recomeça o futuro sem esquecer o passado

5 de abril de 2026

Páscoa de faz tempo

Na minha adolescência, a Páscoa não era bem uma celebração religiosa, era mais um campeonato de resistência… ao chocolate e às amêndoas. Acho que não as havia lá. Mas eu achar não quer dizer eu saber mas isso pouco importa agora. O que eu sei é que hoje é Páscoa e ela faz anos amanhã. Mas eu quero é falar da Páscoa porque a Páscoa lá em casa começava com solenidade: mesa posta, toalha branca que só via a luz do dia duas vezes por ano, e uma galinha que parecia ter dado a vida não por fé, mas por teimosia, já que o cabrito era caro e só de encomenda. A minha avó fazia questão de lembrar que aquilo era tradição. Eu, com 14 anos, achava que tradição era comer até não conseguir levantar da cadeira e nisso estávamos todos de acordo.

Mas o verdadeiro drama começava depois: os ovos de chocolate.

Na adolescência, há uma lei universal quanto maior o ovo, maior o estatuto social. E eu tinha um problema grave: recebia sempre ovos simpáticos, porque simpaticamente tinham o tamanho dos ovos de perdiz. Aqueles ovos que pareciam dizer-me gostamos de ti, mas não exageremos, porque não somos de avestruz.

A Páscoa ensinou-me muito cedo que a partilha é uma ideia bonita… desde que não seja com o nosso chocolate.

Depois vinha o momento crítico que era o almoço. E aqui tentava o meu plano secreto que era comer pouco para guardar espaço para o chocolate e para o leite creme que ficava na janela da despensa a arrefecer. Um erro clássico de principiante porque a minha mãe tinha outra estratégia que era dizer-me  que só saia da mesa depois de repetir o galo ou galinha que naquela hora eu já só tinha olhos de chocolate.

Repetir. Palavra que destruiu sonhos e planos de açúcar durante anos.

Saía da mesa cheio, emocionalmente abalado, e com um ovo de chocolate a olhar para mim como quem diz: agora aguenta.

Mas adolescente não desiste. Uma ou duas horas depois, lá estava eu, em missão clandestina, a abrir o ovo com a delicadeza de um cirurgião… ou de um ladrão pouco experiente.

O problema é que chocolate faz barulho. Muito barulho. Aquele crack traiçoeiro ecoava pela casa como um anúncio público: alguém está a cometer excessos! - gritava-me a consciência

E, inevitavelmente, surgia a voz da minha mãe depois de ouvir os meus pensamentos:
— Já estás a comer chocolate outra vez?!

Outra vez? Era a primeira… naquela hora.

No fim do dia, a Páscoa deixava-me três coisas: dor de barriga; culpa leve (muito leve);  a certeza de que, para o ano, ia gerir melhor aquilo

Claro que não geria.

Porque a adolescência é isso mesmo: um período em que acreditamos que somos estrategas brilhantes… enquanto estamos de boca cheia de chocolate, escondidos atrás de uma porta, a fazer silêncio como se isso nos tornasse invisíveis.

E, no fundo, a Páscoa era perfeita assim, uma mistura de família, exagero e açúcar suficiente para alimentar memórias… e ligeiras indisposições durante anos.

Mas amanhã ela faz anos e eu vou comer chocolate... adivinho a julgar pela memória.


Sanzalando

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