recomeça o futuro sem esquecer o passado

3 de maio de 2026

um dia escreverei e tudo mudará

Estava aqui sentado quando me lembrei que faz tempo ouvi dizer que o poeta é um fingidor, e sem querer completei a frase com: o escritor que não escreve, ao meio-dia numa praia portuguesa no auge do verão, é essencialmente um suicida por convecção.

Lá estava eu, o "Mestre da Busca do Silêncio", abandonando o conforto da minha página em branco e do ar-condicionado para enfrentar o elemento mais hostil do universo recém conhecido: a areia de Alvor às doze badaladas de um dia de sol de Agosto.

Eu já caminhara no deserto mesmo sem nunca ter ido ao dito propriamente dito. Na margem do deserto, melhor escrevendo, e não é a mesma coisa. No deserto eu tinha os meus nonkakos, os meus kedes ou, nas palavras novas que aprendi, sapatilhas. Na praia os meus pés de estufa fria estavam pelados, descalçados ou descalçados de pele. Verdade acima de tudo.

Mas voltemos ao assunto para não me perder em labirintos de palavras ocas e depois já não sei por onde ando. Se eu deixasse palavras perdidas pelo caminho de modo a voltar por elas, ainda vá, mas tenho por hábito deixar silêncios e esses vão com o vento.. 

O plano era romântico, digno de uma obra que eu jamais escreverei: caminhar à beira-mar para ouvir o que as ondas têm a dizer. Spoiler: as ondas só diziam: Sai daí, ó tonto, que vais ficar em brasa e à noite não te aguentas. É estrangeirismo mas na tugália eu tenho de saber falar como é que é.

Na verdade a logística da caminhada revelou-se um pesadelo existencial: Entre o meu pé e a linha da água, havia dez metros de um areia que, suspeito, era composto por restos de lava vulcânica e mágoa, pois não parecia mas estava incandescente ao meu pisar . Cada passo era um passo de bailado histérico. Eu não caminhava; eu executava uma dança folclórica de sofrimento e que até me fez lembrar uma dança zulu que eu tinha visto num filme qualquer. E o sol não brilhava, ele martelava-me com os seus raios. Eu sentia o meu couro cabeludo a fritar como um ovo. Olhando-me eu parecia estar a evaporar-me numa núvem que me contornava, fazendo-me ver o mundo através de um filtro de névoa e ardor.

A meio do caminho, cruzei-me com um grupo de turistas alemães. Eles estavam rosados um tom de rosa, tipo camarão ou lagostins já que qualquer deles era maior que o outro. Olharam para mim, o Grande Escritor, à espera de uma frase profunda. Pelo menos foi isso que me pareceu ao vê-los.  Eu ia vociferar algo sobre o ser efémero que me estava a tornar, quase a passar do estado sólido ao volátil, mas a único som que saiu foi em muito semelhante ao rasgar de uma folha de papel queimada pelo tempo.

A inspiração é como a areia da praia: entra em todos os sítios onde não foi convidada e queima-te as plantas dos pés se não fores rápido. Foi a frase que consegui rabiscar ao chegar à toalha. Repousei com os pés virados para o céu à espera que arrefecessem. Achados mais frios finalmente, fui a água. O choque térmico foi tão violento que o meu cérebro, por um breve segundo, considerou realmente escrever um japonês. Mas a sensação de passar de frango de churrasco para bacalhau demolhado em dois segundos é a única coisa que importou naquele instante.

Fiquei ali, boiando como um tronco à deriva, observando as pessoas a lutarem com guarda-sóis que teimavam em voar. Pensei: Eis a metáfora da minha carreira. O guarda-sol é a minha fama; o vento é a minha total ausência de obra; e eu sou o gajo que está só a ver o circo pegar fogo porque tem preguiça de correr.”

Saí da água renovado. Voltei para casa, abri o meu documento em branco e escrevi o meu maior sucesso do dia:

Fui à praia. Estava calor. Amanhã vejo o resto.

Apaguei logo a seguir. A perfeição, como sabem, não admite rascunhos.



Sanzalando

Sem comentários:

Enviar um comentário