recomeça o futuro sem esquecer o passado

7 de abril de 2026

baile de pré finalistas

Éramos do 6º ano e preparávamos os fundos para a viagem do ano seguinte em que íamos ser finalistas do Liceu. Organizámos um baile no Clube Náutico que às vezes era o Casino dos mais velhos. A Nota ia abrilhantar o baile. Eles eram bons apesar de serem nossos colegas e um pouco mais velhos. Tinha uma parte que eram os Mini-Nota quem ia tocar. Faz conta eram os júniores dos mais velhos.

O baile começava às nove, mas às oito já havia adolescentes em modo estátua nervosa encostados às paredes, como se fossem decoração patrocinada pela timidez. Uns eram da organização a julgar pelas ordens gritadas, outros eram só os que não perdiam um baile.

A música estava ensaiada e acho eles sabiam a ordem de tocar. A primeira música foi tão antiga que até o silêncio entrou em sinal de respeito porque o baterista se perdeu no respeito histórico e estavam todos a olhar para ele que até pararam de tocar os instrumentos de cada um. Quem dançava, assim num ápice, passou a fazer dança tribal ao som daquele toque de bateria, deve ter pensado era música nova. Mas depois tudo encarreirou e o baile continuou.

Os rapazes estavam divididos em dois grupos: os que fingiam que não queriam dançar e os que fingiam que sabiam dançar. As raparigas, por sua vez, estavam organizadas numa espécie de conselho estratégico, avaliando cada passo como se estivessem a escolher um mister. Para mim estava a ser o meu baile fúnebre. Era da organização e aquilo não me estava a correr bem. Ela não me olhava e quando me falava era em sentido de ordem. Alguém me perguntou:

- Vais convidá-la para dançar? 

- Estou a analisar a situação. - isto para não dizer que estava mais atrofiado na vergonha de andar por ali de fato e gravata do que por não saber dançar. 

No centro da sala, um casalo decidiu dançar e dar show. Cinco segundos depois, já tinha fãs. Dez segundos depois, já tinha imitadores. Quinze segundos depois, não havia lugar na pista de dança.

Entretanto, junto à mesa das bebidas, que, misteriosamente, acabavam sempre mais depressa do que a lógica previa, formava-se o núcleo duro das conversas profundas:

- Achas que ela gosta de mim?
- Não sei, mas ela conhece bem a tua história...

Isto, para adolescentes, é praticamente um pedido de casamento.

O momento alto da noite chegou com a chamada “música lenta”. De repente, o baile transformou-se num documentário sobre pinguins: todos aos pares, mas com uma distância respeitosa de meio metro, como se houvesse um campo de força invisível entre eles.

Um rapaz, com coragem emprestada por dois copos de sangria, aproximou-se:

- Queres dançar?

Ela respondeu:

- Pode ser.

E ali começou uma coreografia digna de estudo científico: mãos que não sabiam onde ficar, pés que se atropelavam, e olhares que evitavam qualquer contacto direto, como se isso pudesse provocar um curto-circuito emocional.

No final da música, separaram-se com um “ok” tímido, mas interiormente ele já estava a planear nomes para os filhos.

Quando o baile acabou, ninguém queria ir embora. Não porque estivesse assim tão bom, mas porque sair significava admitir que, afinal, aquilo foi exatamente o que todos esperavam: um caos delicioso, cheio de nervosismo, sumos misteriosos e romances que duram… pelo menos até segunda-feira.

E no dia seguinte, na escola, ninguém falou muito do baile. Mas toda a gente sabia exatamente quem dançou com quem.

Porque há coisas que não precisam de ser ditas, especialmente quando já estão espalhadas em todas as turmas.



Sanzalando

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