Erro fatal. Cheguei à fase do "Espera, isso aconteceu?"
Lá pela página dez, comecei a franzir a testa. Agualusa tem esse hábito de descrever coisas impossíveis com a naturalidade de quem dita uma lista de compras.
Uma lagartixa que fala e tem crises existenciais? Check.
Uma mulher que vive trancada num apartamento por trinta anos enquanto o mundo acaba lá fora? Check.
Alguém que ganha a vida inventando árvores genealógicas para novos ricos? Absolutamente check.
Olhei para o lado, para conferir se a minha própria parede não estava prestes a dar flores ou confessar um segredo de família.
Fui até na cozinha e, em vez de pensar que preciso lavar os pratos, minha mente sussurrou:
- A porcelana, exausta de silêncios e gorduras, aguardava o baptismo da espuma como quem espera uma chuva de milagres em Luanda."
A louça continuou suja. O café só não gelou porque não estava frio para isso. O sol se pôs e eu nem dei por isso, porque estava ocupado demais a tentar entender se o narrador era um homem, um fantasma ou uma metáfora bem escrita.
Ao fechar o livro, suspirei profundamente. O mundo parecia um pouco mais colorido, um pouco mais absurdo e definitivamente mais poético. Descobri que, com o Agualusa, a verdade é apenas uma das muitas versões possíveis da mentira e a mentira dele é muito mais divertida.
"A ficção é a única forma de dizer a verdade sem ferir ninguém." — Provavelmente algo que um personagem do Agualusa diria enquanto toma um gin.
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