainda era uma promessa tímida no horizonte quando o comboio dá o primeiro solavanco. Pela janela, a paisagem é dominada por um vazio de gente mas ocupada por um arvoredo luxuriante que desequilibrava o deserto daquele lado da cidade. O Bero era o motor daquela revolução verde assim como depois o Rio Giraul. Quando dou por mim estava no Caraculo. A estepe, a savana o deserto, o semi-deserto, estava lá. Do outro lado do corredor eu via o Morro Maluco a nos acompanhar. Eu delirava e dizia que morro tinha pernas maiores que as minhas pois nos acompanhava, literalmente. O comboio ia em ritmo constante, aqui e ali uma apitadela, o barulho do diesel característico fazia força para puxar a meia dúzia de carruagens. Às vezes a gente cruzava num apeadeiro com três locomotivas que puxavam uns 40 vagões carregados de ferro. Eu digo uns porque me perdia sempre quando lhes queria contar.

Os passageiros partilham fatias de fruta e conversas sobre a família, enquanto o comboio corta a planície árida em direção ao interior. A gente sabe que depois de Vila Arriaga esse comboio vai sofrer.

O verdadeiro espetáculo começa quando o horizonte deixa de ser plano. À medida que nos aproximamos de Bibala, assim para vocês saberem que eu sei coisas, a locomotiva começa a "ganhar fôlego" para o que vem a seguir.

É aqui que o comboio enfrenta a Serra da Chela. A linha serpenteia como uma serpente de aço, subindo centenas de metros em poucos quilómetros. De um lado, a parede de pedra; do outro, um abismo que revela a imensidão lá embaixo. O ar torna-se subitamente mais fresco. O castanho do deserto dá lugar a tons de verde-escuro e arbustos mais densos.

O esforço do motor é audível, num batimento rítmico que parece fazer eco nas encostas rochosas. É um prodígio da engenharia que nos faz sentir minúsculos perante a geografia angolana. 

Finalmente, o terreno estabiliza. Estamos perto dos 1.700 metros de altitude. O comboio desliza agora pelo planalto da Huíla, onde o clima é temperado e a luz tem uma suavidade diferente.

Ao avistar o Lubango, a cidade estende-se num vale abraçado pelas montanhas. O Cristo Rei, no topo da serra, parece dar as boas-vindas aos viajantes que subiram do mar. A estação é um formigueiro de gente: vendedores de múcua, taxistas e famílias que se reencontram.

Eu corro para os braços do meu avô e vou de férias.





Sanzalando

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