Falar de João Carlos Carranca é meter-me num território delicado: não porque seja difícil, mas porque há sempre o risco de já ter dito melhor e com mais graça num antigamente na vida. Mas faz de conta sou outro que vou escrever sobre mim. Uma selfie de palavras.
João Carlos Carranca tem aquela qualidade de parecer uma pessoa perfeitamente normal até abrir a boca ou escarafunchar um texto. A partir daí, tudo pode acontecer: uma observação banal transforma-se numa crónica, uma conversa de café vira reflexão filosófica, e uma simples ida à padaria pode acabar como material literário digno ou pelo menos de uma boa gargalhada entre amigos. Às vezes não. Mas é normal.
Dizem que há pessoas que escrevem. João Carlos Carranca não escreve, ele coleciona episódios da vida e depois devolve ligeiramente inclinados para o lado do humor. E é nesse ligeiramente que está o truque, não exagera ao ponto de perder a verdade, mas também não é discreto ao ponto de a deixar passar despercebida.
Há quem tenha uma memória selectiva. João Carlos Carranca tem uma memória criativa. Lembra-se das coisas como elas foram, porém de forma melhorada. Não é mentira, é edição artística e é verdade mesmo que não tenha acontecido. Se um dia caiu de bicicleta, não foi uma queda, foi um momento de interação inesperada com o asfalto, provavelmente observado por três testemunhas e um cão com opinião própria.
E depois há aquela relação peculiar com o quotidiano. Onde a maioria vê rotina, ele vê argumento. Onde os outros veem aborrecimento, ele vê potencial para qualquer coisa. É como se tivesse um radar interno que apita sempre que a realidade começa a levar-se demasiado a sério.
Mas o mais curioso é isto: João Carlos Carranca escreve com humor, sim, mas nunca é só para rir. Há sempre ali qualquer coisa que fica a vagabundear, uma pequena verdade escondida no meio da graça. A pessoa ri… e depois pensa: “espera lá, isto afinal tem mais do que parecia”.
No fundo, João Carlos Carranca é aquele tipo de cronista que nos faz desconfiar do próprio dia-a-dia. Porque, depois de o ler, já não conseguimos olhar para uma situação banal sem pensar: “isto, bem visto, dava uma crónica”.
E isso é perigoso. Muito perigoso. Porque de repente qualquer um de nós pode estar a viver sem saber dentro de um texto dele.
Foi o melhor retrato que fiz este ano de mim. Abusado. Convencido. Quem me dera ser assim.
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