E aqui me dizem é Primavera. Na minha terra tinha cacimbo e calor. Duas estações sem apeadeiros. Assim, tal e qual, as palavras soltas que vagabundam na minha tola, quentes ou frias de quem não vê nada por causa do cacimbo, mas palavras vagabundas que afagam. Aqui, neste lado de cá tem tempos cacimbados. Mas me disseram que hoje ela chegou. E com ela me lembrei que fui pai faz uma trintena de anos, neste dia de Primavera. E por isso me recordei de que ando por aqui a contar estórias que às vezes na minha cabeça são mais bonitas que nas palavras que uso. Eu acho que os mais novos que possam ouvir as minhas palavras vão pensar eu sou do paleolítico. Na minha juventude além de estórias, tinha um certo folclore que a gente ao começar a falar dele ganha assim um fôlego e as palavras ficam como se fossem filtradas.
- E na rádio a gente punha a bobina marcada no ponto exacto...
- o que é a bobina? - remata logo alguém.
A gente olha... pensa... como vou explicar o que é um gravador, uma bobina se pelo meio já passou a cassete, o disco de vinil, o cd, a pen e agora tem o streamings... perdeu a piada da velocidade contadora da estória. É, até aparece aquela dor nos joelhos a dizer que o velhote só conta estórias de ficção...
E se a gente vai falar do telefone que tinha de pedir na telefonista para ligar à casa de fulano... eles vão pensar que a gente usa a inteligência artificial para inventar estórias de dizer verdades recentes nos cérebros vagabundos.
- ...e vocês tinham sinal no telefone?
E vou falar de cabine telefónica? Nem pensar, vão dizer que é apartamento de uma assoalhada com marquise a toda a volta.
É melhor só começar a Primavera a meditar. Sem radicalismos nem mapa que parecia uma manta de papel rabiscada em linhas finas e que quase sempre a gente errava ao lhe dobrar novamente. Só meditar, de braços cruzados a olhar para o cacimbo que deve estar a fazer onde não tem primavera e não deve ter calor ainda.
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