Quando eu era assim com barba mas sem ela, que chamavam que eu era adolescente, descobri uma coisa espantosa, os melhores livros eram sempre os proibidos.
Pronto. Naquele momento, o livro transformava-se imediatamente numa mistura de tesouro arqueológico com bomba atómica literária. Eu tinha de o ler. Era uma questão científica. Nem que tivesse que ir na Quipola a pé. Eu tinha a certeza que eu ia lhe ler.
Na minha garagem havia uma pequena biblioteca, guardada com zelo quase religioso, porque a minha mãe não queria que ninguém abrisse aquele caixote que eram os livros do meu pai. Eu achava a minha mãe pensava aquilo era perigoso só de pensar abrir. Ela conhecia-os bem e nunca tinha aberto nenhum deles.
Só me dizia
- Estes… nem pensar. - mas na verdade, mesmo estando de baixo do caixote das loiças do seu enxoval, eu conseguia tirar um de cada vez.
Ora, o problema é que “nem pensar” para um adolescente é praticamente um convite ao crime.
Um dia reparei num livro tirado ao acaso porque por acaso media-se a mão e não conseguia meter os olhos, ele chegou na minha mão inocente de juventude. Título sério, capa discreta, aquele ar de coisa perigosa. Tirei e arranjei um sítio seguro para o guardar quando não estava a ler.
Mas o raio da mãe descobre coisas e logo ao terceiro dia me disse com aqueles olhos de quem vais levar e nem sabes porquê:
— Este? Tu não tens idade para isto e eu já te avisei. Vou pegar fogo aquilo tudo e assim já não cais na tentação....
Fiquei logo convencido de que era uma obra-prima absoluta. Talvez tivesse revelações sobre a vida, o amor, a política e provavelmente três ou quatro pecados mortais e umas tantas piruetas imorais.
Passei uma semana a arquitetar um plano digno de filme policial depois de ter jurado a pés juntos que o tinha voltado a pôr no caixote e prometido que nunca mais o ia abrir.
Tudo correu bem até ao momento em que, com o livro escondido debaixo da camisola, ia a sair de casa para um encontro de amigos.
- Que tens aí?
- Nada, mãe! - e esperei que a rainha santa fizesse um novo milagre
Mas quando um adolescente diz nada, os adultos percebem logo que se trata de um problema ou qualquer coisas indevida.
Ela mandou-me abrir a camisola. Lá estava o livro, envergonhado, como um cúmplice apanhado em flagrante sem se ter transformado em rosas, nem sequer em flor de capim..
A minha mãe suspirou quase em surdina:
- Sabes qual é o problema?
Eu pensei que ia ouvir uma grande lição filosófica sobre juventude e responsabilidade, sobre a palavra e a promessa. Essas coisas de mãe..
Mas ela disse apenas:
- Tu queres sempre ler os livros mais chatos primeiro.
Fiquei desorientado, estupefacto e ao mesmo tempo mais curioso.
- Chat… chato? - disse gaguejando ao mesmo tempo surpreendido
- Claro. Esse é um tratado de economia do século XIX, uma estória de como nasceu esta cidade e os seus arredores.
Voltei para casa com o livro, decidido a provar que ela estava enganada.
Li três páginas.
Na quarta adormeci profundamente, provavelmente o único adolescente da história a ser vencido por estatísticas sobre batatas, casas e lugares que eu sabia eram passado.
Nesse dia aprendi duas lições importantes:
Alguns são apenas… terrivelmente aborrecidos.
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