Faz muitos anos que estava a conversar com o meu avô Serafim, na varanda a olhar para uma casa que havia para lá da dele, que por acaso é onde eu morava. A dele. A outra é outra estória que tem aniversário hoje e por isso foi aqui rasantemente abordada e não interessa nesta estória. E o meu avô me dizia:
- No deserto do Namibe, quando chove, ninguém acredita. Nem o próprio deserto. As nuvens aparecem tímidas, como quem entrou no sítio errado. Ficam ali a pairar, a cochichar entre si, mais ou menos a dialogar entre elas:
- “Tens a certeza que é aqui?”
- “Olha… diz aqui ‘Namibe’. Mas isto não era suposto ser seco?”
O meu avô Serafim tinha paciência que nem santo, para conversar coisas sérias comigo. E tinha aquela voz que só avô sabe ter quando quer contar uma história que não é estória, é sabedoria.
E o deserto, habituado a anos e anos de dieta de água rigorosa, olha para o céu desconfiado e diz:
- “Vocês não vêm estragar isto, pois não?”
Mas vieram.
Primeiro cai uma gota. Uma. Solitária. Tão rara que até tem direito a aplausos. Um lagarto pára, olha, e faz um comentário existencial:
- “Isto foi… emoção ou chuva?”
Depois caem duas, três… e de repente, como quem abre a torneira no máximo, aquilo transforma-se numa festa descontrolada. O deserto entra em pânico:
- “Calma! Eu pedi um bocadinho, não foi um dilúvio completo!”
Aqui a voz do meu avô parecia aquela voz dos documentários antes da matiné de domingo.
E então acontece o caos, dependendo do ponto de vista: enxurradas!
A água, que não sabe bem o caminho porque nunca lá tinha passado, começa a correr à toa:
- “É por aqui!” - grita um riacho
- “Não, é por ali!” - grita outro
- “Sigo o mais inclinado!” - diz um que é mais expedito
E eu notava a voz do meu avô Serafim a ficar empolgado que nem artista de teatro.
E lá vão eles se unindo de modo a formar rios improvisados, a arrastar areia, pedrinhas e a dignidade de quem dizia há cinco minutos:
- Aqui nunca chove.
Nós, os experientes, que já vimos muitas chuvas de deserto, olhamos e dizemos com um ar muito técnico:
- Pronto… lá está o deserto a exagerar outra vez, a mandar a sua areia ocupar a cidade.
Porque no Namibe não há meio-termo. Ou está tudo seco ao ponto de se ouvir a areia a suspirar… ou chove como se o céu tivesse acumulado séculos de dívida e resolvesse pagar tudo de uma vez, com juros e dramatismo.
No fundo, o deserto do Namibe é como aquela pessoa que nunca chora… mas quando chora, inunda a sala inteira, porque chora acumulado.
E depois, passado o espetáculo, volta tudo ao normal. O sol aparece, seca a confusão e o deserto recompõe-se, ajeita a areia e diz, com ar muito digno:
- “Isto? Foi só uma garoa.” - e amanhã até parece é um jardim de capim verde.
Depois, virou-se para mim e me perguntou:
-Gostaste da história ou estavas com atenção a outra varanda?
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