recomeça o futuro sem esquecer o passado

13 de abril de 2026

éramos três que às vezes eram cinco

Éramos três amigos, quase sempre inseparáveis. Quer dizer, eu era o mais separável deles, pois estava apaixonado e como tal tinha alturas que os meus olhos procuravam por ela e, se o meu corpo estava com eles, eu não estava. Era assim na minha cidade de areia. Eles tocavam viola e eu poetisava ou coisa a dar mais ou manos para isso. 

Mas na minha cidade, embora não houvesse galinhas a passear na rua, mas se as houvesses elas iriam atravessar a estrada como quem tem segredo, porque nalguma janela tem sempre alguém parece é vigia, hoje era olhar amanhã era boca que nem rádio.

Mas nós os três, às vezes quatro ou cinco, fazíamos música, contávamos estórias, revelávamos segredos, escondíamos medos, mas éramos cumplices até de coisa nenhuma. No parque infantil, na marginal ou simplesmente no recreio do liceu éramos como se fossemos um. Uns tinham coisas antigas, estórias, novelas ou simples imaginação para contar, outros inventavam músicas, copiavam sons e cantavam. Nenhum tinha escondidos sótãos nem silêncios perdidos. A nossa riqueza era só sermos francos. Éramos três que por vezes eram cinco.

Um dia separámo-nos. Coisas da vida. Reencontrámo-nos num acaso no Porto dois. Revivemos num dia uma década. Desaparecemos num até hoje. Do outro eles se viram anos a fio e eu o vi, quando o reumático já nos tinha tirado o lado prático da vida. Ambos mantinham a veia satírico-poética activa. Eram bons naquilo que faziam. Eu perdi-me noutros lugares, num trabalho apaixonante, cativante e que me subtraiu muitos momentos da vida. 

Hoje acordei a perguntar pelo Beto. Do Manel faz tempo eu sei. Hoje acordei triste. É Abril e foi o nosso melhor mês de vida. Hoje acordei-me deles. Não poetiso, mantenho-me apaixonado por muitas paixões e desejos. Mas não tenho nem o Beto aqui ao meu lado e o Manel faz tempo eu sei que me olha com o ar satírico e piada pronta desde lá do além céus e outras galáxias. 

Acordei com: isto promete. Nostálgico, triste porém feliz, sonhador e com vontade de dizer

Morena morena

dos olhos galantes

Quem te deu morena

esses diamantes.

Imagino o Beto agarrar a viola e com dois sois e um lá fazer qualquer coisa e eu lhe gravar.

Mas está silêncio. Estou nervoso com tanto silêncio. Quem ousa calar este silêncio?

Já não tenho dias iguais porque já não somos três e nem cinco que por vezes erámos.

Quantos anos tenho? Eu sei os que já gastei e não faço ideia de quantos tenho para gastar e reviver, nem que seja em palavras os tempos que nós os três, que às vezes éramos cinco, vivemos. 

Posso adormecer e reacordar sem esta nostalgia que me faz reviver?

Talvez me caia o tecto em cima, ou o vento me leve os pensamentos, ou apenas a raíz deles. Que carga de água me fez abrir hoje a caixa da memória?



Sanzalando

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