recomeça o futuro sem esquecer o passado

2 de maio de 2026

eu, luso-metafísico

Sempre que me perguntam como é a rotina de um escritor de renome mundial que, tecnicamente, nunca publicou uma única linha, eu respondo com um sorriso enigmático, aquele que os críticos chamam de profundidade luso-metafísica, mas que na verdade é apenas o medo de que percebam que meu teclado ainda tem aquele plástico protetor de fábrica. É assim mais ou menos como um rótulo de um vinho famoso com sabor a frutos silvestres que só levou uva e meia dúzia de aromatizantes que só os poetas do rótulo conseguem sentir.

Ser um génio do silêncio exige um esforço monumental. Enquanto os meus colegas perdem cabelos a cumprir prazos, ouvir revisores e sentem ansiedades de página em branco, eu sofro com a crise da página imaculada. É uma questão de pureza estética. Por que corromper a brancura perfeita do papel com substantivos comuns e adjetivos desgastados? Sou o complemento directo da pureza do papel. Há Arte de Não Fazer Nada. 

Um dia alguém me perguntou, ou fui só eu que imaginei, o que é que eu estava a escrever? Respondo sempre que exploro o silêncio que existe entre vogais e consoante o vento estruturo a palavra como um amontoado de ideias gramaticais. Chorei de emoção sobre esta frase que me tem levado a colóquios, simpósios e a exposições. Na verdade eu olho para o horizonte, componho um pensamento épico e a ideia é tão densa que ainda está no estado gasoso pelo que não faço ideia como será o líquido nem a sua materialização em forma de palavra escrita.

Já procurei ao menos escrever o título, mas para lá de Estórias Materializadas em Monte de Palavras, só me sai a Geometria Assimétrica do Nada. E na indecisão, mantenho a página em branco porque não tenho vontade de reescrever o que ainda não foi escrito.

O escritor que não escreve é um arquiteto de castelos de ar. E, convenhamos, não me apetece encher o disco do pc com palavras vazias, pois posso precisar dele para guardar os meus sonhos, as minhas fantasias, os meus delírios, ou só o manter virgem por forretice.

Uma qualquer tarde, darei autógrafos em guardanapos em branco. Os fãs dirão: a ausência de palavras diz tudo!. Eu concordo, emocionado. Afinal, escrever dá um trabalho danado, tem que concordar sujeito com verbo, cuidar da pontuação... Uma canseira que não estou nem a imaginar fazer quanto mais materializá-la

Hoje decidi escrever um parágrafo. Sentei-me no pc e verifiquei que as palavras estavam em greve de fome por um mundo melhor.

Pensei, eu mereço um prémio Nobel, sou o melhor escritor da minha geração, pelo menos no restrito mundo da minha casa. Não tenho erros ortográficos, não me perco em virgulas, não tropeço em aspas nem rasteiro em parêntesis. A minha obra é perfeita. Tem todas as qualidades que nenhuma obra real possui. Ela é a imagem que cada um dá dela.

Agora, se me dão licença, aproveitando a greve das palavras, vou ali não escrever o próximo capítulo. O silêncio não se cultiva sozinho.



Sanzalando

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