recomeça o futuro sem esquecer o passado

5 de maio de 2026

e porque me fui lembrar do 10 de Junho

Dizem que Homem tem um desejo velhinho de voar. Leonardo da Vinci desenhou máquinas, Gago Coutinho e Sacadura foram até à terra do outro Cabral e eu... bom, eu decidi que o meu destino estava traçado num trampolim de borracha, rodeado de crianças de cinco anos que pareciam ter ossos feitos de mola e coragem de de ferro.

Olhando de fora, parece fácil. É física pura. O problema é que a minha massa é considerável e a aceleração que a gravidade exerce sobre mim tem um sentido de humor muito refinado.

Subi os degraus com a confiança de um ginasta olímpico. No topo, a vista era magnífica. Eu sentia-me o Super-Homem. Olhei para baixo, vi a lona presa por molas que me faziam lembrar as camas velhas do hospital e pensei: "Vou fazer um mortal. Nunca tente fazer um mortal se a última vez que viu os seus próprios pés sem a ajuda de um espelho foi no século passado.

O primeiro pulo foi tímido. Um "inho" discreto. Só para ver como é que eu estava. O segundo já me deu uma confiança perigosa porque deve ter havido uma rabanada de vento que a verticalidade era obliqua. No terceiro, decidi que era hora de mostrar ao mundo e à miudagem que me olhava com desconfiança do que é que sou feito.

Desejei as nuvens. Empurrei a lona com toda a força das minhas convições. Subi. Subi tanto que por num segundo achei que ia precisar de um passaporte ou de um fato espacial. O ar estava rarefeito. O silêncio era absoluto. Eu era a própria aerodinâmica.

A descida, porém, não seguiu o roteiro de previsto. A gravidade, essa senhora ranzinza, decidiu cobrar o aluguer do espaço aéreo. A meio do caminho, percebi que o meu centro de gravidade tinha decidido mudar-se para Madagascar sem me avisar. Tentei corrigir a trajetória com um movimento de braços que parecia um moinho de vento em pânico. Não funcionou.

O resultado foi uma sequência de eventos que a física ainda está a tentar explicar: Não caí de pés. Caí com o rabo, mas de uma forma que os meus joelhos decidiram cumprimentar o meu queixo com convicção. A lona, fiel ao seu propósito, devolveu-me aos ares. Mas não para cima. Devolveu-me na diagonal. Acabei estatelado na borda almofadada.

Fiquei ali, imóvel, a contemplar o tecto e a questionar todas as minhas escolhas de vida desde a escola primária. Um miúdo de quatro anos, a mastigar uma pastilha elástica, aproximou-se e perguntou:

-  Tio, isso fazia parte do truque?

Levantei o polegar, mesmo sem sentir metade do braço, e respondi com a voz trémula de quem acabou de ver a luz:

- Claro... É só para profissionais.

Acordei, não estava no Estádio do benfica e não era o 10 de Junho


Sanzalando

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