Dizem que o domingo é o dia do descanso, mas ali no hospital, tem outra densidade. É um tempo suspenso, onde o cheiro a desinfetante tenta, sem sucesso, apagar o cheiro da dor, o receio do pior que abafa o brilho da realidade.
Fui visitar-te com o peso institucional que a ocasião exige. Preparei a minha cara de solidariedade serena, escolhi as palavras mansas e leves para além daquele silêncio respeitoso que guardamos para os lugares onde a vida se despe de artifícios.
Entrei no quarto e lá estavas tu, entre lençóis. Olhámo-nos. Tu com aquela cara de quem não sabe onde pôr as mãos por causa do cateter.
A conversa começou com as perguntas mil vezes repetidas nas mil visitas que possam fazer. Falámos da medicação, do que disseram os médicos, do estás com boa cara (a mentira mais caridosa da língua portuguesa que esconde aquelas olheiras de quem sofre em silêncio). Até que o absurdo da situação reclamou o seu lugar.
Talvez tenha sido o barulho rítmico de uma máquina qualquer, ou a forma como tentaste alcançar o comando da televisão e acabaste a fazer uma coreografia involuntária de ballet contemporâneo. Ou talvez tenha sido aquela gelatina colorida em cima da mesa, que vibrava com uma autonomia assustadora num abanar interminável.
De repente, a barreira quebrou-se e tu sorriste. Começámos por um sorriso contido, depois um gargalhar que se calhar incomodou a vizinha do lado, e antes que pudéssemos recuperar a compostura, estávamos os dois a rir.
- Rimos da estética duvidosa das meias de compressão.
- Rimos das conversas surreais que se ouvem através das cortinas vizinhas.
- Rimos da ironia de estarmos ali, num cenário de fragilidade, a encontrar graça na falta dela.
Era um riso clandestino, daqueles que tentamos abafar com a mão na boca para não escandalizar os enfermeiros, o que só o torna mais potente. Cada tentativa de "falar a sério" resultava numa nova vaga de gargalhadas.
Saí do hospital com o sol de domingo já mais baixo, o vento forte a bater na cara e a assobiar. Percebi que a tua cura não viria apenas dos tubos e comprimidos. O riso num quarto de hospital é um acto de rebeldia. É a prova de que, enquanto houver uma anedota mal contada ou uma situação ridícula para partilhar, a doença é apenas uma hóspede passageira, e não a dona da casa.
O domingo afinal não foi de solenidade, mas de luz. Porque rir no hospital é, possivelmente, a forma mais bonita de dizer à vida que ainda estamos aqui, e que não perdemos o jeito para a alegria.
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