11 de março de 2026

O Dia em que o Agualusa me raptou dos afazeres

Tudo começou de forma inocente. Tinha lido as grandes referência dos escritores da minha terra e havia um fulaninho da minha idade que me diziam que até que escrevia coisas giras. Peguei o livro  O Vendedor de Passados, tirei um café, já tinha deixado a era dos cimbalinos, e pensei: 
- Vou ler só vinte minutinhos antes de lavar a louça. - maneira de dizer que era pôr a louça na máquina e ela que fizesse o trabalho

Erro fatal. Cheguei à fase do "Espera, isso aconteceu?"

Lá pela página dez, comecei a franzir a testa. Agualusa tem esse hábito de descrever coisas impossíveis com a naturalidade de quem dita uma lista de compras.

  • Uma lagartixa que fala e tem crises existenciais? Check.

  • Uma mulher que vive trancada num apartamento por trinta anos enquanto o mundo acaba lá fora? Check.

  • Alguém que ganha a vida inventando árvores genealógicas para novos ricos? Absolutamente check.

Olhei para o lado, para conferir se a minha própria parede não estava prestes a dar flores ou confessar um segredo de família.

Depois de uma hora de leitura, percebi que meus pensamentos mudaram de ritmo. De repente, não estava apenas a ler português; estava a ouvir a música de Angola. Acho a música entrou no corpo vinda na forma de fantasma.

Fui até na cozinha e, em vez de pensar  que preciso lavar os pratos, minha mente sussurrou: 

- A porcelana, exausta de silêncios e gorduras, aguardava o baptismo da espuma como quem espera uma chuva de milagres em Luanda." 

A louça continuou suja. O café só não gelou porque não estava frio para isso. O sol se pôs e eu nem dei por isso, porque estava ocupado demais a tentar entender se o narrador era um homem, um fantasma ou uma metáfora bem escrita.

Ao fechar o livro, suspirei profundamente. O mundo parecia um pouco mais colorido, um pouco mais absurdo e definitivamente mais poético. Descobri  que, com o Agualusa, a verdade é apenas uma das muitas versões possíveis da mentira e a mentira dele é muito mais divertida. 

"A ficção é a única forma de dizer a verdade sem ferir ninguém." — Provavelmente algo que um personagem do Agualusa diria enquanto toma um gin.



Sanzalando

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