Entrei no gabinete de urgência como quem entra num palco. Fato que parece pijama azul escuro, impecável, máscara descaída para o pescoço numa preguiça de tirar, olhar treinado para distinguir uma apendicite de uma indisposição causada por excesso de bacalhau à Brás.
Parei aos pés da marquesa, fiquei a olhar para o doente como quem olha para uma obra de arte. Em silêncio e olhar profundo.
O doente, deitado, ficou a olhar para mim como quem espera uma sentença.
Durante uns segundos, ninguém disse nada. Era um duelo silencioso: bisturi contra pânico, autoridade contra bata que estava substituída por pijama, porque é mais higiénico, cómodo e prático.
- Então, doutor? - perguntou o doente, desconfiado. - É grave?
Inclinei ligeiramente a cabeça, como se estivesse a contemplar uma obra de arte contemporânea chamada Homem Deitado nº 3.
- Hummm.
O “hummm” de um cirurgião devia vir com legenda. Pode significar “não é nada”, “vamos já abrir”, ou “onde é que eu deixei os óculos?”.
O doente engoliu em seco.
- Doutor… esse “hummm” é de quê?
- Ainda não lhe toquei, andei não vi uma única análise. Quer que seja adivinho?
Aproximei-me mais, olhar pensativo, mãos na barriga do doente e comecei a fazer perguntas. Desde sérias até as de futebol-
- Diga-me uma coisa - perguntei - Quando carrego aqui, dói?
E carreguei.
- AI! - gritou o doente.
Abanei com a cabeça, satisfeito e disse:
- Excelente.
- Excelente?! - indignou-se o paciente. - Eu estou a gritar!
- Precisamente. Se não gritasse é que eu ficava preocupado. A medicina aprecia reações. O silêncio é que é suspeito. O silêncio é coisa de estátuas. - disse na mais serena tranquilidade.
O doente ficou a olhar para mim, dividido entre o alívio e a vontade de pedir transferência.
Começou a andar de um lado para o outro, mãos atrás das costas e a fazer perguntas. Continuadamente sérias alternando com coisas banais. Até que parei, ao lado dele e olhando-o nos olhos disse
- A questão é filosófica.
- Eu preferia que fosse clínica, por isso vim ao hospital…
- Toda a boa cirurgia começa na filosofia - continuei, ignorando o olhar furioso do doente. - A pergunta não é “o que tem?”, mas “porque é que insiste em ter?”.
- Eu não insisto em nada! Eu tenho!
- Tudo aparece. A idade aparece. As rugas aparecem. As contas aparecem. O apêndice inflama-se e chamam-me.
Ao mesmo tempo sentei-me ao lado da marquesa onde estava o doente.
- Diga-me: numa escala de zero a dez, quanto dói?
- Oito.
- Oito honesto ou oito dramático?
- Oito! - já num tom mais irritado que indeciso
Suspirei e disse:
- Gosto de pacientes decididos. O problema dos sete é que são indecisos. Nem sofrem plenamente nem melhoram com convicção. - Filosofei
Fui ao computador decido e escrevi. Consegui perceber que o doente estava curioso com o que escrevia. Mas mantive o meu silêncio enquanto os dois indicadores batiam no teclado.
- O que está a escrever? - irritada voz que saiu daquela boca
- Paciente com forte vocação para queixar-se. - disse sem tirar os olhos do ecran
- Isso não é diagnóstico que se dê a um doente!
- Claro que é. A queixa é o princípio da ciência.
Levantei-me, compôs o pijama e olhei o doente de alto a baixo mais uma vez.
- Fique descansado. Vamos fazer exames.
- E se for preciso opera?
Sorri com aquela tranquilidade inquietante de quem tem um bisturi como extensão da personalidade.
- Meu caro, eu sou cirurgião. Se não operar hoje, opero amanhã. A diferença entre nós é que o senhor teme a cirurgia e eu temo um dia sem ela.
Dei dois passos em direção à porta, depois voltei atrás e, com ar conspiratório, disse:
- Mas não se preocupe. Só corto o estritamente necessário. Às vezes até menos.
Saiu do gabinete.
Acho que o doente ficou a olhar para o teto, profundamente pensativo. Nunca tinha pensado que o maior sintoma da sua doença fosse estar nas mãos de alguém tão entusiasmado com lâminas.
E suspirou:
- Se eu soubesse, tinha ficado só com o bacalhau e não tinha comido o prato de carne.
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