14 de março de 2026

uma festa na praia

Era março tal e qual hoje o é. Era dia de festa na praia. Não uma festa qualquer, daquelas improvisadas, onde cada um traz qualquer coisa e no fim ninguém sabe bem quem trouxe o quê, mas todos juram que tudo estava bom. Era mesmo festa da cidade e até que havia construções na areia e tinha artistas de classe. Eu tinha a classe de olhar embasbacado e aplaudir porque jeito faltava.

O sol brilhava com aquele entusiasmo típico de quem não tem de carregar chapéus-de-sol e um rádio a pilhas que só apanhava o RCM sem interferências complicadas. 

A areia já estava ocupada por uma pequena multidão: famílias inteiras têm que vir todos à praia em dia de festa, crianças aos gritos, tios especialistas em banhos de sol e um senhor que insistia em tocar uma gaita a anunciar os gelados do Lã.

Nestes dias tem gente que trás uma bandeja de rissóis.

- Trouxe quarenta! - gritam com orgulho e eu ali ao lado em dia de festa à espera de ver quem ganhou o concurso de areia esculpida, a salivar com fome mesmo depois de tomar o matabicho..

Cinco minutos depois estava estabelecida a confusão e dos quarenta ele gritava que restavam apenas três. Espero que ele não tenha comido nenhum. Armar-se assim ao pé de gente que não trouxe nada...

- Isto aqui evapora, seus galfarros que parece não comem há dias - disse ele, desconfiado, olhando para o grupo como quem investiga um crime gastronómico.

Entretanto, junto ao mar, um outro grupo tentava montar um chapéu-de-sol e uma barraca de praia daquelas que levam dois paus verticais, uma lona presa noutros dois que ficarão horizontais. E o peso que aquilo tem?... Aquilo parecia uma operação de engenharia naval. Três pessoas seguravam, duas davam ordens e uma criança comentava:

- O meu pai no faz isto mais rápido.

Ao lado da confusão montada, a dona Teodora tinha decidido entrar na água. Não foi bem entrar: foi um processo gradual de negociação com o Atlântico.

Primeiro o pé.

- Ai que está fria!

Depois o outro.

- Isto não pode ser saudável!

Depois os tornozelos.

- Isto deve vir diretamente da Antártida!

Até parecia ela estava a mantrizar uma ladainha como as que às vezes ouvia a minha avó a fazer. 

Ao fim de quinze minutos a água estava ainda pela cintura, discutindo com o mar como se o mar pudesse ajustar a temperatura.

Entretanto, alguém ligou o rádio e começou a música. De repente, a areia transformou-se em pista de dança improvisada e aquilo virou uma mistura improvável de arraial popular com festival de verão.

O Manel, que tinha jurado que não dançava desde 1970, acabou a fazer passos entusiasmados que lembravam vagamente ginástica sueca que o Cândido da Silva tinha ensinado nas aulas de ginástica. Apesar de que o Manel não era dado a esses ofícios. Ele era mais viola e tiradas de humor. Mas em dia de festa na praia tudo vale até o desajeitado modo de dançar.

Uma bola de praia começou a voar de um lado para o outro, até que aterrou diretamente na barraca da pessoa mais antipática da cidade.

- A praia não vos chega?! - protestou.

Mas ninguém nem desculpa pediu. Continua a festa que é Março.

Ao final da tarde, quando o sol começava a descer, toda a gente estava meio cansada, meio feliz, com areia em lugares que a ciência ainda não explicou.

- Isto hoje foi um sucesso. - disse alguém que deve ser da organização a julgar pelo tom

- Porquê? — perguntou alguém no meio da multidão.

Ele encolheu os ombros e disparou.

- Porque ninguém discutiu… e só desapareceram trinta e sete rissóis.

E numa festa de praia, convenhamos, isso já é praticamente um milagre. 



Sanzalando

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