Me sentei num banco das arcadas coloridas que me deixam ver o zulmarinho. Hoje ele está sereno, não acastanhou por causa da água do Bero. Só o seu marulhar me acalmou e me deixou ali a congeminar pensamentos como se estivesse num deserto de mim, areia, areia e nenhum pensamento. Olhava o zulmarinho e caminhava com os olhos sem ver, sem pensar, baía fora. Foi aí que cansado pensei:
- Pensar no nada é, possivelmente, a actividade mais exaustiva que o ser humano já inventou. É um desporto de alta performance mental onde o objetivo é, literalmente, não chegar a lugar nenhum.
Tudo começa com a nobre intenção de limpar a mente e quem sabe acalmar o corpo. Sento-me, fecho os olhos e decreto: Agora, o vazio, o nada! Nos primeiros três segundos, sinto-me um monge tibetano. No quarto segundo, a minha mente que tem o sentido de humor de um vilão de banda desenhada pergunta:
- Será que os pinguins têm joelhos?.
Pronto. O nada acabou de ser invadido por uma questão anatómica de aves polares. Daí salto para o parque infantil, depois revejo a foca que é leão marinho e olho novamente para o zulmarinho.
Tentar não pensar em nada é como tentar não olhar para uma borbulha gigante no nariz de alguém: quanto mais te esforças, mais o foco se torna absoluto. De repente, o vazio é preenchido por uma lista mental de músicas que odeio, mas que o subconsciente guardou para momentos de tédio, ou por aquele comentário parvo que fiz em 1972 e que agora decidiu voltar para te assombrar. A arcada deixou de ser colorida e passou a irritantemente desconfortável. Quero o nada! Grito-me. Quero o nada que é nada e não a variante do nada que acontece quando alguém nos pergunta: Em que é que estás a pensar?
E o pior é que, naquele instante de pânico, de ira, o cérebro apaga tudo e tu passas a pensar, de facto, no conceito abstrato de nada. É o chamado vácuo mental.
O zulmarinho agitou-se, a jangada dançou, a areia mexeu-se e eu levantei-me e fui para casa sem ter conseguido fazer nada, ou o nada.
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